17 de jan de 2016

Travaram a Zelotes e o HSBC para não atrapalhar aliança entre a PF, o MPF e a mídia; grandes anunciantes são poupados


Em 29 de dezembro de 2015, portanto há 19 dias, o deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS), relator da subcomissão da Câmara que acompanha a Operação Zelotes, reuniu-se com o delegado Rogério Galloro, diretor-geral substituto da Polícia Federal, e fez vários questionamentos, entre os quais:
  • Por que estão paradas as investigações que apuravam desvios de R$ 20 bilhões no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf) da Receita Federal? As investigações apontaram que os conselheiros do Carf recebiam propina para anular multas de grandes empresas com a Receita Federal.
  • Por que denúncias contra grandes sonegadores envolvidos no escândalo do Carf, como Bradesco, Santander, Mitsubishi, Gerdau, Grupo RBS, que eram o objetivo inicial da Operação Zelotes, nunca apareceram?
  • Por que a Polícia Federal mudou o foco da Lava Jato e abriu uma investigação paralela para apurar a compra de medidas provisórias no governo federal?
Agora, Paulo Pimenta pretende fazer esses mesmos questionamentos ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, em encontro que deve acontecer nos próximos dias.

“Eu quero falar com o ministro sobre vários assuntos”, antecipa o deputado. Um deles, claro, é a Operação Zelotes. Outro, a lista dos brasileiros que tinham contas secretas  no HSBC da Suíça. Quero saber como evoluiu a investigação.”

A partir daí seguiu a entrevista exclusiva do deputado Paulo Pimenta ao Viomundo.

As investigações da Operação Zelotes estão paradas mesmo?

Eu não tenho a menor dúvida que sim. Até junho do ano passado, ela vinha avançando de uma maneira. A partir de lá, tenho a nítida impressão de que houve desaceleração de diligências, de encaminhamentos…

Considero a Zelotes o maior escândalo de corrupção que se tem notícia na história recente do País. Foram identificados indícios de venda de sentenças em 74 decisões do Carf. Envolve quase R$ 21 bilhões.

Esses R$ 21 bilhões são de casos julgados. E não julgados?

Hoje nós temos no Carf mais de R$ 500 bilhões em julgamentos a serem realizados. Portanto, um tema de enorme relevância. Eu acho que deva ser dada prioridade a essa investigação dos grandes sonegadores, do esquema criminoso que se montou e envolveu setores da burocracia do Estado, especialmente ex-auditores da Receita Federal, com empresas de consultoria e escritórios de advocacia.

Mas a Zelotes pegou outro caminho, a da venda de medidas provisórias, que visa atingir o filho do ex-presidente Lula e o próprio Lula. Por que essa mudança de direção?

Há uma visão teórica que capturou setores da burocracia de Estado, que envolve Polícia Federal, Receita Federal, setores do Ministério Público Federal e do próprio Judiciário, que definiram a estratégia  de que,  nesse período do nosso país, você precisa ter apoio da opinião pública, especialmente da grande mídia, para que as ações desenvolvidas por esses setores tenham êxito.

Não tenho nenhuma dúvida de que esse é o elemento central  da Zelotes. Havia uma investigação principal da Zelotes que era sobre os esquemas de venda de sentença dentro do Carf.

A partir de um determinado, foi aberta uma segunda linha de investigação que era a possibilidade de venda de medidas provisórias.

E partir dessa segunda linha de  foi aberta uma terceira: empresas que têm contratos com empresas envolvidas na investigação sobre venda de medidas provisórias.  Ela é uma derivação da segunda linha de investigação, sendo que a principal simplesmente foi colocada num segundo plano.

Por quê?

Porque as empresas envolvidas na Zelotes são os principais anunciantes mídia brasileira hoje em dia. Você tem os principais bancos , as principais indústrias de cerveja, companhias telefônicas e a imprensa propriamente dita.

Então, dentro dessa lógica, que foi absorvida por setores da burocracia do Estado, é um tema que não interessa, pois não terá respaldo da mídia, consequentemente não terá o respaldo da opinião pública.

O que vai ao reivindicar ao ministro?

Estou fazendo esforço para que seja retomado o foco da investigação. Querem investigar outras coisas? Ok. Não sou contra. Investiguem.

Mas existe uma organização criminosa que está instalada dentro do Carf, que é um dos principais órgãos da Receita Federal. O esquema conta também com a participação de ex-auditores da Receita, escritórios de advocacia,  que juntos permitiram a sonegação de R$ 21 bilhões.

Portanto, isso não pode ser considerado como algo de menor relevância simplesmente porque a mídia não gosta do assunto, porque nos intervalos do Jornal Nacional aparecem propaganda desses denunciados, porque a RBS, parceira da Globo no Sul do Brasil, é uma das empresas acusadas da fraude.

Sabe como está a investigação do caso HSBC? A impressão que se tem é que está parada.

No caso da investigação do HSBC, em determinado momento, o Ministério da Justiça assumiu este tema junto com a Procuradoria Geral da República (PGR). Eu não sei como ela evoluiu. Eu pretendo pedir ao ministro informação sobre em que pé ela se encontra agora.

De qualquer forma, como o tema HSBC revelou que praticamente toda a grande mídia brasileira e o sistema financeiro estão envolvidos, o tema não “ interessa” para aqueles setores do Estado que deveriam fazer a investigação.

A atuação da CPI do HSBC até agora foi pífia. O que se percebeu é que várias pessoas que deveriam depor foram deixadas de lado, acobertadas…

Com certeza.

Na semana passada, o governo francês decidiu enviar à CPI a lista dos brasileiros que tinham conta no HSBC na Suíça. Se isso se confirmar, pode provocar um terremoto?

A revelação e a investigação sobre as contas do HSBC vão nos permitir saber não só quem são os donos mas entender qual origem deste dinheiro depositado no exterior. Qual o evento que proporcionou este capital escondido na Suíça. Ele será revelador de um  período nebuloso da nossa história. As grandes privatizações da FHC serão melhor compreendidas.

Pelo que o senhor disse um pouco atrás,  as investigações da  Zelotes original e do HSBC estão devagar porque os responsáveis pelo andamento delas — Polícia Federal, Ministério Público Federal,  Judiciário e  Receita Federal — acreditam que não terão apoio da grande. Será que essas investigações também não avançam porque setores desses órgãos compartilham das mesmas posições políticas dos denunciados, ao mesmo tempo que todos são contra o governo Dilma e o PT?

Com certeza. Setores da burocracia de Estado foram capturados por um projeto de poder que visa destruir o nosso projeto, o nosso legado. Esses setores capturaram a burocracia de Estado claramente com o objetivo de alcançar interesses políticos, partidários, corporativos, particulares. Eles se sobrepuseram ao interesse público obrigatório nas carreiras de Estado como essas que nós estamos mencionando. Estão violando o interesse público.

Nós temos hoje segmentos que trabalham de maneira articulada contra um projeto político-majoritário que foi vencedor da eleição. Nós temos de denunciar essa ideia na sociedade. Eu quero conversar com o ministro também sobre isso. São coisas muito graves que estão acontecendo.

E o vazamento seletivo de depoimentos confidenciais e investigações de maneira seletiva?

É um atentado ao estado democrático de direito. O presidente Lula foi chamado para dar depoimento na condição de informante numa investigação na Polícia Federal. Isso aconteceu numa terça-feira. Na quinta-feira, o Jornal Nacional divulgou o depoimento na íntegra.

A cópia que o presidente Lula e os seus advogados receberam tinha marca d’ água. Ou seja, a reprodução seria identificável.  Existia só uma segunda cópia que estava de posse da Polícia Federal. Se não foi o presidente Lula que entregou o seu depoimento para o Jornal Nacional, quem entregou?

O vazamento criminoso de documentos sigilosos de posse da Polícia Federal,  Ministério Público Federal, Supremo Tribunal Federal, com o objetivo claro de direcionar de maneira seletiva uma investigação ou uma suspeição de uma pessoa não pode ser tratado como algo natural.

Isso tem que ser criticado. Nós não podemos imaginar aquela visão romântica que muitas vezes as pessoas têm da Receita Federal, PF, MPF, do próprio Judiciário, de que todos são isentos, imparciais… Só que essa não é a realidade.

Alguns delegados, auditores, juízes têm postado nas redes sociais algumas coisas que, do meu ponto de vista, estão completamente em desacordo com as suas prerrogativas funcionais.

