21 de jan de 2016

A extinção do adversário: Carlos Sampaio e Wanderlei Silva são o mesmo animal político

Wanderlei Sampaio
Wanderlei Silva e Carlos Sampaio não são apenas do mesmo partido, mas têm o mesmo DNA. Ambos são gigantes do vale tudo, prática em que o PSDB vem reinando absoluto. O que importa para eles é finalizar o adversário, seja de que maneira for.

Na quarta, dia 20, o PSDB protocolou na Procuradoria Geral Eleitoral uma representação que, nos desígnios de Sampaio, resultaria na extinção do PT.

Tudo é baseado numa matéria do Valor. Nela, Cerveró aparece como tendo afirmado à PF, antes do acordo de delação premiada, que a campanha de Lula à reeleição recebeu 50 milhões de reais em propina advinda de uma negociação de petróleo na África em 2005.

“Esse é um crime que não tem sua prescrição prevista em lei. O que está em jogo não é o ex-presidente Lula, mas sim o recebimento por parte do Partido dos Trabalhadores de recursos do exterior”, disse o advogado Sampaio. Ele explica que isso é vedado pela Constituição.

“Qual é a consequência? É a extinção do partido, porque ele perde o registro”, disse numa coletiva. Não é a primeira vez que Sampaio tenta emplacar essa tese. Em abril, na CPI da Petrobras, já havia declarado que o PT “tem tudo para ser extinto”.

Não vai dar em nada, mas vai render. Desde 2015 Sampaio vem ocupando o noticiário com esse estilo pitbull. Não se ouviu falar de uma proposta, uma alternativa, uma ideia. Ganhar no voto, nem pensar. Apenas a virulência e a mania de correr latindo atrás dos carros da mídia atrás de holofotes.

Seu doppelganger Wanderlei, filiado ao PSDB desde 2013, tem o apelido de “Cachorro Louco”. Quando ele assinou a ficha, o presidente tucano no Paraná afirmou que Silva iria “reforçar o partido” e “mexer com a população”.

Mexeu muito. Em setembro de 2014, anunciou sua aposentadoria do MMA depois de fugir de um exame antidoping pela porta dos fundos de sua academia. Foi condenado a pagar 70 mil dólares e banido de qualquer evento do UFC em Las Vegas. Desde então atribuiu a Dilma uma obra parada do governo de Goiás e descobriu o agora famoso iate do filho de Lula.

Eles não pedem desculpas. Sampaio, entre outras estripulias, recebeu 250 mil reais de uma empreiteira envolvida na Lava Jato, de acordo com o Globo. Jamais se explicou. Ganhou notoriedade nacional ao processar Dilma por ter usado um vestido vermelho num pronunciamento em rede nacional de TV. Janio de Freitas o chamou de “aspirante à perda do senso de ridículo”. É pouco.

São justiceiros na batalha do bem contra o mal pela salvação do Brasil. Vigilantes da ética e dos bons costumes, separados no nascimento. O “Cachorro Louco” e o pitbull do Aécio são o mesmo animal político.

Kiko Nogueira
No DCM
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Por que Lula deve processar João Dória


Os marqueteiros do ex-presidente que me perdoem, mas se você, Lula não processar o candidato tucano à prefeitura, João Dória, mais esta vez, pelas ofensas pessoais que lhe fez ontem pelos jornais, estará prestando um enorme desserviço à democracia. E ainda, de quebra, submetendo a vexames, violência e intolerância a todos os brasileiros que não pensam de acordo com a “verdade oficial” e defendem publicamente sua trajetória.

São já 37 anos de investigações policiais, midiáticas e do ministério público sobre a vida pessoal e sobre sua honestidade, Lula, a maior parte paga com dinheiro público. Sem nenhuma acusação formal. Nunca.

Isso é um enorme patrimônio político. Mas esse patrimônio não só seu, do Lula. Esse patrimônio é de todos nós.

Por isso, companheiro Lula, você não tem o direito de jogar isso fora, deixando de processar caluniadores, temendo “má repercussão” na mídia. Ou ainda, porque seus marqueteiros querem que você se faça de “coitadinho”.

Ninguém quer um presidente “coitadinho”. Ao contrário.

Num mundo como o atual, a Paz só vem com muito respeito, com muita autoridade, com muito apoio interno. Um ex-presidente xingado publicamente, que fica mudo, não merece ser eleito presidente de novo.

E no Brasil, a nossa cultura é extremamente clara quanto a esse tipo de atitude, pois aqui, “Quem cala, consente”.

Se a honra de alguém é sua maior fortuna, Lula, você, eu e todos os brasileiros somos roubados toda vez que você é xingado, caluniado, acusado. Então não hesite em, no nosso nome, recorrer à Justiça, pois é para isso que ela existe. Para isso pagamos pelos caríssimos serviços do Judiciário, todos nós.

Mas depende só de você (e infelizmente, de seus marqueteiros), usá-la a favor da enorme parcela de brasileiros e brasileiras que construíram com você a sua liderança política, que assim, não é mais só sua, mas de todos nós.

Assim, se você não tomar essa atitude fique sabendo que todos os dias pessoas anônimas estão defendendo sua história, a nossa história, estarão sendo xingadas, hostilizadas, sem que isso apareça nos jornais.

E porque?

Por que se esses ofensores sabem que podem xingar à vontade, pois você que é o xingado, nada diz, eles podem xingar à vontade a qualquer um de nós, que não vai dar nada. E lembre, Lula, que você ainda tem o Instituto Lula, o PT para defendê-lo. Mas e o trabalhador comum, politicamente oprimido numa fábrica, tem a quem para defender a tua honra, Lula, que é um patrimônio político dele?

Você já havia pensado nisso?

Você já havia pensado que a liberdade de exercício do pensamento político, da expressão política de todos nós, depende de como você reage ou fica mudo?

Será que o companheiro ex-presidente já pensou nisso, nos seus milhões de apoiadores que são ofendidos e intimidados todos os dias porque o “marqueteiro fulaninho” acha que não se deve processar ninguém?

Honra é coisa séria.

Ela é o maior patrimônio daqueles que trabalham.

E que não ganharam sua vida já feita, do papai ou da mamãe.

Por favor Lula, não deixe nunca mais sua liderança ser enxovalhada por qualquer aventureiro, pois precisamos usá-la em favor da melhoria das condições de vida de todos nós. E do direito da classe trabalhadora, como um todo, não só você, de fazer política também.

E nunca mais, sob nenhum argumento pretensamente “sábio”, “esperto” ou “pragmático”, deixe de processar aos que lhe ofenderem e à sua família, pois lembre que são nossos direitos que você estará deixando de defender, quando ouvindo marqueteiros, deixar de exercer qualquer direito constitucional que tão difíceis foram de ser obtidos.

Ivo Pugnaloni
No Blog dos Desenvolvimentistas
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Por dentro da mente de trolls como Wanderley Silva

Sem noção: Wanderlei Silva
Os recentes anúncios de medidas judiciais contra disseminadores de ódio na internet jogaram luzes sobre o perfil deles.

Dois casos destacam-se: o do jornalista João Pedrosa e o do ex-lutador Wanderlei Silva.

Eles destroem a tese, tão orgulhosamente defendida por FHC, de que o antipetismo reúne pessoas mais bem informadas e mais cultas que as demais.

Seriam, segundo este ponto de vista, uma elite cultural na sociedade, bem acima dos “pobres” que apoiam o governo por causa dos programas sociais.

Ora, ora, ora.

É uma lenda que se desfaz espetacularmente.

Comecemos por Pedrosa, que milita nos Jardins de São Paulo, sede dos ricos paulistanos.

Viu-se, pelas postagens e pelas explicações posteriores, que Pedrosa é senhor de uma ignorância desumana. Ele fala coisas desconexas e é tão analfabeto que escreve fingir com jota. Fingir.

