16 de jan de 2016

Paulinho da Força rosna na TV. Desespero?

O deputado federal Paulinho da Força, chefão do “Solidariedade” — legenda reconhecida legalmente pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apesar das várias denúncias de fraudes na coleta de adesões —, pretende estrear a propaganda partidária de rádio e tevê deste ano com duros ataques ao governo e rosnando sua tese do impeachment de Dilma Rousseff. O programa vai ao ar em fevereiro, logo após o retorno do recesso legislativo, e terá como estrela maior o próprio parlamentar, que é alvo de inúmeros processos na Justiça por corrupção ativa, formação de quadrilha e outros crimes.

Outro destaque do programa será o deputado Fernando Francischini, ex-secretário de Segurança Pública do governador tucano Beto Richa, que ganhou projeção mundial ao comandar o “Massacre do Paraná”, que resultou em mais de 200 professores presos e feridos em abril do ano passado. A ausência sentida será a do correntista suíço Eduardo Cunha, que ainda preside a Câmara Federal e mantém relações carnais com o fiel aliado Paulinho da Força, chefão da sua tropa de choque em Brasília.

Segundo o noticiário, o objetivo explícito da propaganda da legenda de aluguel será o de tentar reanimar a cruzada pela derrubada da presidenta eleita democraticamente pelos brasileiros. No final do ano passado, esta cavalgada golpista sofreu vários baques. Eduardo Cunha, principal peça da conspiração, foi desmoralizado com provas sobre suas contas secretas no exterior e pode, em breve, ser afastado da presidência da Câmara Federal, cassado e até preso. Já as marchas pelo “Fora Dilma”, organizadas por grupelhos fascistas, entraram em declínio e foram superadas pelas manifestações de dezembro em defesa da democracia e contra o golpe da direita.

Diante destes revezes, até alguns tucanos de alta plumagem — maiores interessados no desgaste e na derrubada de Dilma — já reconhecem que a tese do impeachment perdeu força. Para eles, o essencial agora é concentrar forças na batalha eleitoral de outubro próximo, que elegerá prefeitos e vereadores em mais de 5 mil cidades. O refluxo do movimento golpista tem gerado, inclusive, brigas hilárias entre algumas figuras patéticas desta cruzada insana — como os velhacos fascistas Olavo Carvalho, Reinaldo Azevedo e Jair Bolsonaro e o fascista mirim Kimzinho Kataguiri.

Pelo jeito, só vai sobrar nesta cavalgada o deputado Paulinho da Força e o seu “Solidariedade”. O que explica tamanho desespero? Ele teme por seu futuro político e por novas denúncias de corrupção? Qual a razão para apostar todas as fichas no golpe, quando até aliados de maior peso já sinalizam recuo? A aparente valentia de Paulinho da Força talvez confirme apenas a sua fraqueza. A conferir!

Altamiro Borges
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Os zangados, os felizes e os desiludidos

Divididos entre insatisfeitos, felizes e desiludidos, os brasileiros se perguntam em quem votar. O estado de ânimo dos eleitores para as eleições de 2016.


Alertado por Miguel do Rosário a respeito da pesquisa do IBOPE sobre as opiniões dos eleitores em relação às eleições municipais de 2016, que igualmente não vi divulgada em lugar algum, fui aos dados.

Em uma generalização, agrupei os eleitores, conforme os resultados obtidos pelo IBOPE, em três estados de ânimo:

— os felizes

— os zangados

— os desiludidos.

Explico:

os felizes — chamei de felizes os que pretendem votar na situação, ou seja, manter o atual prefeito no poder ou votar em um candidato indicado por ele;

os zangados — chamei de zangados os que pretendem votar na oposição;

os desiludidos — chamei de desiludidos os que declararam que não pretendem votar nem na situação e nem na oposição. A esses, somei os que responderam não saber em quem votar. Em uma situação com apenas duas alternativas — situação ou oposição — a resposta “não sei” está bem próxima de “nenhum dos dois”, creio eu.

Os resultados

De modo geral, os eleitores estão divididos, porém, mais zangados. Mas é interessante que existam partes muito próximas de felizes e desiludidos.

Grosso modo:

Zangados — 40%

Felizes — 30%

Desiludidos — 30%

É também possível dividir os resultados do IBOPE em três grupos de análise: o eleitor, a região e o partido.

Os resultados são muito interessantes.

O eleitor

Os homens estão mais zangados — 43% pretendem votar na oposição. As mulheres estão divididas, na casa dos 30% para cada uma das opções — 38% zangadas, 32% desiludidas e 30% felizes. Situação, oposição e ninguém.

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Os mais jovens estão mais zangados 42% e também mais felizes 35%. Posições antagônicas. Já, conforme envelhece, a zanga diminui, mas aumenta a desilusão. Os maduros, com mais de 55 anos, apresentam 36% de desiludidos e 37% de zangados.

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Os que não completaram o ensino fundamental concordam com os que têm curso superior. Estão divididos, tal qual as mulheres — na casa dados 30% para cada uma das opções. Com algumas variações. Os que não completaram o primeiro grau são os que estão mais felizes — 35%, contudo, 34% estão desiludidos. Dos que têm curso superior, 38% estão zangados e 32% estão desiludidos. Os que fizeram o primeiro ou o segundo graus completos estão zangados — 41% e 45%, respectivamente.

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Em relação à renda, o IBOPE fez um corte muito baixo. Estratificou apenas até e 5 salários mínimos de renda familiar. O que dizer de uma categoria que considera “mais de 5 salários mínimos” como um grupo homogênio? Colocou do classe-média-baixa ao milionário no mesmo balaio. Mesmo assim, os resultados não diferem do 40-30-30 — zangados, felizes e desiludidos, nessa ordem.

E há curiosidades, mas que podem ser apenas flutuações estatísticas. Quando se considera raça ou cor dos eleitores, fiz outra generalização, a partir dos dados do IBOPE: brancos, negros e orientais.

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Os orientais estão muito zangados — 49%. Os negros estão mais zangados (41%) que os brancos (37%). Os brancos são os mais felizes — 30%. Brancos e negros estão igualmente desiludidos — 33% e 30%, respectivamente.

A região

Quando se analisa por região, algumas peculiaridades começam a aparecer.

A região sul é a que apresenta o maior índice de desiludidos — 40%. Mas o índice de felizes está em 33%. O pessoal do norte e do centro-oeste é o mais zangado — 46%, mas como os sulistas, há 33% de felizes. A coisa está pior no sudeste — 42% de zangados e apenas 24% de felizes. E a situação mais dicotômica é a do nordeste: tem o maior índice de felizes- 41%, mas 39% estão zangados. No nordeste, desiludidos só 20%, é ser feliz ou zangado.

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O Partido

Mas é no que se refere aos partidos, e mais precisamente aos grandes partidos, que as surpresas aparecem.

No caso dos pequenos partidos, há um padrão. Uma pequena superioridade de zangados, seguida de desiludidos e felizes, nessa ordem. Mas todos bem divididos na casa dos 30%. Algo assim como 37-33-30. respectivamente.

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Porém, quanto aos grandes partidos — PT — PMDB — PSDB, a análise tem que ser mais complexa.

De modo geral, todos os partidos, pequenos e grandes, tem um índice maior de zangados. Exceto o PT.

O PT é o único partido em que o índice de desiludidos é maior — 45%. Tem o menor índice de zangados entre os partidos — 33%. Mas apenas 22% estão felizes com ele.

PMDB e PSDB têm resultados próximos e não muito bons. Zangados em 49% e 45%, respectivamente. Mas o PSDB é o que tem o maior índice de eleitores felizes — 32%.

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Nenhuma conclusão

Para quem esperava eleitores radicalizados, o que há são leitores mais indecisos e insatisfeitos.

Para quem esperava o PT execrado, existe muito mais eleitores desiludidos do que zangados.

Para quem defendeu a “ética” durante todo o ano de 2015, PSDB e PMDB deveriam se perguntar por que mais de 40% de seus eleitores estão zangados com eles.

O PMDB ainda pode alegar que foi tão acusado quanto o PT e que tem uma militância mais difusa do que este.

Já o PSDB, é um caso a se pensar seriamente.


Sérgio Saraiva
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'Época deve investigar seus patrões', diz Carlos Araújo


Horas depois que a revista Época chegou às bancas, neste sábado, com uma capa tão escandalosa como vazia contra o advogado Carlos Araújo, que foi casado com Dilma Rousseff e é pai da filha de ambos, Paula, ele deu uma pequena entrevista ao 247.