Alguns exemplos. Delegado da Polícia Federal postar charge do ministro Cardozo na forma de cachorro. Ou na coleira como se fosse a presidência da República. Montagem do presidente Lula algemado. Da presidenta Dilma vestida da palhaça. Ou uma foto de treinamento de tiro ao alvo em que a foto da Dilma é o alvo.

Se agir assim está dentro das prerrogativas funcionais e essas pessoas conduzem as investigações, ok. Então, eu me reservo o direito de condenar. Mas eu quero que o ministro Cardozo me diga que isso está dentro das prerrogativas funcionais dos agentes públicos.

No caso da Zelotes, ao deixar de investigar a linha principal, os agentes públicos – no caso, aqui a Receita Federal – não estariam prevaricando?

Vamos ver o ministro tem a dizer. Uma coisa é certa: a gente não pode aceitar  que existam investigações que interessam e investigações que não interessam pelo fato de não ter cobertura da grande mídia.

Conceição Lemes
No Viomundo
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Por que a Lava Jato é um fracasso

Lava Jato: atua contra um lado só
A Lava Jato fracassou. Ponto. Exclamação.

Para que isso não ocorresse, ela teria que ser percebida, consensualmente, como uma operação apartidária, isenta politicamente e, numa palavra, justa.

Não é o que aconteceu.

A atuação da Lava Jato fez, não por acaso, o juiz Sérgio Moro se tornar ídolo de radicais que vão às ruas pedir o impeachment ou mesmo a intervenção militar.

É comum ver faixas pró-Moro nos protestos.

Também não por acaso, Moro ganhou instantaneamente o apoio empolgado da mídia. A direita protege os seus.

No campo oposto, os progressistas detestam Moro. Mais uma vez, como sempre, não por acaso — mas pelo conjunto de atitudes.

Num país dramaticamente polarizado, Moro é mais um fator de divisão e discórdia.

Entre os progressistas não estão apenas os petistas, é importante dizer. Boa parte dos advogados que nesta semana deram marretadas na Lava Jato — “neoinquisição” foi apenas uma delas — não tem vínculo com o PT.

Muitas coisas contribuíram para que Moro fosse visto como um juiz com lado. Jamais se soube de um só ato seu para investigar e punir vazamentos sempre enviesados, alguns dos quais simplesmente criminosos.

O pior vazamento veio na véspera das eleições, e contribuiu fortemente para a causa de Aécio. Segundo o vazamento, desmentido mais tarde pela realidade crua dos fatos, um delator disse que Lula e Dilma sabiam de tudo do Petrolão.

Isso foi para a capa da Veja, e serviu em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, como peça de propaganda para Aécio e, mais ainda, como um instrumento para tirar votos de Dilma.

O depoimento de Youssef, quando conhecido, mostrou que ele jamais dissera aquilo. Mas a eleição já passara, e esse crime, no qual se associaram vazadores da Lava Jato e a Veja, ficou impune.

Com o correr dos dias, Moro deixou de guardar até as aparências. Aceitou o inaceitável: um prêmio da mídia, especificamente da Globo.

Justiça e imprensa devem manter rigorosa distância para se autofiscalizar, mas Moro simplesmente ignorou isso.

Mais recentemente, aceitou outro convite inaceitável, este da Abril, para ser a estrela de um encontro das editoras de revistas.

Deu um passo além: compareceu a um evento organizado por João Dória, um dos líderes do PSDB em São Paulo. Posou sorridente, sem cerimônia, ao lado de Dória.

Do ponto de vista da simbologia, tudo isso não poderia ser pior. Moro se caracterizou como um soldado não apenas do PSDB mas, mais que isso, da plutocracia.

Em nenhuma sociedade avançada você vê cenas como estas, em que um juiz com tamanho poder confraterniza com a mídia e com um partido em situação tão dramática.

Moro, e com ele a Lava Jato, deixou também a sensação de que fala alto com aqueles que a mídia quer ver triturados e baixo com quem tem poder.

Eduardo Cunha é um caso. Nada aconteceu com ele e a mulher depois que a Suíça forneceu, já há meses, provas espetaculares contra o casal. (Cunha tem privilégios legais indecentes por ser deputado, mas ela não.)

A Lava Jato acabou se caracterizando não como uma operação universalmente contra a corrupção. Mas como uma ação específica contra determinado grupo.

Por isso fracassou. Agisse de forma imparcial, poderia ser respeitada e até admirada.

Mas não foi isso que aconteceu.

Paulo Nogueira
No DCM
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Todos os amigos de Lula


A imprensa não confia na nossa memória e, diariamente, nos informa que o pecuarista José Carlos Bumlai é o “amigo de Lula”. Fez ontem, faz hoje e, por certo, fará o mesmo amanhã. E depois e depois e depois. É inescapável. Talvez Bumlai tenha que incorporar a expressão ao seu sobrenome.
– Bumlai? O amigo de Lula?, indaga o escrivão no cartório.

– Isso mesmo. Ponha aí depois do Bumlai senão ninguém mais irá me reconhecer. Dirão que sou um falso Bumlai, um Bumlai qualquer.

Pela vida afora, Bumlai repetirá personagens também perseguidos pelo seu apodo. Seguirá conduzindo de arrasto as três palavras, como uma cauda de vestido de noiva, um rabicho ostentatório. Após Alexandre, o Grande, Felipe, o Belo e Houdini, o Homem Miraculoso haverá Bumlai, o Amigo de Lula.

Nem a morte evitará o destino. “Morreu Bumlai, o amigo de Lula” estará nas capas, quem sabe em título discreto ao pé nas páginas internas ou, se não houver mais nenhum interesse na figura e na sua amizade com Lula, no necrológio. Comovida, a família mandará gravar no mármore eterno “Aqui jaz Bumlai, o amigo de Lula”.

Se for de morte morrida, haverá boataria de que morreu de desgosto. “Estava no ostracismo, abatido, na pior. Sua mágoa era que ninguém mais o chamava de amigo de Lula”, dirá um parente aos repórteres. No dia seguinte, o país saberá que “Família acusa Lula de esquecer Bumlai, seu amigo”. Se for de morte matada, em seguida seremos informados de que “Lula é suspeito da morte de seu amigo Bumlai”.

Sob o olhar dos hereges, as marteladas midiáticas matinais, vesperais e noturnas seriam somente uma tentativa de enroscar Lula nas atribulações de Bumlai com a Lava-Jato. A obsessão de barrar, nem que seja a tiro, um terceiro mandato de Lula em 2018. Quanta maledicência! É aquela incapacidade jurássica de captar o encanto de uma proposta que casa a informação com a apologia da fraternidade universal. Lula e Bumlai é uma deferência aos protagonistas de estima tão invejável. A cruzada do amor até poderia ter começado antes.

Veja-se, por exemplo, o caso Bush, o George W. Ele gostou do cabeça chata de Garanhuns e ficaram amigos. Quem leu a manchete “Amigo de Lula invade o Iraque e mata 500 mil”? Com aquele seu jeitão expansivo, Lula também virou amigo de Obama. Perdemos a chamada “Drones de amigo de Lula trucidam crianças no Afeganistão”.

Dono de tanta verve e intensidade, tivesse Lula o dom de viajar no tempo e visitar eras passadas seria, do ponto de vista midiático, um dínamo fomentando camaradagens. De volta para o futuro, as manchetes estariam a sua espera: “Nero, amigo de Lula, mata a mãe e põe fogo em Roma”. Ou “Lula convenceu Sócrates, seu amigo, a beber cicuta”. No relato das gazetas, César apunhalado ainda gritará, mão na túnica ensangüentada, outra crispada no ar: ”Até tu, Lula, amigo meu!”

São elocubrações até mesmo porque, aqui e agora, no capítulo das afetividades lulistas resta percorrer extenso caminho. Lula pediu votos para Fernando Henrique Cardoso, então candidato ao Senado em 1978. Foi à rua distribuir santinhos de FHC, algo que só mesmo um amigaço faria. Nestor Cerveró, um dos gargantas profundas da Petrobras, afirma que um poço de suborno perfurado pelo governo FHC jorrou 100 milhões de dólares em jabaculês. Deu-se na aquisição da petroleira argentina Perez Companc. A plebe rude bem poderia ser aquinhoada com a manchete “Amigo de Lula pegou US$ 100 milhões em propina”. A feitiçaria que aprovou a emenda da reeleição custou R$ 200 mil per capita. Os deputados foram adquiridos pelo feiticeiro-mor, operador político, sócio e, sim, amigo de FHC, o então ministro Sérgio Motta. Faltou a manchete “Amigo de Lula, FHC comprou sua reeleição”.

