25 de out de 2016

Xadrez da falta de rumos da mídia


Peça 1 – falta de cérebros e falta de músculos

A ombudsman da Folha, Paula Cesarino Costa, traça um quadro corajoso e pessimista sobe o futuro da imprensa. No artigo “A conta da notícia” revela os resultados dos principais jornais em 2015, as perspectivas sombrias para 2016 e as reclamações dos leitores (https://goo.gl/fCMQGe).

"Venho observando a Folha despencar, seja em número de cadernos, de páginas, na qualidade das tirinhas, dos horóscopos, mas, principalmente, com devidas e respeitáveis exceções, nos teores jornalísticos, analíticos e opinativos", criticou um dos mais severos leitores.

E aí a ombudsman faz uma confusão: crise econômica nada tem a ver com a mediocridade da linha editorial. Na mesma edição em que a ombudsman atribuía a perda de qualidade à crise econômica, a manchete principal era a relevante notícia de que o estádio do Corinthians fora um presente da Odebrecht ao Lula. Alguma diferença com as notícias de Facebook, dizendo que Lulinha é o dono da Friboi?

Manchetes desse tipo não são decorrência de falta de repórteres. São resultantes da falta de valores jornalísticos em sentido amplo.

Até hoje os jornais não entenderam seu papel no universo nas informações online.

Peça 2 – o gerencialismo inócuo

No momento, os jornais esmeram-se em recorrer a um gerencialismo inócuo.

A Folha voltou ao quantitativismo dos anos 80, com o repórter recebendo pontos de acordo com o número de matérias que emplacam no online, no impresso e nas manchetes.

O Globo e a Época planejam uma consolidação de redações, uma espécie de redação única que fornecerá conteúdo para todos os veículos. Cada qual dará um tratamento diverso ao mesmo conteúdo.

Esse mesmo modelo foi aplicado anos atrás pelo Estadão e Jornal da Tarde, resultando no fim de um produto de primeira qualidade, o velho JT.

Aliás, quando iniciou o Projeto Folhas, o velho Octávio Frias pretendeu implantar métodos quantitativos na produção de notícias. Criou uma estatística, pela qual o repórter era avaliado pela quantidade de matérias que produzia.

O modelo de avaliação gerou um jogo curioso. O repórter especial saia atrás de uma grande reportagem. Na volta, transformava uma grande reportagem em cinco reportagens pequenas e inexpressivas. E era mais bem avaliado do que o que produzia uma grande reportagem de impacto.

Tempos depois, a Folha tentou implantar um sistema de ISO 9000 e nem sei o resultado.

Nos anos 90, a TV Bandeirantes contratou uma empresa para implementar um programa de qualidade. A principal sugestão da consultoria foi para que a TV antecipasse para as 19 horas o fechamento do Jornal da Noite, que iria ao ar às 23 horas.

Na EBC, o deplorável presidente Nelson Breve contratou outra consultoria de qualidade. O máximo que produziu foram cartazes bonitos falando sobre a missão da empresa, sem conseguir desenrolar um processo interno sequer ou implementar uma missão sequer. Só fachada.

O gerencialismo é a arma dos que não tem projeto editorial e não trabalham com foco no produto final.

O primeiro passo é ter um plano estratégico, um projeto editorial claro, adequado aos novos tempos para, só então, montar as estatísticas capazes de monitorar sua implementação.

O grande desafio dos jornais não é contar quantas linhas o repórter produziu, mas desenvolver formas de organizar a força de reportagem para trabalhos conjuntos em torno de pautas selecionadas, de estratégias diárias ou continuadas de cobertura. Mais que isso, recuperar a credibilidade jornalística e aumentar a qualidade com formas novas de tratamento das informações.

Enquanto a Folha discute o quantitativismo na produção, sua manchete principal diz que a Odebrecht construiu o estádio do Itaquerão para o Lula. Não há gerencialismo que resolva o problema do mau jornalismo.