Araújo bateu duro, realizando um contra-ataque contra os donos da Globo, proprietária da Época: "A revista deveria preocupar-se em esclarecer por que seus patrões resolveram viver homiziados em Miami, cidade que é um dos endereços preferidos pela máfia internacional."

O advogado diz: 

– Fui surpreendido com tanta maldade. Isso é coisa de jornalismo bandido, que não tem fatos, não tem provas, e tenta forjar uma impressão negativa sobre as pessoas que querem atingir. Sou uma pessoa honrada e minha prática sempre foi coerente com minha ideologia.

Advogado por formação profissional, calejado pelos rigores da luta contra a ditadura militar, quando foi um dos principais dirigentes da VAR-Palmares, uma das principais organizações armadas do período, Carlos Araújo avalia a edição da revista como uma operação política, cuja finalidade óbvia é tentar atingir a presidente:

 – É puro jornalismo marrom, que atende a finalidades políticas e só isso. Como todos descobriram que não têm como publicar uma denúncia capaz de atingir Dilma diretamente, pois não há nada contra ela, tentam agir por via indireta, tentando atingir pessoas do círculo próximo, como eu.

A história divulgada pela revista é a seguinte. Desesperado pela crise da Engevix, empresa investigada na Lava Jato, um dos dirigentes da empresa, José Antunes Sobrinho, que hoje cumpre prisão domiciliar, teria feito uma "reunião secreta" com Araújo, de quem teria ouvido a promessa de receber a ajuda esperada. No mesmo período, diz a revista, um casal amigo de Araújo — e da própria Dilma — teria recebido um pagamento de R$ 200 mil. A tentativa de construir a narrativa de uma vulgar operação triangular é evidente como o perfil do Pão de Açúcar na paisagem do Rio de Janeiro — o problema é que não se apoia em fatos que possam ser comprovados, até porque a revista não se deu ao trabalho de conferir as informações que acabaria publicando.

O único encontro  entre o advogado e um profissional da revista teve duração curtíssima e terminou de forma abrupta:

– Num recurso desonesto, diz Araújo, um dia um repórter da revista se infiltrou no meu escritório para tentar me abordar. Preencheu ficha como cliente, mas, quando sentou-se a minha frente, começou fazer perguntas sobre a Engevix, perguntou quanto eu havia recebido. Fiquei indignado e exigi que se retirasse imediatamente.

Araújo e Antunes se encontraram — não só uma vez, mas três vezes. O assunto era sempre o mesmo:

– Ele estava cada vez mais desesperado com a situação da empresa e queria de todas as maneiras que eu o ajudasse a marcar um encontro com a Dilma. Pretendia falar da situação com ela. Foram três conversas e em todas expliquei que este não era e nunca foi meu papel. Tenho a minha vida, a minha história, os meus valores. Jamais iria tentar interferir na agenda da presidente. Nem ela iria permitir isso.

(Momentos antes da entrevista, o Planalto desmentiu que o encontro tenha se realizado)

Começando a refletir sobre as providências jurídicas que tomará, Araújo afirma que "irei a Justiça defender meus direitos com todos os recursos cabíveis. Fui vítima de uma calúnia e vou entrar com uma ação contra isso.  E vou exigir direito de resposta, cuja necessidade agora ficou mais evidente. Mesmo pensando em tudo isso, acho pouco. Não se pode fazer isso contra uma pessoa, sem prova, sem fatos."   

Paulo Moreira Leite
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Trapalhadas da PF-PR com a verba doada pelo juiz Moro

Antes mesmo de usar qualquer centavo do R$ 1 milhão obtido, em agosto de 2014, com o juiz Sérgio Moro, “para a implantação de um sistema de câmeras de vigilância, monitoramento e alarme (Sistema CFTV)”, a Superintendência Regional do Departamento de Polícia Federal do Paraná (SR/DPF/PR), voltou a bater na porta da 13ª Vara Federal de Curitiba com o pires na não.

Despacho o juiz Sérgio Moro, em março de 2015,
negando-se a repassar mais R$ 2 milhões à PF-PR.
Em março de 2015, o superintendente regional do DPF, delegado Rosalvo Ferreira Franco, requereu ao juiz mais R$ 2,237 milhões com o mesmo objetivo: instalar o circuito de TV na sede da Superintendência Regional, no depósito de carros apreendidos, no bairro Hauer, em Curitiba, e para as descentralizadas de Paranaguá, de Ponta Grossa,
de Guarapuava e de Cascavel, interior do Paraná.

Ao negar o pedido, o juiz lembrou que até aquele momento sete meses após a liberação de R$ 1 milhão a Superintendência não tinha apresentado qualquer prestação de contas. Na verdade, nada tinha sido gasto, como admitiu Rosalvo ao juiz. O dinheiro permanecia na conta judicial da Caixa Econômica Federal (CEF),.

Mesmo lembrando o “auxílio periódico prestado por este Juízo à Polícia Federal”, Moro alegou não dispor dos R$ 2.237.335,39 pleiteados.

O pedido rejeitado só mostrou a desorganização administrativa da Superintendência. Ela foi capaz de requerer a verba ao juízo, em maio de 2014, sem possuir nenhum estudo de viabilidade, nem um projeto definido para instalar o Sistema CFTV.

Após liberada a verba, descobriu-se que era insuficiente para instalar as câmeras em todas as unidades. Foi tudo feito no chute, admitiu um policial. Curiosamente, o repasse foi aceito pelo Ministério Público Federal e sancionado pelo juiz Moro, mesmo sem que apresentassem um projeto definido e um plano de sua aplicação.

Talvez esta desorganização administrativa explique porque a superintendência recorreu ao juiz Moro pedindo verbas em 2014 para instalar um sistema de câmeras na suas dependências -, demora mais de um ano sem executar o projeto, usa parte do dinheiro para pagar gasolina e energia elétrica já no final de 2015 e, ao fim do mesmo exercício, devolve R$ 1,4 milhão ao Tesouro Nacional como reafirmou nota de esclarecimento do Ministério da Justiça.

A desorganização é tamanha que a Superintendência informa erradamente o valor usado do dinheiro doado por Moro para pagar a energia e o consumo de gasolina. Não foram R$ 172.138,37, como eles estão afirmando, inclusive em documentos que chegaram ao ministro José Eduardo Cardoso. O valor gasto foi maior: R$ 181.914,85.

Juiz Sérgio Moro: um “pai” para a SR/DPF/PR
Foto: Augusto Dauster-Ajufe
Moro tem sido um verdadeiro pai para a SR/DPF/PR. Em 2006, ele atendeu ao superintendente da época, delegado Jaber Hanna Saadi. Contribuiu, possivelmente, com algo entre R$ 250 mil e R$ 300 mil para que o Grupo de Investigação Sensível (GISE) encarregado das atividades de inteligência, notadamente as escutas telefônicas conseguisse ampliar os softwares do Guardião. Trata-se de um sofisticado sistema de monitoração de voz, dados e análise de áudio e identificação de locutores.

Na gestão seguinte, do delegado Delci Carlos Teixeira, Moro repassou verbas para acabar a obra do auditório da Superintendência, que Jaber, ao inaugurar a nova sede, não conseguiu concluir. Os valores não foram revelados, uma vez que o juiz não respondeu nossas mensagens.

O pedido para implantar o Sistema CFTV pelo delegado Rosalvo foi protocolado em 16 de maio de 2014, dentro da Representação Criminal nº 503170710.2014.404.7000/PR, na qual o doleiro Hélio Laniado, envolvido no escândalo da CC5 do Banco do Estado do Paraná, o Banestado, pagou uma indenização/multa ao juízo como parte de um acordo de delação premiada.

Pelos dados do andamento do processo verifica-se que a Polícia fez o pedido mas não tinha como gastar
o dinheiro que acabou sendo insuficiente.
Peças em segredo

Entre protocolar o pedido e começar a fazer uso do dinheiro disponibilizado, porém, a Superintendência gastou nada menos do que 19 meses. Os primeiros pagamentos autorizados pelo juiz Moro só ocorreram em novembro de 2015, mesmo assim, depois de duas determinações dele em fevereiro e agosto de 2015 para que a Polícia Federal apresentasse as contas do uso da verba.

