25 de out de 2016

Peça desculpas, Samuel Milet


Debora Diniz fala a Samuel Milet, professor da Universidade Federal de Rondônia, para exigir desculpas públicas pelas palavras violentas com que ofendeu Sinara Gumieri, doutoranda em direito na Universidade de Brasília sob orientação de Debora.



Entenda o caso, abaixo:

O que você vai ler é uma história verdadeira, mas não é direito.

“Aquela vagabunda, entendeu? Defensora de aborto, de gênero. Vagabunda. Mande pra ela me processar, que eu provo que ela é.”

É difícil imaginar que qualquer diálogo em sala de aula possa se iniciar com uma frase como essa. Mas a transcrição é real e saiu de uma aula de Direito das Sucessões da Universidade Federal de Rondônia, do dia 20 de outubro de 2016. O autor da frase é Samuel Milet, professor da disciplina. Quem chama “vagabunda” é uma colega de profissão, Sinara Gumieri, advogada e mestra em Direito pela Universidade de Brasília, que havia dado uma palestra para as estudantes do curso na semana anterior, sobre a importância de se falar sobre gênero no campo do direito. A ira de Samuel foi provocada justamente por isso: Sinara era uma jovem mulher em um espaço de poder como o palco de um evento acadêmico, falando sobre vidas e violências que aquele que se diz professor não reconhece nem tolera ouvir.

Mas se a agressividade do discurso contra Sinara não deixa de ser grave, a cena da violência se dirigiu a outras, às alunas em sala de aula. Foram elas, e especialmente a aluna interpelada continuamente pelo professor, que foram submetidas aos 15 minutos de virulência daquele que tem voz de mando. Tudo na cena é o contrário do que um encontro pedagógico deveria ser.

Ouça o áudio e leia a transcrição do caso aqui: http://issonaoedireito.tumblr.com/

Assine a petição para demandar à Universidade Federal de Rondônia a devida responsabilização de Samuel Milet pelo ocorrido: https://secure.avaaz.org/po/petition/Universidade_Federal_de_Rondonia_Responsabilize_Samuel_Milet_por_postura_abusiva_em_sala_de_aula/?cQPqllb



Carta a um professor

Peço que outros docentes ouçam a gravação de seus impropérios em sala de aula, para que avaliem o impacto de suas palavras para jovens estudantes

"Aquela vagabunda, entendeu? Defensora de aborto, de gênero. Vagabunda. Mande pra ela me processar, que eu provo que ela é". A fala é parte da transcrição feita a partir da gravação (autorizada) de um docente do curso de Direito da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), proferida após um debate sobre gênero na prática jurídica, da qual participou uma aluna minha. Dirijo a palavra a ele:

Professor,

Como o senhor, sou professora universitária há mais de duas décadas. Soube que ensina direito civil, essa área que abrange de propriedades a famílias. Nós dois formamos futuros juristas, delegados, advogados, juízes, promotoras ou promotores, mas também gente comum que move a justiça e a cidadania. Nossas semelhanças terminam aí.

Diferente do senhor, nunca desrespeitei estudantes em sala de aula, jamais desqualifiquei qualquer mulher como “bostinha” ou “sapatão”, não faço uso do grito para fazer valer o que deve ser só mais uma forma de pensar, e não a verdade absoluta.

Explico-me: sendo nós dois tão diferentes, por que lhe escreveria esta carta? Não nos conhecemos, esclareço, apesar de já conhecer sua voz de doutor. Sinto-me diretamente envolvida no abuso de poder e na virulência com que se dirigiu a uma das estudantes sob minha responsabilidade acadêmica na Universidade de Brasília, Sinara Gumieri.

Fui convidada pelo Centro Acadêmico de Direito da Universidade Federal de Rondônia para falar sobre gênero na prática jurídica. Não pude ir, a estudante me representou.

