18 de dez de 2016

Desmoralização

Injustiça dizer que Donald Trump é contra as minorias. Seu gabinete, além de um número sem precedentes de generais, inclui muitos membros da menor minoria de todas, a dos multimilionários.

Um jornalista americano pesquisou e descobriu que os ricos escolhidos por Trump têm em comum não apenas muito dinheiro, mas o fato de serem todos leitores e admiradores da Ayn Rand, a americana nascida na Rússia que, nos seus livros, faz a apologia do egoísmo criativo e endeusa empreendedores com mais audácia do que escrúpulos.

Rand morreu em 1982 e tornou-se uma espécie de santa padroeira do neoliberalismo, proporcionando ao capitalismo desenfreado uma absolvição filosófica. O jornalista duvida que o próprio Trump seja leitor da Ayn Rand — talvez esteja esperando seus livros saírem em quadrinhos — mas conclui que nunca um gabinete americano teve tal coesão de princípios, com todos se imaginando heróis de uma das ficções de Rand.

Outro jornalista americano, Paul Krugman, escreveu um artigo sobre Trump com o título “O candidato da Sibéria”. A alusão é ao filme “O candidato da Manchúria” (em português, “Sob o domínio do mal”), em que um soldado americano capturado por comunistas chineses é condicionado a agir como assassino segundo ordens subliminares que receberá ao voltar para os Estados Unidos.

Sua missão, quando receber o comando, é eliminar um candidato à Presidência para favorecer o candidato que os comunistas querem. Ou coisa parecida. A CIA descobriu que os russos deram uma mão aos republicanos na recente eleição presidencial americana, hackeando e intervindo nas comunicações dos democratas.

A única prova de que Trump não é uma marionete dos russos, apoiado por eles para desmoralizar para sempre a democracia, é que Trump não esconde sua admiração pelo Putin. Se fosse uma “toupeira” — na linguagem da espionagem, um agente infiltrado num país inimigo esperando, às vezes durante anos, a hora de ser acionado — Trump esconderia sua admiração.

De qualquer maneira, é fascinante imaginar Trump, uma personificação do capitalismo sem freios, como agente russo. O fato é que, de propósito ou por acidente, a democracia foi desmoralizada.

Feio não

Dizem que os apelidos dados pela Polícia Federal e procuradores a políticos sendo investigados está revoltando os apelidados mais do que a revelação das suas falcatruas.

“Corrupto” tudo bem, mas “Feio” não! Não se sabe como são escolhidos os apelidos. Haveria só um dando codinome aos delatados ou isto seria trabalho de uma equipe, que discutiria as sugestões?

— O que vocês acham de “Angorá” para o Moreira Franco?

— Perfeito!

Luís Fernando Veríssimo

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