3 de jan de 2016

A máfia das próteses


Onde está o CREMERS - Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul?

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A oposição e os "Salvadores da Pátria"

http://www.maurosantayana.com/


As divulgação de "acusações" de delatores “premiados” contra os senadores Renan Calheiros, Randolfe Rodrigues, Fernando Collor e Aécio Neves vêm corroborar o que afirmamos recentemente em O impeachment, a antipolítica e a judicialização do Estado.

A criminalização da política, na tentativa e na pressa de retirar o PT do Palácio do Planalto por outros meios que não os eleitorais, iria descambar para a condenação, paulatina, geral e irrestrita, da atividade como um todo.

Esse é um processo que parece estar focado, além de, principalmente, no PT, também nos partidos ou candidatos que possam fazer sombra, no campo adversário ao do governo, ao projeto messiânico de um “novo Brasil” que está sendo engendrado à sombra da ambição e do deslumbramento das forças surgidas da “guerra contra a corrupção” e da “Operação Lava-Jato”.

A entrevista da semana passada, com o procurador Deltan Dalagnoll, na primeira página do Correio Braziliense e a capa da retrospectiva de Veja, com a cara fechada do Juiz Sérgio Moro, com o título de “Ele salvou o ano” (a segunda, se não nos enganamos) que — será por mera coincidência? — lembra a capa da mesma revista com o rosto de Fernando Collor, com o título de “O caçador de Marajás”, publicada muito antes de ele anunciar-se candidato a presidente da República — são emblemáticas do que pode vir a ocorrer — do ponto de vista midiático — nos próximos três anos.

Só os cegos, os surdos, ou os ingênuos, não estão entendendo para que lado começa a soprar — quase como brisa — o vento — ou melhor, para tocar que tipo de música está começando a se preparar a banda.
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Crise contínua, eleição sem fim e poder sem voto: o Ano Novo da velha direita


A direita brasileira, agora que seu pragmático amor por Eduardo Cunha se tornou um estigma posto à sua testa, está de novo amor.

Em lugar do decaído Presidente da Câmara, que pôs em marcha um processo de impeachment que o lamaçal em que está metido seu autor deixou a manobra com evidente imundície e exalando seu odor fétido, o coração tucano suspira por dois novos personagens: Gilmar Mendes e Dias Toffoli.

Explica-se: os dois são as chaves da estratégia de continuar mantendo em aberto o processo eleitoral de 2014 e, afinal, levar o PSDB ao poder contra o voto da maioria do povo brasileiro.

Ontem à noite, quando o  Estadão começou a circular, tratou-se disso.

Hoje — e nada casualmente — a Folha embarca no tema.

Que, para não ser injusto, já há uma dezena de dias tinha sido antecipado em O Globo.

(se você quer saber dos males de se ter um partido único, pense na mídia brasileira)

O objetivo inicial é antes manter o país em um clima de incerteza e, com isso, incapaz de reagir na economia.

O segundo, de mais difícil consecução, é chegar ao poder sem os votos da maioria do povo brasileiro, sobretudo da multidão de gente pobre e trabalhadora que o compõe e que, quase instintivamente, sabe que são seus inimigos, mesmo debaixo de uma tempestade midiática.

Há, claro, um toque de humor imperdível na especulação da Folha. O advogado do PSDB diz que, “apesar de a jurisprudência em tese beneficiar Aécio, o grupo defende a realização de nova eleição em caso de cassação de Dilma e Temer”.

É de gargalhar: Aécio devolvendo a faixa?  Ou envergando-a e dizendo “eu não queria que fosse assim, mas já que veio….”? O doutor advogado tucano inicia 2016  como forte candidato a piadista do ano.

Isso, porém, não é o alvo imediato.

É verdade que mesmo que Mendes e Toffoli — com os ódios tão evidentes que se estampam em seus rostos, perceptíveis a qualquer um que lhes assista a suas falas — consigam construir uma maioria no TSE para o golpe judicial, será mais, muito mais difícil que pensem, hoje, que isso possa repetir-se no plano do Supremo Tribunal Federal, no óbvio recurso de uma decisão impensável como aquela.

O alvo primário é a política, para que não se consiga sair da espiral crise-ajuste-arrocho, sem a qual golpe algum prosperaria.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Ato falho do PIG? Manipulação da Mídia? Desejo inconsciente?


Vale a pena relembrar também:

O ato falho de Eduardo Cunha no Twitter

Os internautas não perdoam.

Eduardo Cunha postou um tuíte que dizia o seguinte: “Com roubo e tudo vamos chegar lá.”

As respostas vieram logo.

“Quanta honestidade, deputado!”, disse um tuiteiro.

“Sincericídio”, afirmou outro.

Um, menos bem humorado, foi direito: “Pilantra!”

Eduardo Cunha, ou quem cuida de sua conta, apagou o tuíte. Mas internautas já o tinham fotografado, e agora a involuntária confissão circula nas redes sociais.


Publicado aqui, em 9 de julho de 2015.
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Há 30 anos Jânio desinfetava FHC

Jânio desinfetou cadeira que FHC sentou

Momentos de tensão e vaias para Mário Covas marcaram a transmissão do cargo em 1986

Com uma lata de inseticida, Jânio Quadros desinfeta a cadeira.
Foto: Acervo/Estadão
A formalidade durante a transmissão do cargo de prefeito de São Paulo foi quebrada em 1986 quando Jânio Quadros desinfetou a cadeira que iria ocupar pelos próximos três anos. Por mais que as campanhas eleitorais tenham sido quentes, as disputas e desavenças entre os candidatos costumam terminar no dia da votação e não transbordam para o dia da posse. Mas não foi assim na campanha de 1985. Incomodado por Fernando Henrique Cardoso, candidato do PMDB, ter posado para a imprensa sentado na cadeira do prefeito um dia antes da eleição (14 de novembro), o prefeito eleito, logo depois de ser empossado foi até o seu novo gabinete com uma lata de inseticida e 'desinfetou' a cadeira, “gostaria que os senhores testemunhassem que estou desinfetando esta poltrona porque nádegas indevidas a usaram”, declarou para todos os que estavam na sala. E completou, “porque o senhor Henrique Cardoso nunca teria o direito de sentar-se cá e o fez, de forma abusiva. Por isso desinfeto a poltrona”.

