29 de dez de 2016

Lava Jato já ameaça Lula com novo processo em 2017

Relatório da Polícia Federal sobre finanças da empresa de palestras de Lula não levanta nenhuma suspeita sobre pagamentos feitos pelo Grupo Petrópolis por três eventos com a presença do ex-presidente. Mas os procuradores de Curitiba devem explorar conexão com a Odebrecht para atingir o ex-presidente


A depender dos procuradores da República liderados por Deltan Dallagnol, Lula, que foi transformado em réu cinco vezes só em 2016, sendo que três desses processos derivam da Lava Jato, pode se preparar para sua quarta acusação formal a reboque das investigações na Petrobras. Segundo reportagem do Estadão desta quarta (28), a força-tarefa já projeta para 2017 um novo inquérito, agora envolvendo o Grupo Petrópolis (fabricante da cerveja Itaipava), a Odebrecht e a LILS, a empresa de palestras do ex-presidente.

A turma de Curitiba elabora uma narrativa a partir da delação da Odebrecht para levar Lula a julgamento diante de Sergio Moro pela terceira vez. A tese em contrução sustenta que o Grupo Petrópolis, que pagou por três palestras do ex-presidente, teria recebido dinheiro da Odebrecht. A única sentença supostamente alarmante no texto do Estadão é a que informa que a empreiteira construiu a fábrica da Itaipava inaugurada na Bahia, em 2013, com presença do ex-presidente, contratado para estar lá.

O curioso é que, dessa vez, a ameaça dos procuradores vem acompanhada de um relatório da Polícia Federal sobre a situação financeira da LILS que não tem qualquer ressalva sobre os pagamentos feitos a Lula pelo Grupo Petrópolis serem suspeitos. A única conexão feita pela Lava Jato para envolver Lula nessa trama foi a compra de um banco estrangeiro pela Odebrecht e o Grupo Petrópolis, onde a empreiteira admitiu ter contas utilizadas pelo departamento de propina interno. E, como a Odebrecht é colada a Lula pela Lava Jato...

Outro ponto curioso é que, em meados de 2015, o lance da força-tarefa com o Grupo Petrópolis era outro. Com o objetivo de desgatar o governo Dilma Rousseff, os procuradores lançaram suspeitas na mídia sobre o fato de a empresa ter sido a quarta maior doadora da campanha da presidente derrubada através de um processo de impeachment questionável e impulsionado pela Lava Jato. (Leia mais).

Àquela época, a Lava Jato afirmava que Julio Camargo, ex-executivo da Toyol Setal, teria dito que enviou 15 milhões de dólares do esquema na Petrobras para uma offshore no Uruguai. Desse montante, 3 milhões de dólares teriam sido enviados a uma conta de Walter Faria, dono do Grupo Petropolis, na Suíça. Mais de um ano se passou desde a publicação de IstoÉ sobre o assunto, e só em 2017, segundo o Estadão, é que o Grupo Petrópolis virará alvo preferencial da força-tarefa.

Agora, a força-tarefa insinua que a cervejaria e a Odebrecht compartilhavam uma conta secreta abastecida com recursos ilícitos e que isso levantaria suspeitas sobre os pagamentos feitos pelas palestras de Lula, que totalizam R$ 1,5 milhão. O relatório da Polícia Federal anexado na reportagem do Estadão não nega que o ex-presidente, de fato, executou o serviço contratado.

Desviando as atenções

O foco da Lava Jato de Curitiba no ex-presidente, usando a delação bomba da Odebrecht, poderá criar outro efeito no noticiário: o de minimizar o protagonismo da Procuradoria Geral da República, que trabalha com as delações envolvendo políticos, cetrando os holofotes em Lula mais uma vez.

À PGR, a expectativa é de que os delatores tenham contado como a Odebrecht utilizava "empresas dos donos da Itaipava para distribuir dinheiro a políticos por meio de doações eleitorais e entregas de dinheiro vivo. Um dos pontos são os depósitos de cerca de R$ 100 milhões pela Odebrecht em uma conta operada pelo contador do Grupo Petrópolis no Antígua Overseas Bank (AOB) – banco que antecedeu o Meinl Bank. Os delatores prometeram entregar aos investigadores planilhas das contribuições eleitorais executadas pelo Grupo Petrópolis e os documentos relacionados ao controle da movimentação real/dólar entre as contas das empresas."

Esse mesmo parágrafo é usado pelo Estadão numa reportagem do dia 16 de dezembro. O jornal omitiu, contudo, o que vinha na sequência ao noticiar a ameaça de novo processo contra Lula: que entre os políticos que receberam dinheiro do Grupo Petropolis "por conta e ordem da Odebrecht" estão Aécio Neves (PSDB), Ciro Nogueira (PP), Arthur Virgílio (PSDB), Heráclito Fortes (PSB), entre outros que estão no PT, PMDB, PV, DEM, PTC, PSDC, PPS e PSOL.

Abaixo, a nota do advogado Cristiano Zanin Martins à Folha:

“O constante vazamento de dados relativos às atividades privadas do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva mostra a ausência de um juiz que se preocupe com as garantias fundamentais das pessoas que foram eleitas como alvo na Operação Lava Jato.

Todas as palestras realizadas por Lula têm origem em contratos privados firmados com a empresa LILS Palestras e Eventos Ltda, criada pelo ex-Presidente para essa finalidade, em sociedade com o Sr. Paulo Okamoto. Esses contratos têm objeto lícito e os impostos foram recolhidos. Tais palestras foram feitas com o mesmo valor de referência e nas mesmas condições, para mais de 40 empresas de setores e países diversos.

A Lava Jato não deixa, portanto, dúvida de que o seu atual objetivo é o de perseguir Lula, eleito inimigo político pelas autoridades envolvidas. Há inúmeros procedimentos investigatórios abertos – como esse – sem qualquer materialidade, com a única intenção de promover o desgaste da reputação e da imagem do ex- Presidente, tática do fenômeno reconhecido internacionalmente como ‘lawfare’."


Cíntia Alves
No GGN

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