14 de out de 2016

Em entrevista, Dilma critica “PEC da Maldade” e garante não ter ódio de Temer


Ex-presidente ainda revelou que não vai estar em Porto Alegre para votar no segundo turno

A ex-presidente Dilma Rousseff concedeu, hoje, cerca de 50 minutos de entrevista para os jornalistas Juremir Machado da Silva e Taline Oppitz, durante o Esfera Pública, na Rádio Guaíba. Ela voltou a chamar o impeachment de golpe, e considerou que esse processo “continuado” ainda não terminou. Ela também avaliou que, caso ocorra, a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, investigado pela operação Lava Jato, da Polícia Federal (PF), vai ser o “corolário do golpe”.

A petista também chamou a PEC 241, que limita os gastos públicos, de “PEC da Maldade”, dizendo acreditar que o objetivo final seja acabar com a política de correção do salário mínimo.

Dilma ainda negou ter ódio do presidente Michel Temer, revelou que não vai estar em Porto Alegre para votar no pleito de segundo turno e garantiu que, por agora, não pensa em se candidatar a nenhum cargo público, embora considere que ninguém pode se fechar, como cidadão, a essa possibilidade.

PEC 241

“Eu acho que a PEC 241 é uma PEC que se for aprovada pelo Congresso Nacional, vai de fato, da forma como ela está, se transformar no que eles estão chamando de “PEC do Mal” ou da “PEC contra os pobres”. Porque é uma PEC que pretende durar por 20 anos. Então, em 2036, até lá ela vai produzir seus efeitos. Vamos ver os investimentos tanto na área de saúde e da educação vão cair progressivamente em relação ao crescimento da economia e ao crescimento do PIB pelos próximos 20 anos. O gasto per capita, ou seja, o gasto por pessoa também vai cair, pois a população vai aumentar em 20 milhões no período em que a PEC vai estar vigindo, nos 20 anos. E também nas outras áreas, cultura, segurança, esportes, direitos humanos, agricultura familiar e agricultura em geral os recursos minguarão. A ‘PEC da Maldade’ se for aprovada no Congresso, será um retrocesso grave para o Brasil”, disse.

Reforma do ensino médio

“Primeiro, uma questão dessas não pode ser feita por MP. Tem que ser amplamente discutida com a sociedade. Segundo, é fato que o ensino médio precisa de uma reforma, mas entre essa necessidade e a proposta do governo Temer há uma imensa gama de possibilidades. Por exemplo, uma das questões que nós pensávamos, era a criação do Pronatec, que nós construímos. Pronatec, programa nacional de ensino técnico para um conjunto da população formado pelos estudantes do ensino médio e para os trabalhadores. Que são coisas diferentes. Os estudantes do ensino médio teriam dois anos de formação técnica e tiveram com o Pronatec. E para os trabalhadores adultos um tempo menor para criar oportunidades diferenciadas de trabalhos e formá-los nas áreas que o Brasil tinha necessidade. Portanto, defendíamos uma base curricular comum. Em cima dela, faríamos a reforma necessária. Não pura e simplesmente riscar do mapa um ensino daquilo que é importante. Por exemplo, é importante ter ensino de história, sociologia e etc”, apontou.

Pedido de desculpas

“Eu não acho que você resolve as questões de crise política só com pedidos de desculpas. Pode pedir desculpa, não tenho vergonha nenhuma de pedir desculpa, mas não é essa a questão. A questão é entender o que leva no Brasil a esse processo de demonização que aconteceu. Ele é restrito a um segmento do espectro político, no caso, o PT. É como se o PT fosse o depositário de todos os pecados do mundo, o que não é verdade. Se não entendermos o que aconteceu com o sistema político brasileiro, nós não vamos entender o que aconteceu com o PT, pois ele é fruto também do sistema político. Não tem como você, participando de uma determinada situação conjuntural, você ser o puro e o resto ser pecador. Nem o resto ser puro e você o pecador. Ou seja, ninguém é pecador e ninguém é puro. Acredito que o sistema político brasileiro estimula o fisiologismo, a visão parcial dos problemas e acaba com as propostas programáticas. Acredito que os erros eventuais que o PT cometeu são bastante ligados a ele ter entrado neste meio ambiente político e não ter mantido a sua tradição”, avaliou.

Lula

“Eu acredito que tem um quadro de golpe continuado. Este quadro tem como objetivo principal impedir que na eleição de 2018, o Lula participe da eleição como candidato. Acho que há um objetivo claro de condená-lo na segunda instância para inviabilizá-lo como candidato. Se ele vai ou não ser atingido é uma questão que a gente não tem como chegar a uma conclusão objetiva hoje. Se prenderem, eu acho que criam uma situação muito difícil para o País. Acho que a prisão do Lula será vista como um ‘corolário do golpe’ que resultou no meu impeachment”, ressaltou.

Michel Temer

“Não se pode ter ódio das pessoas porque não é no sentido pessoal que elas agem. Elas agem representando interesses e valores que não são os meus. Portanto, faz parte nesta vida você conviver com pessoas com as quais, em alguns momentos, você se espanta com que elas são capazes (…) isso não te provoca ódio, te provoca um sentimento de desencanto. Eu não tive ódio de torturador porque eu vou ter ódio de traidor dentro destes processos? Ninguém pode ser movido a ódio”, finalizou.

Eduardo Cunha

“O grande líder desse grupo era o Eduardo Cunha, aliás, é interessante perguntar, o que aconteceu com Eduardo Cunha? Onde está Eduardo Cunha? Na verdade, ele não teve nenhuma consequência pelo fato de ter descoberto que ele tinha contas no exterior e etc. Enquanto isso, se persegue outras pessoas que a suspeita ainda tem que ser provada. Parece que a Procuradoria tinha provas efetivas, mas voltando, ele hegemonizou esse Centro pela direita. Tanto é assim, que acredito que para votar a PEC 241 foi feita uma ampla negociação e a mídia se cala sobre isso. Cala sobre que tipo de negociação. Quem é quem nos cargos federais hoje, então, é uma situação que nós não aceitávamos certos níveis de imposição do senhor Eduardo Cunha. Hoje eles estão sendo aceitos, não são revelados e ninguém sabe do que se trata”, salienta.

Confira a entrevista na íntegra:


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