Mas Lula e seu amigo Bumlai devem ser apenas o piloto da série. É lícito aguardar a exaltação de outros chamegos. A começar pelos mais antigos e que resistiram impávidos ao embate dos anos. Aécio Neves e Zezé Perrela são mineiros, cruzeirenses e, sobretudo, amigos de longa data. Egresso do pefelê, agora no PDT, o senador Perrela fecha mesmo é com Aécio. Ternura acima das querelas partidárias. Aécio ajudou o velho Perrela em muitas e profícuas perreladas.

E por Perrela foi ajudado. Era de esperar que, quando 450 quilos de pasta de cocaína foram descobertos no helicóptero de Perrela após incursão ao Paraguai para comprar bugigangas e ouvir guarânias, o populacho tivesse direito à manchete “Amigo de Aécio, Perrela tem helicóptero apreendido com cocaína”.

Porém, o mais instigante despontará quando a imprensa for, ela mesma, magnetizada pela espiral de afeições que engendrou, e descrever seus próprios xodós. “Amigo da RBS, Nardes é suspeito de maracutaia”. Ou “Amiga de Nardes, RBS é suspeita de corrupção”. Quando Médici pensou em alguém para coordenar a imprensa da ditadura foi buscá-lo exatamente onde? Sim, na chefia de redação de Zero Hora. Que, orgulhosamente, anunciou a escolha. Poderia tê-la noticiado assim: “Amigo de ZH, ditador nomeia nosso funcionário para chefiar sua imprensa”.

As Organizações Globo se agigantaram como monopólio a partir do momento em que Costa e Silva chutou um escândalo para debaixo do tapete e arrumou um empréstimo maternal para a empresa comprar a parte dos americanos no acordo Time-Life, aliás pago com propaganda do regime militar. “Amigo da Globo, ditador financia e salva empresa” seria um título justo? Do grupo Folhas, a Folha da Manhã cedia suas camionetes de distribuição de jornais para a polícia política campanar e aprisionar pessoas, depois levadas aos antros de tortura. Seria correto titular “Amiga de Médici, Folha ajuda a prender adversários da ditadura”? Inimigos de Dom Hélder Câmara, o Estadão e O Globo montaram uma bateria de difamações contra o cardeal que, em 1970, era favorito para receber o Prêmio Nobel da Paz. Médici fez o mesmo. Os ataques deram certo e o Brasil, que ganharia seu primeiro Nobel, até hoje não recebeu nenhum. “Amigos da ditadura, jornais sabotam Dom Hélder e impedem Nobel brasileiro” seria uma descrição interessante, não?

Os exemplos seriam infinitos porém, por enquanto, o que cabe é aguardar. Sentar na varanda, cevar um mate, enrolar um palheiro e, pitando, fitar o horizonte à espera do raiar do novo dia. Sem grandes expectativas. Pode ser que a alvorada surpreenda o Cristo Redentor de vestes levantadas e dançando o cancã no Corcovado. Na escala das probabilidades, seria um evento mais plausível. Ao menos se comparado com algumas práticas mais refratárias à mudança do que a solidez do cimento armado. Por isso mesmo, o amanhecer trará algo bastante familiar nas manchetes:

— Amigo de Lula, Bumlai…

Ayrton Centeno
No RS Urgente
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Convocan a nueva manifestación por detención de Milagro Sala en Argentina

Milagro Sala ha denunciado en varias oportunidades que los medios de comunicación de su país han censurado
su lucha
Con la etiqueta #LiberenAMilagrosSalas fue convocada una movilización para este lunes en Plaza de Mayo.

Tras la manifestación que se realizó el sábado en el centro de la Ciudad de Buenos Aires (capital de Argentina) para exigir la liberación de la parlamentaria del Parlasur y dirigente de Tupac Amaru, Milagro Sala, un grupo de organizaciones sociales convocó a una nueva movilización para el próximo lunes en la plaza de Mayo.

La medida de protesta fue convocada para las 17H00 hora local y busca repudiar nuevamente la detención hecha por una denuncia presentada por el gobernador radical de la provincia de Jujuy, Gerardo Morales.



A través de las redes sociales comenzó a llamarse a la población argentina para que se una a esta manifestación con la etiqueta #LiberenAMilagrosSalas.


Por su parte, referentes de la Asociación de Trabajadores del Estado (ATE) de Jujuy anunciaron un paro por 24 horas para el próximo lunes para reclamar la liberación de la dirigente social y el fin de la criminalización de la protesta.

La invitación fue extendida para los sindicatos, las organizaciones sociales, diputados, intendentes de cualquier tendencia política bajo la consigna: Cabildo Abierto por el Trabajo y la Dignidad – Libertad a Milagros Salas.

En contexto

La detención de la diputada del Parlasur Milagro Sala fue dispuesta por la justicia de Jujuy el mediodia del sábado y fue trasladada a la comisaría de la Mujer bajo una orden del juez Raúl Gutiérrez tras ser imputada por supuesta “instigación a cometer delitos y tumultos en concurso real".

Hace varias semanas la dirigente instaló un campamento frente a la Gobernación de Jujuy para rechazar el reordenamiento de la distribución de subsidios a cooperativas planteadas por el nuevo gobierno de Gerardo Morales aliado del partido Cambiemos del presidente Mauricio Macri.

Cambiemos amenazó con quitarle los fondos con los que construyeron sus propias viviendas y urbanizaron sus barrios, desde hace casi una década.

¿Quién es Milagro Sala?

Es dirigente de la Organización Tupac Amaru, diputada del Parlasur y se ha destacado por su lucha social.

Milagro Sala nació en San Salvador de Jujuy (Argentina) en 1954. Es dirigente de la Organización Tupac Amaru, diputada del Parlasur y luchadora social.

En 2014 el papa Francisco recibió en el Vaticano a Sala y a dirigentes de organizaciones coyas, guaraníes y diaguitas. En esa oportunidad, el sumo pontífice ratificó su apoyo a la defensa de los derechos de los pobladores originarios.

Fue detenida este sábado en su residencia ubicada en la capital de la provincia de Jujuy (Argentina) tras un allanamiento y fue trasladada a la comisaría de la Mujer bajo una orden del juez Raúl Gutiérrez. La dirigente es imputada por supuesta “instigación a cometer delitos y tumultos en concurso real".

Recientemente el gobernador Gerardo Morales decretó que las organizaciones sociales que no se reempadronen perderán sus beneficios sociales y su personería jurídica. Milagro Sala y representantes de otras organizaciones se oponen a esta disposición.

El Gobernador de Jujuy ha acusado en varias ocasiones a Sala de un supuesto robo del dinero del Estado pero la dirigente asegura que "Yo no toco ninguna plata de las cooperativas como dice Gerardo Morales. La agrupación tiene más de 100 cooperativas y yo no presido ninguna de ellas".

En varias oportunidades ha denunciado que los medios de comunicación han censurado su lucha. "Hay muchos compañeros que están sufriendo discriminación y hay medios que están tapando esto. Han barrido con todo".

Organizaciones sociales y políticas se manifestaron este sábado en el centro de la Ciudad de Buenos Aires para exigir la liberación de la parlamentaria.


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1.400 jornalistas demitidos em 2015


Enquanto os grandes jornais alardeiam manchetes catastrofistas prevendo uma crise de desemprego este ano no país, foram eles próprios que deram início ao processo no ano passado. Mais de 1.400 jornalistas foram para a rua em 2015, segundo levantamento recente do portal Comunique-se, que compreendeu também o fechamento de vários meios de comunicação no país. As empresas alegaram, naturalmente, cortes orçamentários e reformulações, com maior destaque para a Infoglobo, responsável pelos impressos do grupo Roberto Marinho.

Os jornais O Globo, Extra e Expresso demitiram pelo menos 185 funcionários ao longo do período, sendo 40 jornalistas da redação dos diários cariocas apenas em dezembro. O Diário de Pernambuco foi outro campeão, dispensando 130 funcionários apenas em março de 2015. O grupo Estado de S. Paulo não ficou atrás: somando Rádio Estadão e o jornal Estado de S. Paulo foi irresponsável por 97 demissões em 2015. O grupo Bandeirantes demitiu outros 80. E a Petrobras também entrou na história, já que desempregou nada menos do que 500 profissionais de comunicação, assim como a NBS, que anunciou o desligamento de 40 pessoas em fevereiro do ano passado.

