26 de dez de 2016

Viagens fantasmas

Li que o Encouraçado Potemkin é visitado por turistas, atraídos pelo seu significado histórico. A rebelião dos seus marinheiros em 1905 foi precursora da revolução comunista que tomaria o poder em 1917, na Rússia. Mas também li que o encouraçado foi capturado e destruído pelos alemães em 1922 e que o exército branco, que se opunha à revolução, acabou de desmantelá-lo.

O que, então, é visitado, exatamente? Seria uma reprodução do navio?

Muitos dos turistas que percorrem as famosas caves de Lescaux, na França, não sabem que estão dentro de réplicas das caves verdadeiras, cujas pinturas nas paredes não resistiriam ao trânsito de visitantes. Teriam construído um falso Encouraçado Potemkin para evocar a rebelião?

Romeu e Julieta nunca existiram. Shakespeare se inspirou num poema chamado “A trágica história de Romeu e Julieta”, de um tal Arthur Brooke, para criar seu desafortunado casal. A peça se passa em Verona mas poderia se passar em qualquer outra cidade, italiana ou não, inventada ou não. O que não impediu que a imaginação popular a localizasse numa Verona real e até identificasse o balcão do quarto de Julieta na casa dos Capuletos.

Vinha tanta gente olhar o balcão escalado por Romeu para os braços de Julieta que a prefeitura de Verona resolveu oficializá-lo e garantir sua autenticidade. Afinal, um balcão por qualquer outro nome é um balcão, e que não falta na bela Verona são balcões.

Quem chega em Casablanca, no Marrocos, esperando encontrar o Ric’s Cafe Americain — encontra! Existe um bar chamado Ric’s Cafe Casablanca que é uma copia perfeita do café do filme, incluindo um piano da época e um pianista que passa o tempo todo atendendo a pedidos para tocar “As time goes by”.

Humphrey Bogart e Ingrid Bergman não aparecem — o tempo passou para eles — mas o bar pertence a um grupo chamado “The usual suspects”, uma das frases memoráveis do filme, dita pelo capitão Renault, que em caso de atentados manda prender os suspeitos de sempre.

Uma sugestão para agências de turismo: oferecer viagens fantasmas para lugares que nunca existiram ou não existem mais, ou ainda existem, mas falsificados.

Luís Fernando Veríssimo

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