30 de set de 2016

Vício

Ninguém desconfiou que os 10% por mês sobre o capital aplicado oferecido pelo megavigarista americano Bernard Madoff era bom demais para ser verdade. Grandes aplicadores, que você imaginaria escolados em vigarices, perderam milhões, quando a tramoia foi revelada. O próprio Madoff, ao ser preso, se declarou surpreso com o sucesso do seu esquema. Como ele funcionara durante tanto tempo?

Paul Krugman escreveu, na época, que não havia muita diferença entre o esquema de Madoff e o que em essência acontecia, às claras, em todo o setor. Madoff se autodenunciou e foi preso, mas a prática de premiar o capital especulativo até a beira da falcatrua continua, só com retorno menos espetacular do que o que Madoff prometia.

O capital se protege de várias maneiras e uma delas é a de atuar dentro de limites que chamam de éticos, mas que são práticos, valendo-se de uma certa elasticidade moral. Grandes bancos não podem fechar, mesmo que atuem na zona crepuscular entre o permitido e o criminoso. E a leniência se estende a outras formas de autopreservação da espécie. Quando executivos das três maiores montadoras de carro dos Estados Unidos chegaram a Washington para pedir dinheiro ao governo, cada um veio no seu jato particular. A desculpa era que teriam ido de carro se seus carros fossem de confiança. Pelo menos as montadoras gastaram bem o presente que ganharam e hoje estão em boa situação. Muitos dos bancos subsidiados para não falirem na mesma época usaram parte da ajuda para dar as regalias e os milionários abonos de sempre aos seus executivos.

O socorro que o capital dá a si mesmo lembra aqueles programas adotados em países que, em vez de combaterem o comércio de drogas, dão dinheiro para o usuário manter seu vício sem precisar recorrer ao crime. As instituições financeiras responsáveis pela crise atual estão sendo pagas com dinheiro público para manter seus maus hábitos. Os grandes aplicadores que confiaram em Madoff não foram imprudentes, apenas sucumbiram ao sonho de todo rentista, o sonho do lucro fantástico. Confiaram que Papai Noel existia.

Luís Fernando Veríssimo

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