Os meios de comunicação da rede também demitiram. O iG culpou a “atual situação macroeconômica” para dispensar mais 40, em maio. Em agosto, o portal Terra enxugou a redação, demitindo trinta. Entre os jornais, ainda, o Diário da Região deu adeus a 33, a Folha de S.Paulo fechou 19 postos de trabalho e a Gazeta do Povo, de Curitiba, PR, despediu 11 jornalistas. Ao Estado de Minas e ao O Tempo, de Belo Horizonte, MG, coube a contribuição de mais 26 jornalistas na rua.

Fechamento de revistas e demissões na TV

O grupo Abril e as revistas. O grupo Abril, de Veja e outras, fechou o ano com 60 demissões de jornalistas. A editora priorizou o formato online e encerrou a versão impressa das revistas Veja BH e Veja Brasília. Em junho, a Placar, editada há 45 anos pela Abril, foi transferida para a Editora Caras, acompanhada de títulos como Anamaria, Arquitetura & Construção, Contigo, Tititi, Você RH e Você S/A, o que implicou em dezenas de cortes, mesmo porque os impressos de Exame PME e Capricho foram encerrados e as marcas passaram a ser trabalhadas apenas no ambiente virtual. Há pouco mais de um mês, a Abril também anunciou o encerramento de três revistas licenciadas: Men’s Health, Women’s Health e Playboy, além da transferência dos títulos Nova Escola e Gestão Escolar para a Fundação Lemann.

A ESPN Brasil dispensou mais de 30, em outubro. Também em veículos televisivos, a TV Escola e o SBT enfrentaram problemas e demitiram, respectivamente, 50 e 46 funcionários. Os jornais A Tarde e Massa, do mesmo grupo de comunicação, promoveram a demissão de ao menos 35 profissionais de suas redações no início de dezembro. Há menos de duas semanas, o Jornal de Londrina, PR, foi fechado e mais de 12 jornalistas perderam seus empregos.

Zulcy Borges é jornalista
No OI
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Chatô e os chatôzinhos

Ele fundou um estilo de jornalismo. O de hoje imita seu gangsterismo. Não sua inteligência

Morais: Chatô humilhou a plutocracia paulista, mas conseguiu que ela bancasse o primor que é o Masp
Enquanto o escritor e jornalista Fernando Morais, 69 anos, dava esta entrevista a CartaCapital, chegou à casa dele um reparte da novíssima edição de Chatô, a biografia do magnata das comunicações Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello (1892-1968). “É por causa do filme”, comentou.

O Chatô de Morais, publicado em 1994 pela Companhia das Letras, inspirou o filme dirigido por Guilherme Fontes – mais do que isso uma atormentada saga cinematográfica que se prolongou por 20 anos até seu recente lançamento. Aqui, Fernando Morais traça um revelador retrato da mídia nativa, a de antes e a de hoje. 

O que mudou na imprensa desde os tempos de Assis Chateaubriand?

Na essência, não mudou nada. A mídia — e, para não ficar repetindo isso o tempo todo, ressalvo as exceções que nós conhecemos — continua sendo um instrumento exclusivamente dos interesses econômicos e políticos do dono.

O que não seria muito grave no caso de jornal e revista, porque são propriedade privada — e aí seria outra discussão. Mas é um acinte que isso aconteça em veículos eletrônicos, o rádio e a televisão, que são concessão pública.

Qual é a diferença que a gente vê entre os impérios midiáticos de hoje e o do Chatô? A personalidade do Chateaubriand. O caráter diabólico que ele tinha. Ao mesmo tempo que era capaz do pior gangsterismo, ele deixou o legado do melhor museu de arte do Hemisfério Sul, o Masp.

Gangsterismo? Por exemplo.

Mandou capar a tiros um sujeito com quem ele tinha uma dívida. Era Oscar Flues, grande importador de máquinas de São Paulo. Oscar vendeu a dívida para o Getúlio (Vargas) quando Chatô estava preso, por ter aderido à Revolução de 1932.

Getúlio comprou a dívida e tomou um jornal de Chateaubriand. Tão logo foi solto, Chatô despachou o Amâncio para São Paulo, com o retratinho do Flues na mão, e, bom capanga dos anos 30, o Amâncio ficou de tocaia, chapéu enfiado na cabeça. O Oscar morava no casarão que é hoje a sede do Iate Clube de Santos, em Higienópolis.

Parou o carro, o filho desceu para abrir os portões, o Amâncio abriu a porta, enfiou o revólver entre as pernas do Oscar, atirou duas vezes e foi embora. Uma barbaridade. Não havia nenhuma razão nobre ou política para aquilo.

Nos seus 11 mil artigos, o retrato de um
homem sofisticado. No ofício da notícia, o
pioneiro de uma trapaça sem limites
Reprodução
Então, Chateaubriand estava do lado dos paulistas em 1932. Tinha aquele discurso de defesa da democracia?

Em parte por isso, mas o que pesava mesmo era a relação freudiana com o Getúlio. Do dia em que se conheceram até a hora em que ficou sabendo que Getúlio tinha dado um tiro no coração, a relação foi de amor e ódio, amor e ódio, o tempo todo. Eram personalidades vibrantes, magnéticas, como não existem mais.

Insisto: o sujeito que mandava capar um credor montou o maior museu do Hemisfério Sul. Que é propriedade pública, não é dos filhos do Chatô. Não é do Gilberto, não é da Terezoca e dos filhos da Terezoca. É meu, é seu. Sua empregada, o porteiro do prédio podem ir lá ver um raro Rembrandt. Nenhum magnata da mídia atual é capaz de oferecer ao País uma coisa da importância do Masp, sem falar dos aeroclubes que Chateaubriand espalhou pelo Brasil.

Obrigava os milionários a doar aviões. Porque achava que um país deste tamanho você só iria conquistar pelo ar, não adiantava construir estrada de ferro ou rodovia que fosse de São Paulo para Manaus. Mas não era um santo.

Interessante esse tema: herança. O que a gente vê por aí, nos veículos da grande imprensa, é o que Mino Carta chama de sucessão por direito divino. Famílias da oligarquia que vão ficando no comando. Quase sempre depredando o patrimônio que herdaram.

É o que a gente está vendo aí. O Chateaubriand inventou uma coisa maluca, deixou todos os veículos que tinha para um condomínio de empregados. Todos eram funcionários. Mas a diferença principal do Chateaubriand para os atuais donos de jornais me veio à cabeça com a leitura deste livro do Fernando Henrique Cardoso, Diários da Presidência.

Nele, Fernando Henrique conta, não sem certa empáfia, que dois jornalistas da Folha escreveram no jornal — não dá para entender se artigo ou reportagem — textos que o deixaram indignado. Passou a mão no telefone e ligou para o senhor Frias (Octávio Frias). Reclamou, disse que era inadmissível. O senhor Frias respondeu: “Não se preocupe, presidente. Pode dormir em paz que eu vou obrigar os dois a engolir os artigos”. No dia seguinte, os dois tiveram de escrever um mea-culpa, “desculpa, não foi bem assim”. 

E com o Chatô, como era?

Esse tipo de ameaça o Chateaubriand sofreu várias e várias vezes. Por parte do presidente da República, de ministros, de militares. Respondia sempre da mesma maneira: para poder mandar aqui dentro dos meus jornais, de minhas revistas, tem de se responsabilizar pela folha de pagamento no final do mês.

Se o senhor quiser assumir a folha de pagamento, pode demitir repórter, contratar, mudar texto. E o que valia para fora valia para dentro também. Lembro o caso do David Nasser, que era o monstro sagrado de O Cruzeiro, revista que vendia 700 mil exemplares quando o Brasil tinha 30 milhões de habitantes e 50% de analfabetos, e não havia assinatura, você tinha de ir à banca. Um dia, o David fez um artigo contra o Juscelino, então presidente.

O Chatô estava se arrumando para uma festa, tirando alfinete de uma camisa de smoking novinha em folha — a cena é muito engraçada, aconteceu no escritório dele no O Jornal. Chega o David e o Chatô diz: “Que merda é essa, David, de falar mal do Juscelino na sua coluna?” O David respondeu: “Mas, doutor Assis, é minha coluna, tem meu nome lá em cima, é minha opinião”. Chateaubriand respondeu: “Se quiser ter opinião, monta um jornal só para você; na minha revista você defende a minha opinião”.

É a noção que a mídia hegemônica ainda tem hoje de liberdade de imprensa, não é? 

