4 de dez de 2016

Moral da história

Time pequeno, de pequena cidade do interior, sem grandes jogadores, mas com um espírito de equipe irresistível, derrota times muitas vezes maiores e chega a um título consagrador. Com variações, já vimos esse filme muitas vezes. A história é antiga como a de David e Golias e se repete, como ficção ou, mais raramente, como realidade, através do tempo. E sua moral é sempre a mesma: não importa o seu tamanho, importa o tamanho do seu sonho. Importa o que um menino com um bodoque ou um time pequeno com seu atrevimento podem contra os poderosos.

Quando a história tem um final trágico como a da Chapecoense, entramos no terreno de outra moral, ou de uma moral sem sentido. A lenda da Chapecoense não era para terminar assim, num avião despedaçado no meio do mato. Contra a enormidade da tragédia, nada resta para ser entendido, salvo o acaso criminoso e o poder amoral, ou imoral, da morte. Acidentes como o de Medellín nos revoltam, mas a revolta é contra o quê? Uma lenda teria sido interrompida antes da consagração. A morte coletiva teria estragado a lenda. Moral da história: nada.

O terremoto que destruiu Lisboa em 1755 levou muita gente a questionar o Deus cruel que causara tantas mortes. O iluminista Voltaire escreveu, na época, que o terremoto provava que Deus não existia, existia um acaso sem nome e sem responsáveis. Diante da enormidade da tragédia, buscava-se um culpado em meio às ruínas de Lisboa, o que correspondia a buscar uma moral com sentido para o terror. Muitos tornaram-se ateus, mas muitos também atribuíram o fato de algumas igrejas da cidade terem resistido ao terremoto a milagres. Diante do inexplicável, as pessoas se apegam a qualquer resto de razão.

No caso da Chapecoense, a lenda vai sobreviver à gratuidade da tragédia, e não será um milagre. Dizem que o clube de Chapecó é o mais bem administrado do país. O time será reconstruído. E a cidade e o mundo guardarão para sempre a lembrança daquele time atrevido, que não chegou ao título, mas chegou à consagração.

Luís Fernando Veríssimo

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