25 de out de 2016

Como a máxima de Pulitzer pôde ser tão subvertida pela imprensa brasileira?

Os oprimidos que se danem
“Acima do conhecimento, acima das notícias, acima da inteligência, o coração e a alma do jornal residem em sua coragem, em sua integridade, sua humanidade, sua simpatia pelos oprimidos, sua independência, sua devoção ao bem estar público, sua ansiedade em servir à sociedade.”

Estou lendo um perfil de Joseph Pulitzer e me detenho na frase acima.

É uma reflexão que tem 150 anos de existência — e que, como tudo que é sábio, guarda uma atualidade completa, fresca, revigorante e inspiradora.

É uma receita perene de bom jornalismo.

E então me ocorre a fatal comparação. Os jornais brasileiros são a completa negação de Pulitzer.

Simpatia pelos oprimidos? Esqueça.

Devoção à causa pública? Esqueça.

Ansiedade em servir à sociedade? Esqueça.

Você inverte o enunciado pulitzeriano e encontra a mais perfeita definição do jornalismo nacional.

As corporações jornalísticas servem apenas a si próprias e a classe que representam — a plutocracia.

Dizer que a visão de Pulitzer é romântica é uma tolice. Ele não foi apenas o jornalista mais inovador da história. Foi, também, um empreendedor de extremo sucesso.

Sua lógica como empreendedor no jornalismo era irretocável: “Circulação significa anúncio, anúncio significa dinheiro, dinheiro significa independência.”

Sua visão de jornalismo é ainda hoje perfeita. “Para se tornar influente, um jornal tem que ter convicções, tem que algumas vezes corajosamente ir contra a opinião do público do qual ele depende”, afirmou.

Como jornalista, foi Pulitzer quem rompeu com a tradição de publicar as notícias na ordem cronológica. Ele estabeleceu a hierarquia no noticiário. Estava inventada a manchete, assim, bem como a primeira página.

Era um jornalista brilhante, ambicioso, e inevitavelmente acabou tendo seu próprio jornal, World, o maior em sua época.

E de novo a comparação me ocorre: por que os jornais brasileiros são o contrário?

Se eles seguissem alguns postulados de Pulitzer — não digo todos, que é coisa de gente grande, mas pelo menos alguns — o Brasil seria um país muito melhor. Digamos: a simpatia pelos oprimidos, que figura no topo das prioridades de Pulitzer.

Não seríamos um país tão assombrosamente desigual. Poderíamos ser talvez, como sonha o DCM, uma grande e ensolarada Escandinávia, uma sociedade próspera, igualitária, feliz.

Estaríamos livres do que Rousseau chamou de “extremos de opulência e miséria” que nos rebaixam e nos humilham.

Mas não.

Você abre um jornal brasileiro, qualquer um, e logo tem um choque de realidade. Pode ser uma revista. Ou vê um telejornal. Ou ouve uma rádio. É tudo anti-Pulitzer.

Por isso somos o que somos.

Paulo Nogueira
No DCM

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