É também confuso e tolo. Afirma-se capitalista numa linha e em outra é um homem de esquerda.

Atribui, indistintamente, todas as coisas ruins que enxerga, ou diz enxergar, ao governo. Uma mulher deu à luz na rua? Culpa do PT. Governos estaduais — sobretudo os do PSDB — não têm responsabilidade por nada.

Wanderlei Silva culpou Dilma pelo atraso de uma obra em Goiás tocada pelo governo local.

Pessoas como Pedrosa não usam estatísticas. Sacam lugares comuns e atacam o governo. Não adiantam os estudos nacionais e internacionais que mostram uma expressiva redução na miséria nos últimos anos.

A miséria, para elas, é culpa do PT. É como se, antes de Lula, o Brasil fosse uma espécie de Escandinávia: escolas públicas ótimas,  hospitais públicos excelentes e por aí vai. Uma terra sem favelas, sem famintos, sem desdentados.

É uma tribo brutalmente sem noção.

A palavra é forte, mas, tecnicamente, são idiotas: vociferam sem base nenhuma em fatos concretos.

São portanto presa fácil para manipulações. É aí que entra a mídia para a composição de sua mentalidade tosca, rasa e embotada. Ao ler a Veja, ouvir estações como CBN e assistir a telejornais como o Jornal Nacional, tomam tudo como verdade absoluta.

Não questionam o conteúdo e a opinião que chegam a eles. Ignoram que, por trás de tudo aquilo, estão interesses de algumas poucas famílias, como os Civitas e os Marinhos, dispostas a qualquer coisa para preservar seus privilégios e os de sua classe.

Outro traço vital dos propagadores de ódio são os maus modos viscerais. Podem saber usar talheres, mas se comportam como seres primitivos. Pedrosa foi capaz de invadir o Instagram da filha de Chico Buarque para insultar toda a família.

Não hesitou diante da figura de um bebê, o neto de Dilma, para desejar maldição por sete gerações para a família presidencial.

São maldosos, mesquinhos, ruins.

Outro ponto comum a eles é alegar que votaram em Lula e se decepcionaram. Ora, o Brasil cresceu ininterruptamente nos anos de Lula, e sua aprovação ao sair era superior a 80%.

Onde os motivos para uma decepção tão raivosa? (A propósito: simplesmente não acredito que tenham votado em Lula.)

Wanderlei Silva chegou ao cúmulo de dizer que ele é que deveria processar Lula pelo desapontamento.

Ora, ora, ora.

Daqui a pouco, se essa lógica bizarra prevalecer, seus torcedores se sentirão no direito de processá-lo pelas frustrações que ele lhes trouxe no ringue.

Mesmo admitindo que pode ter compartilhado uma mentira criminosa sobre o filho de Lula, ele não usa em nenhum momento a palavra “desculpa”.

Os processos anunciados e promovidos por vítimas deste ódio como Lula e Chico escancararam o caráter abjeto dos trolls.

Eles só sairão de cena se mais e mais processos forem movidos. O país ficará tanto melhor quanto menos delinquentes espalharem seu veneno nas redes sociais.

Processá-los é o melhor detergente contra eles.

Paulo Nogueira
No DCM
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Entre o medo e a esperança no Brasil

Este janeiro de 2016 lembra o desditoso dezembro de 2014, pois permanecem dominantes a política econômica recessiva e — causa e efeito a um só tempo — a turbulência política, construindo as bases do que pode ser uma crise institucional, que muitos celerados desejam e perseguem.

Dilma Rousseff segue ameaçada
Foto: Lula Marques / Agência PT
A comemorar, no plano político, as decisões do STF disciplinando o rito do impeachment com o qual a oposição ameaça o mandato da presidente Dilma. Na economia, registremos o superávit comercial e os primeiros efeitos (dentre os benéficos) da alta do dólar ensejando pequeno desafogo à indústria manufatureira e a expectativa de elevação da renda do produtor rural. São as nossas flores.

Se poucas são as esperanças de céu de brigadeiro, há, porém, o que temer: nossas crises política e econômica são vasos comunicantes que se retroalimentam num processo contínuo que parece sem fim. Presas ao círculo de giz caucasiano do pessimismo, variam muito pouco as previsões sobre o que os fados nos reservam.

Há, porém, um fato objetivo: em plena recessão, a política de juros altos adotada pelo Banco Central para combater uma inflação (inercial) que, no entanto, não para de crescer.

Contornáveis ou não, os dados disponíveis da economia brasileira, independentemente da crise internacional, não são tranquilizadores quanto à herança de 2015: uma contração do PIB na ordem 3,5%, uma inflação de 10,7% e insuportáveis juros de 14,25%. De 16,6% em 2007, a participação da indústria de transformação no PIB caiu, em 2014, para 10,9%.

Em tempos de economia e política globalizadas nenhum país é uma ilha: às nossas disfunções domésticas somam-se as pressões exógenas e entre estas, destacam-se: (i) queda geral dos preços das commodities, (ii) fim da ‘bolha chinesa’ de que resulta a redução das compras no exterior, atingindo principalmente os ‘emergentes'; (iii) a lenta recuperação da economia europeia, com seu protecionismo, suas artificiais barreiras fito-sanitárias e mais isso e mais aquilo, e, (iv) a nova política de juros dos EUA.

O pano de fundo é o de sempre, a crise do Oriente Médio, com todos os desdobramentos que a imaginação de cada um possa conceber.

Ou seja, o cenário internacional sugere que a crise é profunda e de longo prazo. Há quem até avalie que vivenciamos a “estagnação secular do capitalismo”.

Segundo esse mesmo ponto de vista, a intercessão das duas crises diz-nos que a recessão, entre nós, será ainda mais profunda que a de 1990, mais profunda que a de 1982-83 e mesmo mais profunda e perdurante que a de 1929-30.

Ora, essa crise nos alcança com a economia fragilizada e em meio a uma turbulência política marcada pela ofensiva das forças conservadoras e de direita, num pleito aberto que visa à deposição da presidente Dilma Rousseff, sem maioria no Congresso, sem base parlamentar confiável, contestada diariamente em sua autoridade e enfrentando baixos níveis de aprovação popular, manipulados pela ação quase unânime dos meios de comunicação, que lhe movem, e a seu partido, férrea, intransigente, incansável e sistemática oposição.

Dessa presidente, nessas condições, espera-se que conjure a conspiração golpista e comande a retomada do desenvolvimento do país. Caso contrário, teremos de enfrentar o trio satânico: crise política, crise econômica, crise social.

O marco da turbulência política (e de suas consequências) é, evidentemente, a campanha pelo impeachment, tocada de forma permanente e sistemática, sem recesso, desde novembro de 2014.

Tocada, a um tempo, por uma oposição que não sabe perder eleições e por uma direita que, senhora do controle dos meios de comunicação de massa, e cumprindo o papel de orientadora da práxis dos partidos conservadores (PPS e PSB de hoje entre eles), aspira à conquista do poder e controle absoluto do Estado.

O pleito do impeachment, contudo, é apenas um marco, um indicador, o elemento mais visível, popular e catalisador de um projeto maior, de regressão social e tomada do poder, no qual estão empenhados os meios de comunicação de massas, os partidos de oposição e forças difusas na sociedade mais ou menos afastadas das organizações tradicionais, mas convergentes todos na ação e nas palavras de ordem.

Por isso mesmo, e ainda para além do impeachment, ressalta a tentativa de desmoralização dos entes da democracia participativa, a começar pela desconstituição da política. Trata-se do fomento à intolerância ideológica, a recuperação dos valores conservadores, do sentimento anti-povo e anti-nação que transborda para a intolerância social e desta para a intolerância pessoal. É a consagração da disjuntiva povo-elite, casa grande e senzala, trazendo para o paroxismo a luta de classes.

