24 de out de 2016

Itaquerão de Lula é um insulto ao leitor acima da média


O esforço da Folha de S. Paulo, em parceria com os vazadores da Lava Jato, para destruir a imagem do ex-presidente Lula e inviabilizá-lo para 2018 está virando um insulto aos leitores mais despertos.

Em 29 parágrafos, a reportagem "Itaquerão foi presente para Lula, diz Emílio Odebrecht"  faz contorcionismos para legitimar uma delação que sequer existe oficialmente e que, portanto, não tem valor jurídico contra Lula.

Aliás, nem se sabe se será aceita pela Justiça, pois, em tese, não basta dizer que o estádio foi uma "espécie de presente", um "agrado" da Odebrecht ao ex-presidente pelo, digamos assim, conjunto da obra — ou dois mandatos presidenciais em solidariedade à empreiteira, que cresceu 7 vezes nesse período, destacou a Folha. Qualquer acusação precisa ser corroborada por provas.

Não à toa, Cristiano Zanin Martins, advogado de Lula, definiu assim a reportagem sobre o ensaio da delação de Emílio Odebrecht: "Se a delação já não serve para provar qualquer fato, a especulação de delação é um nada e não merece qualquer comentário."

O comentário cabível, na verdade, é o seguinte: do jeito que está, a delação que não existe só fomenta ainda mais uma campanha midiática para destruir reputações. E, note-se, não passou nem uma semana desde a prisão de Eduardo Cunha, episódio em que a Lava Jato chutou um cachorro morto e vendeu, com ajuda da imprensa, uma versão isenta e apartidária da investigação.

No caso do Itaquerão de Lula, há alguns pontos que dão no calo do leitor acima da média — aquele que compreense que a Lava Jato tem uma veia política saltante e sabe que delação não é verdade absoluta, pois se fosse, lideranças do PSDB, por exemplo, dessas blindadas pela mídia, teriam Rodrigo Janot em seu encalço. Mas não têm.

Lula, o torcedor impaciente

O primeiro ponto é a tese da Folha de que Lula estava descontente com o desempenho de seu time de futebol e mandou construir um estádio. O jornal chega a associar as derrotas consecutivas do Corinthians aos últimos anos do mandato de Lula.

"Em 2010, o último ano de Lula à frente da Presidência, o clube ficou em quinto lugar no Campeonato Paulista, terceiro no Brasileiro e nono na Libertadores. Em 2007, havia sido rebaixado."

"A ideia de construir o Itaquerão partiu do então presidente Lula, que atribuía os maus resultados do Corinthians à falta de um estádio, segundo relatos colhidos pela Folha."

Essa seria a motivação de Lula para "favorecer" a Odebrecht com recursos do BNDES que seriam aplicados em um dos estádios previstoas para a Copa do Mundo.

Tem suborno X Não tem suborno

No quinto parágrafo, para chamar atenção do leitor, a Folha cravou: "Os relatos [de Emílio Odebrecht, pai de Marcelo], que indicam suborno, ainda terão de ser homologados pela Justiça."

No vigésimo primeiro parágrafo, Folha retira o que disse: "Nos encontros entre Lula e Emílio, não eram mencionados pagamentos de suborno, ainda na narrativa dele."

Pega Palocci

Na sequência da negativa de suborno a Lula, a Folha dá um cavalo de pau que muito interessa à Lava Jato, e afirma que se houve algum tipo de pagamento ao PT por causa do estádio, este foi negociado por Antonio Palocci.

"As questões práticas de como o PT seria beneficiado pela ajuda à Odebrecht seriam tratadas entre Marcelo e o ex-ministro Antonio Palocci", escreveu a Folha, que preferiu tratar Lula como a questão central desde a capa, passando pelas fotos e manchetes internas da edição do domingo, 23 de outubro.

Preso na operação Omertà, às vésperas da eleição municipal, Palocci segue na carceragem da Polícia Federal de Curitiba, por ordem de Sergio Moro,juiz de primeira instância, porque a força-tarefa não encontrou provas de recebimento de propina por parte do ex-ministro. Facilitaria o trabalho se a força-tarefa descolasse uma delação fatal.

Nos dias seguintes à prisão de Palocci, os jornais da velha mídia noticiaram, sem alarde, que a Lava Jato teria exigido uma delação de Marcelo Odebrecht contra Palocci. Caso contrário, não haveria negócio com Marcelo e ele continuaria preso, enquanto Nestor Cerveró, Paulo Roberto Costa e outros delatores da Lava Jato já gozam do regime domiciliar.


Não bastasse a mudança súbita de curso da reportagem para atingir Palocci, a fala do advogado do ex-ministro, José Roberto Batochio, lá no penúltimo parágrafo, coloca a credibilidade das conexões feitas pela Lava Jato em xeque: "Causa surpresa essa versão de que o Palocci tinha mais contato com o Marcelo do que com o Emílio Odebrecht. Porque há uma amizade muito antiga entre Palocci e Emílio. Ele consultava muito o Palocci sobre a economia nacional e global. Já a relação entre Palocci e Marcelo era quase zero", disse o defensor.