Como pôde ouvir e ver, ela é uma jovem mulher, brilhante nas palavras e no pensamento, não se acomoda com o que dizem as leis sobre quem pode receber o título de família, ou por que o aborto deve ser um direito das mulheres e não uma perseguição patriarcal aos úteros.

Sei que este último tema o provocou particularmente. Ouvi seu descontrole em sala de aula, logo após o evento, pois foi o senhor quem pediu que se gravasse o que diria sobre a palestrante.

Constranjo-me ao repetir suas palavras, mas a transparência dos fatos exige: “Aí, quando tocou no assunto do aborto, eu tive que me manifestar, eu soltei um peido, dei as costas e fui embora.”

A descreveu também como “vagabunda” e oradora de “ideologia de sapatão”. Estou surpresa por diversos motivos. Claro que o mais evidente é a sua pouca habilidade para a docência.

Já leu Paulo Freire? Pois deveria relê-lo várias vezes e depois retornar ao áudio que circula pelo país. Sua voz não é a de um professor que ensina, mas a de um ditador que determina; o professor abandonou-se à autoridade da moral que rejeita a diversidade, a divergência e a dúvida.

O senhor esqueceu que um professor ensina pela inteligência e não pelo grito. No seu discurso só havia brado — basta a lógica para saber o que faltou.

Suas primeiras palavras de indignação foram as seguintes: “ela é uma defensora do gênero, uma vagabunda”. Adiante, o senhor posicionou-se contra a “ideologia de gênero”, descrevendo-a como uma invenção de partidos políticos de esquerda.

Bem, um dos deveres de quem ensina é não só falar a verdade, como também estudar. E estudar muito, pois o que se espera de nós é sabedoria e não clichês; pesquisa e não conversa vulgar.

A ignorância é uma inimiga de quem ensina. Nossas alunas nos escutam porque estudamos muito sobre o que falamos. Não falo de sucessões em sala de aula; por que o senhor falou de gênero, se desconhece conceitos básicos? Seria por intolerância religiosa?

Preciso lhe dizer: não entendi e não gostei de suas piadas sobre “mulheres sapatões” que bisbilhotam outras mulheres no banheiro, ou sobre suas próprias genitálias.

Como o senhor seria reprovado em um curso de introdução ao direito, e consequentemente em um curso de gênero, sinto-me no dever de corrigi-lo. Gênero não é ideologia e menos ainda invenção do PT.

Se tivesse cursado algumas disciplinas introdutórias do departamento de sociologia ou antropologia teria aprendido alguns conceitos básicos, como a famosa frase de Simone de Beauvoir: “não se nasce mulher, se transforma”.

Sei que isso pode parecer terrível ou imoral para quem acredita que “as mulheres são inimigas entre si”, ou seja, para quem repercute fantasias misóginas sobre as mulheres em uma ordem patriarcal.

Mas não sou sua professora, e acredite, se fosse, não o reprovaria no curso de gênero, mas o mostraria como viver a sexualidade fora das normas heterossexuais — isso que descreveu como “sapatona muito doida” é só uma das formas de se viver a vida.

Minha carta é um apelo, senhor professor. Peço que outras professoras e outros professores do país ouçam a gravação de seus impropérios em sala de aula, para que avaliem melhor o impacto de suas palavras para jovens estudantes. Para terminar, queria lhe dizer que houve uma esperança no que escutei — a paciência e a tolerância de sua aluna.

A voz era de uma jovem mulher anônima que lhe interpelava no melhor estilo do método socrático. Diferente do senhor, ela não acredita que pode dizer o que quiser e como quiser. Ela segue regras importantes de civilidade e cidadania, como respeito às mulheres, aos grupos minoritários, à laicidade.

Ao fazer isso, ela foi a professora que ensina pelo testemunho. Se quer um julgamento, ela foi a vencedora do debate. Aprenda com ela; talvez o senhor se torne um professor melhor.

Debora Diniz



O áudio e a transcrição

“Aquela vagabunda, entendeu? Defensora de aborto, de gênero. Vagabunda. Mande pra ela me processar, que eu provo que ela é.”

