2 de out de 2016

Outra história

Nem Copérnico nem Galileu conseguiram convencer as pessoas de que a Terra não é o centro do Universo. A ciência fracassou na tarefa de vencer crendices e obscurantismo, que persistem em boa parte da Humanidade. A versão “oficial” da História humana, desde o século 18, é uma história de conquistas da razão secularista, mas esta versão não pegou. A maioria prefere acreditar nos búzios, em astrologia ou na Divina Providência.

A teoria da evolução de Darwin é outra que não convenceu muita gente. Numa enquete recente, mais de 70% dos americanos pesquisados responderam que preferem a explicação bíblica da origem da sua espécie à de Darwin. Em vários Estados americanos, há leis que obrigam o ensino da versão bíblica junto com a da evolução, que deve ser identificada como apenas uma especulação teórica em contraste com a palavra de Deus. A influência do fundamentalismo religioso cresce na política e nos costumes dos Estados Unidos — e no Brasil também. E, claro, cresce a radicalização do fundamentalismo islâmico, com influência direta da palavra do deus deles no estado de nervos de todo o mundo.

Alguém já descreveu o que está acontecendo na Terra como a crise terminal dos monoteísmos e do combustível fóssil. Mas enquanto se desenvolvem outras fontes de energia para substituir o combustível fóssil e finalmente começa a haver uma reação da razão ao autoenvenenamento do planeta, a razão não parece ter avançado muito contra o obscurantismo religioso. Seja como for, não estamos vivendo a História sensata que os iluministas imaginaram para nós no século 18, e que pensávamos que era a que tinha vencido. Não era.

Uma outra história parecia estar se desenhando nos loucos anos 20 do século passado, quando várias liberdades novas começavam a ser experimentadas. Mas a “era do jazz” acabou sendo a do crescimento do fascismo e outras formas liberticidas. Nos fabulosos anos 1960, as drogas, o sexo e a comunhão dos jovens pela paz e contra tudo que era velho também anunciavam uma outra história, mas a que ficou, a que ganhou, foi a do conservadorismo de Reagan, de Margaret Thatcher e dos nossos generais.

A História que não aconteceu fica apenas como especulação, tendo como rótulo a frase mais triste de qualquer língua: o que poderia ter sido.

Luís Fernando Veríssimo

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