4 de set de 2016

Os amigos

Dona Vitória morreu e a família se reuniu no seu velório. Filhos, filhas, noras, genros, netos e netas. Só a família já lotava a capela, mas não pararam de chegar parentes próximos e afastados, amigos e amigas de dona Vitória — e um tipo estranho, um homem grande, quase um gigante, de barba comprida e negra, carregando um saco nas costas.

Todos se entreolharam. Quem seria aquela figura assustadora? O monstro ficou parado por algum tempo ao lado do caixão aberto, fitando o rosto de dona Vitória. Depois, foi postar-se num canto da capela, indiferente ao burburinho que sua presença causara. E visivelmente emocionado.

– Deve ser um conhecido da mamãe.

Mas onde dona Vitória teria conhecido um tipo daqueles? Ela quase não saía de casa. Talvez fosse alguém que conhecera na juventude. Ninguém sabia muita coisa da juventude de dona Vitória. Pela aparência, o homem era da mesma idade dela. Mas permanecia o mistério: como dona Vitória conhecera uma figura assim?

*

O filho mais velho de dona Vitória aproximou-se do homem e perguntou:

– O senhor é...

– O Bicho-Papão – rugiu o velho.

– O quê?

– O Bicho-Papão. A Vitória nunca falou em mim?

E o filho mais velho se lembrou que muitas vezes a mãe ameaçara chamar o Bicho-Papão para levar as crianças desobedientes no seu saco. E o Bicho-Papão existia! E era amigo da dona Vitória!

*

O filho mais velho só não fez mais perguntas ao Bicho-Papão porque acabara de entrar uma figura ainda mais repelente no velório. Um velho, também. Este mastigava alguma coisa, fazendo muito barulho, e a saliva lhe escorria pelos cantos da boca.

– Já sei – disse o filho. – Você é o Come-Feio.

– O senhor já me conhecia?

– De ouvir falar. Mas recebíamos as suas lembranças.

“O Come-Feio mandou lembranças” era um dos refrãos usados pela dona Vitória para chamar a atenção de quem comesse fazendo barulho na mesa ou falasse com a boca cheia. Quem poderia imaginar que o Come-Feio — e as suas lembranças — fosse de verdade? O Come-Feio também foi olhar o rosto da dona Vitória e também chorou. Mas era difícil distinguir o que era lágrima e o que era saliva escorrendo no seu rosto.

*

E chegaram um homem e uma mulher, que também foram olhar dona Vitória no caixão e depois se identificaram:

– Somos os netos do Neves.

– O Neves?

– Dona Vitória foi grande amiga do vovô. Quando ele morreu, ela foi ao enterro dele, por isso achamos que deveríamos vir ao enterro dela.

E o filho da dona Vitória se lembrou do que sua mãe dizia sempre: “Até aí morreu o Neves...”. O Neves também existia! Ou existira.

*

A família concordou que era preciso saber mais sobre a juventude de dona Vitória.

Luís Fernando Veríssimo

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