Essa clareza, essa sinceridade do Chateaubriand não existe mais. Se o presidente da República reclamava, como fez o Fernando Henrique, ele dizia: “Se quiser mexer nos meus editoriais, tem de pagar a conta no fim do mês”. O mesmo valia para a redação. Rubem Braga trabalhava em Belo Horizonte para o Estado de Minas e escrevia crônicas semanais.

Numa delas desceu o cacete na Igreja da Espanha, que estava apoiando Francisco Franco. Estamos falando, portanto, de 1936, 1937, durante a Guerra Civil. Aí, dom Antonio dos Santos Cabral, o rígido arcebispo de Belo Horizonte, fez uma homília, a ser distribuída em todas as suas paróquias, dizendo que os Diários Associados eram inimigos da família católica e que as pessoas não tinham mais que assinar o Estado de Minas. Imagina a força da Igreja em Minas Gerais 80 anos atrás.

Em 1964, a imprensa fomentou o golpe. Em 2015, as redes sociais fazem o contrapeso
Reprodução
Chatô soube disso, passou a mão no telefone, ligou para o Gegê (Geraldo Teixeira da Costa, diretor do jornal). Disse: “Senhor Gegê, descobri que dom Cabral, quando moço, estuprou a irmã várias vezes. Quero uma reportagem enorme sobre isso”. Passa um dia, dois, cinco, uma semana, duas semanas depois. Chatô, furioso, ligou cobrando a matéria.

Gegê, constrangido, argumentou: “Doutor Assis, botei o melhor repórter, mas tem aí um problema. Descobrimos que dom Cabral é filho único, não tem irmã”. Resposta do Chateaubriand: “Isso não é problema meu nem seu, senhor Gegê. Isso é um problema do dom Cabral. Ele que explique depois”. 

Se a verdade atrapalhar o que se quer dizer, esqueça-se a verdade. Ainda se pratica muito isso.

Muito, muito. E com mais hipocrisia. É o avesso do que deveria ser o jornalismo. Tenho 50 casos como este, a propósito do Chatô. Acho que, se o livro fez sucesso e o filme faz sucesso, é porque o Guilherme (Fontes, o diretor) soube ler o personagem.

Que na verdade não é só um, são vários. Dá para fazer Chatô II, Chatô III, Chatô, a Volta. Não tinha limites no usufruto do poder. Mas não buscava enriquecer. Não tinha muito dinheiro. Uma casa boa em São Paulo, outra na Rio — só. Achava que dinheiro era coisa de pobre.

Nos anos 30, 40, havia mais debate na imprensa, não havia? Não era essa tirania do pensamento único.

Pelo menos não era monolítico. Em todos os estados havia jornais locais que não eram tão grandes quanto os jornalões, mas que faziam oposição, crítica, deboche. E havia também muita imprensa operária, de sindicato. Não existe mais, ou pelo menos a gente não tem acesso.

O direito de emitir opiniões estava à disposição de quem quer que seja. Mas aí começam os grandes impérios da mídia, e o do Chateaubriand é o primeiro. Era tão maquiavélico que em cada lugar tinha um jornal sério e um jornal de escândalo, de polícia. Em São Paulo, Diário de S. Paulo e Diário da Noite. No Rio, O Jornal e Diário da Noite. Em Minas, Estado de Minas e Diário da Tarde.

Um jornal de sangue e um jornalão de opinião. Tinha uma revista nacional, O Cruzeiro, que, proporcionalmente, tinha uma tiragem dez vezes maior do que qualquer uma hoje. Tinha rádio bombando, a televisão começando.

Chatô (Marco Ricca) e Getúlio (Paulo Betti) no filme de Guilherme Fontes: relação de amor e ódio
Reprodução
Era um homem inteligente, não é? Faz contraste gritante com os chatôzinhos de hoje.

Diabolicamente inteligente. Falava mal quatro idiomas, o único que falava bem era o alemão, cantava Noite Feliz em alemão no dia do Natal. Um sujeito sofisticado, você vê pelos 11 mil artigos que escreveu ao longo da vida. Um personagem 100% brasileiro, com fumaças de genialidade, esse lado dele incontrolável, sedutor, sua paixão pelo poder.

Antes da eleição do Dutra (general Eurico Gaspar), em 1945, Adhemar de Barros foi ao escritório de Chatô, no Rio, querendo convencê-lo a ser candidato à Presidência. Ele respondeu: “Não tem a menor graça, o bom não é ser presidente, o bom é que, para o cara ser presidente, ele tem de bater naquela porta, pedir para entrar, tirar o chapéu, sentar aqui e perguntar se pode ser candidato à Presidência”.

A porta a bater mudou de endereço, mas continua existindo, não é?

É, nisso ele deixou uma herança ruim para nós. Boa parte desses maus costumes da nossa mídia vem de lá. Depois de assistir ao filme de Guilherme Fontes, um crítico afirmou: “Isso não é sobre o Chateaubriand, o Brasil dos anos 50, é o Brasil de hoje”. Você apenas troca as figuras, o enredo é o mesmo. 

Um nordestino que teve a ousadia de peitar a plutocracia paulista.

Peitou, não — humilhou. Você pode imaginar o doutor Julinho Mesquita botando um chapéu de cangaceiro por imposição do Chatô?

A tal Ordem do Jagunço, que ele inventou...

É, se botou no Churchill, por que é que não iria botar num Mesquita? Os Ermírio de Moraes penaram na mão dele. Certa vez, Chatô entrou no estúdio e invadiu uma novela — não tinha videotape, era ao vivo — para ameaçar: “O senhor Ermírio de Moraes, eu preciso educar esse sujeito com surras de rabo-de-tatu”. Fazia o diabo. O que fez com o conde Chiquinho Matarazzo...

Em 1964, a mídia, inclusive o Chateaubriand, se juntou e entrou no golpe, com a solitária exceção da Última Hora do Samuel Wainer. Hoje, ela continua flertando com o golpe. Mas tem o mesmo poder dos anos 60?

Toda ela aderiu ao golpe. Em relação aos dias de hoje, tenho uma opinião um pouco herege para uma pessoa de minha idade e de minha formação. Sou um jornalista do papel, meu mundo era o Jornal da Tarde — sonho de todo grande jornalista, assim como foi a Realidade e, antes, o Jornal do Brasil.

Estou convencido de que jornal e revista no formato de hoje acabaram. Televisão volta a ser um eletrodoméstico, uma tela, o conteúdo vai estar no seu celular. Veja o Jornal Nacional, a audiência da Globo — está desabando. O Boni disse um dia desses: “Esses caras perderam o juízo”. Não vejo em que o jornalismo que se faz no Brasil possa seduzir as novas gerações.

Se tivesse de escolher uma epígrafe para esta entrevista, seria um versinho profético do Gilberto Gil, de 1967, na música chamada Domingou: O jornal de manhã chega cedo/ mas não traz o que eu quero saber/ As notícias que leio/ já sabia mesmo antes de ler.

Nirlando Beirão
No CartaCapital
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Metamorfoses

No seu livro “Fantastic Metamorphoses, Other Worlds”, a inglesa Marina Warner lembra que Platão encerra a sua “República” com a descrição que Sócrates faz dos heróis de Homero escolhendo suas vidas futuras, ou os seres que suas almas habitarão depois da morte. Orfeu escolhe voltar como um cisne; Ajax, um leão; Agamenon, uma águia.

Muitos preferem reencarnações de acordo com o seu passado. O corredor Atalanta quer voltar como atleta. O construtor do Cavalo de Troia quer ser uma artesã, com o mesmo ofício, mas outro sexo. Um bufão escolhe voltar como macaco. Etc.

Mas Ulisses, herói maior da Odisseia, prefere voltar como um homem comum. A alma de Odisseus escolhe o ser que os outros desprezaram para ocupar em sua outra vida. Um bicho simples, um anti-Ulisses que nenhuma aventura tirará de casa.

Quem acredita em reencarnação e pesquisa sobre suas vidas passadas geralmente descobre que foi, se não um herói homérico, nunca menos do que um faraó, uma rainha ou um artista famoso. Ninguém admite ter sido um piolho ou uma faxineira em Versalhes. E todos têm um consolo para a sua atual condição: ela não passa de uma etapa, uma transição entre um grande personagem e outro, fazendo estágio como apenas ele.

O mito socrático introduz a ideia de que se pode escolher nossa próxima vida (primeirão massagista de miss) mas o que fascina é a opção de Ulisses pela mediocridade reconfortadora, pela pacatez como um refúgio.