A campanha de imprensa constrói a imagem da política como coisa nefasta, e a convicção de que o espaço da política e da gestão pública é antro de aventureiros. Convicção que Brasília, como símbolo do poder, é a caverna de Ali-babá. Donde a penalização da política e a espetacularização da justiça penal. Daí para o retrocesso político pode ser apenas um passo. É assim que as democracias representativas, já fragilizadas pela interferência do poder econômico no processo eleitoral, como é o nosso caso, transitam para o que Boaventura Souza Santos chama de “democracias de baixíssima intensidade”, o nome das ditaduras do século XXI, o autoritarismo contemporâneo.

No Brasil, a ação demolidora da política pela grande imprensa refastela-se diante de um sistema de partidos em frangalhos, sem legitimidade social e cada vez mais sem militância.

Fruto dessa ordem partidária esgarçada, fruto de uma legislação eleitoral inepta, permissiva para o capital, ensejadora da preeminência do poder econômico, temos um Poder Legislativo fragilizado por escândalos. Fragilidade, todavia, que não impediu que operasse — em ação coordenada com a grande onda reacionária — contra as conquistas sociais da Constituição de 1988, dizimando direitos e revogando avanços. Fragilidade que tampouco impediu que a Câmara dos Deputados — comandada e liderada por um celerado — pusesse em risco a governança da presidente e chegasse mesmo a ameaçar seu mandato, como ameaçado o mantém até hoje.

O Poder Executivo, em face da crise política que ameaça a governabilidade, em face das agressões que atingem sua autoridade, cede espaço à emergência de órgãos e associações de pessoas (policiais federais, procuradores, juízes, auditores da receita federal, membros do Tribunal de Contas da União), os quais, atuando de forma associada e concertada com os grandes meios de comunicação e a vanguarda de direita da Câmara dos Deputados, funcionam como verdadeiras instituições estatais autônomas. Assim, operam uma ocupação quase orgânica de vácuos de poder, incompatíveis com a natureza do presidencialismo.

No campo jurídico-político o ano foi inaugurado em dezembro passado com o ‘chamamento à ordem’ do STF, ditando as regras do processo do impeachment. Por enquanto, é o estado do ‘espera-se’.

Espera-se pelas férias gerais e pelo recesso legislativo-judicial, espera-se pela retomada dos julgamentos do STF, espera-se pelos ‘embargos’ do presidente da Câmara, pelas novas denúncias do procurador Janot, pelas novas sentenças do juiz Moro, pelas novas operações da Policia Federal, espera-se pelo resultado das disputas da liderança do PMDB e da presidência do Partido, espera-se pela prisão de Eduardo Cunha, espera-se pelo novo julgamento das contas de campanha de Dilma-Temer e espera-se, a cada dia, que os regentes da Lava Jato revelem novas delações premiadas, novas incriminações e novos pré-julgamentos, novas condenações à procura de processo justificador.

O Brasil está, assim, entre o medo e a esperança. A esperança de retomarmos o desenvolvimento, base para a construção de uma sociedade justa porque formada por homens e mulheres iguais em direitos; e o medo de que o que está ruim possa ainda piorar.

Roberto Amaral
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Como FHC enganava os outros e a si próprio


Há um mês estou debruçado, na reta final de uma biografia que estou escrevendo.

Olhando os guardados, encontrei uma entrevista preciosa com o ex-Ministro Antônio Dias Leite.

Primeiro, deu um longo depoimento para meu livro. Depois, permitiu-se discorrer sobre o quadro político e sobre a maneira do PSDB e do DEM criar uma oposição consistente ao PT.

A entrevista foi em janeiro de 2007.

Dias Leite foi um dos mais interessantes homens públicos brasileiros. Assessorou San Tiago Dantas, quando Ministro da Fazenda de Jango. Foi seu colega na Universidade do Brasil, futura Universidade Federal do Rio de Janeiro. Participou da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina) e foi Ministro dos governos militares. Foi também um dos idealizadores do maior projeto industrial brasileiro dos anos 70, a Aracruz Celulose.

Na época escreveu um livro sobre a economia brasileira. Sua receita para o desenvolvimento:

— Tem que mostrar com simplicidade as ideias. As pessoas muito especializadas se aprofundam em um ponto só e perdem a visão geral. Esses economistas dessa geração de 40, 50 anos (basicamente os economistas do Real) todos vêm com certezas absolutas. Ciência não é isso.

Dias Leite trabalhou com Jorge Kafuri, da Ecotec, uma das primeiras consultorias brasileiras, precedendo a Consultec. Kafuri era admirador de Vilfredo Pareto, um dos grandes economistas do século 19, um dos primeiros a estudar o fenômeno da distribuição da riqueza. E gostava de repetir uma máxima de Pareto: "Uma teoria é boa até que se encontre uma outra explicação que explique melhor a realidade".

— Principalmente, enfatizava Dias Leite, não se pode perder de vista a realidade. Um plano econômico só é bom quando é politicamente viável de fazer.

Na época, em pleno pós-mensalão, Dias Leite analisava o quadro político com uma dúvida e uma certeza. A dúvida é se o governo Lula degringolaria ou não. A certeza é que seria muito difícil o outro lado se organizar.

— PSDB e PFL são bichos diferentes, o PMDB também. Se não fizerem coalizões em torno de programas, nada irá para frente.

Sustentava que Fernando Henrique Cardoso fracassou no segundo governo por causa de compromissos assumidos.

Quando se preparava para o segundo mandato, FHC encontrou-se em um evento com Dias Leite. O ex-Ministro alertou-o sobre a necessidade de um plano mais organizado. Conversaram por uma hora. Aí pediu que fizesse por escrito.

— Faça por escrito e desenvolva mais suas ideias.

Foi feito. Dias Leite mobilizou vários amigos, elaboraram um documento de mais de vinte páginas com conceitos de uma nova estratégia para o Brasil e foi até FHC. Chegando lá, o presidente ligou na sua frente para o Ministro da Fazenda Pedro Malan e pediu que recebesse Dias Leite.

Dias já o conhecia. Tinha presidido a banca do concurso de Malan. Entregou o trabalho.

— Nunca mais ouvi falar desse papel, nem do Pedro, nem do FHC.

A inação administrativa de FHC não tem paralelo na história moderna do país.

Episódio semelhante ocorreu em pleno "apagão".

Em determinado dia, recebo um telefone do então governador do Mato Grosso Dante de Oliveira.

— Quero te passar em primeira mão. Estive agora com o presidente Fernando Henrique e apresentei uma proposta para ele, para enfrentar a crise, que foi aceita.

Conhecendo o estilo, perguntei se ele tinha certeza de que seria aceita.

— Total. Na minha frente ele ligou para o Armínio Fraga (então presidente do BC) e disse-lhe para estudar atentamente a proposta que ele enviaria mais tarde.

Conhecendo o estilo, ousei dar um conselho para Dante: espere algum tempo até ter certeza de que a proposta foi aceita, para não fazer papel de bobo.

Três meses depois outro telefonema de Dante:

— Você tinha razão, mas agora foi.

— Foi como.

— Na minha frente ele ligou para o Armínio e deu-lhe um esporro por não ter obtido retorno da proposta.

Ponderei mais uma vez:

— Você tem certeza de que o Armínio estava no outro lado da linha?

Era obviamente outro blefe de FHC.

Quando saiu, FHC leu uma biografia de Franklin Delano Roosevelt e vangloriava-se de uma semelhança com ele: o de falar A para os políticos e fazer B.

Foi a única semelhança. Do essencial — o New Deal de Roosevelt — FHC não captou nada. Sempre foi um folgazão sem nenhum apego ao trabalho e, mesmo sendo de família de militares que ajudaram na construção da nacionalidade, nunca almejou nada mais do que o brilho fugaz instantâneo.