Fernando Henrique posando para foto na cadeira de prefeito.
Foto: Reginaldo Manente/Estadão

A cerimônia já havia começado hostil. Durante a transmissão do cargo, Mário Covas foi vaiado pelos correligionários de Jânio que formavam a maioria dos presentes na sede da prefeitura no Ibirapuera, que também gritavam “fora biônico”. Mário Covas foi o sétimo e último prefeito biônico.

O Estado de S. Paulo, 3/1/1986

Eleição confusa.

A primeira eleição para prefeito da capital depois de 20 anos de prefeitos indicados pelo governador foi acirrada e confusa. Fernando Henrique Cardoso e Jânio Quadros, do PTB, disputavam palmo a palmo a liderança nas pesquisas de intenção de voto que apontavam a vitória de Fernando Henrique por uma margem apertadíssima. A última pesquisa do Instituto Gallup mostrava empate, Fernando Henrique Cardoso com 38% e Jânio com 37,3% das intenções de voto. O resultado final registrou vitória de Jânio Quadros com a diferença de 3,3%.

O Estado de S. Paulo, 16/11/1985
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Investigado, filho do presidente do TCU avança sobre teleféricos no Rio


Criada em abril deste ano, uma empresa do advogado Tiago Cedraz, filho do presidente do TCU (Tribunal de Contas da União), Aroldo Cedraz, está perto de controlar todos os teleféricos em favelas do Rio. O sistema se tornou símbolo das obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) na cidade.

Três empresas do advogado estão envolvidas com a construção e operação de teleféricos na cidade. Um contrato foi obtido sem licitação junto a consórcio formado por empresas envolvidas na Operação Lava Jato.

Tiago Cedraz passou a ser alvo de um inquérito da Polícia Federal após ter seu nome citado pelo empreiteiro Ricardo Pessoa, da UTC, em acordo de delação premiada. Ele disse ter pago R$ 50 mil mensais ao advogado para receber informações do TCU.

A construção dos dois teleféricos contou com verba federal, do PAC. O TCU é o responsável por monitorar a aplicação dos recursos da União em convênios com Estados e municípios.

Em junho, a empresa Providência Teleféricos foi escolhida, sem licitação, para operar as gôndolas em favela de mesmo nome no centro. Ela foi subcontratada pela concessionária Porto Novo (Odebrecht, Carioca e OAS), responsável pelas obras e serviços da revitalização da zona portuária do Rio — área da qual a favela faz parte.

Cedraz já havia atuado indiretamente na construção do sistema. Sua empresa Euroconsult é, desde 2010, representante comercial da austríaca Doppelmayr, especializada em construir teleféricos.

A empresa austríaca foi subcontratada pelo consórcio Rio Faz, também formado por Odebrecht, Carioca e OAS — todas alvo da Lava Jato —, para construir as estações, fornecer as gôndolas e instalar todo o sistema de cabos que compõem o teleférico. O serviço custou à prefeitura R$ 82 milhões, parte financiada com verba do PAC.

No mês passado, a Providência Teleféricos foi declarada vencedora da concorrência para administrar o teleférico do Complexo do Alemão (zona norte). Vai receber R$ 2,7 milhões por mês.

Na disputa, ela faz parte do consórcio Rio Teleféricos, junto com a Hanover Administradora de Bens Próprios, também da família Cedraz.

O resultado da concorrência ainda não foi homologado porque há recursos em análise. A operação é bancada pela Secretaria Estadual de Transportes.

O teleférico do Alemão foi o primeiro a ser erguido em área urbana no país, experiência inspirada em Medellín (Colômbia). Ele foi construído a partir de 2008 pela francesa Poma, concorrente da Doppelmayr. A obra custou cerca de R$ 200 milhões.

Italo Nogueira
No fAlha
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Evo Morales estrena programa televisivo "Democracia Directa"

El presidente de Bolivia, Evo Morales se suma a los ejemplos de Ecuador y Venezuela en materia informativa
de gestión
El programa dominical se transmitirá de 20H00 a 21H00 (hora de Bolivia).

El presidente de Bolivia, Evo Morales estrenará este domingo el programa televisivo “Democracia Directa”, que será transmitido todos los domingos por el canal local Bolivia Tv, según informó la gerente general de ese medio de comunicación, Gisela López.

"Lo vamos a tener al presidente Evo Morales, yo lo anuncio oficialmente, él va a inaugurar nuestro programa este 3 de enero hablando precisamente de la democracia", dijo, destaca ABI.

López detalló que que el mandatario boliviano hablará este domingo, sobre el proceso democrático que se ha vivido en su país durante los últimos 10 años.

“Nosotros como el canal estatal estamos convencidos de que la democracia en Bolivia en estos últimos 10 años se ha profundizado", aseguró.

Democracia Directa, será la plataforma en la que participen además de Morales, directores de los medios estatales y destacados periodistas bolivianos de diferentes medios de comunicación, en calidad de invitados.

El jefe de Estado boliviano, émula los ejemplos de sus pares en Latinoamérica como los presidentes de Ecuador y Venezuela; Rafael Correa con Enlace Ciudadano y, Nicolás Maduro, con En Contacto con Maduro.

No teleSUR
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Escolas de samba se revoltam com a Globo

Globo acha que é a dona do carnaval carioca


De Miro Borges:

Carnaval carioca e TV Globo, nada a ver!

