9 de out de 2016

Como uma cigarra

No cemitério da pequena cidade de Auvers-sur-Oise, a poucos quilômetros de Paris, há duas sepulturas iguais, dentro de um cercado baixo. Uma sepultura é de Vincent Van Gogh, a outra do seu irmão mais moço, Theo. Surpreende a simplicidade das duas lápides. E emociona a colocação dos dois lado a lado, o pintor e Theo, que o sustentou durante toda a vida e parece continuar a zelar pelo irmão depois da morte. Theo morreu poucos meses depois do suicídio de Van Gogh.

Numa carta para o irmão, pouco depois de chegar a Arles, no sul da França, e começar a fase mais produtiva da sua vida, Vincent escreveu:

“Minha saúde está melhor aqui do que era no norte – até trabalho num trigal no meio do dia, sob o calor mais intenso do sol, sem qualquer sombra por perto, e me delicio como uma cigarra. Meu Deus, se apenas eu tivesse conhecido esta região aos 25 anos, em vez de chegar aqui aos 35. Naquela época, eu me entusiasmava pelo cinzento, ou pela ausência de cores”.

Em Arles, Van Gogh se embriagou com as cores, e se deliciou – na sua pintura, se não na sua atormentada vida privada – como uma cigarra ao sol. Imagem perfeita.

Van Gogh talvez seja o pintor mais identificável pelo grande público, pelo menos desde o Expressionismo, do qual ele foi o pioneiro. Picasso seria o seu único rival em popularidade, hoje. Dos mais antigos, quem nunca perdeu o fascínio foi o holandês Vermeer e seus interiores realistas. Entre os vienenses, competem Gustav Klimt e Egon Schiele. Klimt é o que tem mais nome, mas Schiele é o que entraria na minha coleção hipotética.

Minhas chances de ganhar a mega sena são mínimas, inclusive porque nunca jogo, mas se ganhasse já teria pronta a lista dos artistas que iriam para minhas paredes, além do Schiele. Francis Bacon, sem dúvida. Gravuras selecionadas do Picasso, para o banheiro. Dois ou três quadros de um abstracionista italiano chamado Alberto Burri. Vários Edward Hoppers, por certo.

E todos os Van Goghs possíveis. Estes seriam os mais inacessíveis, mesmo com a disposição de gastar toda a minha fortuna, num pequeno esboço que fosse. Por uma triste ironia, o autor de quadros que hoje valem milhões só vendeu um quadro em vida, em Bruxelas, para um colecionador que, provavelmente, nunca se deu conta do que tinha em mãos. Em Auvers-sur-Oise, nos últimos 70 dias da sua existência, Van Gogh produziu 75 quadros e 50 desenhos. Era como se estivesse apressando seu legado artístico final, ou registrando sua desesperança de ser reconhecido pela posteridade, antes de virar um revólver contra o próprio peito e se matar.

Luís Fernando Veríssimo

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