É difícil imaginar que qualquer diálogo em sala de aula possa se iniciar com uma frase como essa. Mas a transcrição é real e saiu de uma aula de Direito das Sucessões da Universidade Federal de Rondônia, do dia 20 de outubro de 2016. O autor da frase é Samuel Milet, professor da disciplina. Quem chama “vagabunda” é uma colega de profissão, Sinara Gumieri, advogada e mestra em Direito pela Universidade de Brasília, que havia dado uma palestra para as estudantes do curso na semana anterior, sobre a importância de se falar sobre gênero no campo do direito. A ira de Samuel foi provocada justamente por isso: Sinara era uma jovem mulher em um espaço de poder como o palco de um evento acadêmico, falando sobre vidas e violências que aquele que se diz professor não reconhece nem tolera ouvir.

Mas se a agressividade do discurso contra Sinara não deixa de ser grave, a cena da violência se dirigiu a outras, às alunas em sala de aula. Foram elas, e especialmente a aluna interpelada continuamente pelo professor, que foram submetidas aos 15 minutos de virulência daquele que tem voz de mando. Tudo na cena é o contrário do que um encontro pedagógico deveria ser.

Ouça o áudio completo:




Leia a transcrição abaixo:

Professor: Sinara Gumieri, já pode, já? Sinara Gumieri, aquela vagabunda, entendeu? Defensora de aborto, de gênero. Vagabunda. Mande pra ela me processar, que eu provo que ela é. O pior sabe o que é? Não é a pessoa que fale, o pior crime é a omissão. O teu corpo é teu?

Aluna: É.

P: Mas a vida não é. Então aquilo que tá dentro de você não é seu, porque é vida. Pode falar.

A: O senhor assistiu quantos minutos de palestra?

P: Quando fala em aborto eu não assisto nem meio.

A: Eu acho então que o senhor não pode falar nada da palestra se não assistiu ela toda. Assim, é um achar meu.

P: Tá, então o que é que você quer que eu diga do aborto. O que é que você julga que é bom do aborto?

A: Eu não quero discutir isso com o senhor, porque eu acho que a gente não tá nessa discussão.

P: Mas é exatamente. Aquela mulher, aquela bostinha, cocô; ela foi lá não foi pra dar uma palestra. Ela não foi pra um debate, porque ela falou sozinha. Aí quando tocou no assunto do aborto eu tive que me manifestar, dei as costas, soltei um peido e fui embora.

A: Professor, se o senhor tivesse ficado até o final o senhor teria percebido que metade da noite foi feita de perguntas e respostas. Inclusive pessoas com posicionamento contrário falaram no evento.

P: Sim, mas ela falou quantas horas ali?

A: Ela falou 45 minutos.

P: E os que iam fazer uma pergunta gastaram quantos segundos?

A: Mais de minutos.

P: Porque um debate não é assim, não. Um debate é isso aqui que a gente tá fazendo.

A: Mas justamente. Foi um debate, é porque o senhor não ficou até o final. O debate, em todos os dias de palestra, funcionava assim: acontecia uma palestra, uma exposição oral que era a ideia do evento, depois era aberto pra um debatedor da mesa que era sempre um representante da casa pra ele falar, e após isso era aberto ao público. E todas as pessoas que quiseram se manifestar perguntaram e foram respondidas.

P: Então eu vou falar agora e eu vou usar o mesmo espaço que ela teve. Eu agora vou debater. Tá? Em primeiro lugar, uma questão de gênero. Aonde foi que se discutiu direito ali? Porque a semana era acadêmica de direito.

A: Falaram de Maria da Penha várias vezes.

P: E o que a Maria da Penha tem a ver com transexuais?

A: É direito também, professor. Se é uma demanda social também é direito.

P: Os transexuais têm o mesmo direito que qualquer um, sem dúvida. É ser humano…

A: Mas gênero não é só transexual.