A partir da próxima semana, a TV Globo deve começar a bombardear os telespectadores com as suas vinhetas para o Carnaval do Rio de Janeiro. Com os direitos exclusivos de transmissão televisiva de uma das maiores festas populares do planeta, a emissora dos três filhos de Roberto Marinho fatura muita grana com patrocínios e publicidade. Mas, segundo informa a jornalista Keila Jimenez, do site rival R7, as relações entre o império global e as escolas de samba não andam nada amigáveis e podem até resultar em fratura em um futuro próximo. Vale conferir:

* * *

Carnaval carioca entra em guerra com a Globo

Por Keila Jimenez, em 20/12/2015

A Globo e as escolas de samba do Rio estão se estranhando. Por meio de uma mensagem nas redes sociais, a Unidos de Vila Isabel publicou um desabafo explicando os motivos da confusão.

A Globo teria decidido não exibir os dois primeiros desfiles das agremiações no domingo e na segunda-feira de Carnaval. No desfile de 2015, a emissora não exibiu só o primeiro desfile.

Já faz um tempo que a Globo pretende mudar a transmissão do Carnaval, diminuindo as horas de exibição e modernizando o evento na TV, tornando-o menos cansativo. As escolas não querem.

A mudança programadas para 2016 atingiriam em cheio escolas como Salgueiro e Estácio de Sá, que teriam só trechos de seus desfiles exibidos em um compacto. As escolas cariocas se rebelaram. Vários dirigentes e integrantes se pronunciaram nas redes sociais sobre o assunto, criticando a Globo.

"A Globo não vai exibir o desfile do Salgueiro na íntegra? Tá de sacanagem, não?", escreveu um internauta.

"A Globo não vai transmitir Estácio, Salgueiro e Ilha? Não acredito", disparou outro.

A escola Unidos de Vila Isabel foi para o Facebook reclamar.

"Queridos componentes, torcedores, apaixonados por nossa Vila Isabel. Queremos dar a todo o povo do samba uma satisfação sobre o assunto que dominou, nos dois últimos dias, as conversas no mundo do samba: a não transmissão ao vivo, pela TV Globo, da primeira escola de cada dia de desfile, Estácio de Sá e nossa Vila Isabel. Esta é uma decisão que envolve um contrato e penalidades comerciais do qual são signatárias as 12 escolas do Grupo Especial. Não se trata de não querermos, mas simplesmente de não existir no contrato uma forma de modificar este formato de transmissão através de qualquer iniciativa nossa. E este formato de transmissão não foi criado este ano. Os moldes do contrato entre escolas de samba e Rede Globo também não, pois foram estabelecidos há anos", postou a agremiação.

Na noite de ontem (19), integrantes de escolas cariocas foram para as redes sociais dizer que a emissora deve voltar atrás e realizar o desfile nos moldes da edição anterior, não exibindo apenas a primeira escola da noite.Escol

A Globo pretende mexer na transmissão do Carnaval nos próximos anos, o quer dizer que essa briga está só começando.

* * *

A relação da TV Globo com as escolas de samba do Rio de Janeiro já teve outros momentos de forte tensão. O famoso direito de resposta do governador Leonel Brizola, lido com cara de nádega pelo ex-âncora Cid Moreira em 15 de março de 1994, teve sua origem na guerra de bastidores pelo Carnaval carioca. No imperdível livro "O quarto poder", o jornalista Paulo Henrique Amorim dá detalhes desta bela briga. Ele relembra que o falecido Roberto Marinho, na sua guerra sem escrúpulos contra o líder trabalhista, usou todos os seus veículos de comunicação para sabotar a construção do Sambódromo.

A baixaria do império global foi tamanha que o governador sugeriu à prefeitura carioca que cortasse a publicidade na emissora e ainda conquistou na Justiça o direito de resposta. Num dos trechos lidos no horário nobre da TV Globo — em um artigo antológico escrito pelo jornalista Fernando Brito, que hoje edita do blog Tijolaço —, Leonel Brizola apontou os interesses escusos do império global, que até hoje explora a transmissão da Carnaval no Rio de Janeiro. Vale conferir:

"Todos sabem que crítico há muito tempo a TV Globo, seu poder imperial e suas manipulações. Mas a ira da Globo, que se manifestou na quinta-feira, não tem nenhuma relação com posições éticas ou de princípios. É apenas o temor de perder o negócio bilionário que para ela representa a transmissão do Carnaval. Dinheiro, acima de tudo. Em 1983, quando construí a passarela, a TV Globo sabotou, boicotou, não quis transmitir e tentou inviabilizar de todas as formas o ponto alto do Carnaval... Que o povo brasileiro faça o seu julgamento e na sua consciência limpa e honrada separe os que são dignos e coerentes daqueles que sempre foram servis, gananciosos e interesseiros".



No CAf
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Mídia ignora que “Mais Médicos”, agora, não precisa de novos estrangeiros


A notícia saiu no final do ano e foi solenemente ignorada pelos grandes jornais, salvo se tiver saído algo que escape ao Google: o Mais Médicos contratou este ano 4.146 médicos.

Todos eles brasileiros.

92% formados aqui e 8% diplomados no exterior.

Um pouco  mais de incentivo — um bônus nas provas de residência médica — e muito menos oposição da mídia e dos órgãos cooperativos, que chegaram a fazer campanha pelo boicote ao programa para que a procura da oportunidade por profissionais brasileiros se multiplicasse.

63 milhões de brasileiros que não tinham médico nas suas localidades são atendidos pelo programa, quase uma em cada três pessoas, em 4.058 municípios e 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas.

73% das cidades brasileiras estão no Mais Médicos.

E agora, o que faltava: os médicos brasileiros estão no Mais Médicos.

É uma vitória deles, mas não só deles.

É de todos os homens e mulheres de bem deste país, que não aceita que se possa negar a qualquer pessoa, de qualquer classe social, das periferias ou do interior mais profundo do Brasil o direito a ter acesso a um profissional tão essencial quanto um médico.

