16 de nov de 2016

Noblat é um caso jornalístico que sempre me intrigou

Nas redes sociais
Noblat é um caso jornalístico que sempre me intrigou.

Tecnicamente, é um dos melhores jornalistas do país. É aquele sujeito que sabe escrever, sabe editar, sabe distinguir o que é uma nota e o que é uma manchete.

Conheço-o há muitos anos. Quando entrei na Veja, em 1980, ele já era um respeitado editor assistente da seção mais importante da revista, a de política. Pernambucano arretado, era um nome para complexas operações jornalísticas. Fora da Veja, fez um bom guia básico de jornalismo que meu filho Pedro leu com o cuidado de fazer anotações.

Escrevo tudo isso para perguntar: como ele pôde se transformar num desses jornalistas que vivem de infernizar a esquerda e servem obsequiosamente apenas a seus patrões?

É uma pena. É um desperdício de talento.

As consequências estão aí. Circula hoje nas redes sociais uma foto de Noblat na infame entrevista do Roda Viva com Temer. Ele está olhando para Temer, e a legenda dizia: “Procure um amor que olhe para você como o Noblat olha para o Temer”.

Nós jornalistas sonhamos com muitas coisas no início da carreira. Sonhamos. Acreditamos poder contribuir para um mundo melhor.

Não creio que o jovem Noblat da Veja de 1980 sequer cogitasse em se tornar um dos principais jornalistas da direita. Não, pelo menos, da direita que pratica um jornalismo de guerra contra qualquer coisa remotamente parecida com esquerda.

“Meu sonho é ser um novo Lacerda”: não, aposto que isso não passava pela cabeça do jovem Noblat.

Outro integrantes da brigada conservadora do jornalismo foram fazer o que fazem — Villa, Azevedo — por conveniência. Era uma oportunidade que se abria para ganharem destaque na indústria da mídia.

Mas Noblat não precisava disso. Tinha, tem, talento para seguir um outro caminho em que o custo ético e moral não fosse tamanho.

Foi com alguma melancolia que vi a foto mordaz hoje nas redes sociais. Foi também com certa tristeza que vi que foi ele o autor da pergunta a Temer sobre como ele conhecera Marcela.

Pareciam velhos camaradas, e não entrevistado e entrevistador. Me passou pela cabeça os massacres impostos a Dilma quando ela era a entrevistada — qualquer que fosse a situação. “Nunca tive uma moleza dessas”, Dilma talvez tenha pensado.

Ainda bem.

Para ser tratada daquele jeito, ela teria que ser um Temer, cercada por jornalistas que fizeram um caminho bem diferente daquele com que sonhavam quando eram jovens, e acreditavam nas coisas.

Paulo Nogueira
No DCM

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