Ulisses não quer ser mais ninguém, quer ficar a salvo da vida e da História. Ao contrário de quem não se conforma de não ter sido alguma coisa mais do que é em algum lugar do passado, ele opta por não ser nem Ulisses nem coisa parecida, no futuro.

O livro de Marina Warner é sobre transformações a partir do poema “Metamorfoses”, de Ovídio. Transformação como recurso literário, presente em todo tipo de narrativa desde os primeiros mitos até o realismo fantástico, e transformação como mágica e mistério, na outra história da humanidade que coexiste com a história racional, ou em outras feitiçarias além das judaico-cristãs.

O trecho que cita Ulisses é uma digressão sobre a transmigração das almas, a metamorfose final, mas gostei da ideia do nosso herói pedindo apenas descanso para a sua. Afinal, toda a “Odisseia” não passa da história de alguém não querendo outra coisa a não ser voltar para os braços da patroa.

Luís Fernando Veríssimo
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Israel impede palestinos de participarem do Fórum Social


Militantes e ativistas palestinos, convidados para o Fórum Social Mundial Temático, que acontecerá de 19 a 23 de janeiro em Porto Alegre, são impedidos de viajar ao Brasil pela intensificação do bloqueio de Israel na cidade de Hebron, na Cisjordânia. A denúncia foi feita em nota, assinada pela organização do FSM Temático, e divulgada nesta sexta (12) no site do encontro.


As entidades que organizam o Fórum demonstram preocupação e afirmam que desde o ano passado recebem notícias de “violência e seguidos assassinatos”, principalmente de jovens e adolescentes, na cidade de Hebron.

Segundo a nota do FSM Temático o objetivo das ações de Israel é que os moradores abandonem as cidades para permitir o avanço, cada vez mais violento, dos assentamentos ilegais israelenses.

Leia na íntegra a nota do Fórum Social Mundial Temático
NOTA DE REPÚDIO – PALESTINOS IMPEDIDOS DE VIAJAR AO BRASIL

É com indignação e grande preocupação que as organizações que promovem o Fórum Social Temático FSM 15 Anos, em Porto Alegre, são obrigadas a informar que palestinos convidados para o encontro foram impedidos de viajar ao Brasil, barrados pelo violento fechamento da cidade de Hebron, na Cisjordânia, e agravamento da repressão em toda Palestina ocupada pelas forças israelenses.

Desde outubro de 2015, recebemos notícias do bloqueio, cerco militar, controle, cadastramento forçado, humilhação, violência e seguidos assassinatos, principalmente de jovens e adolescentes, na histórica cidade palestina de Hebron e a transformação de áreas importantes para a população local, como Tel Rumeida and Shuhada Street, em zonas militares fechadas , sem que as mesmas restrições ocorram para os colonos israelenses, que circulam livremente.

Os palestinos denunciam a imposição de “punição coletiva”, por Israel, à população de Hebron, como forma de levá-la à exaustão para que habitantes abandonem a cidade onde os assentamentos ilegais israelenses avançam com violência extrema.

Nas áreas visadas no atual processo de isolamento, foram erguidos bloqueios de sucata, tijolos, cimento, tanques e homens armados que ameaçam e atacam moradores e radicalizam um cerco de terror que tem origens no massacre da Mesquita de Ibrahimi de 1994. Em fevereiro daquele ano, um colono vindo do Brooklin entrou na mesquita durante o Ramadan e abriu fogo matando 29 e ferindo dezenas, até ser contido e morto pela população. Em resposta, nos dias que se seguiram, as forças israelenses atacaram e mataram dezenas de civis palestinos que protestavam contra o massacre na mesquita.

Punições coletivas, um crime tipificado pelas convenções internacionais, são empregadas com frequência pelo Estado de Israel. Enquanto o governo e as instituições israelenses convidam parlamentares, artistas e figuras de visibilidade no exterior para visitas e conferências em suas universidades, para transmitir uma imagem de normalidade nas relações da ocupação, jovens feridos por seus soldados são deixados a sangrar nas ruas, sem permissão de acesso do socorro médico. Observadores internacionais são impedidos de entrar para testemunhar o massacre, rádios palestinas são fechadas para não emitir pedidos de socorro, e ativistas são impedidos de prestar assistência.

Integrantes do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial e da Frente em Defesa do Povo Palestino no Brasil participaram, no ano passado, de uma Missão Humanitária à Palestina, mas dois brasileiros de sobrenome árabe não puderam entrar, e todos os(as) demais tiveram acesso negado à Faixa de Gaza, massacrada no ano anterior até a destruição total de sua infraestrutura. Testemunharam, no entanto, as condições intoleráveis da vida na Cisjordânia ocupada, o avanço dos assentamentos ilegais, o controle ostensivo da cidade de Hebron, a resistência incansável do povo palestino.

Denunciamos e cobramos todos os esforços da comunidade internacional, em particular das autoridades brasileiras, para que se posicione pelo fim imediato da ocupação da Palestina, pela retirada das forças ostensivas da cidade de Hebron, pelo socorro imediato às vítimas da repressão, pela reconstrução da Palestina livre.

Reafirmamos nossa firme adesão à campanha BDS, de Boicote Desinvestimento e Sanção a Israel até que a ocupação tenha fim, e manifestamos nossa firme solidariedade ao povo palestino, aos integrantes do Conselho Internacional e do processo FSM isolados em Hebron, ao pesquisador e coordenador do Centro Alternatives na Cisjordância, Ahmad Jaradat, e ao diretor do Centro de Criatividade do Professor na Palestina, Refat Sabbat, e a todos os representantes das organizações da sociedade civil Palestina que repetidamente tem sido impedidos de viajar para relatar ao mundo a realidade da ocupação.

Até que a Palestina seja livre!

Organizações participantes do Fórum Social Temático FSM 15 Anos, Porto Alegre, 15 de Janeiro de 2016
No Vermelho
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Porque o sionismo é uma forma de racismo


Por sugestão do doutor Laudauer, eu fui à Iena em 08-11 para encontrar o professor Hans Gunther, fundador da teoria da raça nacional-socialista. A conversa durou duas horas. Gunther foi muito amistoso. Declarou não ter direito de autor sobre conceito de arianismo e concordou comigo sobre o fato de os judeus não serem inferiores, mas diferentes, e que era preciso resolver o problema com decência.(RUPPIN, Arthur. Diário pessoal. 1933)

Grosso modo podemos dizer que existem dois tipos de nacionalismos: o cívico e o étnico. Brasil, Estados Unidos e Itália, por exemplo, são nacionalismos cívicos, que independem da origem étnica de seus cidadãos. Já os nacionalismos eslavos, turco e chinês (han) têm forte componente étnico. Mas, mesmos tais nacionalismos, com a derrocada do nazismo, se viram obrigados a abrandar seu discurso étnico, mesclando-o com aspectos típicos dos nacionalismos cívicos.

Curiosamente, um dos únicos nacionalismos étnicos que não abrandou seu discurso, mas, pelo contrário, acentuou suas características raciais, foi o judaísmo sionista (cuja origem está profundamente relacionada ao germanismo do século XIX). Ora, a pretensão racial do judaísmo é não apenas recente como uma fraude (como a rigor qualquer pretensão à identidade racial de um povo).

Até a primeira metade do século XIX, a identidade judaica estava basicamente relacionada a uma crença religiosa e a cultura construída no entorno desta crença. No campo das relações sociais, um judeu alemão teria muito mais pontos de identidade com um alemão protestante do que com um judeu marroquino, por exemplo. Mas, o crescente racismo dos nacionalismos europeus empurrou os judeus a criarem seu próprio nacioanalismo étnico, que, como todos os demais, está alicerçado na fralde de um mito de origem.

A simples análise dos fenótipos ashkenazi e sephardi ajuda não apenas a desmitificar a ideia de que todos possuem a mesma origem racial como, pelo contrário, aproxima-os de seus lugares de origem. Porque ou aceitamos a hipótese de que judeus possuem um incrível poder mimético ou é óbvio que o fenótipo dos ashkenazi é bem mais parecido com o dos povos do centro e leste europeu do que com os judeus sephardi (que, por sua vez, têm fenótipo típico de berberes e dos povos do entorno do Mediterrâneo).

(Aqui vale lembrar que há, inclusive, uma forte hierarquia racial não explícita que divide ashkenazi de sephardi como se pode ver, por exemplo, nessa matéria do Haaretz.)

