8 de out de 2016

Xadrez da mídia golpista global


Na 4a feira (5/20) participei de um debate na Fundação Escola de Sociologia e Política com o acadêmico alemão Thomas Meyer, autor do livro “Democracia midiática: como a mídia coloniza a política”. Meyer é intelectual de peso, membro do Grupo Consultivo da União Europeia para a área de Ciências Sociais e Humanas e vice-presidente do Comitê de Princípios Fundamentais do Partido Socialdemocrata da Alemanha.

O quadro que traçou da situação atual da mídia e da democracia alemãs é um retrato fiel do caso brasileiro.

Peça 1 - o fenômeno global da manipulação da mídia

O papel da mídia

Quem tem acesso à opinião pública, tem poder. É engano achar que democracia é uma questão de livre escolha. Democracia é uma situação em que os cidadãos podem ter acesso a informações verdadeiras, que tenham a ver com a situação da sociedade, e acesso também a visões alternativas. Desde Aristóteles, política significa sempre oferecer opções.

A função social da mídia é operar como entidade de autorreflexão da sociedade, possibilitando um espelho dessa sociedade. Para tanto, todos os problemas relevantes deveriam fazer parte dessa discussão, assim como as visões conflitantes. Se não houver esse equilíbrio, é questão de discutir se se está em uma democracia ou se o sistema é outra coisa.

Mesmo em situações normais, sempre existem problemas na maneira como a mídia de massa informa a sociedade, porque não é espelho da realidade. Dos milhões de acontecimentos diários, ela seleciona informações de acordo com com critérios próprios. Então, os veículos de mídia são um palco que apresenta os diferentes acontecimentos conforme a encenação que escolhem e de maneira a atrair a atenção do publico.

Os golpes de mídia

Há quatro anos houve uma campanha de mídia na Alemanha que utilizava informações inventadas, absurdas. Todos os veículos passaram a formar um fluxo único de informações, massacrando o presidente (Christian Wulff) até renunciar depois de um ano.

O mesmo processo que vitimou o ex-primeiro ministro português José Sócrates.

Esse episódio levou a uma reflexão posterior sobre o poder da mídia.

Mostrou que jornalistas, em determinadas situações, podem ser coautores no jogo político. Têm poder de decisão para descriminar, vilipendiar, condenar políticos. Podem decidir sobre o destino dos políticos.

Duas condições ficaram claras a partir daquele episódio:

1. Há diferenças entre informação fidedigna e tomada de posição política, que têm que ser explicitadas. Informações devem ser transmitidas de forma neutra e imparcial, diferenciando notícia de opinião.

2. Se grupos de mídia formam um cartel dominante, pode significar que a mídia está reproduzindo uma ideia completamente distorcida da realidade. Se não houver nenhuma regulação, eles se tornam atores no mundo político.

Quando isso ocorre, viram ameaça à democracia. Esse é o tema central que ainda não foi discutido amplamente. Detém um poder muito grande e não estão sujeitos a nenhum controle. Podem agir de qualquer maneira.

O discurso hegemônico

Na Alemanha existem seis grandes grupos de mídia controlando 20% do mercado.

O que eles trazem é a homogeneização da notícia, as referências a si mesmo.

Tudo o que falam é a mesma coisa, mesmos motivos sociais e econômicos, com uma desconsideração enorme para com os cidadãos. Basta alguém propor imposto sobre grandes fortunas para a mídia imediatamente começar a vocalizar que o governo quer meter a mão no bolso de todo mundo.

Relação com a economia é homogeneizada. Na Alemanha, os interesses dos excluídos, os 25% da população, não são levados em conta. Não faz parte dos interesses dos jornalistas.

Até 90, havia pluralismo na informação, nos grandes meios de massa. Criticavam uns aos outros. Isso acabou. Hoje se vivem tempos em que a força das grandes ideologias está quase acabada. Um tempo pós-moderno, com interesses morais pós-modernos, a questão das profissões muito voltadas para os interesses de status.

Peça 2 - as características globais da mídia

Agora fechamos aspas para o professor Meyer para tentar entender o que levou os grupos de mídia, globalmente, a essa situação.

Apogeu e queda do neoliberalismo

A partir do fim dos controles de capital no início dos anos 70 — com a desvinculação do dólar em relação ao ouro — teve início um processo de financeirização da economia que atingiu seu apogeu em meados da década de 2.000.

Criou-se a mística de que, fazendo-se a lição de casa — isto é, cortando programas sociais, reduzindo impostos, dando liberdade aos capitais — se alcançaria a prosperidade eterna.

Essa utopia acabou em 2008. Mas, ao mesmo tempo, deixou como legado uma enorme riqueza financeira concentrada nas grandes corporações e capitalistas, conferindo um poder imenso ao capital financeiro.

A financeirização dos jornais

A partir de meados dos anos 90, tem início a verdadeira revolução digital, com a criação de uma nova economia da Internet, colocando os grupos de mídia na linha de fogo, assim como gravadoras, editoras e todos os que desenvolviam alguma forma de conteúdo digital.

O australiano Rupert Murdoch dá o mapa da mina, seguindo o caminho aberto pelas grandes teles nacionais: ida ao mercado de capitais, montando parceria com grandes fundos de investimento para avançar sobre a concorrência.

No caso brasileiro, a Globo deu os primeiros passos, com acordos hipervantajosos com a TIM. Mas é a UOL que dá o passo mais bem-sucedido associando-se à Abril e, depois, valendo-se de capitais portugueses para diluir a Abril. Finalmente, uma operação com o Banco Pactual — em um episódio que ainda relatarei algum dia — lhe permitiu um ganho de R$ 300 milhões, ao elevar o valor base da emissão de R$ 9,00 para R$ 17,00.

Se antes os jornais emulavam o discurso do mercado por opção editorial, a partir dos anos 2.000, o fazem por sociedade. Eles se tornam parte integrante da financeirização da economia, da mesma maneira que empresários que venderam suas indústrias para se tornarem financistas.

Peça 3 – os caminhos do futuro

Os próximos passos são imprevisíveis.

Tem-se, de um lado, a falência próxima dos modelos tradicionais de mídia. Dentro de alguns anos, Estadão, Folha, Abril serão apenas retratos na parede, com alguns períodos de glória, mas com a história definitivamente tingida pelo antijornalismo praticado nos seus estertores. Terão mortes inglórias.

Hoje em dia, o mercado de opinião global é dominado majoritariamente pelas grandes redes sociais, como braços avançados do capitalismo, permitindo um controle inédito sobre os movimentos nacionais de opinião pública.

Ao mesmo tempo, a falência da utopia neoliberal gerou um capitalismo a seco, impondo goela abaixo dos países a democracia mitigada — como a que se instalou no Brasil.

A socialdemocracia alemã, a portuguesa, a brasileira, foram as primeiras vítimas da nova guerra política, a que se vale do controle dos fluxos financeiros globais, do acesso às informações, para alimentar mídias e Ministério Público nacionais.

Nunca o fantasma do Grande Irmão esteve tão presente na vida mundial.

Luís Nassif
No GGN

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