4 de dez de 2016

Que fim

Rede de cabelo para homem. Que fim levou? Os homens usavam rede para dormir e jogar futebol. Você vê fotografias antigas de times de futebol e sempre tem uns três ou quatro com uma rede — ou meia — na cabeça. Era para manter os cabelos no lugar. Até o fim dos anos 50, homem ainda usava rede na cama e no campo. Que fim levaram?

E que fim levou chapéu de mulher com véu? Se ainda existe, eu não tenho visto. Os chapéus vinham com véus que cobriam o rosto da mulher. A cobertura era apenas simbólica, pois os véus eram diáfanos e o rosto da mulher ficava reconhecível. Mas o que simbolizava a falsa máscara? Talvez a moda viesse do fim da era vitoriana e fosse uma espécie de antídoto para o relaxamento de costumes que já começara. A mulher estava a meio caminho entre a repressão e a liberação, mas ainda era obrigada a simular recato. O véu era um resquício de pudor, para ela não ser identificada na rua. Atrás do seu véu a mulher continuava sendo um ser enclausurado, olhando o mundo através não das treliças de um convento, mas do rendado do véu, já que para se proteger do sol certamente não era. Levantar o véu de uma mulher para beijá-la equivalia a um descerramento, a uma cortina de primeiro ato sendo aberta — mesmo que ela estivesse vestindo só o chapéu. Os véus davam um ar de mistério lúbrico às mulheres. O que jamais se poderia dizer das redes de cabelo para homens.

E mata-borrão. Já devemos estar na terceira geração humana que não sabe o que é mata-borrão. Que nunca viu um mata-borrão, salvo em filme de época. Como explicar o prático objeto em forma de semicírculo com uma maçaneta em cima se, além de tudo, ele tinha um nome errado, um nome que desvirtuava sua função? Em vez de matar, o mata-borrão prevenia o borrão, era um evita-borrão, portanto um difamado pelo próprio nome. A pronta aplicação da superfície porosa do papel do mata-borrão, que absorvia o excesso de tinta molhada, impedia que a tinta se espalhasse, ou fosse acidentalmente borrada e... Enfim, é um pouco difícil de explicar para quem não sabe nem o que é tinta molhada.

Como é impossível descrever para os jovens de hoje todas as emoções que envolviam o lança-perfume, nos dias de carnaval. O prazer de ganhar uma bisnaga de metal cheia, ou bisnagas de vidro com a recomendação sempre ignorada de cuidar para não quebrar, e a euforia selvagem de acertar as costas nuas de uma havaiana com um jato do líquido gelado. Sim, as lança-perfumes eram armas de ataque. Tanto que um dos acessórios básicos para quem ia “brincar carnaval” eram óculos de plásticos para proteger os olhos de disparos traiçoeiros. Tempos mais inocentes nada, tempos bárbaros. E lança-perfume também era para cheirar e dar barato. Ninguém perdia a consciência, a não ser que exagerasse, mas havia casos registrados de levitação. E ressaca de lança-perfume era pior que ressaca de licor de ovo.

Divagações octogenárias. Não ligue.

Luís Fernando Veríssimo

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