9 de nov de 2016

Donald Trump, a torcida da mídia por Hillary e os que foram deixados para trás pela globalização


As pessoas, no aeroporto, se diziam incrédulas: Donald Trump se elegeu presidente dos Estados Unidos, com os republicanos em maioria na Câmara e no Senado.

Um candidato xenófobo, racista, grosseiro — como isso pode acontecer?

Frequentadores de aeroportos talvez tenham mesmo dificuldade para entender.

Eles são, em sua maioria, os beneficiários da globalização que, sob o controle do mercado financeiro, transferiu renda da base para o topo da pirâmide.

Há alguns dias, escrevi um texto sobre como a crise econômica de 2008, nunca de fato resolvida, teve impacto no que chamamos de “democracia representativa” em diferentes partes do mundo.

Tratei de questões que alinhavam a política econômica adotada pelo governo Temer com a revolta dos eleitores estadunidenses que levaram Trump ao poder.

Apesar de ser um produto acabado do establishment dos Estados Unidos, o que o milionário fez foi mobilizar em torno de si muitas das forças revoltadas com o establishment dos Estados Unidos, tão bem representado por Hillary Clinton.

Hillary é tão insider que teve apoio praticamente unânime da mídia estadunidense. Às vezes, foi torcida descarada mesmo.

Como dizia Bernie Sanders antes de aderir a ela, Hillary era a candidata de Wall Street, dos banqueiros. “Mudança na qual você pode acreditar”. Ou na qual os banqueiros podem confiar. Trump disse claramente aos eleitores: eu conheço por dentro as mutretas do “sistema” e vou atacá-las. Tudo indica que é pura demagogia eleitoral.

Trump explorou a raiva dos que foram deixados para trás, navegando na mesma onda que levou o Reino Unido a optar pelo Brexit.

Do ponto-de-vista econômico, a primeira consequência clara da vitória de Trump será a suspensão dos acordos internacionais de comércio que certamente avançariam sob Hillary Clinton. É, portanto, um golpe contra a globalização.

Do ponto-de-vista da política externa, vence a tendência isolacionista que estava submersa nos Estados Unidos. Isso é ruim para o multilateralismo, base da política externa do Itamaraty, submetido agora às intempéries da personalidade do apresentador de TV tornado ocupante da Casa Branca.

Do ponto-de-vista da política interna, trata-se de um profundo golpe contra o que os estadunidenses chamam de geografia interna da Beltway, o rodoanel que circunda a capital dos Estados Unidos. Mesmo o Partido Republicano tradicional será demolido e reconstruído à imagem e semelhança de Trump e seus seguidores, inclusive os desmiolados, xenófobos e racistas.

Depois da Segunda Guerra, o mundo criou uma arquitetura multilateral que tinha como objetivo evitar novos conflitos com a mesma escala. Especialmente depois da queda do Muro de Berlim, foi sobre ela que se assentou a globalização e o “livre mercado” que, na prática, concentrou renda e deixou milhões e milhões de desempregados e subempregados, não representados ou subrepresentados pela política local.

Brexit e Trump são duas rachaduras bem evidentes nesta arquitetura, tanto quanto, no Brasil, a falência da representatividade se expressou recentemente quando ausências, votos brancos e nulos “ganharam” eleições em várias metrópoles.

Nunca é demais lembrar que capitalismo em crise precisa de guerra e que a instabilidade política internacional convida à guerra — mas é cedo para dizer se Brexit e Trump são necessariamente passos neste sentido.

Luiz Carlos Azenha, de Amsterdã
No Viomundo

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