Peça 3 – os modelos de jornalismo

No final dos anos 90 escrevi um artigo para a revista Imprensa prognosticando o fim dos modelos tradicionais de mídia. Diretor de Redação da Folha, Otávio Frias Filho me pediu que ampliasse o artigo para servir de base para uma discussão ampla sobre a reformulação do jornal.

Antes da Internet, o ritmo das notícias era diário. As revistas semanais tinham espaço nobre consolidando as notícias da semana — de maneira a facilitar a compreensão de mundo aos seus leitores — e acrescentando notícias exclusivas.

Com as notícias online o desafio consistia em sintetizar, em cada edição, o torvelinho de notícias do dia anterior, dentro de uma moldura analítica e contextualizada, e ainda acrescentar informações, ângulos e raciocínios adicionais. Caberia aos jornais, em prazo exíguo, cumprir a função que as semanais tinham nos tempos do ritmo diário de notícias.

Para atingir esse objetivo, seriam necessárias mudanças estruturais no velho conceito da super-redação:

1.     Trabalhar com jornalismo de dados. Na época, não havia ainda essa definição. Mas o que eu dizia — com base já na realidade da época — é que cada vez mais as informações iriam para a Internet, mudando o modo do jornalista fiscalizar o poder. A imprensa teria que cumprir a função de um auditor, criando indicadores, estratégias de cobertura em cima de bancos de dados estruturados e não-estruturados.

2.     Esse modelo de jornalismo obrigaria a uma reciclagem ampla do perfil de jornalista. Em vez do sujeito especializado exclusivamente em arrancar frases de efeito do entrevistado, para o titulo e para o lead, haveria a necessidade de profissionais melhor aparelhados, capazes de contextualizar grandes massas de informação.

3.     As grandes coberturas deveriam ser acompanhadas por salas de situação trabalhando com estratégias de narrativas.

4.   Em vez de super-redações, haveria um corpo mais enxuto de jornalistas mais especializados, e bancos de dados com colaboradores cadastrados em todo o planeta, que seriam acionados pontualmente para cobrir reportagens que exigissem a presença física local. O enorme aumento de brasileiros estudando fora facilitava essa montagem.

Como se viu, os trabalhos e conselhos não resultaram em nada.

Peça 4 – em vez do Facebook, Murdoch

Quando houve a explosão das redes sociais, mais que nunca as redações teriam que dispor dessa competência técnica para fazer o filtro e organizar esse mundo caótico de notícias para aprimorar o modo de fazer jornalismo.

Em vez de se esforçar no jornalismo, as empresas jornalísticas brasileiras fizeram o oposto. Por influência de Roberto Civita — o símbolo do jornalismo ético para Eugenio Bucci — trouxeram para o Brasil o padrão Murdoch  de jornalismo.

Por ele, os grupos de mídia deveriam aproveitar o caos da informação trazido pelas redes sociais para se posicionarem politicamente, inventando notícias, criando boatos, cometendo assassinatos de reputação para reforçar seu protagonismo político, levando para o campo político a disputa com os novos atores — redes sociais e empresas de telecomunicações.

Em vez de repórteres multi-aparelhados, colunistas de variedades, cronistas de futilidades, produtores musicais, de repente, transformados em Catilinas do Leblon ou dos Campos Elíseos, arrotando grosserias, ódio e opiniões políticas primárias.

Agora — como revela a ombudsman — os jornais continuam atrás de uma sobrevida econômica. Mas sem terem sequer compreendido os novos modos de produção.

Peça 5 – os modelos de negócio

O G1 sobe, O Globo definha. A UOL se mantém, a Folha afunda.

A diferença entre os dois modelos é que um trabalha a massa de leitores, com uma diversidade de conteúdo que garante uma audiência capaz de sustentar a publicidade. No caso do G1, favorecido pela extraordinária capacidade de gerar conteúdo da Globo e suas afiliadas.

Já o formato jornal fica preso entre a pressa do online e a necessidade da maior elaboração no impresso/digital. Fica no meio termo sem se resolver. Justamente por continuar recorrendo aos métodos tradicionais de jornalismo, trocando apenas a gilette-press pelo copy-paste.

Luís Nassif
No GGN

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