18 de dez de 2016

Por que as ruas permanecem silenciosas?


Algumas razões são conjunturais.

O anúncio das medidas de destruição dos direitos sociais e aniquilamento dos setores públicos de educação e saúde, entre outros; liquidação de empregos industriais qualificados e duvidosa recuperação dos investimentos em infraestrutura, agora a cargo de firmas estrangeiras – elas todas vem sendo feia com habilidade, incerteza, de forma confusa e sem o suporte do único meio de comunicação eficiente do país, a Rede Globo de Televisão.

Fatores diversionistas estão sendo acionados — de anúncios otimistas ao clima de inquérito policial que domina os noticiários — sempre em busca de culpados pelo que vão fazer e sabem criminoso.

A medida mais séria — o congelamento da economia — será sentida gradualmente. A liquidação dos direitos trabalhistas atingirá primeiro as categorias menos organizadas.

[Os americanos são fantásticos em estratégias de controle da opinião pública. Estudo o assunto há 50 anos]

Mas há outro fator: a recessão que se manifesta em estados-chaves (Rio, RS etc.) e o temor difuso de um futuro de incerteza.

A situação repete o quadro psicológico da recessão. Nele, preocupados com a sobrevivência, os trabalhadores se recolhem.

O maior exemplo foi o da era vitoriana da Europa do Século XIX, após a guerra franco-prussiana, a comuna de Paris e a queda de Napoleão III. Os bancos da City impuseram forte recessão, forçaram diáspora de europeus (para a América, Oceania, África, Oriente distante), dirigiram investimentos para objetivos distantes (suntuários, artísticos, científicos, arquitetônicos, típicos da belle époque).

A era de agitação que marcara a revolução industrial regrediu em um silêncio social espantoso. Não que houvesse adesão ou aceitação. O que se formou foi uma multidão rancorosa, racista, movida por medo e ódio. Sua face ganhou traços de loucura e crime na frenologia, falsa ciência da época, e seu caráter malévolo e incontrolável, sua grosseria e irascibilidade geraram dois livros muito importantes, “A multidão criminosa”.de Scicpio Sighele, e “Psicologia das Massas” de Gustave Le Bon – em 1894-1895.

É para conter a massa rancorosa descrita nessas obras de cabeceira dos criadores — nazistas e liberais — das modernas técnicas de controle de opinião, que se estabeleceram os estreitos limites em que cabe hoje a palavra democracia.

Nilson Lage é professor de Jornalismo, aposentado, da UFRJ e da Federal de Santa Catarina. É autor, entre outros muitos livros, de  “Controle da Opinião Pública – Um ensaio sobre a verdade conveniente”, Editora Vozes, 1998.
No Tijolaço

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários com links NÃO serão aceitos.

Os comentários são de total responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do blog

Comentários anônimos NÃO serão publicados, como também não serão tolerados spams, insultos, discriminação, difamação ou ataques pessoais a quem quer que seja.

É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O blog poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.