22 de out de 2016

Loja Daslu e os trambiqueiros da elite

A Loja Daslu já foi um símbolo da opulenta elite brasileira. Situada em área nobre da capital paulista, ela reunia marcas de grife, limitiva o ingresso dos seus ricos frequentadores e tinha até heliporto. A filha de Geraldo Alckmin "trabalhou" no oásis do consumo e o governador inclusive participou da sua inauguração. Com o tempo surgiram as primeiras denúncias de que ela importava produtos de forma ilegal e a Daslu foi processada e perdeu os holofotes da mídia. Agora, porém, ela voltou ao noticiário, mas sem muito alarde. A Folha publicou nesta quinta-feira (20) que o antro dos ricaços caloteiros recebeu ordem de despejo imediato. Os "coxinhas" devem estar de luto!

Segundo a matéria, "a Justiça determinou nesta segunda-feira o despejo da loja Daslu no shopping de luxo JK Iguatemi, no Itaim, zona oeste de São Paulo. O mandado já foi expedido para cumprimento imediato da sentença. A decisão é do juiz Rogério Sampaio, da 27ª Vara Cível do Tribunal de Justiça de São Paulo. A ação de despejo por falta de pagamento corre desde março. Estima-se que a dívida da loja chegue a R$ 4 milhões. No dia 12 de abril, o shopping chegou a fechar acordo extrajudicial com a loja para que os pagamentos em atraso, que na época somavam cerca de R$ 2,5 milhões, fossem efetuados, evitando o despejo. O acordo, porém, foi descumprido".  

A Folha até apresenta um histórico da Daslu — logicamente sem citar o amigo Geraldo Alckmin. "A loja de luxo — que no passado foi considerada a mais tradicional de São Paulo — foi fundada há 59 anos pelas sócias Lucia Piva de Albuquerque e Lourdes Aranha. Até o começo dos anos 80, ela comercializava apenas roupas e acessórios nacionais. Após a morte de Lucia, sua filha Luciana Tranchesi assumiu o negócio e propôs a expansão da empresa. Com a nova direção, a loja virou grife própria e, a partir dos anos 90, começou a trabalhar com marcas de luxo importadas, após liberação desse tipo de produto pelo presidente Fernando Collor de Mello. Tranchesi foi para Europa e voltou com malas repletas de bolsas e sapatos famosos que caíram no gosto dos endinheirados paulistanos".

"Em seu ápice da fama, a Daslu era conhecida como 'templo de luxo' e ocupava uma área de mais de 15 mil m² em um prédio estilo neoclássico com colunas gregas na Vila Olímpia, ao lado de onde seria erguido o shopping JK Iguatemi. Em 2005, antes de ver seu império derrubado por uma série de escândalos, a loja de Tranchesi movimentava cerca de R$ 400 milhões em vendas ao ano, segundo especialistas ouvidos pela Folha, e empregava cerca de mil pessoas. Entre elas, havia as 'dasluzetes', vendedoras das lojas — muitas vezes vindas de famílias ricas — que recebiam até R$ 15 mil mensais, incluindo as comissões de roupas e acessórios cujos valores chegavam a ultrapassar os cinco dígitos".

"O início da queda do império começou no dia 13 de julho de 2005. Uma megaoperação da Polícia Federal levou à detenção de Tranchesi e seus sócios, todos suspeitos de importação irregular por meio de crimes de descaminho e sonegação fiscal. O esquema utilizaria empresas de fachada para subfaturar importações com o objetivo de sonegar impostos. Nele, a Daslu era responsável por negociar a compra das mercadorias de luxo no exterior e encaminhá-las à importadora que falsificava documentos para subfaturar as mercadorias, pagando assim menores impostos... Em 2009, Tranchesi foi condenada pela juíza Maria Isabel de Praro, da 2ª Vara da Justiça Federal, a cumprir 94,5 anos de prisão". Pouco depois, ela morreu em decorrência de um câncer no pulmão.

Com dívidas de mais de R$ 80 milhões e pendências na Receita Federal de R$ 500 milhões, a Daslu foi colocada a venda. "O único interessado foi a empresa Leap Investments, que adquiriu a marca pelo valor simbólico de R$ 1.000 e se comprometeu a investir R$ 65 milhões na empresa. A venda não incluiu a pendência com a Receita. Quatro anos após a aquisição, a Leap foi denunciada pelo Ministério Público Federal por crimes de operações fraudulentas no mercado de capitais, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e organização criminosa e desobediência a ordem judicial". Já o novo comprador, o empresário baiano Crezo Suerdieck, especialista em adquirir empresas falidas, também não conseguiu equacionar os graves problemas da Daslu – que agora será despejada.

A abastada elite nativa é realmente muita escrota. A derrocada de um dos seus templos de consumo é mais uma prova da sua total falta de ética. Cínica, ela até se veste de verde e amarelo, com as camisetas da corrupta CBF, e esbraveja contra a corrupção, mas não tem qualquer escrúpulo.

Altamiro Borges

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