10 de jan de 2016

Igreja católica explora mão-de-obra infantil na África


Un informe de la BBC denuncia que en África la Iglesia Católica tiene terrenos administrados conjuntamente con empresas multinacionales que explotan mano de obra infantil.

En la zona de Kabale, Uganda, pudieron hablar con el supervisor de el campo de té en terrenos de la Iglesia Católica y la empresa Kigezi Higland Tea Limited, donde trabajan niños de hasta 10 años de edad.

Los niños reciben 1.000 chelines de Uganda, unos 0,30 centavos de dólar por cada jornada laboral. En la granja trabajan unos 15 niños junto con el resto de la comunidad, y su trabajo consiste en transportar las hojas de té de un lado a otro.

Según representantes locales de la Iglesia Católica, el acuerdo con la multinacional fue impulsado por la diósesis local de Kabale para financiar proyectos en favor de la comunidad, mientras que la empresa se abstuvo de hacer comentarios.

Incluso en la casa del obispo Callistus Rubaramira de la diósesis de Kabale, la BBC encontró niños de 10 años trabajando en los terrenos. Los intentos de hablar con el obispo fueron infructuosos.

Ante la pregunta expresa de los periodistas, el portavoz de Bergoglio emitió el siguiente comentario: “Niego tanto la responsabilidad como el deber de responder sobre esto; si es un problema de la iglesia local, no soy responsable de ello”.

La ONU calcula que solamente en Uganda existen aproximadamente 3 millones de niños en condiciones laborales parecidas.

No Movimiento Político de Resistencia
Leia Mais ►

Delator premiado passeia em Angra e é hostilizado


Depois de promover uma festa de arromba para a filha, o delator Júlio Camargo, um dos maiores corruptores da história do Brasil, que atua há décadas na Petrobras, decidiu curtir seu barco em Angra dos Reis (RJ); a farra terminou mal; vídeos aos quais o 247 teve acesso mostram o empresário e acompanhantes sendo hostilizados, ao tentar entrar em um restaurante a beira-mar na cidade fluminense; "Tornozeleira nele, pilantra, corrupto", foram alguns dos xingamentos atirados contra Camargo, que tem mantido vida nababesca; durante a troca de insultos, um homem chega a quebrar uma taça e partir para cima de Camargo, que aparece ao fundo, sem camisa, nas imagens; em resposta, a esposa disse que se não fosse ele, os políticos não seriam denunciados; como diria Elis Regina, "está cada vez mais down na high society"; veja o vídeo:

Leia Mais ►

Cunha sobreviverá à quebra de sigilo?


O cerco ao correntista suíço Eduardo Cunha aumenta a cada dia que passa. Nesta sexta-feira (8), o ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a quebra dos sigilos bancário e fiscal do presidente da Câmara Federal, de sua mulher, Cláudia Cruz, da filha Danielle e das várias empresas ligadas à família. A decisão atende ao pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR) e servirá para mapear as suspeitas movimentações financeiras do achacador entre 2005 e 2014. O líder da cruzada golpista pelo impeachment de Dilma é investigado na Operação Lava-Jato, acusado de ter recebido propina para viabilizar contratos da Petrobras. Também serão investigadas as contas que o deputado e a família mantinham no exterior. Será que Eduardo Cunha resistirá à devassa fiscal?

Investigações da Receita Federal confirmam que o deputado e a sua família acumularam uma fortuna "incompatível com a renda declarada" entre 2011 e 2014. O patrimônio ilegal seria de R$ 1,8 milhão. As empresas do lobista, como a 'Jesus.com' e a 'C3 Produções e Rádio', também receberam depósitos suspeitos neste período. "Os montantes dos indícios apontados estão significativamente influenciados pelos gastos efetuados com cartão de crédito", afirma o relatório do órgão. Eduardo Cunha segue na estratégia de negar as acusações — chegou a afirmar que "não possuo patrimônio a descoberto", o que agora foi desmentido pela Receita Federal — e de tentar desqualificar o procurador Rodrigo Janot.

"Mais sortudo do que um ganhador da Mega Sena"

Este, por sua vez, parece que finalmente perdeu a paciência diante dos ataques do agressivo lobista. A Folha deste sábado (9) divulgou um relatório da PGR devastador para o ainda presidente da Câmara dos Deputados. "Eduardo Cunha (PMDB-RJ) foi mais sortudo do que um ganhador da Mega Sena ao lucrar R$ 917 mil com papéis no mercado de capitais, apontou a Procuradoria Geral da República em documento protocolado no STF. Ao mesmo tempo em que lucrava, os negócios geraram perdas a um fundo de pensão de servidores públicos do RJ. As transações suspeitas ocorreram entre abril de 2004 e fevereiro de 2005 e foram alvo de uma investigação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM)".

Os "lucros indevidos" foram obtidos com os papéis da Prece, o fundo de pensão dos funcionários da Cedae, a companhia carioca de água. "A Prece operava na época em sete fundos de investimento por meio de diversas corretoras, entre as quais a Laeta, que tinha Cunha como um dos clientes. No curso de um inquérito que tramita no STF, derivado da Operação Lava Jato, a PGR teve acesso ao inquérito que investigou os lucros de Cunha... Segundo a PGR, a apuração da CVM constatou que as taxas de sucesso de Eduardo Cunha nas operações foram de 100% no mercado de dólares e de 98% em outro papel. Cunha teria atuado em 23 pregões", registra a Folha.

Irônica, a PGR concluiu: "Para se ter uma ideia, a probabilidade de se obter taxa de sucesso de 98% ocorre em uma vez para cada 257 septilhões. Sabendo-se que a chance de ganhar a Mega Sena quando se faz a aposta mínima é de 1 em 50 milhões, verifica-se que a chance de uma taxa de sucesso de 98% é praticamente nula e decorre claramente de uma fraude". O esquema fraudulento consistia em privilegiar alguns clientes em detrimento dos próprios fundos. "Em outras palavras", aponta a PGR, "todos os prejuízos ficavam para os fundos e todos os lucros para determinados clientes das corretoras, dentre eles Eduardo Cunha". Para a PGR, havia um esquema "preordenado e preparado dentro de cada uma das corretoras e distribuidoras intermediárias envolvidas".

"Esqueceu de mim?", pergunta o lobista

Em outra linha de investigação, a Polícia Federal apresentou também na semana passada um relatório que aponta as tentativas do deputado carioca de obter grana para sua campanha junto à empresa OAS, investigada na Operação Lava-Jato. "Esqueceu de mim?", pergunta Eduardo Cunha em um dos e-mails vazados. "O relatório apresenta a íntegra das mensagens trocadas entre o presidente da Câmara e o então presidente da construtora OAS, Leo Pinheiro, e revela uma intensa troca de favores entre os dois. São 94 conversas entre 2012 e 2014, antes da prisão do empreiteiro em novembro daquele ano. Na época, Eduardo Cunha ainda não era presidente da Câmara", descreve o Jornal do Brasil. 

O relatório da Polícia Federal tem 108 páginas e foi concluído em 12 de agosto do ano passado. Ele foi encaminhado à PGR devido às citações de políticos com foro privilegiado. "Eduardo Cunha é a figura que mais aparece nas conversas. De acordo com a PF, o parlamentar teria feito 27 pedidos a Pinheiro, e recebido 26 pedidos deste... Uma conversa entre os dois acabou levantando suspeitas sobre a concessão do aeroporto de Guarulhos, administrado por um consórcio integrado pela OAS. No dia 29 de agosto de 2014, Cunha reclamava que o então presidente da empreiteira teria repassado “5 paus” para Michel e Moreira — vice-presidente Michel Temer e o ex-ministro Moreira Franco —, e deixado de ajudar Cunha, Henrique Alves, e o primeiro-secretário do PMDB, Geddel Vieira.

Fim de carreira do achacador?

As denúncias sobre as várias maracutaias de Eduardo Cunha são bem antigas. Muitas delas, inclusive, resultaram em reportagens nos jornais, revistas e emissoras de televisão. Durante a fase mais recente, a mídia oposicionista preferiu abafá-las. Apostava na agressividade do presidente da Câmara Federal para viabilizar o impeachment de Dilma. Com a descoberta das contas na Suíça do deputado e de sua família, a situação se complicou. Ele virou um estorvo para os golpistas — até os fascistas mirins, que nas suas marchas carregaram as faixas "Somos todos Cunha", ficaram órfãos e perdidos. Descartado como bagaço, as denúncias voltam à tona. Será que Eduardo Cunha resistirá a esta nova devassa?