Os grandes estadistas até podiam usar o engodo como estratégia para atingir objetivos maiores. Para FHC era apenas o engodo pelo engodo, para reafirmar, para ele próprio, sua esperteza.

Luís Nassif
No GGN
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 Transmissão encerrada 


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Operadora americana vai cobrir o Brasil com banda larga via satélite


Uma operadora americana chamada Hughes anunciou que começará a oferecer internet banda larga via satélite no Brasil a partir de julho. A ideia é cobrir pontos onde a oferta tradicional, cabeada, não é suficiente.

O pacote principal custará cerca de R$ 200 e oferecerá conexão de 10 Mbps. O cliente poderá usar, durante todo o mês, 20 GB durante o dia e 40 GB à noite. Caso exceda a franquia, terá sua velocidade reduzida ou poderá comprar pacotes de dados adicionais.

A internet da Hughes chega às casas captada por uma antena, que leva o sinal por um cabo até o roteador. Presidente da companhia no Brasil, Rafael Guimarães garantiu, em entrevista à Exame, que o esquema não sofre com chuvas normais, mas “qualquer tempestade forte pode afetar o serviço, assim como também pode afetar redes cabeadas e a energia elétrica”.

Guimarães informou que o serviço será implementado em três etapas. Na primeira, a ser completada neste ano, 82% do território nacional será atendido; em 2018 haverá expansão para 90% e, em 2020, 100%. Mas nem todo mundo terá acesso à novidade. "Apesar de o nosso serviço cobrir totalmente a cidade de São Paulo, não temos interesse em tentar divulgar o serviço para regiões como o bairro de Pinheiros", informou o executivo. "A ideia é promover o serviço em áreas que não são bem atendidas por outras operadoras, como o interior do Estado."
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ONU pede suspensão imediata da transferência de comunidades palestinas beduínas planejada por Israel

Representantes da ONU e diplomatas de 17 países visitaram Abu Nuwar, onde 26 pessoas tiveram suas casas demolidas no início do mês. Israel deseja transferir populações para expandir assentamento de Ma’ale Adummim.

No início do mês, moradores de Abu Nuwar tiveram suas casas
demolidas. Segundo informações da ONU, 18 crianças ficaram
desabrigadas. Entre elas, quatro eram deficientes.
Foto: UNRWA
Após visita a Abu Nuwar, uma comunidade beduína próxima a Jerusalém, representantes da ONU que atuam no Território Palestino Ocupado solicitaram, nesta quarta-feira (20), a suspensão imediata do projeto de transferência dessas populações planejado por Israel. De acordo com as Nações Unidas, o Estado israelense deseja realocar os beduínos para expandir assentamentos. No início desse mês (6), 26 refugiados palestinos tiveram suas casas demolidas em Abu Nuwar. Desse contingente, 18 eram crianças, das quais quatro eram deficientes.

Após as destruições, os desabrigados receberam assistência em oito tendas residenciais financiadas por doadores. Nos dias 10 e 14 de janeiro, autoridades de Israel confiscaram as barracas. “De acordo com o direito internacional, Israel é responsável por satisfazer as necessidades de palestinos vivendo sob sua ocupação e por facilitar a assistência humanitária, não por impedir a (chegada da) ajuda e pressionar moradores a sair de modo que os assentamentos israelenses possam se expandir”, afirmou o coordenador de Atividades Humanitárias e de Desenvolvimento da ONU para o Território Ocupado Palestino, Robert Piper.

Abu Nuwar está localizada na chamada área E1, para onde o Estado israelense pretende expandir o assentamento de Ma’ale Adummim. O agrupamento beduíno é uma das 46 comunidades na região central da Cisjordânia programadas para serem transferidas para outros três locais. Piper visitou o vilarejo na companhia de diplomatas de 17 países e do diretor de Operações na Cisjordânia para a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA), Felipe Sanchez.

Segundo ambos os representantes das Nações Unidas, a realocação forçada de comunidades beduínas para distritos urbanizados ameaçaria a cultura e as fontes de renda dessas populações, além de constituir uma violação do direito internacional. “A comunidade internacional deve garantir que os planos para transferir essas comunidades sejam revogados, caso desejem proteger a solução de dois Estados”, afirmou Piper.

No ONU BR
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Lula faz o pêndulo do PT se mover à esquerda; é a campanha eleitoral de 2016


O ex-presidente Lula viajou o Brasil várias vezes.

Ele conhece o país física e intuitivamente.

Tem o Nordeste no DNA. Cresceu com os deserdados de São Paulo.

Lutou com a elite operária do ABC industrial. Não há outro líder com a sensibilidade social de Lula.

Fernando Henrique Cardoso, o líder intelectual da oposição, é um sociólogo de elite. Que só montou num jegue e se declarou com “um pé na cozinha” durante campanhas eleitorais. A relação entre FHC e o povo brasileiro é de água e óleo. O povo sabe que FHC não é “dos seus”.

Lula, não. Ele usa muitas metáforas no discurso. Algumas não fazem o menor sentido, mas garantem que seu discurso chegue ao povão. Ele adora falar como o pai e a mãe que administram o Brasil como se fosse uma imensa família, quando não é. Pelo contrário: a História do Brasil é a história da insurreição e da supressão dos que lutam por direitos. Mas Lula, o conciliador, parece realmente acreditar que o empresário Gerdau e o sindicalista Vicentinho podem conviver harmoniosamente. Em outras palavras, Lula incorpora a ideia de que o pobre brasileiro “sabe o seu lugar”.

O ex-presidente diz que Dilma está à sua esquerda. Confere. Diz-se que Golbery, o fiador da abertura lenta, gradual e restrita da ditadura militar, preferia Lula aos comunistas. O irmão de Lula era comunista. Ele, nunca foi. Lula é um social democrata, cujo horizonte é dar casa própria e automóvel a todos. Num país de deserdados e de imensa desigualdade social, como o Brasil, isso é revolucionário. Lula fala sempre nos bagres e nos sapos como um estorvo ao desenvolvimento. Ele ainda não chegou ao ponto de reconhecer que sem os bagres e os sapos nós, seres humanos, não sobreviveremos nesta Terra.

Como diz Paulo Henrique Amorim, sempre um observador arguto de nossa realidade, os tucanos vivem na e da mídia. Tiram o oxigênio dos colunistas de jornais, emissoras de rádio e TV. Não têm qualquer afinidade com o povo brasileiro. Eleitoralmente, sobrevivem na negação do outro. São, assim, cópia fiel da UDN. Criam uma realidade paralela, a do eterno “mar de lama”, para se apresentarem como “alternativa” à corrupção — da qual, aliás, fazem parte intimamente. PHA diria: qual é a ideia política original dos tucanos, além de entregar o patrimônio público para financiar seus governos? Eles sobrevivem vendendo a soberania brasileira.

Lula, na entrevista aos blogueiros, admitiu hoje que o PT se tornou um partido igualzinho a todos os outros. Fato. Quando ele fala que alguns companheiros “erraram”, provavelmente está se referindo aos crimes cometidos por gente como o ex-líder do governo Dilma no Senado, Delcídio do Amaral, que armava para tirar uma testemunha-chave do Brasil.

Todos os escândalos tucanos sobreviveram ao PT no poder: sanguessugas, vampiros, mensalão, petrolão. Em torno deles, o famoso pacto das elites.