Fernando Brito
No Tijolaço
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As lições para sair do “atoleiro” de um jornal que não sai do buraco: o Estadão


“Um economista é alguém que sabe o preço de tudo e o valor de nada”, disse Bernard Shaw. Caberia acrescentar que, eventualmente, a categoria não sabe nem o preço de tudo.

Essa definição cabe especialmente no massacre de más notícias a que o brasileiro é submetido diariamente. O Estadão acaba de produzir uma peça que merece um lugar em qualquer antologia do baixo astral e da manipulação. Tudo disfarçado de prestação de serviço e informação.

São vários artigos sob a rubrica “Economistas apontam soluções para o Brasil sair do atoleiro econômico”. Algo que foi feito, ficamos sabendo, no início do ano passado, quando “havia um consenso entre economistas de diferentes correntes de que 2015 seria ‘desafiador’.”

“Nem o mais pessimista deles, porém, conseguiu imaginar que a deterioração ocorreria de maneira tão rápida e profunda. O que era chamado genericamente de crise transformou-se no que promete ser a pior recessão em quase cem anos”, lê-se.

É de cortar os pulsos. Uma coisa é um retrato honesto da crise. Outra é abraçar uma abstração distópica, uma tragédia de dimensões épicas, uma catástrofe que não ocorria há um século. Abandonai toda esperança etc etc.

O “atoleiro do título” dá o tom. Em seguida, vêem os pareceres.

“A construção de um desastre”, aponta Affonso Celso Pastore; “Recessão bate governo de 7 a 1”, segundo David Kupfer; “O embuste fiscal”, denuncia Amir Khair; “As razões para o colapso”, enumera José Luis Oreiro.

Ainda que os textos eventualmente não sejam todos cataclísmicos, a edição é preparada de modo a parecer que se trata de um conjunto de sábios vaticinando de maneira unânime que o Brasil acabou — e a solução óbvia é o impeachment.

Há sempre um dado curioso nesse tipo de cobertura: é incrível que uma empresa como o Estado de S. Paulo dê lições sobre como sair do buraco, já que vive metido nele.

O Estado não é vendido porque não tem comprador. Há anos as demissões em massa fazem parte do cotidiano na Marginal Tietê. Uma amiga contou que, quando acontecem os “passaralhos”, jornalistas são convocados a entrar em salas e executados um a um, sem misericórdia. “Como nos vídeos do Estado Islâmico”, diz ela.

Se o Estadão não estivesse na draga há tanto tempo, uma matéria ensinando a “sair do atoleiro” seria, talvez, menos constrangedora e desonesta.

Kiko Nogueira
No DCM
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O Globo blinda e "brinda" seus anunciantes de cerveja

A proximidade com o carnaval e a dependência econômica que a mídia tem da publicidade de cerveja levaram o jornal O Globo a isentar, desde agora, a combinação bebida e direção como uma das causas da violência no trânsito.

Em matéria deste domingo (3), o jornal "analisa" a ocorrência dos acidentes em rodovias federais e aponta suas causas. O Globo "não viu", em nenhum momento, o consumo de bebidas alcoólicas com um fator preponderante para as vítimas das estradas.

Para dar suposta credibilidade àquilo que O Globo quer esconder, ou não pode dizer  — a relação entre álcool e acidentes com veículos — um especialista em segurança de trânsito surge no texto para sentenciar que o "despreparo dos motoristas", a "falta de manutenção dos veículos" e a "péssima qualidade das vias" é que são os responsáveis pelas colisões nas estradas. Nenhuma referência sobre álcool e direção, apesar de constar claramente no site da Polícia Rodoviária Federal que, nas operações de fiscalização de final de ano que terminam só depois do carnaval, a "embriaguez ao volante" é uma das "principais atitudes dos condutores que acarretam acidentes graves".

No ano passado, a Revista Época, do grupo Globo,  revelou que a Ambev ocupava o sexto lugar entre as dez empresas que mais investiram em publicidade no primeiro semestre de 2015 no país.

Não fosse pelas razões óbvias e conhecidas, seria de se estranhar o fato de uma matéria que dedicou uma página inteira sobre acidentes em rodovias não ter ouvido nenhum especialista na área da saúde, por exemplo.

Até porque, se ouvisse, saberia que a Organização Mundial da Saúde aprovou, em texto assinado por 193 países no ano de 2010, a restrição da publicidade de cerveja como uma solução estratégica à diminuição da violência no trânsito. Dados da OMS afirmam que o álcool é o agente causador de 4% das mortes do mundo, vitimando mais do que doenças como AIDS e Tuberculose. O público jovem, especialmente do sexo masculino, representa a maior parte das vítimas.

Em outro estudo, a OMS verificou que países desenvolvidos que acabaram com a propaganda de álcool reduziram o consumo em 16% e tiveram 23% menos mortes no trânsito que os países onde não há restrições à propaganda, como o Brasil.

Aqui, o Conar, espécie de autorregulação da propaganda, é conivente com os recorrentes desrespeitos da publicidade de cerveja ao seu próprio código. Para modificar essa situação, em 2011 apresentei projeto de lei 701/11 que estabelece restrições à publicidade de cerveja, como sugere a OMS. Mas, o  Congresso Nacional não teve ainda a coragem necessária para enfrentar o “lobby” dos três setores que impedem a aprovação de uma legislação sobre esse tema no Brasil: a indústria de cerveja, as agências de publicidade e a mídia.

Há alguns anos, o professor Braz de Lima, do Programa de Álcool e Drogas da UFRJ, estimou que o álcool está presente em 75% dos acidentes de trânsito que ocorrem no país.

Em 1996, o Congresso Nacional aprovou a restrição de publicidades ao cigarro. Nesses 20 anos, o número de fumantes no Brasil, que entre a década de 80 e 90 era de aproximadamente 30%, hoje apresenta índice de 10,8%, segundo o Ministério da Saúde. Isso fez do Brasil um dos países que mais reduziram o número de fumantes no mundo nos últimos anos.