Altamiro Borges
Leia Mais ►

Documentos: Moro tirou da própria cabeça “urgência” e ameaças à Lava Jato

A grande imprensa noticiou, com foros de verdade e sem verificar coisa alguma, que a Polícia Federal do Paraná foi, de canequinha, esmolar dinheiro ao Juiz Sérgio Moro para pagar o conserto de automóveis e e pagar contas de luz.

E que Sérgio Moro, o homem bom, liberou recursos — “embora não seja muito recomendável” — porque “a Lava Jato não pode parar”.

Não coube ao “jornalismo investigativo” apurar se havia algo que ameaçasse a Lava Jato de parar.

Ninguém fez o “dever de casa” de verificar se não havia verbas para que os carros da PF paranaense fossem reparados.

Este blog o fez e mostrou que havia dinheiro, até com sobras, para isso. E o fez não por competência extraordinária, pois toda a comprovação de que não faltava estava em documentos públicos, acessíveis pela internet.  A história estava evidentemente mal contada e fedia a política baixa.

A grande  imprensa submeteu o povo brasileiro a uma mentira, a uma patranha.

Agora, o Ministério da Justiça revela a correspondência oficial entre a Polícia Federal e Sérgio Moro.

São ofícios, numerados e datados.

Neles, fica claríssimo que a liberação de recursos por Sérgio Moro se deu  em 2014, mais precisamente no dia seis de agosto, e nada tinha a ver com a Operação Lava Jato, para instalação de câmaras de segurança.

A câmaras na sede da PF foram instaladas, o que não aconteceu apenas no pátio de veículos e objetos apreendidos na Vila Hauer, bairro de Curitiba onde nenhuma atividade investigativa se dá.

Sobrou, portanto, um saldo, que a PF pede para aplicar — atenção! — “por exemplo” em “manutenção de viaturas/combustível e/ou  contas de luz”. Não há menção à Operação Lava Jato.

Embora indevido, o pedido é seco e conciso.

É Moro quem se espalha.

Introduz  a Operação Lava Jato no assunto, como só de Lava Jato devesse se ocupar uma Superintendência  da PF num estado sensível às questões de droga e contrabando se ocupasse.

Diz que há urgência (diz e repete) quando não existe  sequer esta palavra ou sugestão dela  na solicitação, que pede que ele analise e se manifeste sobre a possibilidade de usar as sobras do investimento em despesas de custeio exemplificadas.

Afirma que “tem presente”  que “a autoridade policial  não solicitaria este remanejamento se não fosse absolutamente necessário”.

Ninguém lhe disse que era e ainda assim ele liberou os recursos sem a oitiva do MP, como é regular.

Poderia, sem prejuízo de nada, ter feito um despacho sóbrio, concordando ou recusando, sem politicagem.

Mas fez isso e ainda acrescentou que o fazia para que a Lava Jato não fosse paralisada, o que só pode existir em seu cérebro obsedado.

Não quero discutir se o Dr. Sérgio Moro é um caso patológico, porque não tenho formação para dizê-lo.

Mas digo que sua decisão fere um princípio jurídico básico, que é  o do extra petita, quando o juiz vai além do que pede e argumenta o requerente. Juiz não acrescenta razões e argumentos, analisa os que lhe são apresentados: e nem urgência nem ameaça de paralisação da Lava Jato lhe foram ditos ou sugeridos. E se foram, informalmente, sua obvia obrigação era dizer: Doutor, então bote isso por escrito…

Sérgio Moro seria um  caso disciplinar, se o Conselho Nacional de Justiça existisse para valer.

Como isso  está além do alcance dos mortais, pois estamos tratando de uma corporação de deuses, já seria alguma  esmola saber quem autorizou os gastos da PF do Paraná, se houve licitação e quem autorizou a pedir o uso do saldo e a pagar “por fora” despesas regulares da PF.

Se não, os PMs da patrulhinhas que filam a bóia de graça no resstaurante do bairro para ficar com a “viatura”  parada nas imediações também vão poder dizer que estão fazendo isso para “aliviar o Erário”.

Reproduzo, para que não pairem dúvidas, as correspondências oficiais, para que se veja como Sérgio Moro, que consegue convencer muitas pessoas de boa-fé agiu como um politiqueiro.

Documento 1
A PF do Paraná não perdeu dinheiro, ganhou recursos extras

ofpfpr1

Documento 2
A PF do Paraná não falou em urgência, nem em ameaças à Lava Jato

ofpfpr2

Documento 3
Sérgio Moro inventa, em despacho, urgência e carências da Lava Jato

moro1
moro2

Fernando Brito
Leia Mais ►

A Moral seletiva da Rede Globo


Essa semana a Globo levou ao ar uma cena de estupro na minissérie “Ligações Perigosas”. Ao contrário do que acontece nas ocasiões em que um beijo gay é mostrado nas telas — o que ocorreu pela primeira vez na emissora apenas em 2014 —, a maioria das pessoas não está escandalizada. E por que as pessoas ficam horrorizadas com uma cena de afeto entre homossexuais e não se incomodam com o estupro na TV? Porque têm moral seletiva, assim como a emissora que, com certa frequência, leva o abuso ao ar mas tem muita cautela ao transmitir o amor entre casais do mesmo sexo.

A minissérie é baseada no romance do século XVII “Les liaisons dangereuses”, de Choderlos de Laclos. Na história, Augusto entra no quarto de Cecília, e mesmo com os pedidos da moça para que ele vá embora, insiste em ensiná-la a dar um “beijo de verdade”. Depois do beijo, Cecília ameaça gritar para que Augusto deixe seu quarto. Ele tampa sua boca e inicia o ato sexual não consentido: o estupro. Durante o ato, Cecília é retratada como sentindo prazer.

Além de mostrar uma cena perturbadora de estupro, a Globo ainda tratou de romantizá-la. Apesar de a moça ter deixado claro que não consentia com a relação sexual, a emissora mostra que, no final das contas, ela sentiu prazer. A história original também é assim. Mas, fica a dúvida: por que, então, tantas décadas estudando se ia ou não mostrar um beijo gay e nenhum pudor ao mostrar um estupro? Talvez porque essa cultura patriarcal e do estupro, que viola, mutila e tortura mulheres todos os dias — física e psicologicamente — seja mais aceitável para as famílias tradicionais brasileiras e para a grande mídia do que o amor entre pessoas do mesmo sexo.

Não vamos permitir que esse tipo postura da Globo passe sem críticas. A violência contra a mulher em suas diversas formas é uma realidade latente que vitima todas as brasileiras em algum momento, seja pelo assédio no rua, pela violência doméstica ou pelo estupro. Romantizar isso é uma atitude que incita o crime e endossa todas as ideias profundamente retrógradas que existem sobre a submissão da mulher. Machistas não passarão.

Paulo Pimenta é jornalista e deputado federal pelo PT-RS
Leia Mais ►

Se Aécio fosse petista já estaria na Papuda


Expoentes do PT como João Vaccari Neto ou José Dirceu, etc, estão presos porque foram alvos de delações premiadas. Quando empreiteiros, banqueiros, doleiros ou laranjas acusam petistas, a mídia produz manchetes tonitruantes, os telejornais se esbaldam e a oposição, Aécio Neves à frente, exigem prisão, tortura, decapitações etc. contra os acusados.

Eis que, em 30 de dezembro, Aécio Neves apareceu pela segunda vez na Operação Lava Jato; na primeira, foi citado pelo doleiro Alberto Youssef como responsável pela montagem de um ‘mensalão’ em Furnas. Neste domingo, 10 de janeiro, surge uma terceira menção.

Em negociação para firmar um acordo de delação premiada, o ex-presidente do PP (Partido Progressista) Pedro Corrêa alega ter informações capazes de comprometer aproximadamente cem políticos, entre eles dois ministros do atual governo: Jaques Wagner, da Casa Civil, e Aldo Rebelo, da Defesa. A relação apresentada por Corrêa durante as tratativas, porém, inclui Aécio.

