1 de dez de 2016

Michel Temer respira por aparelhos

A Temer está reservado o mesmo destino de Cunha. Enquanto isso, Fernando Henrique espera sua vez e sua hora
Até quando ele terá utilidade? Enquanto essa pergunta ronda os ares em busca de uma resposta, presidente sobrevive, mais do que nunca, nas mãos dos artífices do golpe

Algo novo e surpreendente está ocorrendo no Brasil: o governo de Michel Temer, surgido de um golpe institucional que destituiu a presidenta Dilma Rousseff, se deteriora em velocidade alucinante.

Enquanto se aprofunda a mais severa recessão já vivida pelo país, com todos – absolutamente todos – os indicadores econômicos retrocedendo de forma contundente, Michel Temer demonstra fartamente que sua ausência de estatura (política, ética e moral) para ocupar a presidência do maior país latino-americano corresponde a uma extrema inabilidade para conduzir-se em meio à tempestade.

Nos últimos dias ficou claro que seu governo está às portas da agonia. Respira graças ao aparato constituído basicamente pelo respaldo com que ainda conta no Congresso e, especialmente, o apoio com que o brinda o PSDB do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e do senador derrotado em 2014 Aécio Neves – além do empresariado e do mercado financeiro. É um caso claríssimo e gravíssimo de sobrevivência a respirar por aparelhos.

Para tornar mais sombrio seu horizonte, as manifestações contra o governo voltaram a ocupar as ruas com força redobrada.

As evidências de que Temer tentou intervir em favor de Geddel Vieira Lima – obrigado a renunciar à Secretaria de Governo e à condição de principal articulador com o Congresso, em um ato claro de corrupção – são concretas. Envolvido em um caso claríssimo de manipulação de órgãos públicos em defesa de interesses pessoais, Geddel deflagrou a crise profunda. Um jovem ambicioso, diplomata de carreira inexpressivo, Marcelo Calero deixou o Ministério da Cultura atirando. E seus alvos foram o poderoso ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, além do próprio Temer. Precavido, Calero gravou suas conversas com o presidente e seus auxiliares mais próximos.

Agiu aconselhado por “amigos da Polícia Federal”. Ou seja, agentes do Estado orientaram um ministro a gravar o presidente da República. E assim se pôde comprovar que Temer interveio em defesa de interesses particulares – e nada republicanos – de Geddel. No momento, cabe à Procuradoria-Geral da República decidir se encaminhará o caso ao Supremo Tribunal Federal, pedindo abertura de investigação contra o presidente.

A propósito: com exceção de Marcelo Calero, todos os demais – todos – estão citados em denúncias de corrupção. Tão logo a Corte Suprema homologue acordos de delação premiada dos mais altos executivos da Odebrecht, serão conhecidos os nomes de cerca de 200 políticos que teriam recebido dinheiro ilegal por parte da construtora. Entre eles, pelo menos metade dos integrantes do governo Temer.

O que mais chama a atenção da classe política e da opinião pública é a quantidade das denúncias que se reproduzem a velocidade impressionante contra o governo, o Congresso e o próprio presidente da República. E ao mesmo tempo a incapacidade de Temer de superar os obstáculos que surgem a cada dia.

Está cada vez mais claro que Temer, definitivamente nas mãos do PSDB, não tem mais condições de conduzir o governo. Ele se manterá acomodado na cadeira presidencial enquanto cumprir os desígnios de Fernando Henrique e companhia, e enquanto conseguir sustentar a agenda econômica determinada pelos agentes do capital.

Também chama atenção o nítido abandono de Temer pelos meios hegemônicos de comunicação, um dos pilares fundamentais para o êxito do golpe institucional que o conduziu à presidência.

A cada dia cresce a impressão de que reserva a Michel Temer o mesmo destino de Eduardo Cunha, preso em Curitiba, nas mãos do juiz de primeira instância Sérgio Moro. Como presidente da Câmara, foi o instrumento essencial para a abertura do processo de afastamento de Dilma Rousseff. Uma vez cumprida sua missão, descartado por seus pares, Cunha voltou a ser nada mais do que um exemplo concreto da corrupção desenfreada que contamina o sistema político brasileiro.

Vice de Dilma, Temer a sucedeu no golpe. A presidenta eleita por 54 milhões de brasileiros foi destituída sem que fosse apresentada uma única prova de haver cometido crime de responsabilidade.

Contra Temer, a prova existe, graça a seu fugaz ministro da Cultura. Mais do que nunca o ainda presidente está nas mãos dos artífices do golpe. Até quando terá utilidade? Enquanto essa pergunta ronda os ares em busca de uma resposta, Temer sobrevive, mas respirando por aparelhos.

Na próxima esquina, soberbo e sorridente, Fernando Henrique Cardoso espera sua vez. Há poucos dias, soltou uma frase fulminante, referindo-se ao debilitado governo Temer: “É fraco, mas é o que temos”.

Faltou completar: “Por enquanto”.

Eric Nepomuceno
No RBA

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