25 de dez de 2016

Ceia de Natal resiste, mas já exala formalismo de programação comercial

As notícias começam com quatro, cinco meses de antecedência. Ano a ano. Não que falte coisa melhor para o mesmo espaço em jornais ou tempo nas tevês. É o domínio da burocracia: "Comércio espera Natal bom/ruim", "Natal será mais caro/barato", e outras embromações que nada significam.

O que rege esse noticiário não são os fatos, é o calendário. Com a aproximação de dezembro, "Importações de Natal crescem/diminuem"; "Indústria de calçados aposta no Natal", e por aí vai. E então vêm as bobices sobre o movimento de compras, o que a professora comprou, "e você está comprando muito?", "está tudo muito caro", "o comércio aposta no 13º", e as imagens sempre iguais.

Depois são as especulações sobre resultados e os resultados de fato. O Natal é só economia.

É mesmo o Natal? É, desde que Natal se tornou nome de um período da atividade comercial. O sentido de Natal ficou posto na formalidade das "vendas e compras de Natal". Sim, a ceia resiste ainda. Mas já exala os formalismos de uma programação comercial, com os novos produtos industriais da publicidade, as ceias em bares e restaurantes, em clubes. E as vendas de ceias prontas, e não mais a obra típica de cada família, memórias remotas do paladar e da infância.

O progresso traz também mudanças que não são progresso. O Natal não escaparia aos ímpetos mudancistas e às maneiras que lhes dá a subcultura norte-americana difundida no mundo. À parte o uso que a religiosidade dele pudesse fazer, o Natal foi a mais bela das cerimônias. Quem a perdeu não foi o Natal, fomos nós.

As mentiras

À falta de resposta no Painel do Leitor, volto aos depoimentos contraditórios do ex-presidente da Andrade Gutierrez, Otávio Azevedo.

Seu advogado, Juliano Breda, disse em carta à Folha que "a mudança no seu [de Azevedo] depoimento perante o TSE ocorreu em razão da análise de uma prestação de contas dos partidos que se mostrou equivocada, e não em razão de um fato do qual ele teria conhecimento direto".

O despacho 84/2016 da Procuradoria Geral Eleitoral, de 16.12.2016, diz que no depoimento para a Justiça Eleitoral em 17.11.2016 Azevedo "apresentou versão com traços divergentes em relação às afirmações feitas no depoimento prestado em 19.9.2016", à Lava Jato.

Neste depoimento, Azevedo apresentou a história de um encontro seu com Edinho Silva e outro petista para acertar a doação de R$ 1 milhão à campanha de Dilma. Nas palavras da Procuradoria Geral Eleitoral (PGE), está claro que são duas declarações explícitas e contraditórias.

A segunda, quando em novembro Azevedo foi indagado pela PGE sobre a divergência, depois que a defesa de Dilma desmentiu-o e apresentou cópia do cheque de R$ 1 milhão nominal a Michel Temer. A Azevedo só restava desdizer-se.

Breda diz ainda que "os encontros com Edinho Silva realmente aconteceram, fato que o próprio ex-ministro já admitiu".

O plural não estava no artigo. E o encontro para Edinho Silva pedir (e receber) R$ 1 milhão foi inventado por Otávio Azevedo: Edinho e seu acompanhante o negaram e, mais importante, a negação está implícita no reconhecimento de Azevedo de que o dinheiro não foi dado para Dilma, mas a Temer.

O despacho 84 foi mais longe, ao questionar a possibilidade de "desatendimento aos termos daquele acordo" (de delação premiada, com a Lava Jato). Por isso, e por ser assunto criminal, não eleitoral, remeteu a ação contra Otávio Azevedo "à Procuradoria da República em Brasília, para a adoção das medidas que entender cabíveis", e à Procuradoria Geral da República.

Ainda há o caso da declaração de Otávio Azevedo, aos procuradores da Lava Jato, de doação a Aécio Neves de R$ 12,6 milhões, que depois reconheceu serem, na verdade, R$ 19 milhões. O primeiro valor dava cobertura ao declarado na (também falsa) prestação de contas da campanha de Aécio.

Janio de Freitas
No fAlha

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