Ao contrário do que defende o mito, não teria havido uma diáspora de todo o povo judeu, o que faz acreditar que muitos dos atuais palestinos sejam descendentes de antigos hebreus. Mas, principalmente, boa parte dos atuais judeus é descendente de fortes movimentos de conversão, que o mito de origem busca esconder. Sobre isso, vale a pena ler o que nos escreve o professor da Universidade de Tel-Aviv, Shlomo Sand (leia aqui).

O problema é que questionar a identidade racial do povo judeu termina por questionar o direito de retorno. Ora, se um judeu polonês não é descendente dos hebreus, que direito ele teria de reivindicar terras na Palestina? Sem o componente racial, simplesmente não haveria Israel, mas um estado como outro qualquer, formado pelas pessoas que nascem naquele local.

(Não é o objetivo desse texto, mas, mesmo que houvesse uma identidade racial entre os atuais judeus e os antigos hebreus, é uma loucura que alguém reivindique o direito a terras ocupadas por seus antepassados há quase dois mil anos. Se aplicada a todos os povos, mudaria completamente a geopolítica do planeta.)

Esse componente racista está na origem da diferenciação fática (mas, também em vários casos, de base legal) que o Estado de Israel promove entre judeus e não judeus, impedindo a constituição de uma democracia de verdade. É também essa concepção racista que causa a confusão entre o boicote ao Estado de Israel e um suposto boicote a judeus, que são coisas totalmente diferentes.

Portanto, é uma das tragédias de nosso tempo que a resposta ao racismo anti-semita tenha sido o racismo sionista e que ambos compartilhem o mito de uma identidade racial do povo judeu, como demonstra a concordância entre Hans Gunther e Arthur Ruppin.

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A invenção do povo judeu


É claro que não é na educação do homem que se deve procurar a origem do sentimento nacional, mas em algo que a precede. Em que? Meditei longamente sobre essa questão e respondi: no sangue. E persisto nessa opinião. O sentimento da identidade reside no ‘sangue’ do homem, em seu tipo físico e racial e apenas aí. () O tipo físico do homem reflete sua estrutura mental de maneira ainda mais total e perfeita que o estado de espírito individual. () É o porquê de não crermos na assimilação espiritual. É fisicamente impossível que um judeu, nascido várias gerações de país de sangue judeu livre de qualquer miscigenação, se adapte ao estado de espírito de um alemão ou de um francês, assim como é impossível para um negro deixar de ser negro. (JABOTINSKY, Ze’ev. Carta sobre o autonomismo. 1936)

Minha mulher é cristã e protestante e, segundo minha educação, eu me oponho evidentemente a toda coerção em questão de sentimentos e, nesse caso, prefiro o humano ao nacional. Mas, hoje sou da opinião de que é preciso dar prioridade ao nacional e considero que os casamentos mistos não são de forma alguma desejáveis. Se eu tivesse conhecido hoje minha esposa, se eu a tivesse conhecido nos últimos 18 meses, teria combatido de todas as minhas forças qualquer inclinação afetiva por ela, dizendo-me que como judeu não poderia me permitir ser subjugado por meus sentimentos.(NORDAU, Max. Carta a Theodor Herzl. 1898)

Por sugestão do doutor Laudauer, eu fui à Iena em 08-11 para encontrar o professor Hans Gunther, fundador da teoria da raça nacional-socialista. A conversa durou duas horas. Gunther foi muito amistoso. Declarou não ter direito de autor sobre o conceito de arianismo e concordou comigo sobre o fato de os judeus não serem inferiores, mas diferentes, e que era preciso resolver o problema com decência.(RUPPIN, Arthur. Diário pessoal. 1933)

Há certas coisas que não podem ser ditas por um goy, sob pena deste ser imediatamente acusado de antissemitismo. Justamente por isso, merecem todo nosso respeito a coragem e a erudição do judeu-austríaco Shlomo Sand, em seu livro “A invenção do povo judeu”, publicado no Brasil pela Saraiva, em seu selo Benvirá. Sand nasceu em 1946 nos acampamentos de refugiados judeus da Áustria, tendo se mudado com seus pais para Israel em 1948 (onde combateu pelo exército de Israel durante a Guerra dos Seis Dias) e atualmente é professor de História Contemporânea da Universidade de Tel-Aviv. Sob nenhuma hipótese, portanto, pode ser considerado um antissemita.

No livro, Sand utiliza uma profusão impressionante de fontes históricas para questionar as duas ideias centrais sobre as quais se ergue o moderno Estado de Israel. Em primeiro lugar, a queda do Segundo Templo, em 70 d.c., não teria gerado uma diáspora de todo o povo judeu, que só voltaria a pisar na Terra Santa a partir do advento do sionismo e mais particularmente da fundação de Israel. Em segundo lugar, os atuais judeus não são um “povo puro”, herdeiros de sangue de Abraão, Davi e Salomão. Não haveria, portanto, um “gene judeu” (como curiosamente defenderam tanto nazistas quanto sionistas).

Na primeira parte do livro, Sand produz uma profunda análise do conceito de “nação”, demonstrando como se trata de uma idéia recente na história da humanidade, ditada por imperativos surgidos com o advento do capitalismo e que representou a tentativa de uniformização de culturas até então bastante plurais (muitas vezes também contraditórias e conflitivas). Cada Estado-nação precisou, então, criar seus mitos de origem, buscando justificar o presente a partir de um passado mitológico e uniforme. Mas, o autor também busca explicar (sem que se encontre uma causa única e suficiente) o surgimento de dois tipos distintos de “nações”. De um lado, aquelas de caráter cívico-político (como os Estados Unidos, Reino Unido, França, Itália e o próprio Brasil). De outro, aqueles de caráter étnico-racial (como a Alemanha, Rússia, Polônia e Sérvia). Sand não deixa de registrar que o sionismo surge, no século XIX, no mesmo ambiente cultural que criou também o germanismo étnico-racial.

Na segundo parte do livro, o professor Sand se concentra na formação do Estado de Israel e nas estratégias utilizadas (tanto na pesquisa acadêmica, quanto em sua vulgarização no ensino escolar e na mídia) para criar um imaginário que fosse capaz de recuar sem rupturas até um passado milenar. Em alguns casos, a literatura sionista chega a falar de um mesmo povo (uma mesma cultura, uma mesma raça, uma mesma religião) existindo puro e imaculado pelos últimos 4 mil anos!

Na terceira parte, o autor se propõe a analisar criticamente a história dos judeus na atual Palestina. Primeiro, fica demonstrado como, sob o manto do monoteísmo, havia uma cultura em profunda ebulição. Sand demonstra como o o judaísmo foi profundamente influenciado pela cultura e o ambiente socioeconômico do helenismo e como a queda do Segundo Templo, embora tenha representado a perda de autonomia política e uma forte emigração (especialmente daqueles feitos escravos e prisioneiros), não despovoou a Palestina de judeus, tendo a grande maioria continuado a viver em seus vilarejos natais (o que significa que seus descendentes são aqueles que foram posteriormente islamizados e hoje estão entre os moradores dos territórios ocupados… ó profunda e triste ironia). Mas, principalmente, Sand contraria a idéia de que os judeus jamais desenvolveram práticas de proselitismo e conversão. Ao contrário, não apenas a monarquia dos hasmoneus teria promovido uma política de conversão em massa das tribos vizinhas, como foi a disseminação do proselitismo judaico que preparou o terreno cultural, entre os povos governados por Roma, para as futuras expansões dos monoteísmos cristão e muçulmano.

A quarta parte busca estudar a expansão do proselitismo judaico nas franjas das expansões árabe e cristã. Assim, tomamos contato com o reino judeu de Adiabena, no crescente fértil, e com os himiaritas, no atual Iêmen. Mas, principalmente, e aqui talvez repouse a parte mais polêmica do livro, Sand defende que os judeus sefarditas são, em sua grande maioria, descendentes de tribos berberes e fenícias judaizadas (que chegaram na Espanha com a invasão muçulmana). Assim como os judeus asquenazis (o povo do iídiche, vindo da Rússia, Polônia, Ucrânia, Lituânia, Hungria, República Tcheca, Eslováquia e outros países do leste europeu), são, em sua maioria, descendentes do reino turco-asiático dos khazares, que se converteram em massa ao judaísmo para se defenderem culturalmente do Império Abássida (muçulmanos) e de Bizâncio (cristãos), seus vizinhos pouco amigáveis. Essas culturas convertidas teriam se mesclado, ao longo dos séculos, tanto com judeus da diáspora quanto com membros dos povos autóctones, formando novas e múltiplas culturas judaicas.