As três menções ao ex-candidato tucano a presidente e linchador-mor de petistas citados na Lava Jato pouco ou nada diferem das que levaram petistas à cadeia, recentemente. É tudo questão de a Justiça decidir que acusações sem provas vai levar a sério e para quais irá requerer “provas” que não são pedidas para acusados filiados ao partido contra o qual a Lava Jato foi pensada.

São três — uma, duas, três — menções a Aécio no âmbito da Lava Jato e tais menções não tem sido suficientes para que ele ao menos tenha a decência de calar a boca e parar de acusar outros por problemas com a Justiça que também tem.

Tomemos, por exemplo, o caso de Jaques Wagner, ministro-chefe da Casa Civil. Delatores ligados a uma empreiteira dão como “prova” de que ele se corrompeu doação eleitoral de 50 mil reais dessa empresa ao ministro quando se candidatou ao governo da Bahía. Esse valor corresponde a cerca de 1% dos gastos dele de campanha e foi devidamente registrado na Justiça Eleitoral.

Contudo, a celeuma que se formou em torno disso em nada lembra o tratamento da grande mídia que vem sendo dado a Aécio, contra quem, apesar de ser o líder da oposição, praticamente não se vê uma mísera manchete com destaque, isso sem falar que muitos veículos nem sequer se dão ao trabalho de registrar que o tucano foi acusado.

O vazamento contra Jaques Wagner é escandaloso porque foi feito exatamente no momento em que ele começava a falar de política em nome do governo de forma a reagir aos ataques da oposição. O que soa essa acusação ridícula envolvendo um valor ridículo é que se trata de um recado: pare de falar, do contrário vai virar alvo da mídia.

Voltando a Aécio, se puxarmos o caso da Lista de Furnas, por exemplo — uma denúncia antiga contra tucanos de Minas que ganhou força ao voltar à cena via delatores da Lava Jato —, o envolvimento de Aécio se mostra grave.

Só para refrescar algumas memórias: dois dos principais delatores da operação Lava Jato, o doleiro Alberto Youssef e o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa, mencionaram, em agosto do ano passado, que políticos do PSDB receberam recursos desviados de empresas estatais como a Petrobras e Furnas. Entre os beneficiados foram citados o ex-presidente nacional partido Sérgio Guerra e o senador Aécio Neves.

O que Yousseff e Paulo Roberto Costa dizem contra petistas tem um peso, o que dizem contra tucanos, outro.

O caso da Lista de Furnas, que até hoje ninguém conseguiu provar que é falsa, contem acusações contra Aécio que, se para elas fosse usado o mesmo critério usado para acusações contra petistas, já teriam levado o tucano para a Papuda.

A essa denúncia somam-se as outras supracitadas, mas o silêncio da mídia é sepulcral. E com a mídia em silêncio a Justiça não anda, os “torquemadas” da Lava Jato não se indignam, não produzem aqueles showzinhos que são suas entrevistas coletivas.

A Operação Lava Jato poderia ser uma benção para o país. Porém, não passa de uma farsa.

Desde que todos nos conhecemos por gente sabemos que empreiteiras corrompem agentes do poder público para ganharem os contratos que as tornaram mega empresas transnacionais. As mesmas empreiteiras que têm contratos com o governo federal, com a Petrobrás, têm contratos com Estados e municípios, muitos dos quais governados por tucanos e outros oposicionistas.

E mídia e Justiça tentam nos fazer crer que no escândalo dos trens em São Paulo as mesmas empreiteiras que corromperam funcionários da Petrobrás e que constroem estações ferroviárias e metroviárias para o governo tucano, só corrompem agentes do poder público se forem de governos petistas. É o samba do descendente de europeu doido.

Eduardo Guimarães
Leia Mais ►

Aécio citado em nova delação

O ex-deputado Pedro Corrêa, após prisão na Operação Lava Jato; ele negocia delação premiada
Em negociação com a força-tarefa da Operação Lava Jato e com a Procuradoria-Geral da República para firmar um acordo de delação premiada, o ex-presidente do PP (Partido Progressista) Pedro Corrêa adiantou ter informações capazes de comprometer aproximadamente cem políticos, entre eles dois ministros do atual governo: Jaques Wagner, da Casa Civil, e Aldo Rebelo, da Defesa.

A relação apresentada por Corrêa durante as tratativas inclui ainda o nome do senador Aécio Neves (PSDB-MG), candidato derrotado nas últimas eleições presidenciais.



Preso em Curitiba, Corrêa foi condenado a 20 anos de prisão sob acusação de corrupção e lavagem de dinheiro no esquema da Petrobras. A sentença aponta recebimento de R$ 11,7 milhões em propina. O ex-deputado federal por Pernambuco já havia sido condenado a sete anos de prisão no processo do mensalão.

Nomes

As conversas para a delação de Corrêa foram iniciadas há cerca de seis meses. Num primeiro momento, o material era composto por 180 anexos divididos por temas. Depois, foi apresentada nova divisão por nomes de políticos, com e sem foro privilegiado.

A negociação para que condenado e investigadores oficializem o termo de colaboração premiada deve ser retomada nesta semana.

Se a delação for aceita, o ex-presidente do PP será beneficiado por uma redução das penas impostas a ele. Os procuradores e Corrêa negociam que ele pague multa de cerca de R$ 4 milhões e cumpra um ano e meio de prisão em regime fechado –a defesa quer reduzir esse tempo.

Investigadores ouvidos pela Folha disseram que, embora Pedro Corrêa venha narrando o enredo de uma "grande crônica política", ele até agora não entregou provas convincentes para boa parte dos episódios relatados. A defesa do ex-parlamentar pernambucano sabe que, para o acordo vingar, os termos precisam ser taxativos e concretos.

Outro lado

Procurado pela reportagem, o ministro-chefe da Casa Civil, Jaques Wagner, informou por meio da assessoria de imprensa que desconhece os termos em que foi citado tanto por Pedro Corrêa tanto por Nestor Cerveró. Por isso, ele disse que não iria se pronunciar.

O petista acrescentou, no entanto, que está à disposição das autoridades e confia no resultado das investigações. Na sexta (8), o petista chamou a acusação de Cerveró de "ilação".

Sobre as mensagens com Léo Pinheiro, Wagner disse estar "absolutamente tranquilo" e que suas atividades são baseadas nos interesses da Bahia e do Brasil.

Aldo Rebelo preferiu não comentar, assim como Aécio Neves. A assessoria do tucano alegou que ele não teve acesso ao contexto da citação feita por Corrêa.
Leia Mais ►

A quem serve a classe média indignada?

Resumo Cientista político e presidente do Ipea rejeita, em novo livro, interpretações do Brasil como a de Sérgio Buarque de Holanda. Negando a ideia de que jeitinho e corrupção sejam exclusividades nacionais herdadas da colonização, aponta o "racismo de classe" e o abandono dos excluídos como raízes dos problemas do país.

Confusão entre o público e o privado, compadrio, herança católica portuguesa, predomínio das relações pessoais e familiares sobre o sistema de mérito, corrupção. Ao contrário do que em geral se pensa, nada disso é característica exclusiva do Brasil.

Para Jessé Souza, presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), vinculado ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, e doutor em sociologia pela Universidade de Heidelberg (Alemanha), criou-se no Brasil, à esquerda e à direita, um legado de equívocos a partir do pensamento de Sérgio Buarque de Holanda (1902-82), que merece ser classificado como um verdadeiro "complexo de vira-lata".

Para o professor de ciência política na UFF (Universidade Federal Fluminense), que acaba de lançar "A Tolice da Inteligência Brasileira" [Leya, 272 págs., R$ 39,90, e-book, R$ 26,99], a intelectualidade do país tende a idealizar as sociedades capitalistas avançadas, imaginando que em países como Estados Unidos ou França predomine a plena igualdade de oportunidades e a completa separação entre o Estado e os interesses privados. Mas o peso das origens familiares, do capital cultural acumulado ao longo de gerações, das pressões empresariais sobre o poder público está presente, diz ele, em qualquer país capitalista.

Autor de estudos sobre Max Weber (1864-1920) e Jürgen Habermas, Jessé Souza desenvolve, em "A Tolice da Inteligência Brasileira", um sofisticado argumento teórico para mostrar de que modo o conceito weberiano de "patrimonialismo" — fundamento das críticas de Raymundo Faoro (1925-2003) à imobilidade do sistema social brasileiro e ao fracasso do capitalismo e da democracia entre nós — não foi originalmente pensado para ter aplicação nas sociedades modernas.

