6 de out de 2016

Swush

Parábola. Estamos no século 14. A Peste Negra assola a Europa. Uma cidade sitiada resiste ao cerco de forças inimigas, repele todos os ataques lançados contra as suas muralhas e recusa-se a capitular. O comandante das forças sitiantes tem uma ideia. Manda as catapultas lançarem cadáveres dos que morreram da peste por sobre as muralhas da cidade sitiada, para infectar sua população.

E lá vão os cadáveres pesteados.

Swush, swush, swush.

Não dá certo.

– General, os habitantes da cidade estão fugindo dos corpos pesteados.

O comandante tem outra ideia.

– Comecem a catapultar pesteados ainda vivos. Assim eles podem correr atrás dos que fogem.

– Sim senhor.

E lá vão os pesteados vivos.

Swush, swush, swush.

Não dá certo.

– General, os pesteados vivos, debilitados, não conseguem alcançar os que fogem.

O comandante tem outra ideia.

– Preparem os intrigantes.

Uma salva de intrigantes é disparada pelas catapultas sobre a cidade, com o objetivo de espalhar boatos infundados e semear a discórdia entre os defensores.

Swush, swush, swush.

Não dá certo. A resolução dos sitiados continua firme, apesar de as intrigas causarem algumas brigas familiares.

– Mandem os sofistas!

Lá vão os sofistas por cima dos muros, para começar discussões filosóficas sobre a futilidade de resistir, e da existência humana em geral.

Swush, swush, swush.

Não dá certo. A resistência continua.

– Disparar economistas!

Com suas análises e recomendações, em pouco tempo os economistas criarão tamanha confusão na economia da cidade que enfraquecerão sua defesa.

Swush, swush, swush.

Também não dá certo.

– Disparem economistas de escolas diferentes!

Swush, swush, swush, swush, swush, swush, swush.

A ideia é que economistas de escolas diferentes causem uma confusão ainda maior, obrigando a cidade a se render para evitar o caos.

Mas também não dá certo. Não há indícios de desânimo ou rendição. Pelo contrário. Começam-se a ouvir os sons inconfundíveis de um ensaio para o carnaval vindo de dentro das muralhas. Aparece um habitante da cidade acenando uma bandeira. Mas não é um sinal de capitulação. É para fazer um pedido:

– Atirem alguém que toque agogô!

Luís Fernando Veríssimo

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