A quinta e última parte retoma o debate sobre o projeto político sionista, sua origem no mesmo caldo cultural que gerou o germanismo e como, a fim de unificar diferentes culturas judaicas, dispersas em vários continentes, o sionismo teria lançado mão de uma explicação biológica: o infame “gene judeu”. Assim, assistimos assustados ao surgimento de um discurso racista, que no início do século XX media crânios e hoje pesquisa alelos em cromossomos para determinar o grau de pureza da raça judaica. Atualmente, muito dinheiro é investido em laboratórios de biologia genética em Israel e nos Estados Unidos para tentar “provar” que, na história judaica, jamais existiram berberes, fenícios e khazares, sendo todos (os morenos sefaraditas e os loiros asquenazis) descendentes “puros” de antigos súditos do reino de Judá. Ao mesmo tempo em que se torna imperioso para a defesa do Estado de Israel “provar” que os atuais palestinos não passam de invasores daquelas terras.

O livro de Sand produz, ao final, dois efeitos aparentemente contraditórios. De um lado, fica evidente o caráter colonialista e racista do sionismo (mesmo quando defendido por membros da “esquerda” judaica), especialmente ao construir um novo regime de apartheid. De outro lado, desprovido do sionismo, a história do povo judeu nos surge muito mais rica, instigante e saborosa, refletindo multiplicidades de povos e culturas no interior de uma mesma crença capaz de sobreviver às mais cruéis perseguições, e não mais um povo excluído e excludente, vivendo às margens da história. É impossível não ver em Shlomo Sand um judeu em busca da libertação de seu povo, ainda que, dessa vez, se trate da libertação frente ao projeto sionista. Alegra-nos, portanto, ler, na “orelha” do livro, que esta obra ficou 19 semanas na lista dos mais vendidos em Israel, em 2008.

Que este livro possa, então, germinar em solo fértil e contribuir (excesso de otimismo?) para o surgimento, no futuro, de um único Estado onde vivam, em igualdade de condições, judeus-israelenses, palestinos e todos aqueles que por lá escolherem fazer a sua morada. Se ainda estamos (infelizmente) no âmbito civilizatório dos Estados-nação, que pelo menos estes o sejam de caráter cívico-político e não mais étnico-raciais.

Sugestão de leitura:

“Imagem e realidade do conflito Israel-Palestina”, de Norman Finkelstein. Editora Record. http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=3178179&sid=89601615114618495612053

“Os khazares: a 13° tribo e as origens do judaismo moderno”, de Arthur Koestler. http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=853002&sid=89601838914622498438499811

“A Threat from Within: A History of Jewish Opposition to Zionism”. Yakov Rabkin. http://www.amazon.com/Threat-Within-History-Opposition-Zionism/dp/1842776991




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Leia também: Como foi inventado o povo judeu
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John Pilger - A Palestina continua sendo a questão


Documentário de John Pilger que retrata a vida de sofrimento e humilhação do povo palestino nos territórios ilegalmente ocupados pelas forças militares do estado sionista de Israel. Ao final, John Pilger repete as perguntas que o grande arcebispo anti-apartheid Desmond Tutu havia feito pouco tempo antes: "Será que os judeus esqueceram em tão pouco tempo o sofrimento, a humilhação e as mortes que seus antepassados padeceram há apenas duas gerações? Por que eles agora estão praticando contra o humilde povo palestino atrocidades semelhantes às sofridas por seus antepassados nas mãos dos nazistas?" Boas perguntas, mas que continuam sem respostas.

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A vigência do pensamento político de Rosa Luxemburgo

Numa época onde as mulheres tinham pouco acesso ao mundo acadêmico, Rosa Luxemburgo
 pode frequentar a universidade e obter um doutorado
Sua luta antibélica e suas propostas teóricas sobre o capitalismo e imperialismo a posicionaram como uma das melhores revolucionárias do século XX.

Em 15 de janeiro de 1919 a voz de Rosa Luxemburgo foi silenciada após ser torturada e assassinada junto a outros ativistas em Berlim. Seus corpos foram lançados a um canal.

Luxemburgo é considerada uma das grandes revolucionárias do século XX e uma das fundadoras do socialismo democrático.

Aparência

Numa época onde as mulheres tinham pouco acesso ao mundo acadêmico, Luxemburgo pode frequentar a universidade e obter um doutorado.

Quando tinha 18 anos abandonou a Polônia, seu país de origem, devido a perseguição por sua militância socialista e se mudou para a Suíça. Neste país terminou seus estudos e se uniu as fileiras do Partido Socialdemocrata polonês.

Junto com o alemão Karl Liebknecht fundou a liga de Spartacus, que mas tarde se converteria no Partido Comunista Alemão. Foi autora de vários livros e redatora do periódico marxista Neue Zeit (Novo Tempo). Foi presa e levada para a prisão em várias oportunidades.

Pensamento político

Rosa Luxemburgo realizou grandes contribuições ao desenvolvimento do marxismo, especialmente entre nacionalismo e socialismo, assim como ao socialismo democrático.

De igual modo, se destacou na análise de aspectos teóricos como o imperialismo e o capitalismo (explicados em "A acumulação do capital", de 1913).

Para Luxemburgo o crescimento das potências capitalistas ocorreu após a expansão das colônias. Nesta mesma linha estudou as primeiras teorias sobre o imperialismo.

Igualmente, defendia a opção socialista internacional afastada de nacionalismos.

En 1914 irrompeu a Primera Guerra Mundial e Luxemburgo se dedicou a distribuir folhetos com informação antibélica. Por esta ação foi presa e acusada em várias ocasições por incitar os soldados para a rebelião.

A frase: “A História é o único mestre infalível, e a revolução a melhor escola para o proletariado”.

No teleSUR
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Vídeo Bomba: a Privataria. O que Serra chama de lixo


Paulo Henrique Amorim resume as denúncias contra 'Cerra' e FHC

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Xororô



O Pedrão é o mais velho do time e, só por isso, o capitão. Acha que a principal função de um capitão é pressionar o juiz, e que juiz deve ser pressionado sempre. Tem que ouvir reclamações quando apita qualquer coisa, certo ou errado. E o encarregado de reclamar é o capitão. Respeitosamente, alto nível. Mas sempre.

Segundo Pedrão, o juiz precisa saber que estão de olho nele. Que ele não está enganando ninguém. E a missão de expressar essa desconfiança constante e implacável é do capitão. Que, afinal, também é uma autoridade em campo. Uma autoridade menor, mas autoridade. Por isso, as torcidas se acostumaram a ver o Pedrão conferenciando com o juiz, às vezes longamente. Alguns juízes não querem conversa e mandam o Pedrão se afastar. O Pedrão se afasta, mas reclamando.




 

E quando o juiz é estrangeiro? Em que língua o Pedrão reclama? Que se saiba, o Pedrão é monoglota convicto. Como ele faz? Um dia, o Pedrão contou, para um grupo de amigos. Com instruções para jamais revelarem seu segredo. Não importava se o juiz era brasileiro, castelhano, alemão ou coreano. Quando pressionava o juiz, o Pedrão só dizia “Xororô”. Nenhuma palavra inteligível, só “xororô, xororô, xororô”.

O importante não eram as palavras, era a cena. Era o juiz se sentir pressionado e a torcida ver o Pedrão pressionando o juiz, cumprindo sua obrigação de capitão, “Xororô, xororô, xororô”, só variando o tom e gesticulando muito. Alguns juízes já conheciam o Pedrão e quando ele se aproximava diziam “Ih, lá vem xororô”. Outros davam risada. Mas alguns não entendiam. Diziam “O quê?” E o Pedrão: “Xororô, xororô, xororô”.

— O quê?!

— Xororô, xororô, xororô.

Sempre com muito gesto.

Um dia, contou o Pedrão, o juiz era da Guatemala. Dois minutos de jogo, falta contra o time do Pedrão. O juiz em cima: piiii!. E o Pedrão em cima do juiz: “Xororô, xororô, xoro...”. Não completou sua argumentação. Foi expulso de campo antes do último “rô”. Cartão vermelho. O juiz da Guatemala dando pulos. Se houvesse cartão roxo, mostraria o roxo.

Até hoje, o Pedrão não sabe o que quer dizer “xororô” na Guatemala. Imagina que seja algo envolvendo a mãe ou algum exótico hábito sexual. Hoje, antes do “xororô”, ele testa o juiz, recitando um verso de música sertaneja ou um trecho do hino nacional para ver sua reação. Mas sempre gesticulando.

Luís Fernando Veríssimo
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