O ex-presidente tem razão quando diz que o PT é perseguido pela mídia desde que ele assumiu o poder, em 2002. Vi isso de dentro da redação da TV Globo. Eu estava presente — e abominei — quando colegas jornalistas aplaudiram Lula antes da entrevista que ele deu ao Jornal Nacional, depois que se elegeu. E abominei quando, na onda das primeiras denúncias do mensalão, a Globo entrou na onda de criminalizar o PT, o que já dura mais de 12 anos. Testemunhei pessoalmente: a Globo colocou todos os seus recursos materiais e profissionais para investigar o PT, quando não fez o mesmo com nenhum outro partido.

A postura da mídia como linha auxiliar da oposição, no entanto, não deve ser usada como desculpa para o “reformismo fraco” do PT. Desde que José Dirceu, com suas alianças a qualquer custo, levou Lula ao poder, o PT se tornou ferramenta da “modernização conservadora” do Brasil. Um partido da ordem, que proporcionou migalhas aos mais pobres enquanto os mais ricos enchiam as burras de dinheiro.

O governo de coalizão do PT só pode se dar ao luxo de ser social democrata na bonança.

Na crise, banca a lei antiterrorismo contra os movimentos sociais, a reforma da Previdência, os leilões do pré-sal, o desmanche da Petrobras e da Eletrobras.

Na entrevista aos blogueiros, Lula mais uma vez mexeu com o pêndulo. Como líder mais importante do PT, se disse contra a lei antiterrorismo, a venda da Gaspetro e da Transpetro e propôs uma política econômica distinta do austericídio de Dilma.

É como se fosse aquele jogo do bad cop (Dilma) e do good cop (Lula).

Lula prega o apoio a Dilma, mas se distingue dela com propostas à esquerda, para não perder o campo político essencial, onde se encontra a militância do partido.

É sempre assim, desde a campanha de 2002: à esquerda durante a campanha, à direita no governo, à esquerda às vésperas do próximo período eleitoral, à direita depois da composição do governo.

Um pêndulo que, apesar de hipnotizar alguns blogueiros, se move de forma oportunista.

Mantém, como cenoura no horizonte, as reformas que realmente importam: democratização da mídia, reforma tributária que obrigue os ricos a assumirem carga tributária hoje carregada pela classe média e os mais pobres, soberania nacional sobre setores estratégicos (energia, comunicações e recursos naturais), um banco central que não esteja a serviço eminentemente do sistema financeiro.

O PT continua acreditando que pode se perpetuar como o menos ruim dos partidos.

Luiz Carlos Azenha
No Viomundo
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Novo vídeo de Adnet escancara hipocrisia de quem se diz “contra a corrupção”

Na estreia da nova temporada do programa Tá No Ar, o humorista faz uma crítica às pessoas que dizem abominar a corrupção, mas cometem todo tipo de irregularidades no dia a dia sem o menor peso na consciência


Na estreia da nova temporada do programa Tá No Ar, na última terça-feira (19), o humorista Marcelo Adnet faz uma crítica às pessoas que dizem abominar a corrupção, mas furam fila no banco, estacionam em vaga de deficiente, subornam agentes de trânsito e falsificam carteirinha de estudante para pagar meia entrada, por exemplo.

A hipocrisia flagrada nessas irregularidades do dia a dia é exposta na atração com boa dose de ironia com uma paródia da música O Que é, o Que é, de Gonzaguinha. “A lei diz que, quando entrar um idoso tenho que levantar. Mas finjo que não vejo a velhinha, fecho o olho e dou aquela dormidinha”, diz um dos trechos da canção.



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Polícia Federal ontem e hoje: de FHC à Dilma Rousseff

Na primeira metade dos anos 90, a Polícia Federal do Rio foi comandada por delegados bastantes problemáticos. Que o digam os procuradores da República que ingressaram na instituição naquele período, Passavam um dobrado, por não confiarem em muitos dos policiais lotados na Superintendência Regional (SR/DPF/RJ).

Um destes ex-superintendentes, Eleutério Parracho, foi expulso da Polícia Federal junto com outros agentes após extorquirem 2 milhões de dólares — o pedido inicial era de 10 milhões de dólares — da direção latino-americana do Israel Discount Bank. Outro, Edson Antônio de Oliveira, envolveu-se também em concussão e no recebimento de mesadas dos bicheiros do Rio. Sua expulsão foi proposta em um Processo Administrativo Disciplinar (PAD). Injunções políticas levaram o então ministro da Justiça, Nelson Jobim, a rejeitar a demissão. Ele só saiu do DPF, por força de sentença judicial transitada em julgado, depois de ser preso, em 2012, 25 anos após o crime contra dois comissários da antiga Varig; 15 anos após a primeira sentença. Morreu brigando na Justiça pela sua reintegração.

Um terceiro ex-superintendente foi acusado pelo Ministério Público Federal de usar o carro apreendido com um traficante, tal como o juiz Flávio Roberto de Souza, pego dirigindo o Porshe de Eike Batista que ele mandara apreender. O detalhe importante é que o ex-superintendente tinha carro oficial e motorista. Ainda assim, durante o seu expediente de trabalho, o carro do qual tornou-se fiel depositário era multado por excesso de velocidade na Linha Vermelha. Recebi as multas do próprio traficante, um advogado recolhido à prisão especial de Benfica. Até hoje ignora-se quem dirigia o carro enquanto o superintendente trabalhava. Assim era a Polícia Federal dos anos 90.

Em 1995, fações do tráfico disputavam, com armas importadas, o domínio das comunidades da cidade. Isso fez o coordenador do Viva Rio, Rubem César Fernandes, mobilizar a sociedade em busca da paz. Com o apoio integral dos representantes dos três principais jornais da cidade — João Roberto Marinho (O Globo), Kiko Nascimento Brito (JB) e Walter Mattos (então em O Dia) — foram ao presidente Fernando Henrique Cardoso pedir maior atuação da Polícia Federal no estado, a começar pela sua Superintendência, um órgão sob suspeita.

A ação da equipe do delegado Onézimo Sousa foi saudada pelos
jornais do Rio, com o Globo de 12 de setembro de 1995
FHC ordenou e o diretor geral do DPF, Vicente Chelotti, mandou uma equipe investigar como as armas e drogas entravam no Rio. O encarregado do trabalho foi o hoje delegado aposentado Onézimo Sousa, que desembarcou na cidade com sua própria equipe.

Em poucos meses e após muitos percalços — um carro que achavam que ele usava foi baleado, seu quarto de hotel foi invadido e revirado — Onézimo voltou à Brasília com provas de policiais federais envolvidos na criminalidade. Reivindicou a prorrogação da sua estada no Rio para aprofundar o trabalho.

Reuniu-se com Chelotti e com diretor de Inteligência Policial (DIP), o hoje ex-deputado federal pelo PMDB e candidato a deputado derrotado pelo PSDB, delegado aposentado Marcelo Itagiba, Ele é um dos que aparecem no Youtube acusando o governo de Dilma Rousseff de querer esvaziar financeiramente a Polícia Federal.

Na época, o pedido de Onésimo girava em torno de um valor irrisório para diárias do hotel e alimentação, algo em torno de R$ 20 mil. Não se falava em corte de orçamento, antes pelo contrário, o presidente FHC, como noticiou O Globo na reportagem acima, instruiu Chelotti a não poupar recursos nem pessoal naquela missão. Onézimo, porém, como recordou nesta quarta-feira (20/01), ouviu um sonoro não da direção do DPF. “Alegaram falta de recurso, mas os motivos eram outros”, desabafou.

Ou seja, não era verba, mas falta de vontade política da direção do DPF. Impediram a continuação do trabalho que o presidente da República prometera ao Viva Rio. Mais ainda, anos depois, não sabiam onde estava o material entregue por Onézimo com as gravações das escutas de telefonemas de traficantes investigados.