Pelo que foi possível apurar, somente depois de reivindicar o dinheiro é que a Superintendência tratou de fazer o projeto par abrir uma licitação. Recorreu aos peritos da casa. Assim, descobriu que a verba era insuficiente para atender às unidades desejadas. Em explicação ao juiz, a Superintendência alegou que “em decorrência da variação cambial e de outras vicissitudes, não vai ser possível implementar o sistema CFTV na unidade Hauer” (onde fica o depósito de veículos apreendidos, que só possui um vigia por turno). Não se sabe quantas firmas concorreram na licitação. A vencedora foi a Viga Netstore Ltda. EPP., de Curitiba.

No andamento do processo judicial não é possível conhecer todas as peças. É um problema relacionado ao Processo Eletrônico que só admite se acessar as decisões do magistrado, caso não seja disponibilizada pelo juízo a “chave” do processo.

Na Operação Lava Jato, o juiz Moro tem divulgado as chaves da maioria das ações. Foi a maneira de contornar os vazamentos seletivos que, ainda assim, continuam ocorrendo. Costuma ser uma prática dele deixar as peças processuais acessíveis, tal como vários juízes de primeira instância.

Com o próprio Moro, porém, há exceções à regra. Em um caso de uma Mandado de Busca ocorrido logo no início da Operação, até hoje o blog não conseguiu esse acesso. Nessa Representação Criminal também a chave lhe foi pedida, mas não obtivemos resposta. Sabe-se, por exemplo, que antes de concordar com a liberação do recurso, em junho de 2014, o Ministério Público Federal cobrou algumas explicações da Polícia Federal. Conhece-las, porém, não foi possível. Em seguida o MPF não se opôs ao repasse.

Os dados aqui divulgados foram retirados das decisões do juiz.

O R$ 1 milhão liberado em agosto de 2014 só foi usado em novembro de 2015, quando dos primeiros
pagamentos pelo juiz Moro.
Despesas extras

A primeira prestação de contas foi apresentada ao juiz em 26 de outubro, através da apresentação de três DANFEs (Documento Auxiliar da Nota Fiscal Eletrônica), – 4252, 4253, 4254 -, que totalizaram R$ 609.357,76. Houve ainda o recolhimento dos impostos através de dois DARFs, no total de R$ 38.015,28. Os pagamentos foram autorizados no dia 5 de novembro. No dia seguinte, o juiz autorizou novo pagamento (DANFE 4264) que junto com a DARF totalizou R$ 22.836,54. Já no dia 17 de novembro os pagamentos (DANFE e DARF) somaram R$ 71.745,25. Com isso o saldo que ficou na conta judicial era de R$ 258.045,17.

Ao receber o pedido, em 19 de novembro passado, para a Superintendência utilizar parte deste saldo no pagamento das contas de luz na Copel e de combustível, o juiz alegou existir um saldo de R$ 276.417,53. Pelos dados retirados de suas decisões, o dinheiro em conta seria menor: R$ 258.045,17.

Valores majorados

A Polícia Federal indicou que necessitava, para a luz e o combustível, de R$ 172.138,17. Moro, levou em conta que era “um problema mais urgente, necessidade de verba para despesas de custeio, com manutenção de viaturas/combustíveis e/ou energia elétrica”. Nesta decisão é que destacou que dava a autorização por conta da relevância da “Operação Lava Jato”, que não poderia ser interrompida, como se este risco existisse realmente. Um argumento que sequer foi citado no pedido da Superintendência>

“Embora não seja muito apropriado a destinação dessas verbas para custeio, as investigações da Operação Lava jato, por sua relevância, não podem ser interrompidas por falta de dinheiro para despesas básicas de custeio", escreveu Moro.

O curioso é que, o pedido de autorização para pagar as contas de luz e de combustível foi em 19 de novembro. Tudo leva a crer que eram contas já existentes e a Superintendência especificou o valor de R$ 172.138,37. Com base nesse pedido e após a argumentação da necessidade de não paralisar a Lava Jato, o juiz autorizou, e, 27/11, estes pagamentos.

No dia 10 de dezembro, aparentemente sem qualquer justificativa nada consta na decisão de Moro a respeito as contas apresentadas somaram R$ 181.914,85. No despacho do juiz autorizando a CEF a debitar o valor, assim como em todo o andamento do processo não existe nem explicação, nem cobrança, para este aumento de 5,6% em apenas 21 dias.

Há ainda um detalhe importante a ser conferido e que foi levantado em 6 de janeiro pelo jornalista Fernando Brito, em seu blog Tijolaço.com.br, na reportagem Dr. Moro, o senhor sabia que os carros da PF/PR tinham R$ 202 mil para peças?. Trata-se da empresa contratada pela SR/DPF/PR para o fornecimento de peças de automóveis e também administrar a compra do combustível, a Prime Consultoria Empresarial Ltda..

Sua sede, como reproduziu Brito, é em uma sala no segundo andar de uma casinha, em Santana do Parnaíba, um simpático município ao lado de São Paulo que a Folha chama de “oásis fiscal”. Como lembra o blog “é possível registrar uma empresa ali mesmo sem nunca ter pisado no município e pretendendo operar, de fato, a 1.000 km de distância ou até fora do Brasil”. Muito semelhante às centenas de empresas que policiais federais investigam ao combaterem os crimes de evasão de divisa, sonegação de impostos e lavagem de dinheiro. Vale ainda citar outra passagem da matéria, que recomendamos a leitura no original:

Em 21 dias, as despesas anunciadas pela SR/DPF/PRl com luz e combustível, cresceram 5,6%. Ninguém deu
ou pediu explicações.
“Empresa tão competente que, pouco antes de ganhar a licitação para a Polícia Federal também tinha vencido justamente a licitação da outra parte da turma da Lava-Jato, os procuradores, que a contrataram para “gerenciar e controlar o combustível, a lavagem, a troca de óleo e outros serviços para os veículos da frota da PR no Paraná.

E mais competente ainda que ganhou outra licitação para abastecer os carros da PF paranaense: mais R$ 129 mil, no mesmo 14/10. Eu só olhei de outubro até o final do ano, porque desisti quando dei uma passadinha em setembro e achei outro empenho para a Prime, “só” de R$ 500 mil”.

Enganaram o ministro

A confusão de números e valores que a superintendência no Paraná vem fazendo, levou o Diretor Geral substituto do DPF, delegado Rogério Augusto Viana Galloro a informar errado ao ministro José Eduardo Cardozo, no ofício que lhe encaminhou no dia 8 de janeiro último. Ele insiste na despesa de R$ 172 mil para o pagamento de despesas de custeio, quando, desde 10 de dezembro, a superintendência encaminhou ao juiz a fatura da compra de combustível e a conta da eletricidade, totalizando R$ 181 mil,. Foi o valor autorizado por Moro a ser descontado da conta judicial, como mostra a decisão acima. Ou se trata de uma questão de não terem habilidade com números, ou algo mais existe por detrás dessas “equívocos”. Façam as suas escolhas.

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Retrato do juiz Sérgio Moro quando jovem

Moro na juventude: álbum de família
Nascido em berço de ouro

Educado dos 6 aos 16 por freiras carmelitas espanholas

Andou de busão pela primeira vez aos 18

Até quase 30 não sabia o que era um pobre

Idolatrava o pai, um professor apoiador da ditadura e militante do PSDB
Para fazer um perfil do juiz Sérgio Moro destaquei dois repórteres durante 70 dias,  entre julho, agosto e outubro. Nós percorremos Maringá, Ponta Grossa e Curitiba entrevistando amigos e familiares: tudo olho no olho, nada de email ou papo por telefone.

A maioria das pessoas próximas dele estava preparada para manter silêncio até sobre informações banais como o resultado do teste do pezinho — a mãe não queria comentar nem se ele nasceu de parto natural ou cesárea.

O objetivo da reportagem era identificar as origens familiares, apurar quais experiências de vida moldaram o homem sob a toga — e se possível, qual a orientação política dele, já que suas sentenças, todas supostamente técnicas, abalaram a política nacional.

Diferentes repórteres falaram com a mãe, o irmão, um tio, o padrinho de batismo, ex-colegas e ex-professores das duas primeiras escolas (Santa Cruz e Gastão Vidigal), da turma de 1995 (a dele) da Faculdade de Direito da Universidade Estadual de Maringá (UEM), o único patrão de seu emprego anterior ao concurso para juiz (o advogado Irivaldo Joaquim de Souza) a turma do Country Club de cidade natal, juízes, advogados, promotores, assessores de imprensa do Judiciário, seus alunos na Universidade Federal do Paraná e uma trinca de amigos inseparáveis com quem ele confidencia tudo.

