23 de out de 2016

Denuncismo desnoticioso




A construção de narrativas jornalísticas duvidosas está longe de ser um problema exclusivo do submundo da internet. Ele também existe no mundo oficial da imprensa.

A presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Carmem Lúcia, alertou recentemente para os perigos da mentira na internet.

Falando a uma platéia de barões de mídia, a ministra disse o seguinte: “Você pode hoje construir uma notícia, uma narrativa, dotá-la de perfeita coerência, espalhar pelas redes sociais, colocar meio mundo a favor daquilo, simplesmente sem que aquilo tenha acontecido”.

Sem dúvida, esse é um problema gravíssimo, mas a Sra. Ministra, se percebeu, não acrescentou que a construção de narrativas jornalísticas duvidosas está longe de ser um problema exclusivo do submundo da internet.Ele também existe no mundo oficial da imprensa.

Veja-se, por exemplo, a série de reportagens que o portal UOL publicou, com o objetivo de mostrar como os três maiores partidos do país utilizam os recursos do Fundo Partidário.

“PSDB usou fundo partidário para pagar viagem de Aécio a Nova York”, diz uma das manchetes.

“De Cuba a França, PT usa fundo partidário para pagar viagens a dirigentes”, diz outra.

“PMDB pagou uísque para campanha de Cunha e churrasco com linguiça no PR”, afirma uma terceira.

Diante delas, o que pode pensar o leitor médio atual da imprensa? Que opinião pode ter este cidadão que só lê os títulos das matérias e, com base neles, acredita em Papai Noel, no Coelhinho da Páscoa e nas virtudes da PEC 241?

A opinião de que o Fundo Partidário é uma tremenda maracutaia, evidentemente… Mais uma maracutaia, no país mais corrupto do Universo.

O pequeno detalhe é que em nenhuma das matérias foi apontada qualquer ilegalidade. Os próprios textos esclarecem isso.

Custear viagens de parlamentares ao exterior, assim como a compra de comida e bebida para eventos, é previsto pelo Fundo Partidário. Bebida alcoólica não pode, mas a matéria não confirma se o PMDB pagou o uísque com dinheiro público ou com receitas lícitas.

Assim sendo, se tudo foi legal, qual é a notícia? Qual o sentido de publicar um informe sobre o nada, para que milhares de tolos acreditem estar diante de uma grave irregularidade?

De fato, Ministra Carmem Lúcia, é possível construir narrativas sobre fatos que não aconteceram. Hoje e sempre. O que parece impossível é a grande imprensa desembarcar do denuncismo compulsivo, que a leva a sugerir crime em tudo, até onde ele não existe.

O país já está suficientemente envenenado pelos fatos reais e pela guerra cruenta das narrativas em torno deles. Não precisa de peçonha adicional, inoculada pela desnotícia do que não é fato.

Um comentário:

  1. Olá! Boa noite a todos os leitores/seguidores do "Contexto Livre"...
    ..."Você pode hoje construir uma notícia, uma narrativa, dotá-la de perfeita coerência, espalhar pelas redes sociais, colocar meio mundo a favor daquilo, simplesmente sem que aquilo tenha acontecido"."...
    Será que ¨ela¨, por qualquer ato-falho se ¨sua¨ parte, se deu conta de estar descrevendo (ipsis litteris), Todo o {PSEUDO} Processo de Impeachment, idealizado, orquestrado e dirigido, contra a Legítima e Democraticamente ELEITA Presidente da República Federativa do Brasil, Dilma Rousseff???
    Ou, talvez, esteja apenas precavendo-se contra INJUSTIÇAS do tipo das Lançadas contra o Presidente Lula???
    Seja como for, ¨Esta Observação¨ ¨d'ela¨, ALÉM de tentar justificar uma re-militarização da/na Política Nacional, denota também, o Insofismável "Malabarismo de Factoides", criados com a nítida e única Intenção, covarde e traiçoeira, de PERSEGUIÇÃO ¨aos adversários políticos¨...

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