Em 2003, não foi mera coincidência, mas um sinal de mudança de rumo. Ao assumir a direção do DPF, com total apoio do ministro Marcio Thomaz Bastos e, ainda , do presidente Lula, o delegado Paulo Lacerda deu início às operações policiais que hoje viraram rotina, cortando na própria carne, para dar exemplo. Foi a Operação Sucuri, em Foz de Iguaçu, que prendeu policiais federais e Auditores da Receita Federal envolvidos com o contrabando e o descaminho de mercadorias. Entre eles estava o agente Newton Ishi, hoje mais conhecido como japonês bonzinho.

Revista Art. 5ª, edição 43, março/abril de 2015
Tudo isso me veio à memória ao cair nas minhas mãos um número atrasado da Revista Art. 5º, edição nº 43, dos meses de março/abri de 2015. Trata-se de uma revista da Associação Artigo 5º – Delegados e Delegadas da PF para a República e a Democracia. A Associação, cujo nome é uma referência ao artigo da Constituição com Direitos e Garantias Fundamentais, tem por objetivo algo inusitado no meio policial: defender os Direitos Humanos (DH), motivo pelo qual, segundo alguns policiais, não tem muitos sócios: “DH é tema ainda espinhoso na instituição, em que pese a PF ter uma diretoria voltada para os Direitos Humanos”.

Já na capa há uma chamada que despertou interesse: “Aos 71 anos, mais do que crimes, a PF revela o cinismo da sociedade”, E continua, questionando:

“Se a corrupção “passou dos limites”, qual o limite anterior? O dos governos passados? O dos escândalos não apurados ou arquivados? Quem figura nas centenas de inquéritos que tramitam em sigilo na PF distante da grande mídia?”

O principal artigo — Da Satiagraha à Operação Lava Jato — é assinado pelo delegado federal aposentado Armando Rodrigues Coelho Neto. A ele, injustamente, relacionei uma postagem sobre o salário de Paula Rousseff Araujo, filha da presidente Dilma, na matéria Briga por verba reflete a briga contra Dilma na PF.

Também da autoria dele, o Jornal GGN, de Luis Nassif, postou, nesta quarta-feira (20/01) outro artigo interessantíssimo, que recomendo a leitura: Para não dizer que não falei do Moro.

Na reportagem que escreveu na Revista Art. 5º ele, que vivenciou muitos anos de Polícia Federal, historia como a instituição chegou ao que é hoje — inclusive com um plano de marketing para retirá-la do atoleiro em que estava e um financiamento pedido no governo de FHC junto à França. Mas, mostra também os riscos que se corre hoje. Um artigo que, pelo que apuramos, provocou ira e revolta em muitos delegados, como mais uma demonstração do racha que existe na categoria. Por achá-lo atual e interessantíssimo, trouxe para o blog:

Da Satiagraha à Operação Lava Jato

Armando Rodrigues Coelho Neto, Delegado Federal aposentado e jornalista

DPF Armando Rodrigues
Coelho Neto, contra oimpeachment,
crítico à Operação Lava Jato e
discordando do encaminhamento
da campanha salarial que seus
colegas fazem
Excessos de otimismo à parte, a Polícia Federal já foi atacada de todas as formas, conforme a conveniência do opositor. Já foi rotulada de Polícia da Ditadura, Polícia do Fernando Collor de Mello, Polícia do Fernando Henrique Cardoso ou Polícia do Lula (Luiz Inácio Lula da Silva).Todas as expressões foram empregadas com sentido pejorativo. E, como dito, ao sabor do opositor, pois durante a Operação Satiagraha, ação policial voltada contra o desvio de verbas públicas, a corrupção e a lavagem de dinheiro (quando vários banqueiros foram presos) a dinâmica deu margem a expressão “Estado Policial”. Uma velada alusão ao estado policialesco.

O resultado concreto da Satiagraha foi a anulação de peças e até de inquéritos. O banqueiro Daniel Dantas foi preso e libertado duas vezes e um dos habeas corpus teria sido despachado na calada da noite, assinado pelo juiz Gilmar Mendes, o mesmo que criticou a “escandalização da prisões” da PF e que hoje, controvertidamente, aplaude os escândalos protagonizados durante a Operação Lava-Jato.

No inventário da Satiagraha, o juiz Fausto De Sanctis (o Sérgio Moro de então) foi processado administrativamente. Já o delegado federal Protógenes Queiroz, acuado pela imprensa e pela própria instituição, exilou-se numa candidatura. Apesar dos quase 200 mil votos, precisou ser arrastado pelo palhaço Tiririca (também candidato e campeão de votos) para eleger-se deputado federal. Protógenes ficou imune temporariamente, mas ao não se reeleger, voltou à PF e foi demitido. Hoje, administra uma polêmica tentativa de volta à instituição.

Todo esse barulhaço, porém, teve origem num trabalho de marketing que começou, não necessariamente com esse objetivo, no final do governo Fernando Henrique Cardoso — uma fase obscura da Polícia Federal. Naquela época, tempos em que a França ainda dispunha de algum dinheiro, aquele país emprestou ao Brasil considerável verba destinada à aplicação na área de segurança, beneficiando particularmente a Polícia Federal. O dinheiro, entretanto, estava vinculado a um planejamento operacional. Sem planejamento para a aplicação da verba, o dinheiro não seria liberado, embora já creditado na contra do Brasil.

Delegado Federal José Francisco Mallmann
Tempos angustiantes para o eficiente delegado federal José Francisco Mallmann, integrante da cúpula da PF, em Brasília/DF, um dedicado servidor que gerenciava crises policiais do governante da época.

Em uma delas, para atender reclamos da sociedade, criou-se o Fundo para Aparelhamento e Operacionalização das Atividades-fim da Polícia Federal (Funapol), voltado para o custeio e manutenção das atividades da Polícia Federal (PF).

O fundo, que seria uma melhoria de caixa da PF, muito cedo veio a cair na vala comum do orçamento da União e nada, praticamente nada, passou a retornar à instituição.

Pois bem, Mallmann vivia em busca de alternativas e aliou-se a uma legião de servidores da instituição. Dessa união resultou um grupo para criar um planejamento quinquenal para o uso da tal verba da França, um empréstimo, aliás, sobre a qual o Brasil já pagava juros mesmo sem usar, e não o usava, pasmem (!) por falta de planejamento.

Um ano de trabalho transcorreu, no qual delegados, peritos, agentes, escrivães e servidores administrativos, alojados na Academia Nacional de Polícia (Sobradinho/DF) empenharam-se e criaram um planejamento plurianual para aplicação da verba em cinco anos.

O Ovo da Galinha e a Escandalização

Teve início a elaboração de um Plano Quinquenal que descia a detalhes, inclusive o de dar visibilidade à Polícia Federal. E um dos motivos ocultos pode ser revelado agora: uma briga que sobrevive até hoje com o Ministério Público Federal, já que as queixas internas eram e são frequentes. “Nós trabalhamos e os que aparecem são os procuradores da República”. Um publicitário que participou dos trabalhos disse então, durante uma sessão de atividades, que “o ovo da galinha faz mais sucesso do que o da pata porque ela faz mais barulho quando o põe”…

Operação Satiagraha – Foto Fenapef
Nessa trilha da PF em ação, concretizado o plano, o barulho do ovo da galinha veio através de diligências pirotécnicas e controvertidas com nomes esquisitos (grotescos ou pitorescos) que caíram no gosto popular. Servem de exemplo as operações Gasparzinho, Alegoria da Caverna, Carniça, Pintando o Sette, Trem Fantasma e a atualíssima Lava-Jato, entre tantas.

Uma mão na roda para o governo Lula, que foi içado à Presidência da República lastreado por um discurso popular. O Planejamento Quinquenal da PF não foi um parto tranqüilo, pois de início, sofreu forte influência de um ex-graduado militar egresso da Marinha que pôs em prática um tal Método Grumbach de Gestão Estratégica, que através de uma suposta metodologia de computador geraria um processamento de análises prospectivas. Leia-se, projeção lógica do que poderia acontecer.