P: Pera aí. Deixa eu falar. Eu falo e depois você fala. Você é petista, pelo jeito.

A: Sou não, professor. Sou não.

P: Porque petista que é assim. Não deixa a gente falar. Deve ser PSOL então. Ou é PSTU.

A: Também não. Eu não tenho nenhum posicionamento de esquerda.

P: Então deixa eu falar. Os transexuais, seja homem ou mulher, GLBT, SBT, Record, o que for, eles são humanos. Humanos, tá? E como humanos eles têm direitos. Agora a questão de gênero que estão querendo incutir em nós é o seguinte: você nasce com uma rola, mas é você quem vai decidir se é homem ou se é mulher, tá? Agora tudo bem, decida. Só que a Lei Maria da Penha foi feita para as mulheres no âmbito doméstico. Os homossexuais, os trans, têm direito? Têm. Eu já falei aqui, mas então vamos fazer uma lei pra eles. Que eles têm direitos, eu acho que têm. Eles não podem ser vítimas da sociedade. Agora usar a mesma lei que eu defendi para você, mulher, e dizer que serve pra ele? Não! Pra ele tem que ter uma lei igualzinha, só que destinada exclusivamente pra ele. Assim como eu não vou permitir nunca que um homo, um trans, um gay entre no banheiro em que minha esposa esteja lá porque eu quebro ele todinho de porrada. Inclusive tinha uma sapatona que foi aluna minha, gente finíssima, ela disse: professor, eu tenho uma vantagem na frente de vocês. Quando tua mulher vai no banheiro eu vou também, que eu entro lá e fico olhando. A bicha é boa. Entendeu?

Então, se têm direito? Têm! Eu não tô roubando o direito de ninguém, eu só não aceito que seja a mesma lei. Então se a Lei Maria da Penha foi criada, ela foi feita para as Penhas e transexuais não é Penha. É Penho. Então vamos fazer a lei do Maria do Penho porque não pode sofrer a maldade humana. Isso é gênero? Não, isso é homem com opção sexual, a mulher com opção sexual. Esse negócio de gênero é PT, meu bem. É PT quem inventou isso. O PT afasta as pessoas. Antes o Brasil era formado de pessoas, hoje o Brasil é formado de classes. Você viu os gays que estão aí querendo cotas, você tem as mulheres que estão querendo…. Olha, tu como mulher, tu, tu, tu e tu não fizeram nada para ter os direitos que vocês têm.

A: Eu faço, inclusive peço para calarem a boca quando pessoas têm esse tipo de discurso e falam isso na minha frente.

P: Pois eu provo. Só que você pode pedir pra eu calar, eu não vou calar.

A: De todo o direito seu.

P: Quer que eu prove? Quer que eu prove? Vocês sabem quando foi que as mulheres entraram no mercado de trabalho? Foi porque elas lutaram pra isso? Não! Foi porque os homens foram pra guerra e faltaram pessoas pra movimentar as indústrias. 53% da população é formada por mulheres, e quantas deputadas Rondônia tem? Uma federal. E quantas estadual? Duas, mas agora é uma só porque a outra virou prefeita.

A: Professor, e é justamente por isso que a gente precisa falar de gênero.

P: Quantas vereadoras? Uma. Então vocês não gostam de mulheres. A mulher não gosta da outra, é inimiga.

A: Como não? Eu votei nela, eu votei nela.

P: Presta atenção. A Lei Maria da Penha….

A: Como que eu não gosto de mulher se eu votei nela?

P: Pronto… Parabéns.

A: Pois é, representatividade.

P: Só que você não é 53%. Você é exceção. Vamos pra regra.

A: Não, professor, a questão é que quando a gente trata das exceções e coloca elas para falarem num evento acadêmico o senhor entra dentro de sala e fala: isso não é direito. Eu acho isso um posicionamento absurdo.

P: Eu liberei a turma foi pra estudar direito.