Ao interesse teórico que marcou o início de sua carreira, Jessé Souza tem acrescentado, nos últimos anos, um intenso trabalho de investigação empírica, do qual resultaram livros como "Os Batalhadores Brasileiros: Nova Classe Média ou Nova Classe Trabalhadora?" (editora UFMG, 2010), e "A Ralé Brasileira: Quem É e Como Vive" (ed. UFMG, 2009).

O problema da economia e da democracia brasileiras, argumenta Souza, não nasce de supostas deficiências culturais que tenhamos frente aos países desenvolvidos, mas da incapacidade do sistema para integrar um vasto contingente de excluídos, a quem faltam não apenas recursos materiais, mas equipamentos básicos de educação, autoestima e cidadania.

A lição de Florestan Fernandes, em especial de seu livro de 1964, "A Integração do Negro na Sociedade de Classes" (ed. Globo), é das poucas que saem preservadas do implacável julgamento crítico de "A Tolice da Inteligência Brasileira", repleto de palavras duras contra Roberto DaMatta, Fernando Henrique Cardoso e outros mestres do pensamento social entre nós.

As ciências sociais brasileiras — com influência no discurso da imprensa e das classes médias — têm insistido no conceito de "patrimonialismo": a prática de tratar bens públicos como se fossem propriedade de uns poucos personagens com acesso permanente ao poder político. Você critica esse conceito, chamando-o de "conto de fadas para adultos". Poderia explicar?

O conceito de patrimonialismo foi contrabandeado de Max Weber sem a menor preocupação com a contextualização histórica que é fundamental em Weber. Acho que isso está bem fundamentado no livro, mas a "incorreção científica" não é a questão principal aqui.

O patrimonialismo só sobrevive como um conceito que quer dizer alguma coisa em um contexto que pressupõe o complexo de vira-lata do brasileiro. Essa é a questão principal. É só porque se imagina, candidamente, que existam países onde não há a apropriação privada do Estado para fins particulares — os EUA para os liberais brasileiros seriam esse paraíso — que se pode falar de patrimonialismo como particularidade brasileira.

Imagine a meia dúzia de petroleiras americanas, que mandavam no governo Bush filho, atacando o Iraque, com base em mentiras comprovadas, pela posse do petróleo. E com isso matando milhões de pessoas e desestabilizando a região até hoje com consequências funestas que todos vemos.

Quer melhor exemplo de apropriação privada do Estado para fins de lucro de meia dúzia sem qualquer preocupação com as consequências? A verdadeira questão é sempre em nome de que e de quem se apropria do Estado: para o lucro de meia dúzia — como foi a regra no Brasil e que é a real motivação do impeachment de hoje — ou para a maioria da sociedade.

Minha tese é a de que, no Brasil, o patrimonialismo serve para duas coisas bem práticas:

1) A primeira é demonizar o Estado como ineficiente e corrupto e permitir a privatização e a virtual mercantilização de todas as áreas da sociedade, mesmo o acesso à educação e à saúde, que não deveria depender da sorte de nascer em berço privilegiado;

2) Serve como uma espécie de "senha" de ocasião para que o 1% que controla o dinheiro, a política (via financiamento privado de eleições) e a mídia em geral possa mandar no Estado mesmo sem voto. Não é coincidência que tenha havido grossa corrupção em todos os governos, mas apenas com Getúlio, Jango, Lula e Dilma, governos com alguma preocupação com a maioria da população, é que a "senha" do patrimonialismo tenha sido acionada com sucesso. Somos ou não feitos de tolos?

A corrupção no Brasil, segundo muitos analistas, teria causas culturais, originadas na tradição ibérica e católica. Qual a sua discordância com relação a essa tese?

Essa versão é falsa. Ela é "pré-científica", já que examina o fenômeno da transmissão cultural nos termos do senso comum que pensa mais ou menos assim: "Se meu avô é italiano, então também sou". Depende. A língua comum facilita certas interações, mas o decisivo e o que efetivamente constrói os seres humanos são as influências das instituições, como a família, a escola, a economia e a política.

No Brasil, desde sempre, temos a escravidão como uma espécie de "instituição total" que determinou um tipo muito peculiar de família, de religião, de poder político, de exercício da justiça, de produção econômica, tudo isso muito distinto de Portugal, que desconhecia a escravidão, a não ser de modo muito tópico e localizado.

A Igreja Católica, por exemplo, tinha muito poder e continha o mandonismo dos grandes senhores. Aqui o "senhor de terras e gente" mandava em tudo sem peias. O Brasil desde o ano zero foi, portanto, uma sociedade singular, apesar de colonizada por Portugal. Mas foi a partir desse engano que se criou uma ciência culturalista frágil e superficial, baseada no senso comum que hoje ganha a mente e os corações dos brasileiros de tão repetida por todos.

O mais importante é que essa falsa ciência que constrói o brasileiro como inferior — posto que ligado ao "corpo" como emotividade e sexo, se opondo ao europeu e americano que seriam o "espírito", intelecto e moralidade distanciada — serve a interesses políticos. Esse racismo pela cultura só substitui o "racismo racial" clássico, mantendo todas as suas funções de legitimar privilégios.

Na dimensão internacional, a intelectualidade brasileira dominante, colonizada até o osso, engole o racismo cultural e torna ontológica a suposta inferioridade brasileira; na dimensão interna e nacional, serve para separar "classes do espírito", como a classe média "coxinha", que seria "ética", posto que escandalizada com o "patrimonialismo seletivo" criado pela mídia, e as classes populares, tidas como "amorais", posto que guiadas pelo interesse imediato.

Essa espécie de "racismo de classe", falso de fio a pavio, é o fio condutor do empobrecido debate público brasileiro.

Você é muito crítico com relação a um dos formuladores desse "culturalismo", Sérgio Buarque de Holanda. As teses de "Raízes do Brasil" foram expostas em 1936. Será que ao menos naquela época a crítica a um Estado sem meritocracia, baseado no favoritismo e nas relações familiares, não era correta?

Eu gostaria antes de tudo de saber onde fica esse país maravilhoso, formado apenas pelo mérito, que não favorece ninguém e onde relações familiares não decidem carreiras. Quem conhecer, por favor, me avise. Eu passei boa parte de minha vida adulta em países ditos "avançados" e nunca conheci um assim. A própria crença de que exista algo assim prova como o racismo e a "vira-latice" tomou conta de nossa alma.

Sérgio Buarque de Holanda é o pai desse liberalismo amesquinhado e colonizado brasileiro. É necessário sempre separar a "pessoa" da "obra" e de seus efeitos sociais, que são o que importa. O liberalismo é fundamento importante da democracia, mas existem várias maneiras de ser liberal, e a nossa maneira é a pior possível.

Buarque criou a semântica do falso conflito que permite encobrir todos os conflitos sociais verdadeiros entre nós e que nos faz de tolos até hoje. A absurda separação entre um Estado demonizado como corrupto e ineficiente e o mercado como reino de todas as virtudes, quando os dois no fundo são indissociáveis, só serve como mote para a meia dúzia que manda no Brasil e controla o dinheiro, a política e a informação via mídia virar o país de ponta-cabeça só para ter mais dinheiro no bolso.

Como não se pode dizer que o que se quer é uma gorda taxa Selic e o acesso "privado" às riquezas brasileiras, como petróleo e ferro, para essa meia dúzia, então diz-se que é para acabar com o "mar de lama", sempre só no Estado, se ocupado por partidos populares, e sempre seletivamente construído via mídia conservadora em associação com as instituições que querem aumentar seu poder relativo vendendo-se como "guardiãs da moralidade pública".

É esse discurso que transforma milhões de pessoas inteligentes em tolas. Essa parcela da classe média conservadora é explorada por esse 1% que lhe vende os milagres da privatização brasileira: a pior e mais cara telefonia do globo, por exemplo, campeã de reclamações. De resto, todos os bens e serviços produzidos aqui são piores e mais caros. Mas dessa espoliação da classe média por um mercado superfaturado que vai para o bolso do 1% mais rico ninguém fala.