O Lobby

Por último, o que se extrai contra Lula da pré-delação de Emílio Odebrecht é que o ex-presidente é suspeito por ter tido "reuniões com frequência mensal" com o empreiteiro e, nesses encontros, "Emílio pediu e obteve o aval de Lula para ajudar a empreiteira a se expandir por América Latina e África."

E aí temos mais do mesmo: "O petista é réu numa ação que tramita em Brasília, sob acusação de ter ajudado a Odebrecht a conquistar contratos em Angola."

Folha não diz ao seu leitor que, nesse caso de Angola, os procuradores admitem que Lula foi indiciado não porque há provas substanciais de que ele foi direta e indevidamente favorecido pela Odebrecht, mas porque a imprensa criminalizou o lobby de Lula no exterior em favor das grandes empresas nacionais, quando já não era mais presidente. Seus atos viraram tráfico de influência internacional porque algumas revistas assim disseram.

O leitor mais crítico poderia formar suas convicções - para usar a palavra da moda - se, junto com as delações, fossem vazadas as "provas cabais".

Cíntia Alves



"Amigo" em planilha da Odebrecht é assunto do mês passado, requentado contra Lula

É destaque nos portais de notícia, na tarde desta segunda (24), que Lula é o "Amigo de EO [Emílio Odebrecht]" que consta numa planilha apreendida e analisada pela Polícia Federal para dar corpo a uma investigação contra o ex-ministro Antonio Palocci.


Apesar de os jornais só terem dado valor a essa informação um dia após a Folha noticiar que, em sua pré-delação, Emílio, pai de Marcelo Odebrecht, teria dito que o Itaquerão é uma "espécie de presente" para Lula, esse dado circula na imprensa pelo menos desde 29 de setembro. Naquele dia, delegado da PF pediu que a prisão temporária de Palocci fosse transformada em prisão preventiva, solicitação prontamente atendida pelo juiz Sergio Moro.

Naquele pedido, consta o seguinte parágrafo: "(...) MARCELO revelou ter solicitado a ANTONIO PALOCCI FILHO que reforçasse junto ao “amigo de [seu] pai” as intenções da ODEBRECHT. O personagem referido como amigo do pai de MARCELO BAHIA ODEBRECHT possivelmente seria LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA, conforme se demonstrará no Relatório de Análise de Polícia Judiciária nº 675/2016 (ANEXO6, Evento atual), uma vez que é claramente constatével na mensagem que tal personagem estava em esfera igual ou superior na cadeia hierárquica do governo federal."

No relatório do indiciamento, divulgado hoje, o delegado Filipe Pace recicla a informação. "Conforme Relatório de Análise de Polícia Judiciária nº 675/2016 (Evento 54, ANEXO6, Autos nº 5043559-60.2016.4.04.7000), LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA era conhecido pelas alcunhas de “AMIGO DE MEU PAI” e “AMIGO DE EO”, quando usada por MARCELO BAHIA ODEBRECHT e, também, por “AMIGO DE SEU PAI” e “AMIGO DE EO”, quando utilizada por interlocutores em conversar com MARCELO BAHIA ODEBRECHT."

Pace, contudo, diz que "muito embora haja respaldo probatório e coerência investigativa em se considerar que o AMIGO das planilhas (...) era referência a LULA, a apuração de responsabilidade criminal do ex-presidente da República não compete ao núcleo investigativo do GT LAVA JATO do qual esta Autoridade Policial faz parte."

Cabe ao delegado Márcio Anselmo, que cuida de um inquérito contra Lula, decidir o que fazer com a informação. Na planilha, Amigo, segundo a PF, está associado ao recebimento de propina de R$ 8 milhões.

Palocci é acusado pela PF de gerenciar a propina da Odebrecht em favor do PT durante o governo Lula. A corporação tenta prova que o ex-presidente tinha conhecimento dessa suposta prática.

Na planilha da Odebrecht, segundo a PF, Palocci é o "Italiano" ou "Itália". A defesa nega a associação.

Hoje o GGN mostrou que a reportagem da Folha sobre o Itaquerão ser um "presente" a Lula endossa o argumento de que existe uma campanha midiática difamatória contra o ex-presidente.

Além disso, levanta a questão de que existe uma encomenda da Lava Jato à família Odebrecht para que uma delação fatal contra Palocci seja garantida.

O processo contra o ex-ministro está em segredo de justiça, segundo o portal da Justiça Federal do Paraná. Pelo acompanhamento, é possível saber, contudo, que os autos estão nas mãos de Moro para análise.

No GGN

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