Dessa metodologia surgiu como prioridade algumas “ameaças”, tais como a suposta criação de “Estado Indígena” na região do Amazonas, um ataque ao Brasil por fronteiras, entre outras conclusões “científicas”. Pelo método, várias autoridades de diversos segmentos sociais respondiam questionários e do cruzamento das respostas sairia o veredicto. Aliás, um dos questionários recebeu uma irônica resposta do polêmico comentarista da Globo News, Diogo Maninardi. Com nítidos contornos de ideologia militar, originariamente, a conclusão do plano foi recebida com restrições pelos participantes. O cheiro de caserna foi espantado a muito custo (leia-se debates acalorados). Finalmente, o resultado “científico”, sob pressão, atribuiu ao combate à corrupção a prioridade máxima.

“Nós só temos um problema no Brasil, que é a corrupção. Os outros são consequências, derivações dela”, comentou à época Armando Rodrigues Coelho Neto, integrante do grupo e hoje editor da revista Artigo 5º.

E assim, com pompa e circunstâncias, com cerimônia de entrega e tudo, dentro da Academia Nacional de Polícia, o delegado federal José Francisco Mallmman, ladeado pelo então diretor-geral da instituição, Agílio Monteiro Filho, deu-se a entrega do primeiro Planejamento Quinquenal da Polícia Federal. Um trabalho a ser repassado ao vencedor do pleito eleitoral de 2002. Na prática, um conjunto de enunciados de prioridades consubstanciadas sob o princípio do “Não importa quem vença as eleições; se José Serra (PSDB) ou Luis Inácio Lula da Silva (PT). O plano é republicano”. Venceu Lula, que ao receber cópia do documento, e, ao conhecer seu conteúdo, disse:

“esse é o plano de meu governo para a Polícia Federal”.

HSBC Gate e Operação Zelote

Aos poucos, a PF mostrou sua nova face, ainda que tropeçando na apelidada “testosterona policial”, numa alusão a ousadia dos novos delegados da PF, “acima do bem e do mal”, como ironizou uma juíza federal de Pernambuco. As interceptações telefônicas, ainda que autorizadas pela Justiça, pareciam ter saído do controle, dando margem até ao folclórico “grampo” do então presidente do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, cujo áudio nunca foi ouvido e nunca se provou que tenha existido.
A denominada “grande mídia” encarregou-se de propalar a onda do grampo, alardeando o tal “Estado Policial”. Desse modo, palavra como “busca” passou a ser tratada editorialmente por “devassa” ou “invasão” e reverberou à exaustão a apologia da privacidade, pouco importando o que estavam a revelar as interceptações telefônicas.
Em nome do princípio da legalidade, hoje aparentemente tão negligenciado, juristas e jornalistas de todos os expoentes teceram loas a esse mesmo princípio — valores nobres inseridos na Constituição Federal. Mas, logo passaram a negar, embalados pelo partidarismo eleitoral. Hoje, a grande mídia, em plena lua de mel com a Polícia Federal, já não prioriza mais aqueles princípios.

Cinismo e hipocrisia

Pelas novas regras, valem o interesse público, os vazamentos seletivos, enquanto os institutos da ampla defesa, presunção de inocência só são lembrados em cantos de páginas de jornal.

Por força da ação da PF, antes mesmo de revelar crimes, involuntariamente, a instituição deixou à mostra os pilares da esquálida democracia no Brasil, para logo a seguir revelar o cinismo e a hipocrisia. Era como se a massa crítica nacional acreditasse em capitalismo samaritano e que as doações de campanha não tinham e nunca tiveram retorno para os doadores.

Parte do dinheiro envolvido na Operação Zelotes, que
pode ser maior que a Lava Jato
Reprodução CartaCapital – 28/03/2015
Será que a sociedade nunca soube ou presumiu que havia corrupção? Sem arriscar resposta, melhor lembrar que recentemente, 8 mil contas de brasileiros apareceram no escândalo do banco britânico HSBC. Nesse “HSBC Gate”, o Brasil figura entre os quatro países com o maior número de clientes. Dinheiro honesto à parte, existem valores frutos de evasão de divisas, sonegação fiscal, tráfico de droga, contrabando, corrupção. Sobre isso, paira o silêncio da grande mídia e nem se tem notícia de vazamentos seletivos ou interesse público.

Esquecido o “HSBC gate”, logo após, veio Operação Zelote da PF, que trouxe à tona sonegação fiscal que atinge R$ 580 bilhões, com envolvimento de grandes empresas, inclusive multinacionais.

A Artigo 5º dedicou a edição nº 37 (março/abril/2014) ao tema corrupção e uma das denúncias ali contidas foi:
Até 1999, a Alemanha permitia que a propina paga em países como o Brasil fossem deduzidas do imposto de rendas das matrizes das empresas naquele pais, segundo relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Quem eram os governantes de então? Que fatos da dimensão ora apontadas fujam do conhecimento ou compreensão da grande massa de analfabetos ou semi é compreensível. Mas que escapem às análises dos expoentes jurídicos, econômicos e da grande mídia parece improvável. Soa, portanto, como falsa a perplexidade e ou surpresa da massa crítica nacional, diante do que a Polícia Federal vem revelando.
“É claro que a circunstância dos fatos estarem a mostra agora não absolve culpados atuais e passados, mas deixa evidente a hipocrisia e o desinteresse dos “grandes debatedores”, que não aprofundam o tema. Pelo contrário, fulanizam e partidarizam-no. O fazem a tal ponto de arranhar a credibilidade não apenas de investigantes, mas do Ministério Público e Justiça Federal, com descarado apoio da dita “grande mídia”.

A PF está mais forte não apenas por ter posto em prática um Plano Quinquenal de ações – já prorrogado por mais quinze anos. Mas também porque, paradoxalmente, só no Governo da presidenta Dilma Rousseff foram sancionadas 13 leis e/ou normas que a fortaleceram. A regulamentação da lei de Colaboração Premiada está entre essas normas. E, de longe, a PF recebeu nos doze últimos anos mais e melhores recursos materiais e humanos do que em quaisquer outros.

Sobrevivem, no entanto, insatisfações internas entre integrantes da categoria, atualmente agravado pelo contingenciamento de verbas aplicado em todas as áreas, mas que muitos insistem em tratar como “desmonte” da PF, como se caso único fosse. Na prática, um forte apelo popular em nome da “Operação Lava Jato”, que vem apimentando uma justa campanha salarial, ainda que viciada pelo tenso clima político”.

Marcelo Auler
No Desacato
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Vídeo: Aecím era o mais chato para cobrar!

Porém, Janot não quer nem ouvir falar do Aecím...


"Eu nem sabia que o senador tinha apartamento no Rio!" Ele não era governador de Minas?

Por sugestão do amigo navegante Rogério Correia (deputado estadual do PT, em Minas, onde Aecím perdeu duas vezes em 2014) o Conversa Afiada reproduz esse vídeo.

E recomenda especial atenção a partir do 2'27".



É um desses momentos sublimes da Ética Tucana!

(O amigo navegante se lembra do momento histórico em que Correia, na companhia de outros deputados mineiros, entregou, em mãos, ao Dr Janot os documentos de Furnas que incriminam de forma inequívoca o Aecím e todos os tucanos gordos.

Aparentemente, Janot preferiu adotar a "lógica" De Grandis.)

A propósito dessa "lógica" do Não Vem ao Caso, não deixe de ler o que o Janio diz sobre o Moro, o tirano constitucionalizado.