Como se sabe, o carnaval é o período em que os segmentos de bebidas mais lucram, quando milhões e milhões de litros de cerveja são consumidos, e que também muito investem em publicidade.

O aumento do consumo de álcool nessa época faz com que esse seja o período, apontado pela Polícia Rodoviária Federal, como o mais crítico em termos de acidentes em rodovias federais.

Mas O Globo não "descobriu" nada disso. Nem poderia, já que a matéria foi construída para blindar — ou brindar? — seu próprios anunciantes de qualquer responsabilidade sobre os acidentes e mortes no trânsito que ocorrerão durante o carnaval.

Paulo Pimenta é jornalista e deputado federal ( PT-RS)
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Ornitologia

O escritor americano nascido no Canadá Saul Bellow disse certa vez que era um pássaro, não um ornitólogo. Querendo dizer que fazia seus romances, mas pouco entendia da teoria do romance. Era um ficcionista, não um ensaísta, e não esperassem outra coisa dele.

Bellow estava sendo falsamente modesto ou exageradamente anticrítico, pois pertencia a um seleto grupo de escritores — John Updike, Italo Calvino e Vladimir Nabokov são outros exemplos — tão bons críticos quanto romancistas, uma estranha estirpe de pássaros ornitológicos. Híbridos como eles são raros, em qualquer profissão. Poucos jogadores de futebol conseguiriam descrever, em termos de física aplicada, o que fazem com uma bola. Imagine o Garrincha num quadro-negro, explicando, com gráficos, uma jogada sua. Ninguém era mais pássaro do que Garrincha.

Bellow, Updike, Calvino, Nabokov e poucos outros fizeram sua literatura e escreveram sobre a literatura dos outros com a mesma maestria. Talvez sua experiência como pássaros informasse suas incursões pela teoria. Alguém já disse que critico é aquele cara que fica assistindo à batalha de uma colina e, quando a batalha acaba, desce ao vale e atira nos sobreviventes. Um escritor seria mais benevolente com o trabalho de um colega.

Sobre a diferença entre a prática e a teoria, me lembrei da historia da faxineira do labirinto. Todos os dias, a faxineira entrava no labirinto, varria seus corredores, limpava o que havia para limpar, lustrava o que havia para lustrar e, terminado o seu serviço, ia para casa. Um dia a faxineira encontrou um grupo de turistas aflitos dentro do labirinto. O grupo estava havia horas procurando a saída, em vão. Corredores davam para corredores que davam para corredores que terminavam em paredes sem saída. A faxineira poderia ajudá-los a encontrar a saída? Claro, disse a faxineira. E começou a dar direções.

— Vocês peguem a direita aqui, depois a esquerda, depois a... Não. Peguem a esquerda aqui, depois a direita, depois outra vez a direita... Ou será a esquerda? Meu Deus, eu não sei como sair do labirinto!

A faxineira nunca tinha se dado conta porque não precisava.

Chico

Ouço que tem sido comum a plateia aplaudir no fim de uma sessão do filme sobre o Chico. Difícil precisar o que está sendo aplaudido: a beleza do filme do Miguel Faria Jr., a qualidade da música e dos intérpretes, a personalidade do Chico... Ou talvez seja algo indefinível, uma espécie de autocongratulação do público por se sentir numa clareira de talento e sensibilidade em meio à estupidez crescente, o Brasil que ainda não desistiu do Brasil aplaudindo a si mesmo.

Luís Fernando Veríssimo
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TV Câmara tira do ar críticas de deputados a Eduardo Cunha

Parlamentares que tiveram falas editadas ou excluídas criticam presidente da Câmara


A TV Câmara censurou e cortou críticas diretas de deputados ao presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), no programa “Fatos e Opiniões”, veiculado na semana da histórica sessão de 19 de novembro, uma quinta-feira. Nesse dia, em duras falas, deputados acusaram Cunha de interferir no Conselho de Ética da Casa em benefício próprio. Última a discursar, a deputada Mara Gabrilli (PSDB-SP) calou o plenário ao dizer que Cunha deveria dar o exemplo aos colegas e deixar a presidência. O levante culminou na saída de cerca de cem deputados do plenário em direção ao conselho.



Uma versão feita originalmente pelos jornalistas da TV incluía as críticas a Cunha e chegou a ser veiculada pelo portal da TV na internet. Na noite de sexta-feira, porém, a TV Câmara veiculou uma versão com cortes, sem ataques diretos a Cunha, do programa que tem por propósito retratar os principais fatos da semana no plenário da Casa. Cunha foi cobrado e questionado em plenário depois de passar a presidência da sessão a Felipe Bornier (PSD-RJ), que decidiu anular a sessão do Conselho de Ética que tentava votar relatório que pedia a abertura de processo por quebra de decoro parlamentar contra o presidente da Câmara. A atitude revoltou deputados de oposição e governistas, que passaram a cobrar, nos microfones, que o ato de Bornier fosse revisto.

— Chega senhor presidente. O senhor não consegue mais presidir. Levanta dessa cadeira Eduardo Cunha — disse Gabrilli.

Na internet, versão sem corte

A primeira versão, sem cortes e na internet, retratou o episódio por 9 minutos e 20 segundos, do programa de quase meia hora. Quando o programa foi ao ar na TV, as críticas diretas a Cunha sumiram. Não só as de Gabrilli como de outros. Só colocaram trechos leves. O corte foi de seis minutos e, na versão editada, a rebelião em plenário caiu para 3 minutos e 20 segundos. Na internet, a versão original também foi substituída pela editada.

No caso de Gabrilli, a versão editada inseriu apenas uma fala dela: a parte em que a deputada diz que o deputado Felipe Bornier não poderia ter cancelado a sessão do Conselho de Ética. Não foram incluídos nenhum dos trechos das críticas que ela fez a Cunha.

