14 de nov de 2016

Precisamos (não) falar sobre o Bolsonaro

Desde que Donald Trump venceu as eleições, centenas de relatos de agressões movidas por racismo, homofobia, misoginia, anti-islamismo e mesmo anti-semitismo ganharam as redes sociais — várias delas comprovadas por fotos e vídeos. Isto já era previsível; na noite do pleito, comentei no Twitter (@pablovillaca) que isto certamente ocorreria, pois o mesmo havia sido observado após o Brexit. No entanto, a intensidade e o número dos relatos surpreenderam até os mais pessimistas.

Mas como alguém como Trump pode se tornar presidente dos Estados Unidos? O objetivo deste texto não é analisar todas as razões por trás do resultado chocante, mas não custa citar algumas rapidamente:

1) Trump conseguiu, apesar de ser bilionário, se apresentar como o candidato antiestablishment;

2) Hillary Clinton não poderia ter mais cara de establishment;

3) Os eleitores de Trump se viram motivados a ir às urnas, enquanto os democratas não encontraram razão para fazer o mesmo (ver itens 1 e 2);

4) Os republicanos conseguiram implementar estratégias eficientes para suprimir o voto de certas faixas demográficas nos assim chamados “swing state” — leia-se: passaram legislação que dificultava o voto para eleitores negros e latinos;

5) Muitos eleitores de Bernie Sanders (os infames BernieBros) adotaram a estratégia do “Bernie or Bust”, ou seja: já que Sanders não conseguiu a indicação, eles preferiram ver Trump vencendo e, para isso, se abstiveram de votar ou... vide item 6:

6) Os candidatos independentes Jill Stein e Gary Johnson atraíram muitos votos que normalmente iriam para Hillary (o efeito Nader que atrapalhou Al Gore em 2000);

7) O puro machismo;

8) Os efeitos econômicos do neoliberalismo globalizado criaram uma massa de excluídos sociais; gente que passou a encarar a política como uma forma de melhorar a vida dos ricos e de oprimir a classe trabalhadora.

9) E por que os citados no item 8 votariam em um bilionário? Voltamos ao item 1: ele se apresentou como um “não-político”, uma tática que, no Brasil, contribuiu para a eleição de João Dória em São Paulo e Kalil em Belo Horizonte.

No entanto, há uma questão extremamente importante na consagração de Trump que não pode ser ignorada: se um indivíduo com um discurso de ódio tão patente quanto o do republicano conseguiu atrair milhões de votos, é absurdo pensar que todos os que nele votaram são igualmente preconceituosos e, portanto, algo deve ter ocorrido para que não se sentissem impedidos/envergonhados por adotá-lo como candidato.

A resposta: a feiura do caráter de Trump foi diluída pela cobertura da mídia, que aos poucos normalizou os absurdos que este falava em seus comícios. Pior: a cada discurso recheado de preconceito contra negros, latinos, mulheres, muçulmanos e outras minorias, Donald Trump ganhava um espaço considerável em todas as emissoras de tevê, já que seu comportamento repugnante atraía audiência. E, completando o círculo, a frequência de suas aparições na mídia normalizava seu comportamento.

E é isso que me traz a este texto: a constatação de que exatamente o mesmo processo está ocorrendo no Brasil com Jair Bolsonaro (não só com ele, mas Bolsonaro é o exemplo mais óbvio e perigoso).

Há alguns dias, por exemplo, as capas de todos os principais portais de notícias do país trouxeram um vídeo no qual o sujeito, ao ouvir um repórter perguntar se era homofóbico, respondeu: “Se eu fosse, não estaria dando essa entrevista pra você”. Uma brincadeira? Só se você considera oferecer bananas a um negro algo engraçado (ou seja: é fã de Danilo Gentili); caso contrário, é patente o preconceito embutido na fala.

E, no entanto, os portais trataram o assunto como algo trivial, até mesmo “divertido”, como se um deputado federal dizer algo assim fosse a coisa mais normal do mundo.

Já neste domingo, o UOL trazia em sua capa um post com fotos de Trump, Bolsonaro e Dória acompanhas da seguinte chamada: “Eles têm papas na língua? Teste-se e saiba se você consegue acertar o autor das frases polêmicas”.

É exatamente isto que torna o racismo “aceitável” por milhões: a normalização, o fato de ser tratado apenas como curiosidade, gerando até mesmo um leve "quiz". Intolerância vira “controvérsia”; vomitar racismo vira “não ter papas na língua”. Assim, se há alguns anos o público ficava absolutamente horrorizado ao ouvir Bolsonaro falando barbaridades, hoje a reação de muitos passou a ser “Esse Bolsonaro...” com um tom quase de impaciência maternal, como um “Ai, ai, ele não tem jeito mesmo...”.

Com isso, acostumam-se com o inaceitável. E, de figura desprezível pelo ódio que prega, Bolsonaro vira apenas uma figura... curiosa. Um personagem em vez de um político que detém poder, influência e votos. E aí, depois de anos, quando ele se tornar um candidato à presidência com chances reais de vitória, a mesma mídia que normalizou sua imagem publicará dúzias de artigos tentando explicar como alguém como ele pode ter atraído tantos eleitores.

Exatamente como a mídia norte-americana faz agora com Trump depois de lhe dar centenas de horas de exposição e de tratá-lo simplesmente como “controverso”, “excêntrico”, “politicamente incorreto” ou “sem papas na língua”.

Caros jornalistas, racistas não são “polêmicos”; são RACISTAS. O que dizem não é “politicamente incorreto”; é DISCURSO DE ÓDIO.

E a cada vez que colocam Bolsonaro na capa de um portal, numa matéria de revista ou num telejornal, amenizando sua imagem, estão atuando como assessores de imprensa de um sujeito cuja única diferença para Donald Trump é o fato de não ter sido apresentador de TV.

Ou, considerando a irresponsabilidade com que a mídia age, é preciso completar a frase acima com uma palavra: "ainda".

Pablo Villaça

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