Paulo Henrique Amorim

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Debate — A Mídia e a Judicialização da Política


Para quem não puder acompanhar presencialmente, haverá transmissão em tempo real pela Fundação Perseu Abramo — que será reproduzida neste blog.
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A íntegra da entrevista de Lula aos Blogueiros


No dia 20 de janeiro, o ex-presidente Lula recebeu blogueiros para uma entrevista coletiva na sede do Instituto Lula, em São Paulo.




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Jornalista é assassinado na Venezuela


A Plataforma de Jornalistas e Comunicadores da Venezuela, manifesta sua dor, indignação e repúdio, pelo assassinato do jornalista venezuelano, Ricardo Durán (foto).

Esperamos que as autoridades competentes esclareçam as circunstâncias nas que aconteceu o fato e dê com os responsáveis do mesmo.

O jornalista venezuelano Ricardo Durán, recentemente, exercia funções como Diretor de Imprensa do Governo do Distrito da Capital. No ano de 2002, participou da recuperação de Venezuelana de Televisão, trás o Golpe de Estado perpetrado pela direita neoliberal contra o Presidente Hugo Chávez.

A Plataforma de Jornalistas e Comunicadores da Venezuela, expressa sua solidariedade aos familiares do comunicador social Ricardo Durán, neste momento difícil e exorta os colegas a ficarem em estado de alerta.

Caracas, 20 de janeiro de 2016.

Brasil: O Portal Desacato, seus parceiros da ABRAÇO, Jornal dos Trabalhadores, ContextoLivre e Barão de Itararé Núcleo Catarina, se solidarizam com os colegas da Plataforma e familiares de Ricardo Durán, e exigem um pronto esclarecimento a este vil assassinato.

Direção Geral do Portal Desacato – Florianópolis e República Dominicana, 21 de janeiro de 2016.
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Na cama

Contam que o reacionário voltou de uma viagem antes do previsto e encontrou sua mulher na cama com outro homem.

— Quem é esse? – perguntou o reacionário.

— É o comunista – respondeu a mulher

— O quê?!

— Você não olha embaixo da cama todas as noites, para ver se não tem um comunista escondido?

— Olho.

— Pois hoje, como você não estava aqui, eu mesmo olhei.

— E aí?

— Tinha.

Boston. Fica-se sabendo pouco sobre a vida privada dos repórteres que investigam os casos de pedofilia acobertados pela Igreja Católica, no filme Spotlight – Segredos Revelados. Talvez para não desviar nossa atenção do que interessa, as idas e vindas, magnificamente filmadas, da investigação em si. A mesma preocupação em fixar-se na trama deve explicar a ausência de maiores detalhes sobre o que significava, em termos de audácia jornalística e pura coragem, enfrentar o assunto — que começou municipal antes de se tornar internacional — em Boston, o epicentro de uma certa cadeia de cumplicidades (tradicional corrupção política abençoada por uma igreja conservadora e poderosa, tudo quase absolvido pela simpatia irlandesa), de cuja força só se tem pequenos vislumbres, no filme. Foi em Boston que começou a dinastia dos Kennedy, com o patriarca Joseph, notoriamente ligado ao crime organizado e que, dizem, comprou o cargo de embaixador americano em Londres para si e, depois, a presidência dos Estados Unidos para o filho John. Seu filho mais moço, Edward, acabou sendo um representante de outra tradição política da Nova Inglaterra, onde fica Boston: a do engajamento social. Edward deixou um respeitável currículo de esquerda, como senador. Mas Joseph Kennedy personificou como ninguém a aristocracia bostoniana, devota e criminosa, que o filme, de certa forma, poupa.

O melhor de Spotlight é que a investigação é o filme. Assim como pouco vemos vida pessoal dos investigadores, não vemos nenhum “flashback” com cenas de sedução de menores. Não há vilões na trama. O que vemos são as vítimas, as consequências. O filme não precisa de monstros — a grande monstruosidade é o acobertamento. E o maior escândalo mostrado pelo filme vem no fim, nas legendas que mostram o desdobramento das revelações publicadas, e pelas quais ficamos sabendo que o cardeal banido de Boston pela sua inanição diante dos crimes foi para um alto cargo no Vaticano.

Luís Fernando Veríssimo
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Umas palavras (e outras)

Ainda com a carta pública dos 104 advogados fervilhando entre apoiadores e discordantes, a também discutida retenção de Marcelo Odebrecht na prisão dá margem a mais um incidente processual do gênero criticado na Lava Jato. Em princípio, trata-se de estranha omissão ao ser transcrita, da gravação para o processo, da parte da delação premiada de Paulo Roberto Costa que inocenta Marcelo de participação nos subornos ali delatados. Mas o problema extrapolou a omissão.

Já como transcrição na Lava Jato do que disse e gravou o delator muito premiado, consta o seguinte: "Paulo Roberto Costa, quando de seu depoimento perante as autoridades policiais em 14.7.15, consignou que, a despeito de não ter tratado diretamente o pagamento de vantagens indevidas com Marcelo Odebrecht" — e segue no que respeitaria a outros.

As palavras de Paulo Roberto que os procuradores assim transcreveram foram, na verdade, as seguintes: "Então, assim, eu conheço ele, mas nunca tratei de nenhum assunto desses com ele, nem põe o nome dele aí porque ele, não, ele não participava disso".

É chocante a diferença entre a transcrição e o original, entre "não ter tratado diretamente com Marcelo Odebrecht" e "nem põe o nome dele aí por que ele, não, ele não participava disso". A reformulação da frase e do seu vigor afirmativo só pode ter sido deliberada. E é muito difícil imaginar que não o fosse com dose forte de má-fé. Do contrário, por que alterá-la?

Não é o caso de esperar por esclarecimento da adulteração, seu autor e seu propósito. Seria muita concessão aos direitos dos cidadãos de serem informados pelos que falam em transparência. No plano do possível, a defesa de Marcelo Odebrecht, constatada a adulteração, requereu a volta à instrução processual, do seu início e com a inclusão de todos os vídeos da delação, na íntegra e não só em alegadas transcrições.

O juiz Sergio Moro decidiu contra o requerido. Considerou os pedidos "intempestivos, já que a instrução há muito se encerrou, além das provas pretendidas serem manifestamente desnecessárias ou irrelevantes, tendo caráter meramente protelatório". E, definitivo: "O processo é uma marcha para frente. Não se retornam às fases já superadas".

Não é a resposta própria de um magistrado com as qualificações do juiz Sergio Moro. É só uma decisão. Baseada em vontade. Resposta, mesmo reconhecendo-se a situação delicada do juiz Sergio Moro, seriam as razões propriamente jurídicas (se existem) para negar o pedido.

"Intempestivos" os pedidos não são. Se apenas agora foi constatada a transcrição inverdadeira, não havia como pedir antes qualquer medida a partir dela. Logo, tempestivo este pedido é. Uma instrução está "encerrada" quando não há mais o que precise ou possa ser apurado, como complemento ou aperfeiçoamento. Se há uma transcrição infiel, ou qualquer outro elemento incorreto, as provas que o corrijam são "necessárias e relevantes" porque o erro prejudica a acusação ou a defesa, ou seja, compromete o próprio julgamento de valor entre culpa e inocência. Se está demonstrada a necessidade objetiva de correção, não há "caráter protelatório", há o indispensável caráter corretivo.

"Processo" é, por definição, um movimento que implica todas as variações, de ritmo, de sentido, de direção, de avanço ou recuo, e mesmo de intervalos de paralisação. Processo não é só "marcha para a frente". E, no caso dos processos judiciais, se o fossem, não haveria — talvez para alegria da Lava Jato — segunda e terceira instâncias de julgamento, que são diferentes retornos às entranhas dos processos.

Como se tem visto, o decidido, decidido está. Mas o provável é que não sobreviva à instância superior, se lá chegar e seja qual for a posição de Marcelo Odebrecht entre a inocência e a culpa.

Janio de Freitas
No fAlha
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