11 de nov de 2016

Um Brasil justo pra todos e pra Lula




Lula: Brasil vive momento de 'perigoso regresso', mas não se cala

"Quem rasgou a Constituição não vai fazer com que seja respeitada", diz ex-presidente. Ele também fez referência a "pacto quase diabólico" entre mídia, PF, MP e o juiz Sérgio Moro, cujo nome não citou

Para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil vive um momento de "perigoso regresso", com ameaça de perda de direitos, agressão às liberdades civis e escalada da violência. Em ato organizado em sua defesa e da democracia, na noite desta quinta-feira (10), em São Paulo, Lula fez críticas à Operação Lava Jato, acusando a força-tarefa de mentir, além de estar prejudicando, segundo ele, não só o país, mas instituições como o próprio Ministério Público e a Polícia Federal. Ele voltou a dizer que não tem problema "em prestar contas à Justiça e prestar quantos depoimentos forem necessários", mas condenou a prática de "condenar pessoas pelo escândalo".

Ao destacar atos públicos convocados pelas frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, como os desta sexta-feira (11), Lula afirmou que "o país ainda tem muitas vozes", no sentido da resistência. Ele manifestou respeito pelas instituições, mas observou que isso não acontece entre os apoiadores do impeachment. "Quem rasgou a Constituição não vai respeitá-la, nem fazer com que seja respeitada." Mesmo dizendo-se agradecido, o ex-presidente disse que não se sentia "confortável" em participar de um evento em sua defesa, preferindo um ato de acusação contra a força-tarefa.

O evento, que reuniu centenas de pessoas na Casa de Portugal, região central da capital paulista, marcou o lançamento da campanha "Um Brasil justo pra todos e pra Lula", com manifesto lido pela vice-prefeita de São Paulo, Nádia Campeão, e pelo professor e historiador Luiz Felipe de Alencastro. O texto, disponível no site (www.brasiljustopratodos.com.br), fala em "manipulação arbitrária da lei", prisões apenas por suspeita "perigosamente banais" e "caçada jurídica e midiática sem limites éticos ou legais". Diz que Lula pode e deve ser investigado, mas não submetido, juntamente com sua família, "ao vale-tudo acusatório". Até a tarde de ontem, havia mais de 600 assinaturas, segundo os responsáveis, entre políticos, artistas, intelectuais, dirigentes sindicais e representantes de movimentos sociais.

"Essa campanha não tem dono", disse o ex-ministro Gilberto Carvalho, ressaltando o caráter suprapartidário da iniciativa, que trata, afirmou, não apenas de Lula, mas de um processo contra a democracia e as classes mais pobres. Também se busca melhorar a comunicação e fortalecer os próprios organismos de esquerda. "É na dinâmica da luta e do diálogo com o povo que reencontraremos a melhor forma de reconstruir as nossas entidades", afirmou.

Passado e futuro

Em seu pronunciamento, ao lado de sua mulher, Marisa Letícia, Lula exaltou o movimento estudantil e as ocupações nas escolas. "Eles têm de saber que a juventude de hoje não é tão boba ou inocente quanto a minha. A única razão de existir de uma escola é ensinar a ser cidadão de primeira classe." Quase no final, quis deixar uma mensagem ao que chamou de "nossos perseguidores", para que não se preocupassem com pessoas da idade dele, que já fariam quase parte do passado, mas com o futuro que se aproxima, simbolizado pelos estudantes. E criticou o corte de gastos no setor. "Gastem com a língua de vocês, mas não com a educação deste país, que é o mais importante investimento."

Quem se manifestou no ato foram justamente representantes dos estudantes e dos sem-terra, com referências às ocupações e à invasão, na semana passada, da Escola Nacional Florestan Fernandes, ligada ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O Coletivo de Cultura do MST fez leituras e cantou, enquanto integrantes do Levante Popular da Juventude (LPJ) e da União da Juventude Socialista apresentaram um jogral.

Não houve discursos de representantes de partidos políticos, de entidades sindicais ou de movimentos. Mas estavam lá, entre outros, os senadores Lindbergh Farias (PT-RJ) e Gleisi Hoffmann (PT-PR), os deputados Paulo Teixeira (PT-SP), Afonso Florence (PT-BA), Jandira Feghali (PCdoB-RJ) e Maria do Rosário (PT-RS), o dirigente do MST João Paulo Rodrigues, o coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, e o presidente da CUT, Vagner Freitas.

Falaram apenas os advogados Marcelo Neves, professor da Universidade de Brasília (UnB), e Cristiano Zanin, que defende Lula, sobre aspectos da Lava Jato. Durante o ato, eram exibidos vídeos com pronunciamentos de artistas, como Sérgio Mamberti, Tonico Pereira, Osmar Prado, Chico César e Bete Mendes, além do clipe da canção O Trono do Estudar, de Dani Black, gravada no final do ano passado em homenagem aos estudantes por vários intérpretes, como Chico Buarque, Paulo Miklos, Zélia Duncan, Dado Villa-Lobos, Felipe Catto e Pedro Luís.

Lula também fez várias referências à mídia, que, segundo ele, faria parte de um "pacto quase diabólico" envolvendo ainda a PF, o MP e o juiz responsável pelo processo (Sérgio Moro), cujo nome ele não citou. Falou sobre "delegados comprometidos ideologicamente" e "comportamento perverso dos meios de comunicação".

"Tenho muita clareza que não cometi nenhum crime ou irregularidade antes, durante ou depois de ser presidente da República", afirmou Lula. "Vocês estão acusando uma pessoa honesta que vai lutar", acrescentou, com mais críticas a setores do MP e da mídia. "Quantos políticos aguentariam 13 horas (de noticiário negativo) no Jornal Nacional? Isso são mais de 30 dias de novela."

O ex-presidente citou ainda o ex-tesoureiro do PT João Vaccari, denunciado pelo Ministério Público paulista como responsável por suposto rombo nas contas da Cooperativa Habitacional dos Bancários (Bancoop), que presidiu. "É acusado há nove anos. Ontem, ele foi inocentado", lembrou Lula. A juíza Cristina Ribeiro Leite Balbone Costa, da 5ª Vara Criminal de São Paulo, absolveu Vaccari, considerando improcedente a ação.

Segundo ele, "um grupo de procuradores de São Paulo" tenta há anos culpar o PT pela morte do ex-prefeito de Santo André Celso Daniel, em 2002, mesmo com a polícia declarando que se tratou de um crime comum e não político. Lula também citou o caso da Escola Base, em São Paulo, em que gestores da instituição foram indevidamente acusados, com ampla cobertura da imprensa. "Não aceito a ideia de que convicção vale como prova", acrescentou, em referência a recente manifestação de um procurador.

Ao citar iniciativas de seu governo, como o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o Portal da Transparência e a Lei de Acesso à Informação, Lula lembrou que "não são obra exclusiva do PT, mas formam um legado que não pode ser esquecido, muito menos dilapidado, pois formam um novo patrimônio democrático brasileiro".

Vitor Nuzzi
No RBA

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