O filho do "coxinha" quer ter acesso a uma boa universidade pública, e o avô dele, quando está doente e o plano não paga, tem que ir ao SUS para doenças graves e tratamentos caros. Um Estado fraco só serve ao 1% mais rico que pode ficar ainda mais rico embolsando a Petrobras a preço de ocasião. O "coxinha" só é feito de tolo.

A classe média "coxinha" que sai às ruas tirando onda de campeã da moralidade, por sua vez, explora e rouba o tempo das classes excluídas a baixo preço para poupar o tempo do trabalho doméstico e investir em mais estudo e mais trabalho valorizado e rentável.

Luta de classes não é só cassetete na cabeça de trabalhador. É uma luta silenciosa e invisível (para a maioria) que implica monopólio de recursos para as classes privilegiadas e condenações à miséria eterna para a maioria dos 70% que não são da classe média ou do 1% mais rico. A fanfarra do patrimonialismo e da corrupção só do Estado serve, antes de tudo, para tornar essas lutas invisíveis.

Como você vê a obra de Roberto DaMatta nesse contexto?

A obra dele, que reflete fielmente as discussões de botequim de todo o Brasil, foi uma tentativa de "modernizar" Buarque. O mais irritante é que esse pessoal "tira onda" de crítico ao repetir as platitudes do Estado patrimonial e do "jeitinho" como prova da queda ancestral do brasileiro médio para auferir vantagens por relações de conhecimento com poderosos.

A tese central de DaMatta, que se tornou uma espécie de "segunda pele" do brasileiro médio, é a de que a hierarquia social brasileira é fundada no capital social de relações pessoais. Essa seria a peculiaridade brasileira que viria de épocas ancestrais. Desde que a gente reflita duas vezes, essas teses caem como castelo de cartas. Se não, vejamos.

O leitor que nos lê conhece alguém com acesso a relações pessoais com pessoas poderosas sem, antes, ter capital econômico ou capital cultural? Se o leitor conhecer, então DaMatta tem razão na sua tese do jeitinho.

Como desconfio de que o leitor não conhece ninguém assim, então o que DaMatta faz é tornar invisível a distribuição injusta de capital econômico e cultural e, com isso, sepultar qualquer reflexão sobre a origem social de toda desigualdade.

Para completar supõe — no fundo a cândida e infantil crença nos Estados Unidos como paraíso na terra — que existam países onde o capital em relacionamentos não decida previamente a vida da maior parte das pessoas. Teoria mais frágil e colonizada impossível. Mas é ela que faz a cabeça do brasileiro médio hoje.

Ao lado do "culturalismo conservador", você critica o economicismo de raiz marxista. Quais as suas restrições a esse modelo explicativo?

É que o capitalismo não é só troca de mercadorias e fluxo de capital. É preciso, por isso, superar o economicismo, seja liberal, seja marxista. O capitalismo é também um sistema social e moral que avalia todo mundo e que humilha e despreza uns e enobrece e legitima a felicidade de outros.

É essa hierarquia social "invisível" (mas cuja realidade o estudo empírico pode mostrar) que diz o que é certo e errado, verdadeiro ou falso. O capitalismo é, portanto, um sistema de classificação e desclassificação que predetermina quem ganha e quem perde e legitima esses lugares.

No livro, que resume meus 35 anos de trabalho teórico e empírico sobre esses temas, procurei mostrar que esses sistemas de classificação são os mesmos para Brasil e Argentina, do mesmo modo como atuam na França ou na Inglaterra.

A peculiaridade do Brasil é a tolerância com o abandono da classe dos excluídos que chamo provocativamente de "ralé". Todos nossos problemas — insegurança, baixa produtividade, serviços públicos de má qualidade — advêm do esquecimento dessa classe.

A corrupção existe em todos os países, você diz. Mas certamente há diferenças de grau entre a Dinamarca, digamos, e o Brasil.

A corrupção é endêmica ao capitalismo. Se corrupção for enganar o outro, então o capitalismo é certamente mais engenhoso que qualquer outro sistema social.

O que outros países como a Dinamarca ou Alemanha não têm é a corrupção "pequena" — a única que o cidadão feito de tolo enxerga no cotidiano — do agente público mal remunerado, como os policiais entre nós. Existem também arranjos institucionais mais ou menos bem-sucedidos.

O Brasil ganharia com o financiamento público de eleições e com uma reforma política que tornasse mais transparente a relação com a economia. É nisso que falta avançar. Mas é preciso mesmo ser muito ingênuo para não perceber que a "grossa corrupção", a que drena capitais e privilégios para uma pequena minoria, é universal. Dilma tentou comprar essa briga no Brasil, enfrentando o grande capital especulativo. Hoje fica claro que esse pessoal não a perdoou pela ousadia.

Suponha-se que Sérgio Buarque de Holanda, Raymundo Faoro e Roberto DaMatta estejam errados ao atribuir a uma particularidade brasileira, a um vício cultural católico português a inexistência de um sistema de mérito real, de uma real impessoalidade do Estado e de uma legítima situação de igualdade de oportunidades no Brasil. Mesmo que essa situação não corresponda à realidade de um país como os Estados Unidos, que esses autores idealizam, será que essa crítica não expressa um desejo de transformação importante? Em vez de anular o valor dessa crítica, poderíamos alargar sua dimensão estendendo-a a outros países.

O único caminho seguro, na vida pessoal ou na coletiva, é a verdade. Não se pode pensar uma sociedade e suas contradições alargando uma concepção falsa desde os pressupostos. Nem há razão para isso.

O livro mostra, creio eu, que é possível um novo caminho para a percepção do Brasil e de suas singularidades. Um caminho que não vise apenas preservar os privilégios absurdos de uma pequena elite socialmente irresponsável, legitimados por uma pseudociência, mas que possa, inclusive, recuperar a inteligência viva dessa mesma classe média que é hoje manipulada a agir contra seus interesses.

Você diz que as classes médias, predominantes nas manifestações de junho de 2013, são feitas de tolas quando compram automóveis com o triplo da taxa de lucro dos países europeus, pagam taxas de juros estratosféricas e usam serviços de celular entre os mais caros e ineficientes do mundo. Mas não teriam razão, do ponto de vista de seus interesses, ao reclamar de impostos que são uma parcela enorme do preço de bens como veículos automotores e geladeiras?

A estrutura de impostos no Brasil tem de ser efetivamente revista no sentido de evitar impostos indiretos em produtos e serviços e atingir mais a renda diferencial, e, muito especialmente, o patrimônio. Desse ponto de vista, ela pode ter um pouco de razão.

Mas o ponto mais importante para a tolice da classe média é que o Estado funciona como arrecadador de impostos, antes de tudo, para bancar e garantir a drenagem de recursos arrecadados da sociedade como um todo para a meia dúzia de plutocratas que manda na economia, na política via financiamento de eleições e na mídia. O pagamento de juros para essa meia dúzia e seus colegas estrangeiros — o único aspecto que ninguém nem sequer pensa em cortar em ocasiões de crise — compromete, por exemplo, o investimento em educação e saúde de qualidade para todos.

O plutocrata vai aos EUA se operar se for preciso e manda o filho estudar em Miami ou na Suíça, como acontece realmente hoje em dia. A classe média que sai às ruas para apoiá-lo precisa do SUS quando a chapa esquenta e só conta com a universidade pública aqui mesmo para o filho. Ao mesmo tempo, paga os serviços e produtos mais caros e de menor qualidade relativa do globo no nosso mercado superfaturado. Esse "extra" também é um imposto que sai da classe média direto para o bolso da elite econômica. Mas dele nunca se fala.

Essa classe média, portanto, é espoliada pela elite por mecanismos tanto de Estado quanto de mercado, e é ela que depois sai às ruas para defender os interesses dessa mesma elite usando o espantalho seletivo da corrupção apenas estatal.

Essa é a real história da tolice pré-fabricada entre nós.

