16 de out de 2016

Riscos

Viver é muito perigoso, disse o Guimarães Rosa. A democracia, como a vida, também é ótima, mas tem seus riscos. Nela, todo o poder emana do povo, mas o povo pode errar, ou pode apenas se lixar para as formalidades democráticas e não votar. A maioria do povo inglês votou por deixar a Comunidade Europeia, e foi um voto burro.

Donald Trump não teria chegado aonde chegou como candidato à Presidência dos Estados Unidos se tanta gente não concordasse com seus conceitos e preconceitos. Nas recentes eleições municipais, o povo brasileiro votou, majoritariamente, em ninguém.

Demagogos se aproveitam da desinformação e do desinteresse do povo para vender suas soluções simplistas. Há uma clara tendência para a direita no futuro político da Europa, onde xenofobia e ideias fascistas prosperam, em reação à invasão de refugiados e à impotência da esquerda.


Claro que quem é de esquerda acha que qualquer progressão da direita é prova dos perigos da democracia, e vice-versa. Quem é de esquerda tem alguma dificuldade em aceitar que todo o mundo não seja, já que sua mensagem é de liberdade, igualdade e fraternidade, e quem pode ser contra isto?

A direita chama a mensagem da esquerda de um grande engodo, como prova o fracasso do socialismo em boa parte do mundo. O inegável avanço da direita se dá, na Europa, dentro das regras democráticas. Marine Le Pen chegará ao governo da França pelo voto.

Nos Estados Unidos, se Trump vencer, o que parece cada vez mais improvável, mas pode acontecer, será pelo voto. O grande risco de estar vivo, segundo Guimarães Rosa, é morrer. O grande risco de cultivar a democracia é que ela pode explodir na nossa cara.

Qual é a alternativa para quem desespera da sabedoria do povo?

Os tempos antigos, como o tempo da Grécia de Platão e o da República romana de Cícero, não nos servem de exemplo. Neles, a política era exercida por uma aristocracia, supostamente iluminada, que sabia o que era melhor para o povo e, como um beneficio colateral, o que era melhor para mantê-los no poder.

No Brasil, desde que uma oligarquia de fato, um arremedo de Roma, foi substituída por uma oligarquia disfarçada, esta usa as regras da democracia — e, de vez em quando, um golpezinho — para seu proveito.

Mas não desesperemos. A solução é a politização do povo, que demora, mas virá. Para parafrasear a já batida frase do Churchill, democracia é um péssimo sistema, com exceção de todos os outros. Mesmo com seus riscos.

Luís Fernando Veríssimo

Um comentário:

  1. Para você que aí fica
    Vou te dar uma dica
    Além de sonso e vagabundo
    Sou Cineasta Diretor
    A MAMÃE é pamonha
    Me estimulou na maconha

    Deus não dá noz nem voz
    a quem não tem dentes
    Se você ainda não sabe
    Vivo de Festival de Tiradentes.
    P’ra garantir minhas mesadas

    Fixo nas mais caras pousadas
    Para divulgar meu Aquarius
    Sou capaz de roubar um Stradivarius
    Onde há dinheiro público
    Sou como o Mustela putorius
    Juro por tudo que é bíblico

    Mando essa antes que acabe:
    Vivo da Lei Rouanet
    Sou do PeTê
    Não vejo empecilho
    Sou Kleber Mendonça Filho.


    =====
    JL.




    ResponderExcluir

Comentários com links NÃO serão aceitos.

Os comentários são de total responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do blog

Comentários anônimos NÃO serão publicados, como também não serão tolerados spams, insultos, discriminação, difamação ou ataques pessoais a quem quer que seja.

É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O blog poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.