Moro raramente dá entrevistas. Ele dificulta qualquer investigação sobre sua vida privada, revelando uma obsessão pelo impossível: manter-se fora da mídia, num momento em que todos os holofotes estão voltados para seu gabinete.

Amigos e familiares admitiram estar orientados para manter silêncio. Aqueles que falam qualquer coisinha recebem broncas.

A um juiz federal ele pediu para retirar fotos do Instagram onde aparecia de camiseta vermelha e tomando cerveja. E conseguiu deletar a maioria das fotos antigas — a que ilustra esta reportagem é do álbum de uma colega de faculdade não alcançada pela vigilância dele.

Sérgio Moro não quis nos dar entrevista, apesar de insistentes pedidos. Ele disse a amigos que quer se manter acima de tudo o que considera mundano: não fala de suas camisas pretas, de seus hobbies, de seu marca predileta de charutos e nem dos vinhos preferidos — ele se isola em casa, no condomínio de um amigo juiz em Maringá ou num ambiente exclusivo de um shopping de Curitiba para curtir vinhos & charutos longe dos paparazzi.

Até onde foi possível apurar ele faz isto não porque tenha algum esqueleto no armário.

Parece que o faz para copiar o estilo do pai, Dalton.

Este foi descrito por amigos como tendo sido um homem discreto, modesto, eficiente, legalista, focado na família e no trabalho de professor — no cemitério local tudo o que está escrito sobre ele cabe em meia linha: “Dalton Áureo Moro 1934-2005″.

Dalton Moro, o pai: o modelo para o filho
Dalton Moro, o pai: o modelo para o filho
Um personagem verdadeiramente modesto que trombou de leve com o juiz Moro nesta jornada dele em busca de zerar tudo o que foi antes de assumir a 13ª Vara Federal Criminal de Curitiba é o porteiro Edson Gerônimo de Souza — e o pequeno incidente dá a dimensão da obsessão de Moro com sua privacidade fora do gabinete.

Edson trabalha no edifício da mãe de Moro, dona Odete, em Maringá. Ele se diz fã do juiz, a quem via apenas pela câmera de vigilância do elevador.

Em junho, Edson criou coragem e pediu para dona Odete para tirar uma selfie com o filho famoso.

Numa das visitas dele, dona Odete ligou pelo interfone para Edson: “Se você quer uma foto com ele, venha imediatamente”.

Souza disse que “na hora, fiquei arrepiado”. Sem querer perder a oportunidade, subiu correndo, entregou seu smartphone para Odete, abraçou o juiz e sorriu para a foto.

“Só tive tempo de mostrar para minha mulher e minha cunhada”, disse o porteiro, dias depois. É que na semana seguinte ao episódio a síndica do edifício o chamou e ordenou que deletasse a foto — pressionado, ele apagou tudo da memória do telefone.

Dias depois, dois homens, supostamente agentes federais, o procuraram para saber se ele ainda tinha a foto. O porteiro estava assustado: “Me disseram que pode ser perigoso”.

Seguindo instruções do filho, Odete fala pouco — a um dos repórteres que a procuraram ela se justifica com o mesmo argumento do porteiro: “Sérgio corre perigo”.

Numa conversa, deixou escapar um importante traço da personalidade do filho — a profunda ligação que ele tinha com o pai, descendente de imigrantes italianos.

Para um trabalho completo, o ideal seria confrontar Sérgio Moro com o conteúdo apurado com tantas e tão diversas fontes, até porque muitas delas pediram anonimato.

Mesmo assim ele se recusou a falar. Os assessores dele na Justiça Federal fazem chacota dos interessados em entrevistá-lo. Nos primeiros pedidos eles já dizem que ninguém conseguirá, exibindo centenas de solicitações arquivadas. Submetidos a um ritual de emails e telefonemas, os jornalistas logo percebem que os assessores estão lá apenas para enrolar.

Moro diz que costuma falar nos autos, isto é, através das sentenças. Outra razão pela qual ele não fala pode ser explicada pela mãe. Dona Odete disse que “ele tem uns amigos jornalistas na Folha, na Veja e no Globo para quem dá entrevistas quando quer” — argumento que ela usou para desencorajar minha equipe de tentar falar com ele.

Tratamento VIP na Veja, "onde tem amigos"
Tratamento VIP na Veja, “onde tem amigos”
Uma repórter tentou se aproximar do juiz em dia 4 de agosto, assistindo uma aula dele na Universidade Federal do Paraná.

Naquele dia o professor Sérgio Moro entrou na faculdade sete minutos atrasado para a aula das 20h15, da quinta fase da cadeira de Direito Processual II.

Cumprimentou o segurança da empresa terceirizada Poliservice e subiu as escadas até a sala, chegando às 20h22. Cerca de 100 alunos o esperavam.

O professor Moro trajava terno preto, gravata vermelha e camisa branca, impecável. Postou-se em frente ao quadro negro, na diagonal da mesa, numa posição que parecia estudada — como se estivesse buscando seu melhor ângulo.

Sua propalada gentileza e educação no trato com as pessoas foram arranhadas: não deu nem oi e foi direto aos comunicados. Avisou que todos ali deveriam indicar as datas prováveis paras suas provas e trabalhos.

Em seguida, começou a falar, com o giz numa mão e a Constituição na outra. Falou o tempo todo, com breves pausas para risos — ele não faz piadas, mas usa um humor sutil, ferino, que arranca gargalhadas da turma.

Para dominar a audiência, às vezes ele erguia a voz — um recurso que aprendeu com seu pai professor — quando o fez, a voz dele soou mais fina do que o normal, exacerbando o sotaque caipira com seus RRs puxados.

Os gestos dele eram meio teatrais. Postava-se ereto, apoiando os braços nos quadris para inclinar o corpo para trás e jogar o peito para a frente, tipo um movimento de pilates.

Num momento muito Moro ele fecha os olhos e cambaleia, simulando esforço para lembrar a data exata da importação de um modelo inglês de júri. Aí abre os olhos e arrisca: “1831”? Errado: segundo o site Âmbito Jurídico, o Brasil adotou o sistema em 18 junho de 1822.

Mãe carola

Por todos os relatos a personalidade de Sérgio Fernando Moro foi moldada pela carolice da mãe e pelo jeitão autoritário do pai, professores pioneiros em Maringá, cidade fundada em 1950 nos grotões do Paraná.

Ele nasceu em 1º de agosto de 1972, durante a ditadura militar (1964-1985). O país vivia o auge do chamado “milagre econômico”. No período, o pai dele ocupava um cargo público nomeado por políticos da Arena, partido de apoio ao regime militar.

A visão dele do mundo também foi muito influenciada por viver num ambiente irreal: nasceu em berço de ouro, passou a adolescência sem contestar a ditadura e cresceu numa cidade que era uma ilha de excelência se comparada ao resto do Brasil.

A Maringá da época do menino Sérgio foi planejada por arquitetos, financiada por ingleses e construída por um banco paulista, hoje absorvido pelo Bradesco. Foi a cidade mais limpa e mais segura do Brasil (com menos violência do que Amsterdã), e a mais arborizada do mundo.

Os primeiros mil dias do bebê foram saudáveis. Não se sabe o resultado do teste de Apgar dele por conta do manto de segredo que caiu sobre o homem depois da fama.

Sabe-se que ele cresceu sem nenhum achaque, desenvolvendo o físico invejável que exibe na televisão. No país do futebol, não era peladeiro: praticou ginástica olímpica e tornou-se um ciclista de pé cheio.

Uma vizinha de porta por décadas descreveu a família Moro como “estruturada e feliz”. Os meninos (ele e o irmão mais velho, César) tinham uma babá que tomava conta deles enquanto os pais lecionavam.

A vida dos Moro era classe A. Dalton frequentava o exclusivo Country Club, localizado numa área do tamanho de 60 campos de futebol e cujo título hoje custa cerca de R$ 30 mil.

Pai e filho iam sempre de carro de casa para a escola e dali para o clube, onde o professor jogava peladas com os amigos — ninguém lembra ter visto o menino em campo.