A: Não foi o senhor quem liberou, foi o departamento, professor.

P: Não, não. O departamento não libera, não.

A: Isso foi liberado em reunião departamental.

P: Presta atenção. Outra coisa que você não sabe: o departamento não pode interferir em faltas. É tanto que eu já disse antes de você entrar no grupo: eu não aceito e eu vou pro Ministério Público Federal. E vou derrubar quem tiver que derrubar se contra a minha vontade um aluno tiver a falta abonada. Olha, eu tenho que dar 40 horas-aula. Se vocês querem fazer jogos, isso aí, vocês façam fora do meu horário. Porque não tem departamento no mundo que mude lei.

A: Tudo bem, é um posicionamento seu.

P: Não é não, é da lei.

A: Mas eu não posso me manter omissa quando o senhor chega dentro de uma sala de aula e fala que não é direito um evento acadêmico em que, se o senhor tivesse comparecido nos demais dias, o senhor poderia ter verificado. Foram mestres e doutores em criminologia, doutores em filosofia, foram juízes. Ela é mestre em direito, a Sinara Gumieri. Ela é mestre em direito da UnB.

P: Não. Ela é uma sapatona muito doida.

A: E se ela quiser ser o problema é dela. A vida é dela.

P: E que veio com uma ideologia petista. Porque eu odeio o PT, veio com uma ideologia petista e vocês bateram palmas de pé.

A: Professor, o senhor pode achar o que o senhor quiser, mas a questão é que o senhor não pode ferir a dignidade de alguém xingando ela pra outras pessoas.

P: Então me processe.

A: Não, eu não tenho que lhe processar em nada.

P: Mande ela me processar.

A: Olhe, se o senhor me chamar de vagabunda, aí eu posso fazer alguma coisa.

P: Mas é porque você ainda não fez por onde. Mas no dia que você fizer…

A: E o senhor sabe? O senhor sabe da minha vida por aí? Porque se eu quisesse ser uma vagabunda também era uma coisa minha e o senhor não tinha que falar nada disso.

P: E se eu quiser chamar é coisa minha e depois a gente discute na esfera jurídica, se é que vai chegar lá. Agora, um direito que eu tenho, e isso é constitucional, é o de livre manifestação.

A: Sim, isso o senhor tem de verdade. E eu também tenho o direito de falar que a sua manifestação é que o senhor está expondo pra um grupo muito grande uma manifestação que está um pouco obscura, porque o senhor está falando de uma coisa que o senhor não conheceu por completo. É só isso que eu estou me manifestando.

P: Olhe, em Rondônia, 85% da população é evangélica. E eu soube que 100% lá era batendo palmas de pé. Então eu não sei onde está o grau de religiosidade dos que estavam lá, porque aplaudir qualquer discurso sobre aborto é aplaudir, é bater palmas pra morte. Ah, mas um quarto das mulheres abortam. E metade do Brasil fuma drogas também, então vamos liberar. A lei diz que matar é crime, que não deve matar, mas todo dia morre gente, então vamos liberar o homicídio também. Então vamos ponderar o que aquela moça que chegou lá pra falar. Ela quis dizer o seguinte: que as pessoas que não são, as pessoas que optarem ser homossexuais devem ser vistos como mulher, se ele for homem. E que deve ser visto como homem se ele for mulher. A opção de cada um é de cada um, agora dividir com a minha lei Maria da Penha que eu ajudei a inventar? Eu não editei Lei Maria da Penha não foi pra transexuais, não, eu editei foi pra mulheres no âmbito familiar. Agora, os transexuais devem ser protegidos? Devem. Vamos fazer uma lei pra eles. Eu ajudo a fazer também. Eu não quero tirar o direito de ninguém.

Agora, trazer pras Universidades ideologia de sapatão, de petista… Eu morro, eu morro defendendo minhas convicções. E minha convicção é que o crime mais nojento que existe é o aborto. E vamos acabar com esse negócio. Você é dona do seu corpo? Então faça a doação dela em vida, que importa em diminuição, pra dizer que não é seu o corpo.