O sentimento anti-Estado e pró-mercado tende a ser conservador e perverso no Brasil. Mas não poderíamos acusar a esquerda, em especial o PT, de um excessivo "estatismo", não no sentido econômico, mas no de considerar que a transformação social poderia vir de uma simples conquista do poder político pelo partido de esquerda? Em vez de privilegiar formas de auto-organização e de capilarização do partido nas periferias, o PT procurou agir "a partir de cima", e não "a partir de baixo". Como resultado, vemos nas periferias todo tipo de igrejas evangélicas, mas nenhum núcleo ou sede distrital de partidos políticos. O preço para assumir o poder sem essa organização foi a aliança com os setores mais retrógrados da política brasileira, como Collor, Maluf, os ruralistas e a bancada evangélica. O "estatismo" de esquerda, nesse sentido, não seria uma repetição para pior do populismo? O petismo não seria também um conto de fadas para adultos?

O principal erro do PT para mim foi duplo e reflete sua dependência da narrativa liberal tão importante nele quanto em um partido conservador da elite como o PSDB. Esse foi um dos temas centrais do livro: mostrar que a ideologia liberal amesquinhada dominou também a dita "esquerda", colonizando a tradição social-democrata ou socialista democrática.

O PT teria que ter criado uma narrativa independente mostrando a importância do passo a passo da ascensão social possível e mostrando as dificuldades também — sem cair, por exemplo, na fantasia da nova classe média, que gerou expectativas desmedidas.

Essa narrativa poderia ter sido uma versão politizada, mostrando a importância da política inclusiva e da "vontade política" para a mobilidade social, de modo a se contrapor à leitura individualista da ascensão social da religião evangélica.

Mas, para isso, teria sido necessário tocar no nó górdio da dominação social no Brasil, que é o papel de "partido político da elite" assumido pela imprensa conservadora desde o golpe contra Getúlio. É ela, afinal, quem chama a classe média moralista e feita de tola às ruas e é ela que manipula seletivamente e a seu bel-prazer o tema da corrupção como única moeda dos conservadores para mascarar seus interesses mais mesquinhos em pseudointeresse geral. É ela quem tira onda de "neutra", quando apenas obedece ao dinheiro.

O medo desse confronto foi a real causa do que agora acontece. Em uma sociedade midiática, onde toda informação vem de cima para baixo, tem que existir o contraditório, a opinião alternativa, senão o voto do eleitor não é esclarecido nem autônomo, ou seja, rigorosamente, não tem democracia. Nesse sentido estamos mais perto da Coreia do Norte do que da Inglaterra ou da Alemanha. Confiar apenas nos "movimentos sociais" nesse contexto é ingenuidade. Esses movimentos também estão sob a égide do discurso único da mídia conservadora. Essa é para mim a real razão do fracasso relativo do projeto petista.

Marcelo Coelho
No fAlha



Leia Mais ►

O dragãozinho na coxa

Trabalhavam juntos num laboratório. Nunca tinham se visto sem os jalecos brancos que usavam no trabalho. E um domingo se encontraram na praia. Ela de biquíni, ele de sunga. Do jaleco que cobria tudo para a seminudez, sem etapas intermediárias.

Ele já a imaginara nua, claro. E vice-versa. Imaginavam o que haveria por baixo do jaleco que cobria tudo. Normalmente, levariam tempo para descobrir. Seria um pouco como a exploração de Marte: primeiro teriam que construir um foguete, depois um robô, depois colocar o robô na superfície de Marte, depois esperar que o robô começasse a mandar fotos do que havia sob o jaleco de Marte...

Teriam que analisar as fotos com cuidado, para não haver enganos. Aquilo era uma sombra ou uma cratera? E aquilo, seriam pegadas? Um longo e lento processo. Mas ali, na praia, de repente, tinham toda a informação que queriam da superfície um do outro. Sem ter que esperar. O que era estranho. Até meio antinatural. Dois seminus não conversam como dois de jaleco.

Examinaram-se.

Ele: “Nada mau. Grandes seios, quem diria. Barriguinha, mas no limite do aceitável. Meu Deus, aquilo é uma tatuagem?”.

Ela: “Podia ser pior. Pernas finas, mas tudo bem. Iih, ele viu a tatuagem”.

Ele: “O que significa uma tatuagem ali? Nada, todas têm tatuagem, hoje em dia. Mesmo as patologistas. Mas ali? Parte de dentro da coxa? Perigo. Perigo”.

Ela: “Ele vai dizer alguma coisa sobre a tatuagem? Eu deveria dizer? É brincadeira, sai lavando. Não. Melhor ficar quieta. Melhor dizer alguma coisa”. 

— Você vem sempre aqui?

— Venho, venho. Domingos. Quando dá sol.

— Eu também.

E pronto. Não conversaram mais, não combinaram mais nada. Afastaram-se, e ele nem se virou para examiná-la por trás. Era melhor só voltarem a se encontrar no laboratório. Como se nada tivesse acontecido. Como se nada tivesse sido visto, nem o dragãozinho tatuado na coxa. Recomeçar a amizade de jaleco e deixar que o que tivesse que acontecer, acontecesse normalmente. Na exploração de Marte também é assim: tem que ser por etapas. Ninguém deve se precipitar. Para não haver o risco de um desastre. Ou de confundirem uma rocha com uma tartaruga.

Luís Fernando Veríssimo
Leia Mais ►

Por que tamanha indignação contra Jean Wyllys?

Deixem-no em paz: Jean Wyllys em Israel
Tanta gente para provocar indignação.

Eduardo Cunha. Aécio. FHC. Gilmar Mendes. Moro. Os Marinhos, os Frias, os Civitas, os Mesquitas e seus colunistas e editores amestrados.

Tanta gente.

E eis que os trovões dos revoltados vão dar em Jean Wyllys, a mais combativa voz progressista em muitos anos. Onde há excluídos, onde há humilhados e ofendidos, onde há minorias oprimidas – ali está JW para tomar-lhes a defesa.

Os ataques a JW derivam de sua visita a Israel, a convite de uma universidade local.

Um momento.

JW foi a Israel apoiar o governo local? Não. Foi criticar os palestinos? Não. Foi defender a ocupação? Não.

Muito bem. Por que então tanta indignação?

Aí começa a confusão.

O ativista de direitos humanos Paulo Sérgio Pinheiro liderou as críticas nas redes sociais com um vídeo em sua página no Facebook no censurou vitriolicamente JW.

Pinheiro, sentado numa poltrona em sua casa, listou os crimes de Israel como se JW tivesse alguma responsabilidade por eles por pegar um avião e descer em Telavive.

A história não terminou bem para ele.

O acadêmico israelense que convidou Jean Wyllys, James Green, disse, também num vídeo, que estivera sentado naquela mesma poltrona para conversar com Pinheiro sobre uma futura visita nos mesmos termos deste a Israel.



Green disse que Pinheiro sabe muito bem que ele é contrário à ocupação. Contou que é parte da programação levar JW aos territórios ocupados. Perguntou por que Pinheiro não lhe mandou um email para esclarecer dúvidas, se as tivesse.

E arrematou: “Que é isso, companheiro?”

O vídeo de Green soou como um nocaute em Pinheiro.

Mas não cessou o coro dos revoltados. Muitos dos críticos alegam que JW furou um “boicote” a Israel.

A mesma coisa foi alegada, algum tempo atrás, contra Caetano e Gil por se apresentarem em Israel.

O músico Roger Waters, ex-Pink Floyd, chegou a escrever-lhes cartas públicas para tentar dissuadi-los de cantar para os israelenses.

Quer dizer.

O artista não deve fazer shows em Israel porque o governo local é bélico.

Tudo bem. Mas então esse tipo de ação moral tem que ser estendida. Você não vai a Israel, mas vai aos Estados Unidos, cujos drones assassinam crianças, velhos e mulheres no mundo muçulmano cotidianamente? Vai à Inglaterra de Waters, que apoia a política predadora americana? Ou à França, que faz a mesma coisa?

Ora, ora, ora.

Ficamos assim. Se dependesse de pessoas como Jean Wyllys, o mundo seria muito mais pacífico, justo e igualitário do que é.

Não haveria palestinos oprimidos, e nem crianças paquistanesas e afegãs e de tantos outras lugares mortas por bombas dos Estados Unidos e aliados.

Para onde quer que vá, Israel incluído, JW vai levar com ele sua mensagem de fraternidade e paz entre os homens.

Por tudo isso, e muito mais, deixemos JW em paz.

Paulo Nogueira
No DCM
Leia Mais ►

Estupro, a gente vê na tela da Globo! (assista)


Durante a minissérie da Rede Globo, “Ligações Perigosas”, que foi ao ar na noite dessa quinta (07), os personagens Augusto e Cecília protagonizaram uma cena de estupro.