Com João Dória, em evento do PSDB: conflito de interesses?
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Primeiro busão

Até entrar na universidade Sérgio nunca tinha usado transporte coletivo. Quando o fez pela primeira vez, para ir a uma festa na casa da amiga Rita Agioletto, contou para o pessoal que estava deslumbrado, feliz de andar sozinho num busão.

Seus amigos eram como ele e seus pais: 76% dos habitantes de Maringá são brancos, a maioria descendente de alemães e italianos.

Na Maringá antiga, ser professor dava status e dinheiro. A casa da família era ampla e confortável, na frente de um parque sem mendigos — mais tarde, aos 29 e já formado, o juiz Moro até teve dificuldades para descrever a pobreza que não conhecera. Então, escreveu um ensaio jurídico intitulado “Quem são os pobres”. Precisou de 255 linhas para definir aquilo que qualquer brasileiro sabe: pobre é quem não tem bens, nem emprego e ganha salário mínimo.

Dalton e Odete se mudaram para a cidade no final da década de 60, a convite de um cunhado dela, Neumar Godoy, fundador e reitor da Universidade Estadual de Maringá (UEM) — criada no primeiro ato do coronel Jarbas Passarinho como ministro da Educação do general Emílio Médici, em 6 de novembro de 1969.

Os dois começaram no Colégio Estadual Gastão Vidigal, ele lecionando geografia e ela português. O colégio se tornaria o embrião da UEM, da qual Dalton foi um dos fundadores.

CDF em colégio de freiras

Mesmo sendo formada em Letras e lecionando em escola pública, Odete confiou a educação do filho às freiras carmelitas espanholas da escola particular católica Santa Cruz.

Nascida Starke, de origem alemã, ela é muito carola. Hoje aposentada, Odete é ministra da eucaristia da Igreja Matriz, ajudando nas missas e auxiliando inválidos em asilos.

O pai do juiz se dizia apolítico. Ele viveu os melhores anos de sua carreira durante a ditadura, período em que os amigos o descreveram como “conformado”, “protegido” e “satisfeito”. Foi vice-diretor e tesoureiro do Colégio Gastão Vidigal.

O professor Basílio Baccarin dirigiu o Gastão Vidigal nomeado pela ditadura, entre 1970 e 1973, tendo Dalton como vice. Os dois conviveram décadas e as famílias são muito unidas. Ele disse que “o professor Moro era rigoroso, muito justo, um modelo para a comunidade”.

Baccarin descreve seu vice como “muito ativo na associação dos professores, era um autêntico profissional do magistério, mas não participava de atos políticos”.

Dalton foi descrito por outros colegas como obcecado pelo trabalho e pela disciplina. Era duro e usava sua voz potente para submeter alunos bagunceiros: “Bastava elevar o tom”, lembra Baccarin, citando a característica da origem italiana do colega — Dalton era descendente de imigrantes, por sua vez afetados pelo fascismo, em alta na Itália dos anos 20 e 30.

O ex-aluno e depois colega de magistério Elpídio Serra era amigo íntimo de Dalton: “Foi um homem muito sério, cumpridor de seus deveres”, disse.

Serra conhece o hoje juiz como “Serginho”. E diz que seu Serginho “é o espelho do pai: Dalton não era direita nem esquerda, mas sério. Dizia que ‘se está escrito não vou afrontar’. Ele não gostava de inovar. Era metódico e legalista, seguia os regulamentos”.

Serra anotou uma obsessão do professor Dalton com prazos: “A gente ia para um congresso e ele levava provas para corrigir no ônibus. Ele dizia que não iria atrasar, corrigindo tudo antes do prazo, para botar o resultado na parede. Ninguém mais fazia isto, só o Moro era tão exigente consigo mesmo” — note-se que esta é uma das características conhecidas do juiz Sérgio.

O ex-aluno acha que “Dalton passou isto (este nível de exigências) pro Serginho. Passou conceitos de moral, de bons costumes. Serginho é Dalton Moro no passado. Uma réplica”.

Serra enfrentou problemas com a ditadura quando atuava como jornalista e opina sobre o ex-professor: “Dalton, pela maneira de ser, pelos atos, não era um contestador, apenas seguia as normas. Eu nunca vi, enquanto aluno e depois como colega, o Moro dizer qualquer coisa contra o regime militar”.

Na abertura política, Dalton participou da fundação do PSDB, ajudando a eleger ex-arenistas. Impossível saber se ele fez a cabeça do filho, então com 16 anos — só Sérgio Moro sabe quais foram os conselhos que recebeu do pai.

O professor Basílio Baccarin enveredou pela política e registrou a única participação conhecida de Dalton em um partido. Baccarin ligou-se a Mário Covas (1930-2001) e participou da fundação do PSDB em Maringá, elegendo-se vereador (1990): “Moro me apoiou, como amigo. Esteve sempre comigo durante minha campanha e só me dizia que eu deveria ser menos radical”. Baccarin ainda tentou ser deputado estadual, mas lhe faltaram 270 votos.

Baccarin é fã do filho de Dalton: “Fui eu quem fez a faixa “BRASIL ADMIRA SÉRGIO MORO”, levada na frente da catedral de Maringá e do apartamento de dona Odete, com 15 mil pessoas, naquela passeata televisionada no início do ano” — o Brasil inteiro a viu.

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Caminho da perfeição

Sérgio Fernando entrou aos 6 anos na Escola Santa Cruz “para receber educação católica”. Os princípios da escola se baseiam nos ensinamentos de duas freiras espanholas, ambas canonizadas, Santa Teresa de Ávila e Santa Joaquina de Vedruna. Em sua obra Teresa gostava muito de citar os mártires da Igreja. Seu objetivo era buscar “o caminho da perfeição”. Joaquina ainda hoje é reverenciada nas orações dos estudantes da Escola Santa Cruz — ela parece ter recebido um milagre, porque mesmo sem qualquer tratamento químico seu cadáver não apodreceu. Exposta numa urna em Barcelona, surpreende cientistas e deslumbra turistas.

Nos seus 10 anos de educação católica Sérgio sempre foi CDF. Seu boletim só tem O e B, de ótimo e bom. E nenhuma mancha. Colegas o descreveram como “inteligente” e “obediente”, sem notar nada mais expressivo. Apesar de ser uma coisa comum entre crianças e adolescentes, ele não teve nenhuma traquinagem conhecida.

No Santa Cruz, Sérgio fez três amizades duradouras, Lafayete Tourino (agora promotor), Luis Beltrame (professor universitário) e Eduardo Hiroyuki (bancário). Segundo várias fontes, até hoje eles se encontram quando podem e trocam confidências.

Os quatro têm um pacto de silêncio. Tudo o que um deles revelou é que se, note-se, apenas “se”, Moro torce por algum time seria pelo Grêmio Maringá, 86º no ranking da CBF. O amigo não dá certeza — o jornal Gazeta do Povo, de Curitiba, crava que ele é São Paulo.

Quando Sérgio fez 16 anos os quatro saíram juntos do Santa Cruz para o Gastão Vidigal, em tempo de fazer um terceirão do colégio que tinha excelentes índices de aprovação no vestibular da UEM — não foi possível apurar como se deu esta transferência da particular à escola pública.

Não há registro de que Dalton e Odete tenham lecionado para o próprio filho na instituição. Sérgio passou de primeira no vestiba. Já na UEM, participou como ouvinte de classes do pai.

A vida acadêmica de Sérgio é descrita por quem conviveu com ele só com muito esforço. Não era notado por professores — ao contrário da lenda de que teria sido aluno laureado (aquele que obtém notas acima de oito durante todo curso) na Faculdade de Direito.

A info oficial da UEM diz que não houve laureados na turma de 1995, aquela de SM.

Ele nem sequer era popular na turma: “Ele não era namorador”, atesta um colega. Teria tido apenas uma namorada, uma estudante de arquitetura — os dois romperam quando ele mudou-se para Curitiba, conheceu e em seguida casou com a advogada Rosângela.

O juiz federal Anderson Furlan é o quarto amigo mais importante, além do trio do Santa Cruz. Os dois se conheceram na UEM: “Quando eu fui bixo ia sofrer um trote violento, mas Sérgio me salvou e me adotou como sendo um irmão menor”, lembra.

Furlan viu o amigo passar no concurso público para juiz e ficou surpreso — à época ele Furlan trabalhava como estagiário na Caixa: “Eu queria ser magistrado e perguntei como ele fez para passar. Ele me disse ‘você tem que estudar’ “.