Você tá dizendo que a vida é sua? Eu digo que ela não é.

A: Professor, eu não tô defendendo aborto aqui, não.

P: Mas se bateu palmas é porque defende. Bater palmas é aceitar.

A: Professor, eu posso concordar com 90% do que uma pessoa diz, eu vou criticar ela e chamar ela de vagabunda só porque ela disse uma coisa que eu não concordo?

P: Eu chamo do que eu quiser. Porque eu tenho coragem, eu não sou hipócrita.

A: Só que eu acho que a partir do momento que eu discordo com a posição de alguém, isso não me dá o direito de chamar ele de nenhuma coisa. Assim como eu não posso chamar o senhor de nada, porque a sua pessoa não tem a ver com as suas ideias, entendeu?

P: Não. A minha pessoa tem a ver com as minhas ideias. Pode ter certeza.

A: A sua dignidade como pessoa eu não posso atacar pelas suas ideias, pelas quais eu não concordo, como o senhor pode ver aqui.

P: Você pode não concordar. Agora eu estou explanando o que eu penso e que eu luto por isso. Eu sou contra a ideologia de gênero.

A: Justamente, o senhor falou que a manifestação de pensamento é livre para todo mundo, mas o senhor prega que um pensamento contrário ao seu não deve ser professado só porque é contrário ao seu.

P: Eu não preguei nada.

A: O senhor falou que não deveria colocar num evento acadêmico porque isso não era direito. O senhor está querendo cercear a nossa ideia.

P: Pois agora se depender do meu voto e do meu poder enquanto operador do direito, se eu ver o diretório, o chefe de departamento tirar falta de aluno eu vou pro Ministério Público Federal e derrubo gente. Porque eu tenho que dar 40 horas-aula. Quem quiser jogar futebol, quem quiser fazer, faça fora do horário noturno, ou pelo menos que tenha cuidado com a minha disciplina.

A: Professor, o senhor sabe que a gente tem cargas extras a cumprir, né? Eu não tô falando de jogos, porque aí realmente é uma opinião sua. Mas a gente tem cargas fora da sala de aula pra cumprir, o senhor quer que a gente cumpra essas cargas fora de sala de aula em que horário?

P: Desde que seja depois das 40 horas, depois das 80 horas.

A: Aí o senhor quer que a gente cumpra elas no sábado? No domingo? Porque no sábado a agente já tá fazendo. No domingo também?

P: Aí eu não sei, aí é problema seu. Tá? Eu só quero dizer o seguinte: se vocês tivessem vindo pra aula teria mais proveito do que assistido aquela palestra.

A: Pra ver alguém ser chamada de vagabunda em sala de aula?

P: Não. Porque ela só foi chamada depois que ela professou o crime de aborto.

A: Pra ficar ouvindo piada de estupro em sala de aula?

P: Você é petista. É petista.

A: Sou não, professor. Eu nunca votei em ninguém do PT e tenho orgulho de dizer isso. Nunca votei em ninguém do PSOL, do PT e do PMDB. A questão é que eu tenho um posicionamento meu e o senhor não está respeitando.

P: Eu tô respeitando, sim.

A: Não.

P: E o que eu estou fazendo contra você? Eu tô te expulsando da sala de aula? Eu tô dizendo que vou lhe reprovar?

A: Não, porque eu não estou lhe dando nenhum motivo pra isso.

P: Eu estou dizendo que vou te reprovar?

A: Não.

P: Pois é, eu respeito a sua opinião.

A: O senhor está dizendo que eu sou petista de uma forma como se fosse ofensivo. E quem quiser ser que seja.

P: Porque você usa exatamente o mesmo sistema petista de manifestação. Você tá falando que eu não posso falar porque eu chamei ela de vagabunda e reitero? Você só tá usando isso. Você não tá discutindo o tema, não.