— Naquele dia, uma das coisas que me fez entrar em ebulição foi porque eu vi o presidente cerceando a palavra dos deputados. Isso diz respeito à mesma coisa. Você empobrece o conteúdo da Câmara — afirmou ela.

A líder do PCdoB, Jandira Feghali (RJ), foi outro alvo da censura com toda a frase em que diz que Cunha está “diretamente envolvido no caso investigado” sendo cortada. Outro que some na versão editada é o tucano Betinho Gomes (PE), que classificou a atitude de Cunha de “autoritária e arbitrária”.

O líder do PPS, Rubens Bueno (PR), também teve sua frase desidratada. Na versão original, Bueno dizia que Cunha “perdeu as condições de presidir a Casa”. Na editada, essa frase sumiu. Mendonça Filho (PE), líder do DEM, foi outro atingido por ter dito na sessão que o plenário está sendo “instrumentalizado” para inviabilizar o processo de apuração do caso Cunha.

“Não houve o contraditório”

A direção da TV Câmara confirmou o corte na edição e ainda disse que a primeira versão, não cortada e que chegou a ir ao ar na internet, foi um erro. O diretor-executivo da Secretaria de Comunicação Social da Câmara, Cláudio Lessa, sustentou que os cortes foram feitos porque Cunha não se defendeu durante a sessão, apesar de estar presente e presidindo-a. Cunha adotou como estratégia não responder aos discursos críticos a ele em plenário. Lessa afirma que Cunha não interferiu na decisão da censura:

— Eles estavam batendo no Cunha, mas ele não se defendia. Não houve o contraditório. Ele não respondia e não dava o contraponto. Corríamos o risco de ser injustos e tendenciosos naquela primeira edição.

Os deputados atingidos pelos cortes cobraram um posicionamento da Mesa Diretora da Casa sobre o fato

— Ele (Cunha) sendo denunciado por todos os lados e vem uma tesoura como nos tempos da ditadura para censurar? — criticou Rubens Bueno.

— Não é aceitável edição de matérias que venha atender a interesse particular de ninguém do ponto de vista político, partidário ou ideológico. A Câmara tem o dever de zelar pela memória histórica — disse Mendonça Filho.

— É muito grave saber que o presidente da Câmara está censurando a manifestação dos deputados — disse Betinho.

Procurado pelo Globo, Eduardo Cunha disse estranhar que o Grupo Globo se preocupe com as matérias da TV Câmara, quando, segundo ele, as reportagens da TV Globo sobre seu envolvimento na Lava-Jato dão mais espaço a ataques de seus adversários.

As reportagens sobre o parlamentar, assim como todas as outras exibidas na TV Globo, zelam pelo equilíbrio e pela isenção jornalística.

Cunha responde a três inquéritos. O peemedebista é investigado por manter contas bancárias secretas na Suíça com dinheiro supostamente desviado da Petrobras; por corrupção passiva e lavagem de dinheiro; e por suposto uso da presidência da Câmara e do mandato para atrapalhar investigações da Lava-Jato.

Isabel Braga e Evandro Éboli
No O Globo
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Grupo doador de campanha de Temer recebe benefício de aliado em porto

Conglomerado de logística que tem dívida milionária com o governo e foi o único beneficiário de brecha incluída na nova legislação do setor contribuiu com R$ 1 milhão para campanha do vice e teve contrato renovado por ex-ministro do PMDB

Graças a uma emenda parlamentar incluída pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), na nova Lei de Portos, um dos principais doadores de campanha do vice-presidente Michel Temer em 2014 obteve uma vantagem inédita para administrar uma área do Porto de Santos, em São Paulo.

Navio em terminal operado pela Libra: empresa é arrendatária de área de 100 mil metros quadrados
O Grupo Libra, conglomerado de logística que tem dívida milionária com o governo federal, foi o único beneficiário dessa brecha incluída na nova legislação, que permitiu a empresas em dívida com a União renovarem contratos de concessão de terminais portuários.

A renovação nos novos termos foi garantida por um outro aliado de Temer, o deputado Edinho Araújo (PMDB-SP), em seus últimos dias no comando da Secretaria Especial de Portos (SEP). A retirada do parlamentar do comando da pasta foi um dos motivos de desavença listados por Temer em carta cheia de queixas enviada à presidente Dilma Rousseff em dezembro.

Mesmo sendo candidato a vice, Temer criou em 2014 uma pessoa jurídica para receber doações eleitorais e repassá-las a candidatos a outros cargos públicos, como deputados estaduais e federais. Sua conta recebeu R$ 1 milhão de dois dos sócios do Grupo Libra, arrendatário de uma área de 100 mil m² no Porto de Santos há mais de 20 anos.

O valor doado foi dividido igualmente em nome de Ana Carolina Borges Torrealba e Rodrigo Borges Torrealba, ambos herdeiros da companhia. A empresa foi fundada há mais de meio século para investir em navegação, mas, desde os anos 1990, mudou seu foco para a exploração de terminais portuários.

O contrato foi assinado em 1998, quando o grupo ganhou uma concorrência aberta pela empresa federal Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp) para operar uma das áreas de mais fácil acesso rodoviário do terminal. A proposta do Libra era irrecusável: ofereceu pagar dez vezes mais pela área do que o aluguel previsto no preço de referência. Por causa do alto valor, a segunda colocada na disputa entrou com recurso para anular a concorrência, afirmando que a proposta da Libra era inexequível, mas a alegação não foi aceita pela Codesp e o contrato foi assinado.

Entretanto, poucos meses depois, a vencedora passou a contestar as faturas de cobrança alegando que recebeu área menor que o prometido, que havia concorrência não prevista e que não haviam sido feitas as obras necessárias para obtenção da produtividade esperada. Começou aí uma longa batalha judicial entre governo e Libra que se arrastou por mais de uma década, e o valor integral previsto na licitação jamais foi pago pelo grupo. A dívida acumulada até 2008, segundo a Agência Nacional de Transportes Aquaviários, era de R$ 544 milhões – o que representa quase R$ 850 milhões em valores atuais.