Estudando, Furlan passou para funcionário do Judiciário — quando então foi levado por Moro para assessorá-lo em seu gabinete, antes que o amigo se tornasse ele mesmo juiz.

O juiz Abílio Freitas, vizinho de condo de Furlan em Maringá, também é do círculo íntimo de amigos, formando o trio Moro-Furlan-Freitas.

Os três se encontram regularmente — Sérgio Moro continua mantendo uma rotina de viajar para visitar a mãe e o irmão na cidade natal, ocasião em que invariavelmente encontra Freitas.

Furlan se aventura a analisar a personalidade do amigo: “Ele é muito tímido”, para justificar a conhecida discrição. “O Sérgio não conversa olhando para você”, afirma o juiz.

O lado discreto e humilde do juiz Moro seria tanto que, conta Furlan, anos atrás, quando foi convidado para um aniversário do professor Dalton, foi surpreendido: “O Sérgio fazia aniversário no mesmo dia, mas não contou nada para nós”.

Furlan disse que “Sérgio ainda hoje age comigo como se fosse meu irmão mais velho. Me dá muita dura quando eu apareço na mídia (como presidente da seção local da Associação dos Juízes Federais – Ajufe), me diz coisas como ‘isso você não pode fazer’ “.

O amigo contou que “Sérgio me disse que a Ajufe deveria ter uma postura mais cívica do que coorporativa”. Dá um exemplo: “Uma vez eu fui premiar uma personalidade, fazer um agradecimento público porque ele tinha ajudado ao tribunal. Aí ele me disse ‘tem gente aí (na lista de premiados) que não pode ser homenageada’ e eu tive que cortar esta pessoa”. O nome do vetado por Moro não foi revelado.

Furlan deu uma entrevista para a FSP e “Sérgio me deu uma espinafrada, numa boa, me pediu para não falar mais”. Ele acredita que o amigo detesta o que seriam ‘reportagens laudatórias’. Moro disse pra Furlan que “… (Justiça) é um trabalho conjunto, delegado, promotor, o juiz só defere o que o Ministério Público pede… é apenas um elo.”

O juiz amigo diz que “90 por cento daquilo que o Ministério Público pede Moro acata”. Elogia Moro por “mandar prender gente poderosa”, vê “mérito do Supremo em manter as prisões”.

Furlan é o primeiro incentivador da campanha da Ajufe para obter uma cadeira no STF para Moro: “Pode dizer que eu disse: ele é uma pessoa que reúne todas as condições morais e intelectuais para estar no Supremo”.

Na faculdade, o amigo que hoje o quer no STF não percebeu em Moro nem a vontade de ser juiz: “Ele estudava mais do que todos nós. Acho que isto ele pegou da mãe. Dona Odete não deixava ele sair para brincar sem ler antes uma cota de livros, todos os dias. Mas eu não sabia que ele ia fazer o concurso para juiz, foi uma surpresa. Quando fez e passou, me chamou, mas só quando já era para ver o resultado”.

Furlan participa bastante do lado Caras da vida de Sérgio. Sabe que o amigo já foi a uma festa sertaneja na casa de shows Curaçao, mas o pinta quase como um asceta: “Nunca deu bola para a mulherada, nem fala piadas pornográficas, não usa palavrões”.

Contou que Sérgio “namorou uma menina por muito tempo (a estudante de arquitetura), mas eu nunca vi esta pessoa”.

Nas mesas com colegas juízes, notou que “ele raramente fala, prefere ouvir e fazer comentários pontuais”.

Ele acha o amigo zero vaidoso: “Sérgio compra uma camisa Calvin Klein e diz ‘o importante é a pessoa que está dentro, típico dele falar assim’ “. Notou que “ele trabalha sempre com os mesmos ternos e gravatas, deve ter só dois”.

Furlan disse que o amigo usa “as camisas pretas só em ocasiões importantes”, como aquela em que recebeu da Rede Globo o título de personalidade do ano de 2014.

Furlan frequenta a casa dos Moro em Curitiba. Os dois costumam fumar charutos no Shopping Bourbon, “quando bebemos algumas, ele é flex”, significando que o juiz prefere vinhos, mas que também bebe destilados “socialmente, moderadamente”.

Dos velhos tempos ele lembra que a turma zoava do jeito certinho de Sérgio Moro: “Quando a gente saia e tomava uns vinhos contando as histórias dele, ele ria, reagia com bom humor. Mas era um cara inflexível nos princípios dele”, contou, sem elaborar sobre os princípios.

Protesto contra o governo: ídolo da direita
Protesto contra o governo: ídolo da direita
Sérgio Moro desenvolveu um gosto especial por estudos religiosos, compartilhado apenas com alguns juízes mais chegados, em reuniões fechadas. Um colega que participou de um destes encontros disse que ele é capaz de discorrer por horas sobre as diferenças entre cristãos, judeus e muçulmanos. É um especialista em Maomé, mas continua católico como a mãe.

As conversas de política entre os dois, hoje, se acontecem, não foram reveladas por Furlan. Falando de si mesmo, Furlan se definiu como petista na juventude, do tipo que “segura o violino com a esquerda mas toca com a direita”. No momento (falando antes do tsunami das contas na Suíça), se disse admirador do presidente da Câmara Federal Eduardo Cunha (PMBD/RJ) “que está desengavetando tudo, botando as pessoas para trabalhar. Não entro no mérito, mas no jogo político ele tá ok”.

Última sobre Sérgio Moro: o juiz Furlan disse que “na Justiça, ele não gostava dessas milhares de ações de baixa relevância, prefere poucas causas, mas as boas causas” — fica agora a tarefa de descobrir como foram distribuídos para ele apenas casos top tipo Banestado, Mensalão e Petrolão.

Em tempo: nesta quinta (14) dona Odete atendeu o repórter por telefone.

Ela estava de muito bom humor, mas já começou com a frase “você sabe que não posso falar nada sobre meu filho”.

Papo vai, perguntei se ela não estaria disposta a falar ao menos dos “segredos” do nascimento dele, que não contara à repórter que a visitara em agosto.

Dona Odete achou engraçada tanta curiosidade e começou a rir:  “Ele nasceu de parto normal, satisfeito? ”

Pedi mais: “Ele tinha três quilos, foi uma criança pequena”.

Aproveitei a deixa e perguntei pelos números dele nos testes do pezinho e de apgar: “Naquele tempo não existiam”, disse a senhora.

Neste momento dona Odete já estava às gargalhadas ao telefone. Aí ela se voluntaria: “O sangue dele é O negativo”.

Eu ia aproveitar o momento para perguntar… mas ela se antecipou, mais ou menos assim: “Ele não quer que eu fale nada e não vou falar”.

Fim do papo. “Tenha um bom dia”, e desligamos.

Renan Antunes de Oliveira
No DCM
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A caçada ao almirante Yamamoto

Comandante-chefe da marinha japonesa foi o responsável por elaborar o ataque a Pearl Harbor, em 1941

Os americanos sabiam o dia, hora e local por onde o avião de Yamamoto iria passar
Considerado um dos maiores estrategistas militares da história, o almirante Isoroku Yamamoto foi quem elaborou o devastador ataque a Pearl Harbor, no Havaí, em dezembro de 1941, mesmo sabendo das consequências que o Japão poderia sofrer mais adiante. A ofensiva que deixou mais de 2,4 mil mortos, além de destruir boa parte da frota da Marinha dos Estados Unidos posicionada no Oceano Pacífico, custou caro ao Japão e, sobretudo, para Yamamoto.

O ataque a Pearl Harbor foi uma missão “preventiva”, na qual o Japão ganhou uma vantagem de seis meses em relação aos EUA e tempo suficiente para invadir diversos territórios no Pacífico com pouca ou nenhuma resistência. E Yamamoto esteve à frente de praticamente todas essas operações. No entanto, tinha plena consciência do que estava fazendo. “Receio que tenhamos acordado um gigante adormecido”, declarou o almirante logo após o ataque ao Havaí.

E foi justamente a ofensiva a Pearl Harbor que levou os EUA para a Segunda Guerra Mundial. A nação liderada pelo então presidente Franklin D. Roosevelt, que considerou o ataque uma “infâmia”, atuou em todas as frentes de combate e teve papel fundamental na vitória dos Aliados. Yamamoto, porém, não viveu para testemunhar a derrota do Japão.