Em tempos de grandes mobilizações feministas na luta contra a cultura machista em nossa sociedade, a emissora (que, sempre é bom lembrar, apoiou a ditadura) nada contra a maré e apresenta uma cena que reforça justamente o tipo de comportamento que vem sendo combatido nas ruas e nas redes sociais.

Para a dirigente feminista da UJS, Maria das Neves, “os grandes meios de comunicação tem contribuído para a perpetuação do machismo e para a naturalização da violência contra as mulheres, sobretudo o estupro. Tem sido um hábito romantizar e até justificar as cenas de violência sexual. Estupro é crime! E, a emissora deveria ser penalizada por incentivá-lo. Por isso, a democratização dos meios de comunicação é uma bandeira estratégica e essencial para a luta feminista. Democratizar a mídia é também combater a sistemática reprodução do machismo que invade nossos lares e violenta todas as mulheres diariamente”.

A Rede Globo se esquece, mais uma vez, que é uma concessão pública, e que como tal, tem responsabilidades em relação ao que exibe. A cena de ontem, além de reforçar esse tipo comportamento, banaliza a questão do estupro e do assédio, problemas que afetam milhares de mulheres todos os dias. Ainda que a cena, no decorrer da minissérie, seja usada para problematizar o estupro, são evidentes os danos causados a partir da exibição de imagens como essas.

Mais uma da grande inimiga do povo, a Rede Globo de televisão.

Mas não vamos ficar quietos, vamos demonstrar nossa indignação, clique aqui e confirme seu repúdio em relação a apologia ao estupro na minissérie da Globo.

No UJS



Cena de estupro na Globo gera revolta

Vem gerando repercussão nas redes sociais, desde a noite desta quinta-feira (7), a cena de violência sexual que foi ao ar pela minissérie “Ligações Perigosas”, da TV Globo. Depois de estrear na última segunda-feira (4) com bons índices de audiência, a trama foi alvo de críticas nas redes sociais por conta da cena protagonizada pelo personagem Augusto (Selton Mello), que estupra Cecília (Alice Wegmann).

“Isso não é sedução. É estupro e estupro é crime!”, escreveu uma internauta pelo Twitter assim que viu a cena, ao que centenas de outras pessoas começaram a se manifestar contra a cena e a emissora.

“#LigacoesPerigosas ensina tudo contra o qual lutamos: #assédiar, #molestar e cultura do #estupro. A sociedade diz NÃO a isso, @RedeGlobo”, tuitou outro telespectador.

Além de comentários que expressavam “nojo” ou pediam alguma atitude de autoridades como o Ministério Público, internautas fizeram também análises com outras temáticas consideradas como “tabu” para a emissora. A colunista da Boitempo Editorial Daniela Lima, por exemplo, questionou a “moral” imposta pela Globo com questões como a LGBT.

“A Globo passou anos debatendo se faria uma cena de beijo gay ou lésbico. Consultou várias vezes o público. No entanto, para mostrar uma cena longa e perturbadora de estupro, como aconteceu ontem em Ligações Perigosas, não houve nenhum tipo de preocupação ou consulta. Ainda estou tentando entender essa “moral” que interdita o amor e romantiza a violência”, postou em seu perfil do Facebook.







Leia Mais ►

MP vê Nardes como chefe de esquema de corrupção


Para a Procuradoria da República no Distrito Federal, o ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Augusto Nardes, que capitaneou o voto pela rejeição das contas da presidente Dilma Rousseff no caso das chamadas "pedaladas fiscais", é o "mentor" das atividades de lobby da Planalto Soluções, empresa investigada na Operação Zelotes.

Nardes foi formalmente sócio da Planalto até maio de 2005, mas hoje a empresa está registrada em nome de seu sobrinho, Carlos Juliano. Para os procuradores, entretanto, Nardes se vale da posição de ministro do TCU para praticar condutas que extrapolam os limites das prerrogativas e atribuições do cargo" e ministro continuou exercendo "ativamente suas prerrogativas de sócio e membro do respectivo Conselho de Administração" da Planalto mesmo após 2005, "inclusive com reuniões periódicas".

Segundo a Operação Zelotes, a Planalto recebeu R$ 2,5 milhões, entre 2011 e 2012, da SGR Consultoria, de José Ricardo da Silva. Ele é um dos principais alvos da investigação sobre suspeitos pagamentos a conselheiros do Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais) para favorecer empresas que recorriam de multas aplicadas pela Receita. Anotações indicam que o "tio" de Carlos Juliano, que para os investigadores é uma referência ao ministro do TCU, recebeu R$ 1,6 milhão na mesma época.

Outra citação a Augusto Nardes e a SGR envolve a anulação de dívidas que somam R$ 150 milhões do grupo RBS, retransmissora da TV Globo no Rio Grande do Sul, terra do ministro do TCU. Nardes teria usado sua influência em Brasília e no seu antigo partido, o PP, para ajudar o grupo de comunicação. O cancelamento dos débitos da RBS ocorreu no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), órgão do Ministério da Fazenda em que as fraudes apuradas pela Zelotes se materializavam. Em troca da anulação da dívida, a empresa teria pago R$ 15 milhões a uma série de pessoas. Entre estas, um ex-conselheiro do Carf e sócio da SGR, José Ricardo da Silva, o Zé Ricardo.

No 247
Leia Mais ►

Braço-direito de Eduardo Cunha vive rotina prosaica

Suspeito de receber dinheiro para deputado, Altair Alves Pinto deixou emprego na Alerj

Altair Alves Pinto, amigo de Eduardo Cunha, toma táxi ao ser abordado pela reportagem
A noite na boate Hippopotamus, em Ipanema, era concorrida naquele início dos anos de 1980. A música pop a todo volume embalava os jovens que apareciam por lá. O hoje presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), era um deles. Ia acompanhado de seu amigo Altair Alves Pinto, dez anos mais velho. A amizade que nasceu nos tempos em que o peemedebista morava na Tijuca, agora, anos depois, ganha as páginas dos jornais com uma delação premiada da Operação Lava-Jato.

O lobista Fernando Baiano disse ter entregue no escritório de Cunha, no Centro do Rio, entre R$ 1 milhão e R$ 1,5 milhão em espécie. A quantia teria sido recebida em outubro de 2011 por um homem chamado Altair. Começava aí a ser desvendada a identidade do amigo de Cunha.

Após a revelação, o homem de 67 anos tenta seguir com a vida de sempre. Continua em seu apartamento a alguns metros do Estádio do Maracanã. Foi perto dali que a reportagem o abordou. Passava pouco das 11h de quinta-feira quando ele bateu o portão do prédio. Olhou para um lado e outro e, a passos largos, foi até a rua principal sem ser reconhecido por ninguém.

Altair se preparava para pegar um táxi quando atendeu ao ser chamado pelo nome. Como a repórter tinha em mãos um celular, ele disse, assustado:

— Não grava!

Altair esquivou-se das perguntas, correu para pegar um táxi e colocou a mochila na frente do rosto para não ser fotografado. Não quis falar sobre a amizade de longa data que foi levada para o trabalho. Até hoje, sites de busca de telefones mostram que um dos números de Altair é o mesmo do escritório do presidente da Câmara no Rio.

O vínculo laboral entre os dois veio em uma das primeiras funções públicas do peemedebista. Cunha presidiu a Companhia de Habitação do Rio (Cehab) entre 1999 e 2000, quando saiu após ser vinculado a denúncias. Altair, já casado e pai de duas filhas, estava lotado no órgão durante esse período.

Amigos de gostos opostos

Em 2001, Cunha tornou-se deputado estadual e abrigou o amigo na liderança do PPB, cujo comando na Casa era dele. Foi quando Altair se filiou ao partido em sua cidade natal, Muqui (ES), a 174 km ao sul de Vitória. A sigla passou a se chamar PP em 2003, mas Altair mantém o vínculo até hoje.

Cunha alcançou voos mais altos em 2002, quando foi eleito deputado federal. Altair foi exonerado para, em 2003, ser lotado no gabinete do deputado estadual Fábio Silva, aliado do peemedebista. Com o pedido de exoneração publicado no dia 21 de dezembro de 2015, após a Polícia Federal entrar em seu apartamento e nas residências do presidente da Câmara, Altair deixou para trás um salário de R$ 7.628.