Emenda

A situação só foi mudar quando, em 2013, a gestão Dilma enviou ao Congresso uma medida provisória que previa novas regras para a gestão de portos no País. Uma das principais novidades era a possibilidade de se renovar contratos de concessão de terminais em troca da promessa de novos investimentos.

O texto original da medida provisória, porém, vedava esse benefício a empresas inadimplentes. Mas, durante o processo de aprovação na Câmara, uma emenda apresentada por Cunha — e depois regulamentada pela presidente — permitiu a adesão de devedoras caso elas aceitassem decidir sobre a dívida antiga em um processo de arbitragem, em vez de na Justiça comum.

Com base nessa emenda, a adesão à arbitragem foi publicada no Diário Oficial no dia 3 de setembro. Por meio desse ato, o governo extinguia todas as ações na Justiça contra o Grupo Libra e as duas partes concordaram em aceitar a decisão de um árbitro eleito por acordo comum, que tem prazo de quatro anos para decidir quem deve quanto a quem.

Nesse mesmo dia, foi publicada a renovação do contrato por mais 20 anos em condições excepcionais para o Libra, que teria de pagar um aluguel ainda menor do que o negociado em 1998. Em contrapartida, a empresa se comprometeu a investir R$ 750 milhões.

Esse foi o único caso em que a exceção sugerida por Eduardo Cunha foi usada em todas as seis renovações de contrato em terminais portuários feitas após a lei.

Aliados

Nos dois períodos em questão, os responsáveis pelas decisões eram aliados de Temer e ambos foram citados pelo próprio vice-presidente como seus indicados em reclamações na carta recente escrita para Dilma. Em 1998, quando a Codesp era vinculada ao Ministério dos Transportes, o chefe da pasta era o ex-deputado Eliseu Padilha. O ex-ministro do governo Fernando Henrique Cardoso voltou à Esplanada dos Ministérios na gestão Dilma no comando da Aviação Civil, posto do qual se demitiu recentemente por causa de “desfeitas” da presidente, segundo afirmou Temer na carta.

Já a renovação do contrato se deu na gestão de Edinho Araújo na Secretaria de Portos, cujo desligamento do cargo no começo de outubro foi usado por Temer como exemplo da “falta de preocupação” da presidente em “eliminar do governo” um ministro a ele “ligado”.

Daniel Bramatti, José Roberto de Toledo e Rodrigo Burgarelli
No O Estado de S.Paulo



O elo Cunha-Temer na MP dos Porcos

Estadão só noticia agora como parte da operação tucana no TSE em 2016

O Conversa Afiada reproduz de Fernando Brito, no Tijolaço:

Estadão “descobre” elo Cunha-Temer. É a operação tucana: “TSE-2016”

O Brasil tem uma coisa original na imprensa.

É o “todo mundo sabe, mas só quando interessa vira notícia”.

O Estadão dominical “descobre” que uma emenda de Eduardo Cunha a uma Medida Provisória de 2012 que estabeleceu novas regras para a gestão dos portos no país favoreceu um doador de campanha do vice-presidente, Michel Temer.

A emenda permitia a renovação de concessões de terminais portuários privados a operadores com débitos com a União, desde que estes estivessem em processo de arbitragem.

Que Cunha e Temer têm mais interesse na “abertura dos portos às nações amigas” que D. João IV quando chegou ao Brasil não é novidade para ninguém.

Se qualquer repórter for conversar com o deputado Anthony Garotinho, ex-protetor de Cunha, e perguntar porque ele chamava a MP dos Portos de MP dos Porcos, vai precisar de um carrinho para levar suas anotações.

Cunha, ao lado de Paulinho da Força, era o principal “transformador” da MP. Não é preciso senão consultar o site da Camara (aqui, aqui e aqui) para saber disso. E com a ajuda luxuosa do então Governador de Pernambuco, Eduardo Campos.

Já as suspeitas sobre as ligações entre Michel Temer com empresas operadoras de portos, especialmente o grupo Libra, vêm de lá do governo FHC, foram engavetadas pelo Engavetador-Geral da República, Geraldo Brindeiro e ressurgiram depois e ainda antes da MP dos Portos.

E, nela, sem pudor, como registrava a Folha, há quase dois anos:
A votação da MP dos Portos na Câmara foi conduzida como um jogo de pôquer entre o Palácio do Planalto e o líder do PMDB na Casa, Eduardo Cunha (RJ). O governo comemorava ter vencido o deputado quando teve de engolir uma das emendas mais polêmicas defendidas por ele. Com os blefes de ambos os lados, a aposta agora é que Dilma Rousseff vai vetar o dispositivo que prevê a renovação de contratos de arrendamento firmados depois de 1993, caso a MP seja aprovada.

Truco! Quem convenceu Eduardo Cunha a retirar o apoio à emenda de Paulinho da Força (PDT-SP), que obrigava portos privados a contratar trabalhadores por meio dos Órgãos Gestores de Mão de Obra, foi o vice-presidente da República, Michel Temer.

Seis! “Se deram um truco, não foi em mim: foi no Michel”, reagia ontem o líder do PMDB, antes da reviravolta que levou o governo a ceder para viabilizar a votação
Por que isso apareceu agora?

Porque, como o impeachment não tem base para se impor politicamente, é preciso dar munição a Gilmar Mendes e Dias Tóffoli no TSE, que sabem que não precisam de nada, senão suposições para dar o golpe sobre Dilma, mas que precisam “completar o serviço” pegando Temer, de modo que haja uma “eleição”, debaixo de um clima de comoção pública para ver se “assim a coisa vai” para….para quem, mesmo?

A fome de poder sem voto parece mesmo incontrolável.

Por falar nisso, quem é o dono do jatinho do Eduardo Campos e da Bláblárina ?