Yamamoto ingressou na Marinha do Japão com
apenas 20 anos
Sangue de samurai

Filho do samurai Sadayoshi Takano, Yamamoto, que nasceu em 4 de abril de 1884, conhecia muito bem os americanos. O homem que se tornaria o comandante-chefe da Marinha Imperial do Japão foi adotado por uma tradicional família japonesa (o também clã samurai Yamamoto), estudou na Universidade de Harvard e tinha pleno domínio do idioma inglês, assim como dos costumes do país e conhecimento sobre sua infraestrutura industrial. Essa experiência o fez discordar duramente de uma eventual guerra contra os EUA, ardorosamente defendida pelos militares japoneses. Mas ele não foi ouvido.

Yamamoto ingressou na Marinha japonesa em 1904 e imediatamente já foi enviado ao combate. O então marinheiro serviu no encouraçado Nisshin durante a Guerra Russo-Japonesa, no que foi a primeira demonstração da capacidade militar do Japão no século XX.

Os japoneses aniquilaram as forças russas no Pacífico e tomaram para si grandes porções da Rússia Oriental, que seriam retomadas somente no final da Segunda Guerra Mundial. Durante a batalha naval de Tsushima o navio de Yamamoto foi atacado, o que lhe custou a perda de dois dedos na mão esquerda.

Enviado para casa, Yamamoto decidiu estudar a pegar em armas. Em 1914 ingressou na Escola Naval da Marinha Imperial e dois anos depois alcançou a patente de tenente. Em seguida foi para os EUA, onde conheceria de perto seu futuro inimigo.

Promovido a Almirante em 1938, após comandar diversos ataques bem sucedidos na China, Yamamoto era reconhecido por sua capacidade de antecipar os movimentos do inimigo e criar eficientes formas de combatê-los. Não fosse pelo comandante da Marinha, o Japão não teria investido no desenvolvimento de aeronaves e porta-aviões, que foram a ponta de lança do Japão nos conflitos durante a Segunda Guerra Mundial e também o artifício que levou a cabo o ataque a Pearl Harbor, até então uma missão inédita no mundo militar.

Começa a caçada

Dispostos a vingar as vítimas de Pearl Harbor, os EUA decidiram eliminar o Almirante japonês, o que também ceifaria do Japão um de seus melhores estrategistas, se não o melhor. Como Yamamoto previu, os japoneses não teriam condições de vencer os norte-americanos. Um ano após o ataque ao Havaí, o país já começava a sentir os efeitos das armas do Ocidente.

O ataque a Pearl Harbor deixou mais de 2.400 mortos e destruiu dezenas de navios
Todos os territórios conquistados pelo Japão no final da década de 1930 foram retomados um a um em algumas das batalhas mais sangrentas da Segunda Guerra Mundial, como a reconquista das ilhas de Salomão e Guadalcanal, que eram pontos estratégicos fundamentais, tanto para o Japão como para os EUA e os Aliados.

O trabalho de inteligência secreta dos EUA já havia quebrado o código de comunicação japonês, que era realizado por uma máquina de mensagens criptografadas semelhante a “Enigma”, utilizada pela Alemanha nazista — e que foi desvendada pela Inglaterra. Desta forma, os americanos sabiam de todos os movimentos do Japão.

No dia 14 de abril de 1943, foi interceptada a mensagem de rádio que o comando norte-americano mais aguardava, revelando a posição de Yamamoto. O comunicado dizia que o Almirante japonês iria partir das ilhas Rabaul (tomadas dos ingleses) para um inspeção de tropas e equipamentos nas Ihas Salomão em apenas quatro dias. Os americanos, no entanto, estavam determinados a interromper essa viagem, que seria realizada por dois bombardeiros Mitsubishi G4M “Betty” escoltados por seis caças A6M Zero.

Os bombardeiros Mitsubishi G4M também era utilizado como transporte de pessoal
Operação Vingança

Com a informação nas mãos, o comando dos EUA imediatamente traçou o plano para derrubar o avião de Yamamoto. A missão, que recebeu o nome “Operação Vingança”, foi elaborada às pressas. Decidiu-se que seria formada uma força com 16 caças Lockheed P-38 Lightning baseados em Guadalcanal equipados com tanques de combustível auxiliares para alcançar a formação de aviões japoneses, que estava a cerca de 1.600 km de distância.

Na manha do dia 18 de abril de 1943, a formação de aeronaves japonesas partiu de Rabaul para uma viagem de aproximadamente 500 km, que deveria ser realizada em menos de três horas. Muito antes disso, os P-38 dos EUA já estavam no ar voando a toda velocidade rasando as ondas para evitarem os radares japoneses.

A formação japonesa foi atacada de forma fulminante por 16 caças P-38
Às 9:34 no horário de Tóquio naquele dia, os caças americanos avistaram a formação japonesa voando a cerca de três mil metros de altura e partiram para o ataque a toda velocidade.

Nenhum avião japonês avistou os caças americanos se aproximando e rapidamente toda a formação foi destruída. Os Zeros tiveram poucas chances de manobrar, tampouco a aeronave que transportava Yamamoto e mais dois importantes comandantes japoneses. Apesar da desvantagem, um dos aviões japoneses abateu um P-38 americano, que foi a única baixa na missão.

O tenente Barber recebeu uma medalha de honra
pelo abate do avião que transportava Yamamoto
O bombardeiro que transportava o Almirante japonês teve seu motor esquerdo atingido e partes da asas se quebraram, o que fez o avião perder o controle até cair na floresta de Buin, na Papua Nova Guiné. O abate foi creditado ao tenente Rex T. Barber, que se vangloriou do fato até o ano de sua morte, em 2001.

A aeronave que transportava Yamamoto foi encontrada no dia seguinte por uma patrulha australiana, frustando a operação de busca do Japão. O corpo do Almirante foi encontrado nos destroços, mas não foi a queda que o matou. Em seu corpo foram encontrados buracos de bala no ombro e na cabeça, evidenciando a falta de blindagem dos aviões japoneses — esse foi o maior defeito dos aviões japoneses no conflito, cujo projetistas julgavam ser impossíveis de abater e por isso abriam mão do peso extra da blindagem para obterem melhores desempenhos em velocidade e manobrabilidade.

A morte do Almirante Yamamoto foi comunicada ao povo japonês somente no dia 21 de abril, o que devastou a mente da população e militares, que o consideravam umas das maiores fontes de inspiração para continuar lutando, apesar de sua aversão ao conflito. Após esse dia, o desconfiança passou a imperar no Japão, que se renderia dois anos depois após os ataques nucleares em Hiroshima e Nagasaki.

Fonte: War History
No Airway
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Faculdade de R.R. Soares fecha as portas e culpa o governo


A Faculdade do Povo (FAPSP), criada em 2009 para ofertar cursos na área de Comunicação, fechou as portas no final de 2015 alegando inviabilidade financeira, gerando a demissão de todo o quadro de funcionários e a transferência forçada de seus 430 alunos. De acordo com a instituição, o “grande vilão” da história foi o programa de financiamento estudantil Fies, cuja mudança de diretriz para suportar o contingenciamento dos gastos da União acabou reduzindo o número de beneficiados.

A FAPSP era mantida pela Associação Educacional e Assistencial Graça de Deus (Pró-Graça), uma entidade com sede no Rio de Janeiro, associada à Igreja Internacional da Graça de Deus, do televangelista missionário R.R. Soares. No site da Igreja, consta que a Pró-Graça não é mantida com dinheiro de dízimo. (Leia abaixo)

Em dezembro, inesperadamente, a Faculdade do Povo emitiu o primeiro comunicado aos estudantes avisando sobre o encerramento das atividades e extinção de todos os cursos “por força da absoluta inviabilidade econômico-financeira, agravada pelo atual quadro de recessão”.

“A FAP fechou porque a mantenedora não suportou mais o déficit mensal de mais de R$ 100 mil para manter a escola aberta. O Fies foi o grande vilão. Fizemos um esforço hercúleo para satisfazer todas as exigências e para conseguir passar pelas etapas do extremamente confuso site do Fies. Conseguimos autorização de cerca de 200 bolsas, mas, na hora H, apenas três alunos foram contemplados. A informação era a de que, diante dos cortes necessários, o governo priorizou cursos na área de medicina e engenharia, no Norte e Nordeste do país”, disse ao GGN o diretor geral da Faculdade do Povo, Eber Cocareli.