Na ação da PF, um táxi com placa de Nilópolis foi encontrado na garagem de Cunha. O Touareg, cujo valor de um novo é de cerca de R$ 200 mil, está no nome de Altair, um ex-dono de fusca.

Altair era motorista de Cunha nas campanhas, segundo pessoas que acompanharam a peregrinação por votos. A prestação de contas de 2014 mostra que ele ganhou R$ 28,7 mil por ter alugado carros para o parlamentar. Nas andanças, quando o peemedebista entrava em uma igreja, Altair ficava do lado de fora. Não liga para religião.

Os dois são opostos. Altair gosta de cerveja. O deputado prefere vinhos de qualidade. O amigo de Cunha gosta de comer galeto com batata frita e o presidente da Câmara, de comidas refinadas. Um vive engravatado por conta do ofício. O outro detesta andar engomado e adota jeans e tênis.

Altair gosta de ir aos mesmos lugares e passar os fins de semana em Cabo Frio. A Lava-Jato só o fez se manter mais reservado. Não são muitos os que sabem de suas preferências, embora algumas sejam fáceis de notar, como o gosto por motos. É em uma que ele percorre os quilômetros que o separam de Muqui.

Na cidade natal, ele tem familiares e empresas em seu nome e no de parentes: são duas de granito e uma construtora. Todas constam no inquérito contra Cunha.

Juliana Castro
No O Globo
Leia Mais ►

O i-mencionável

Da série “Quem diria?”. Comecei a ter um espaço assinado no jornal em 1969, na chamada “época brava” da ditadura. Governo Médici, censura à imprensa... Tudo o que tem gente desfilando hoje para trazer de volta. A gente vivia testando os limites do que podia ser dito. Não era raro escrever-se crônicas que, obviamente, não seriam publicadas, só para desabafar. Nestes casos, tinha-se sempre uma crônica de reserva, sobre a vida sexual dos anjos, para substituir a censurada. Apelava-se muito para metáforas, na esperança de que os leitores entendessem as referências veladas à repressão, o que quase nunca acontecia. Alguns limites do permitido eram claros. Críticas ao governo ou a militares, nem pensar, por exemplo. Outros limites eram menos explícitos. Certa vez, proibiram uma crônica minha para o rádio porque comentava a Teoria de Darwin sobre a evolução das espécies, que, tantos anos depois da sua publicação, não teria mais nada de subversiva. Nunca entendi. Talvez a teoria da evolução lembrasse macacos, macacos lembrassem gorilas, e gorilas lembrassem, metaforicamente, generais. Enfim, os tempos eram assim.

O que, definitivamente, não podia era mencionar certos nomes. Dom Hélder Câmara, jamais. E mais grave ainda: Brizola. Se pudesse, a ditadura não só proibiria que se pronunciasse o nome Brizola em todo o território nacional, como invadiria o cartório em que seu nascimento foi registrado e queimaria tudo, apagando qualquer traço da sua existência. Ou mandaria exterminadores ao passado para eliminar sua ascendência por várias gerações. No fim, sua existência não pôde mais ser negada, e a ditadura permitiu sua volta ao Brasil e à sua carreira. E o perigoso agitador, a alternativa armada e voluntariosa à moderação do Jango, o fantasma que assombrou os generais durante tanto tempo, o i-mencionável Brizola, ainda teve uma respeitável sobrevida política.

Há dias o nome de Brizola foi incluído, quem diria, no Livro dos Heróis da Pátria, no Panteão da Pátria e da Liberdade. Brizola finalmente mencionado, com honras.

Quem diria 2

No Peru pode acontecer uma reabilitação como a do Brizola, mas ao contrario. Lá está em ascensão política uma filha do Fujimori, aquele presidente cujas ideias neoliberais chegaram a ser consideradas extremas até pelo Vargas Llosa, e que roubou o que podia roubar e fugiu. Ou fujiu. Agora, a família está de volta, com boa chance de chegar ao poder.

Luís Fernando Veríssimo
Leia Mais ►

A mensagem do quebra-quebra

O tumulto paulista sugere que o problema das passagens de ônibus excede o âmbito decisório das prefeituras. O fato de ter havido só um breve bafafá no Rio e nem isso em outras capitais (ao menos à hora da sexta-feira em que escrevo), não significa que o problema seja paulista. Nenhum usuário de transporte urbano no Brasil pode estar satisfeito. Logo, a ocorrência de protestos contra as condições e os preços desses transportes é lógica. Como é lógico que a crescente parcela desordeira da população utilize manifestações para o quebra-quebra de bens públicos e privados.

As passagens não mais subirão, para que não haja quebra-quebra? As prefeituras arcarão com os aumentos? Com que dinheiro? E vão por aí as perguntas que nem precisam de respostas.

Mas, sobretudo, as passagens de ônibus demonstram que o seu poder de pretexto está pronto para se estender a outros possíveis protestos. A longa e numerosa ocupação das escolas em São Paulo, por exemplo, não foi só o caso bacaninha como é visto nos jornais. Ou só episódico, como visto pelo governo paulista.

Todos esses acontecimentos são linguagens, são reflexos, são indicações. Que as classes bem servidas, e as paulistas mais do que as outras, preferem não perceber. Tal como fizeram com a deterioração de suas cidades, ainda mais na mais rica de todas.

Provocações

Com suas diferentes posições sobre o governo Dilma, os 40 embaixadores aposentados que assinaram um manifesto de apoio ao governo brasileiro, e de repúdio ao de Israel, eliminaram qualquer dúvida na questão: Israel violou a praxe da indicação de embaixadores, apoiada na Convenção de Viena, e o Brasil está correto ao ignorar o indicado. Mesmo com ameaças israelenses de retaliação.

Mas permanece em aberto uma indagação. Se as relações comerciais e outros contatos entre os dois países não se alteraram nos últimos tempos, o que motiva e o que pretende Israel com os insultos agressivos que passou a fazer ao Brasil, desde pelo menos meado de 2014? Em 24 de julho daquele ano, um porta-voz do ministro do Exterior e premiê Netanyahu definiu o Brasil como "anão diplomático". Para comprovar que não foi apenas idiotice de um assessor, no dia seguinte o mesmo sujeito disse ser o Brasil "politicamente irrelevante". As duas vezes, em entrevistas internacionais.

A meio do ano passado, Netanyahu divulgou na internet a sua escolha para embaixador no Brasil: Dani Dayan, por seis anos presidente do Yesha, entidade propagadora das ocupações e dos "assentamentos" em terras palestinas, muitas vezes condenados na ONU. E contrário ao recente Estado da Palestina, já reconhecido por mais de 70% da ONU. Dani Dayan é um praticante da teoria de "conquista de espaço vital" que Netanyahu e alguns antecessores foram buscar na década de 1930.

Netanyahu ainda tardou semanas a encaminhar ao Brasil o pedido de "agrément" (concordância, aprovação) para Dayan. Ao recusar a consulta preliminar e sigilosa, que é ato de praxe, e antecipar pela internet o escolhido impróprio, Netanyahu fez um insulto e uma provocação. O Brasil não respondeu e não vai responder.

Nas relações internacionais, há atitudes que são contra um governo e atitudes que são contra o país. Netanyahu adota a segunda, confirmada pelo aviso de futura "retaliação ao Brasil" feito por Dayan. Ao visar o país, fizeram a escolha certa. Reprovar a ação extremista e violenta de governos israelenses, contra decisões da ONU e contra direitos palestinos, para nem falar em vidas, é uma posição do Brasil, mantida com o passar dos governos no regime democrático.

Se em tal posição o extremismo israelense não reconhece valor, também não o tem a posição que apoiou a criação e hoje apoia a existência de Israel: as duas posições nasceram juntas, partes da mesma resolução da ONU e da mesma posição e mesmo voto do Brasil em 1948, repetido desde então.

O convívio cordial que é dado aqui à comunidade judaica não faria prever os insultos e provocações que Israel vem dirigindo ao Brasil. Essa comunidade tem os seus extremistas. Será melhor, para todos, que eles sejam contidos e não importem o espírito de Natanyahu. Os ânimos no Brasil não estão para riscos desse tipo.

Janio de Freitas
No fAlha
Leia Mais ►