PHA
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Criadores

O doutor Victor Frankenstein finalmente procurou um advogado. Que o recebeu com surpresa, e depois se desculpou:

— É que eu vi o nome “Frankenstein” na minha agenda e pensei...

— Que eu era o monstro, não é? Todo mundo se engana. Frankenstein sou eu, não o monstro que eu criei. Ele não tem nome, mas se apresenta como “Frankenstein”, e está fazendo uma carreira artística de sucesso, ganhando muito dinheiro. Com o meu nome! É sobre isso que vim consultá-lo.

— O senhor quer que...

— Que ele pare de usar o nome “Frankenstein”. E me pague por ter usado o nome sem minha permissão, todos esses anos. Quero meus direitos de criador! Fui eu que juntei e costurei as partes do seu corpo, fui eu que dei vida ao monstro. Tudo sem receber um tostão! Ou, ao menos, um “muito obrigado”.

— Vamos ver o que se pode fazer - disse advogado.

Semanas depois, o dr. Frankenstein foi chamado ao escritório do advogado. Que lhe deu a notícia:

— A questão da sua ação contra o Frank... Digo, contra o monstro que usa o seu nome, se complicou.

— Como?

— Apareceu outra pessoa que se diz criadora do monstro. Aliás, ela alega que criou o senhor também.

— O quê? Quem é essa impostora?

— O nome dela é Mary Shelley. Escritora. Ela diz que inventou o senhor e que o senhor inventou o monstro, portanto ela se considera criadora dele também. E também reclama que nunca recebeu nada dele.

— Não podemos fazer um acordo com ela? Dividir os direitos de criação, qualquer coisa assim?

— Vamos ver o que se pode fazer – disse o advogado.

Foi feito o acordo com Mary Shelley. Mas...

— Surgiu outro que se diz criador – disse o advogado.

— Quem? – perguntaram o dr. Frankenstein e Mary Shelley, em uníssono.

— Deus.

— Deus Nosso Senhor? Criador do Céu e da Terra?

— O mesmo. Ele diz que guiou a mão de Mary Shelley, quando ela escreveu o livro. Que guia a mão de todos os artistas. E que dá vida a todas as criaturas, monstruosas ou não.

— E Ele quer receber os direitos de criação também?

— Quer, mas está disposto a conversar. O que vocês acham?

— Sei não..., disse Mary Shelley

E o dr. Frankenstein:

— Não se estaria criando um precedente?

Luís Fernando Veríssimo
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Votos menos e mais inúteis

Os votos são antigos, vêm de 2015. São votos atrasados pela Light, que considera o vento — a mais universal das energias — incompatível com energia elétrica. Há anos, ventinho e apagão são sinônimos no pedaço carioca em que estou. Ou, não menos provável, também na Light esta coluna não é bem vista. Tanto que o apagão prefere atacar quando um texto já se aproxima do fim — e, de repente, a tela, o mundo, a vida somem em sombras. A volta? Em horas inúteis.

Personagem central do ano, Eduardo Cunha merece a prioridade. Desejo-lhe que permaneça como destaque, mesmo fora da Câmara. E assim seja em razão de um farto desfolhar de revelações que respondam à curiosidade latente da opinião pública: quem é e, sobretudo, o que é esse fenômeno da astronomia política chamado Eduardo Cunha?

A Dilma Rousseff, os votos de que perceba o excesso de mediocridade das formações ministeriais que concede às escolhas dos partidos, o que fazem em benefício próprio e em desaforo com o país. Não é uma peculiaridade de Dilma, bastando lembrar que no governo Fernando Henrique até Renan Calheiros e o semiletrado Iris Resende foram ministros da Justiça, além de outras preciosidades do gênero, vivas ainda ou já mortas. Mas para um governo envolto por situações críticas, um ministério respeitável e eficiente é a força mais neutralizadora dos assédios. Caso, é claro, o governo não conte com alguma tolerância da imprensa — situação em que Dilma e Fernando Henrique são recordistas em sentidos opostos.

Temos deputados demais, federais e nos Estados, vereadores demais, e pouquíssimos políticos de fato. O novo ano nada pode a respeito. Mas ao eleitorado cabe desejar que ao menos, nas eleições de outubro, não continue substituindo os escassos sérios por marginais, disfarçados ou não. E OAB, CNBB e outras entidades respeitáveis pedem os votos de que intensifiquem a discussão de temas corretivos da política e daí extraiam propostas inteligentes.

Ao juiz Sergio Moro, os votos de que reflita sobre uma atividade que ele designa com a abominável expressão "usar a imprensa". Notícias deliberadamente inverdadeiras ou imprecisas são violações da ética, tanto a pessoal como a profissional, sejam quais forem as pessoas e as profissões. Se essa prática é criticada na imprensa, não será na magistratura e no Ministério Público que se tornará legítima.

Aos integrantes da Lava Jato, os votos de que pensem, com a isenção disponível, em um efeito paralelo ao que os faz propagadores de delação premiada: impunidade com liberdade, em troca da denúncia de comparsas, é também um estímulo à criminalidade. Isto mesmo deve estar em muitas cabeças, neste momento. Como esteve na de Alberto Youssef e o levou ao crime outra vez, depois de sua delação premiada no caso Banestado, lá atrás, na qual figurou o compromisso de não voltar ao crime.

Os personagens do noticiário merecem os votos de que encontrem menos declarações suas que não fizeram e intenções que não tiveram. As próprias notícias justificam os votos de que recebam dos jornais tratamento menos desequilibrado entre as correntes políticas. À internet, desejo que não se importe com as acusações, propagadas por tantos jornalistas, de que está matando os jornais. Não é a internet que faz os jornais como estão.

A todos, a esperança de que deem um bom desconto no que se diz da situação do Brasil. E assim vivam um ano menos angustiante e mais lúcido do que lhes está induzido.

Janio de Freitas
No fAlha
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