A FAPSP também possuía mais de 100 bolsistas com 50% de desconto, em média, pelo Prouni. Entre os demais, “a maioria esmagadora contava com algum tipo de desconto sistemático” de 30% a 50% fornecido pela própria faculdade, na tentativa de atrair e fidelizar estudantes.

À época do fechamento, Patrícia Paixão, coordenadora do curso de Jornalismo, publicou em sua página pessoal no Facebook uma mensagem lamentando a postura da Faculdade. “Os prêmios que conseguimos, nossos projetos, nada foi considerado. Fomos vistos como um número”, desabafou.

A Pró-Graça emitiu, dias depois, um informe sobre as tratativas com uma universidade em São Paulo para transferir os alunos “nas condições mais próximas possíveis das que eles dispunham na FAPSP”. A universidade parceira é a Unisa (Universidade de Santo Amaro), que, contatada há uma semana pelo GGN, não quis fornecer detalhes sobre os procedimentos adotados com os novos alunos.


Sem aviso ao MEC

Ao contrário do que estabelece a legislação, a Faculdade do Povo fechou as portas subitamente sem aviso ao Ministério da Educação. A pasta informou ao GGN que a Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior notificou a instituição de ensino em 22 de dezembro, para que prestasse os esclarecimentos necessários.

Cocareli confirmou que a instituição foi notificada e disse que coube à mantenedora, ligada à igreja de R.R. Soares, regularizar a situação. “Os trâmites foram todos feitos diretamente pela Pró-Graça, no Rio de Janeiro, e eu não sei qual foi o desfecho", pontuou.

Dificuldade na transferência

Prounista do curso de Jornalismo, Ana Gabriella Salles relatou ao GGN dificuldades na troca de instituições. Segundo ela, a Faculdade do Povo “não está disponibilizando o conteúdo programático que é exigido para efetuar a transferência”. “Estamos praticamente sendo obrigado a fazer transferência para a Unisa, sendo que lá não podemos mudar de horário, campus ou curso”, reclamou.

Segundo a Faculdade do Povo, o histórico escolar de todos os alunos foi impresso antes do dia 18 de dezembro. “O Conteúdo Programático está sendo feito à medida em que é requerido pelo aluno que não deseja ir para a Unisa. Como só temos quatro pessoas na secretaria, o trabalho é lento, mas está sendo feito”, afirmou Eber Cocareli. De acordo com ele, a Unisa está reformando e adaptando o campus de Santa Cecília para dar conta da demanda.

De acordo com o MEC, "bolsa de estudo [Prouni] poderá ser transferida para curso afim, ainda que para turno distinto, de outra instituição regularmente credenciada e participante do programa. O procedimento de transferência de bolsa é de caráter interno das instituições, devendo ser solicitada diretamente pelo estudante.”

Fonte de recursos

Em seu site, a Igreja Internacional da Graça de Deus explica a relação da Faculdade do Povo com a Pró-Graça: “Quem mantém a Faculdade do Povo é a Associação Educacional e Assistencial Graça de Deus, mais conhecida como Pró-Graça. Trata-se de uma entidade criada, com diretoria própria, para atrair e gerir recursos que não dízimos e ofertas, a fim de empregá-los na obra social. A Pró-Graça trabalha junto a empresas e órgãos públicos, para cumprir sua finalidade. É bem diferente de usar os recursos financeiros da Igreja em coisas que não estejam diretamente ligadas à pregação do Evangelho, pois só ela prega a Palavra, e se desviar os recursos que tem para outras finalidades, a salvação dos perdidos ficará prejudicada.”

Cíntia Alves
No GGN
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Revista vermelha tenta contradizer Bolsonaro mas se dá mal

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Dilma veta auditoria da dívida pública com participação da sociedade civil

Decisão prejudica a transparência de gasto que consome mais de 40% do orçamento federal e já chegou, em 1 de dezembro de 2015, a R$ 958 bilhões

Nesta quinta-feira, 14 de janeiro de 2016, o Diário Oficial da União (Seção 1, página 9), divulgou o veto da Presidência da República à realização de auditoria da dívida pública com participação de entidades da sociedade civil, no âmbito do Ministério da Fazenda.

Essa auditoria havia sido incluída no Plano Plurianual (PPA 2016-2019), por meio de emenda do Deputado Edmilson Rodrigues (PSOL/PA), acatada pela Comissão de Finanças e Tributação, que é o principal órgão colegiado da Câmara dos Deputados sobre o orçamento público.

Em sua justificativa, o governo diz:
“O conceito de dívida pública abrange obrigações do conjunto do setor público não financeiro, incluindo União, Estados, Distrito Federal e Municípios e suas respectivas estatais. Assim, a forma abrangente prevista na iniciativa poderia resultar em confronto com o pacto federativo garantido pela Constituição. Além disso, a gestão da dívida pública federal é realizada pela Secretaria do Tesouro Nacional e as informações relativas à sua contratação, composição e custo, são ampla e periodicamente divulgadas por meio de relatórios desse órgão e do Banco Central do Brasil, garantindo transparência e controle social. Ocorrem, ainda, auditorias internas e externas regulares realizadas pela Controladoria Geral da União e pelo Tribunal de Contas da União”.
Tais justificativas não se sustentam. A dívida dos entes federados está profundamente relacionada com o governo federal, sendo que este último é justamente quem cobra a maioria destas dívidas, que precisam ser urgentemente auditadas, e tem causado sérios danos às finanças de estados e municípios.

Sem transparência

Além do mais, não há transparência sobre diversos aspectos do endividamento, a começar pelos próprios beneficiários desta dívida, cujos nomes são considerados como sigilosos pelo governo, apesar de se tratar de recursos públicos.

A recente CPI da Dívida, realizada na Câmara dos Deputados (2009/2010), teve diversas informações e documentos não fornecidos pelos órgãos do governo.

O gasto com juros e amortizações da dívida pública federal atingiu em 2015 (apenas até 1/12/2015) o valor de R$ 958 bilhões, dos quais grande parte decorre de cobertura de gastos feitos pelo Banco Central com, por exemplo, Operações de Mercado Aberto e de Swap Cambial, da ordem de centenas de bilhões de reais.

Não há transparência sobre tais operações, seus beneficiários, e suas reais necessidades para o país, conforme pode ser verificado no artigo “O Banco Central está suicidando o Brasil”, de Maria Lucia Fattorelli.

Destaca-se também a falta de transparência e discussão com a sociedade sobre a real necessidade das altíssimas taxas de juros, responsáveis pelo crescimento da dívida pública e pelo expressivo aumento dos gastos do Tesouro com a dívida.

A justificativa de “controle da inflação” não tem se confirmado na prática, dado que a alta de preços não tem sido causada, preponderantemente, por um suposto excesso de demanda, mas sim, por preços administrados pelo próprio governo, como energia, combustíveis, transporte público, planos de saúde, e pela alta de alimentos, em um contexto no qual é priorizada a agricultura para exportação.

Ressalta-se também a importância de se auditar a origem do endividamento atual, desde o Regime Militar, cuja documentação requerida pela CPI da Dívida Pública da Câmara dos Deputados (2009-2010), em grande parte, não foi fornecida pelo Banco Central, a exemplo de contratos de endividamento externo, e valores devidos externamente pelo setor privado assumidos pelo setor público.

A participação de entidades da sociedade civil é fundamental para o processo de auditoria, a exemplo do ocorrido recentemente no Equador, quando a Comisión para la Auditoria Integral del Credito Publico (CAIC), com a colaboração da sociedade civil, permitiu a investigação dos crimes da ditadura, e a consequente anulação de 70% da dívida externa com bancos privados internacionais.

A Auditoria da Dívida Pública no Brasil está prevista na Constituição Federal — na forma de uma Comissão Mista de deputados e senadores — e deveria representar um procedimento normal, com vistas à transparência dos gastos públicos. Portanto, a inclusão da referida iniciativa no âmbito do Ministério da Fazenda, apesar de ainda não representar o cumprimento da Constituição, seria de grande valia para a transparência do maior gasto federal.

Desta forma, garantir-se-ia a ampla discussão com a sociedade sobre a alocação de centenas de bilhões de reais, sendo injustificável o veto de dispositivo que apenas visa garantir maior transparência aos gastos públicos, e aperfeiçoar a gestão do endividamento.
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