Outro aluno: Professor, dá pra gente tratar desse ponto fora de sala?

A: Não, mas foi escolhido tratar dentro de sala.

P: Faça uma representação contra mim.

A: Pode deixar.

P: Faça uma representação contra mim. Eu tenho o direito de me manifestar. A disciplina é minha. Reclame. Você é autoridade. Reclame. Agora não venha me dizer o que eu tenho que fazer não, porque eu faço isso há 19 anos e eu estou me manifestando aqui enquanto pessoa. Não é como professor, não. É como pessoa. Agora se você está achando ruim, quem tem que sair é você porque eu continuo.

Eu só não faço é ficar calado quando eu vejo falar em aborto, porque aí mexeu comigo.

Outra aluna: Ô professor, deixa a gente fazer…

P: E eu tenho vergonha de quem levantou e bateu palma pra aquela moça. Tenho vergonha. Porque se ela tivesse falando de direito, de coisa que não fosse opinião própria dela e pra meia dúzia de gato pingado, aí tá certo. Mas bater palma pra quem professa aborto, bater palma pra quem quer mudar o mundo? Cada um tem suas opiniões e eu tô expressando a minha e eu respondo pelos excessos.

Pode ter certeza que eu estou aqui na UNIR não é por causa de um salário, não… Se tivesse eu teria muito dinheiro, se fosse pra abaixar a cabeça. Assim como eu dei as costas lá praquela moça. Que eu chamei de vagabunda, todo mundo viu. Aí estou esperando o processo.

22 de outubro de 2016



A resposta do professor Milet



Professor Samuel Milet divulgou um vídeo como direito de resposta. Nele, apresenta duas justificativas para o que disse em sala de aula: a) o áudio não corresponderia à integralidade do ocorrido; b) “vagabunda” seria uma palavra corrente da língua portuguesa, portanto não haveria conotação pejorativa em seu uso por um docente em sala de aula. Publicamos o vídeo de Milet por reconhecer o direito de todas as pessoas a se defenderem, mas queremos aqui reiterar a nossa indignação com o evento e com as razões apresentadas pelo professor em sua defesa.

Milet confirma que a gravação do áudio foi autorizada. E não seria preciso sua confissão, pois, logo no início do áudio, há sua voz para a estudante anônima: “já pode, já?”, ou seja, ele conferia que a gravação tinha início. Há mais do que isso: mesmo que fosse um corte de um contexto amplo, o áudio que tivemos acesso é abusivo em seus próprios termos. Por isso, a hipótese de uma ausência de contexto não procede. O único contexto que nos importa é onde e em que posição Milet se pronunciava — como docente em uma universidade pública. Era da autoridade de professor que pronunciava palavras como “vagabunda”, “sapatão”, “bostinha”, “doida”, entre outras.

A tentativa de aproximar “vagabunda” de sentidos literários ou musicais é pueril. Havia virulência no áudio; a voz de Milet gritava. Não havia a leveza de quem subverte a língua, mas o ódio de quem persegue mulheres. As palavras precisam do contexto para seu julgamento sobre sentidos. “Vagabunda” foi uma dentre graves ofensas pelas quais Milet descreveu Sinara Gumieri. Sobre as outras — tão odiosas quanto “vagabunda” — Milet não apresentou razões para seu anúncio em sala de aula.

Por fim, não há como reclamar para si mesmo o direito de ofensa à honra ou da defesa de bons constumes. É a honra, a integridade, a dignidade de Sinara Gumieri que foi ofendida pelas palavras odiosas de Samuel Milet. Se há bons costumes em jogo, eles devem ser aprendidos por Milet: um deles é o de respeitar seu posto como professor de uma universidade pública. Liberdade de pensamento não se confunde com ódio. Por isso, pedimos que escutem novamente o áudio, assinem a petição, divulguem este odioso caso para que possamos afirmar que as universidades serão espaços livres de discriminação.

No IssoNãoéDireito

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