9 de out de 2016

A tartaruga interior

A mãe da escritora Colette tinha uma tartaruga chamada Charlotte, que dormia durante todo o inverno. A menina Colette sabia que o inverno tinha acabado quando sua mãe anunciava: “Charlotte s’éveille, c’est le printemps”. Se Charlotte acordava, era primavera. Não importava que o calendário não concordasse com a tartaruga. Ou que o próprio clima a desmentisse. Podia estar nevando: se Charlotte abrisse os olhos, era primavera.

Não se sabe a idade da Charlotte. Podemos presumir que fosse uma tartaruga que já vira passar muitas primaveras. E que, portanto, em matéria de mudança de estação, era mais confiável do que o calendário ou o clima. O calendário traz as datas oficiais em que uma estação termina e a outra começa, com certeza burocrática e de acordo com cálculos precisos, indiferente ao clima. O clima pode variar e até enlouquecer de ano para ano, indiferente ao calendário. Já a tartaruga sente a mudança nas suas entranhas. Tem uma sabedoria instintiva mais antiga do que qualquer calendário. Sabe que a hora exata em que o inverno dá lugar à primavera é a sua hora de acordar. E vice-versa.

Muita gente vive segundo crenças particulares ou tradições familiares, desconsiderando as informações que regem ou afligem a vida dos outros. É gente que confia na Charlotte mais do que no senso comum. Desconsidera os ciclos oficiais, o noticiário e todas as evidências em contrário e só segue as convicções das suas entranhas — por mais estranhas que sejam. Todo tipo de esoterismo é uma forma de acreditar na Charlotte, ou numa sabedoria misteriosa anterior à inteligência.

Mas a Charlotte também serve como metáfora para outro tipo de desconsideração, a das pessoas pelo significado maior dos acontecimentos em que estão metidas, ou pelo que não afeta seus interesses menores. Como aquele orador famoso que enaltecia as conquistas da Revolução Francesa começando não pela liberdade, a fraternidade ou a igualdade, mas pela sopa. Pois para ele o maior feito da Revolução fora acabar com o bouillon, que era só o que servia nos restaurantes — o nome restaurant era o adjetivo que descrevia a sopa restauradora —, e substituí-lo pela mesa variada, acessível a todos os franceses. Para o orador, a revolução que importava ocorrera no menu. Como ele, muita gente até hoje parece fazer questão de não entender o tempo em que está vivendo, ou o que acontece à sua volta.

Também tem gente que só reconhece a importância de qualquer notícia quando ela acorda a sua tartaruga interior. Há um certo exagero, claro, em viver eternamente ligado nos fatos e preocupado com o mundo e os resultados de eleições municipais. Num mundo em crise, isso é receita certa para a neurose — por mais que seu pequeno feudo afetivo esteja em ordem. Mas não se pode viver idilicamente alheio a tudo. Principalmente quem não tem vocação para tartaruga.

Luís Fernando Veríssimo

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