30 de set de 2016

Informativo Paralelo — A grande mídia na mira


Leia Mais ►

Luis Fernando Veríssimo festeja 80 anos

Uma das raras unanimidades do Brasil lança coleção de cerca de 800 verbetes organizados em ordem alfabética e que trazem comparações, máximas, mínimas e metáforas

Verbetes. Livro traz exemplos de humor sintético e cartuns
A modéstia é uma das qualidades de Luis Fernando Veríssimo, um dos escritores mais admirados do País. Mas, uma recente descoberta o obrigou a mudar de atitude: ao assistir ao mais recente filme de Woody Allen, Café Society, Veríssimo surpreendeu-se quando um dos personagens disse algo assim: “O ideal é viver cada dia como se fosse o último – um dia, você acerta”. “Eu disse ou escrevi essa frase há algum tempo. Quem diria, Woody Allen me plagiando”, diverte-se ele, uma das raras unanimidades positivas do Brasil.

Ninguém duvida de sua capacidade criativa, mas, àqueles que só acreditam vendo, basta folhear Verissimas (Objetiva), coleção de cerca de 800 verbetes organizados em ordem alfabética e que trazem comparações, máximas, mínimas e metáforas do mestre do humor sintético. O lançamento da coletânea marca a comemoração dos 80 anos de Veríssimo, que foram festejados na segunda-feira, 26. A cereja do bolo será a chegada, em outubro, de As Gêmeas de Moscou, obra que marca sua estreia como autor para o público infantil (veja abaixo).

Verissimas tem uma origem curiosa, pois foi organizado pelo publicitário e jornalista Marcelo Dunlop a partir de seu arquivo pessoal. Tudo começou em 1989, quando ele estava com 10 anos e descobriu, ao ler um texto de Veríssimo, que mesmo a morte poderia ser engraçada. Depois de muito gargalhar, ele recortou a crônica e iniciou uma coleção regularmente alimentada nas duas últimas décadas.

“Não se faz uma piada dessas impunemente com uma criança”, escreve Dunlop no prefácio de Verissimas, que será lançado na Livraria Cultura do Conjunto Nacional no dia 4 de outubro, a partir das 19 horas. “Um dos principais objetivos dessa antologia foi apurar se aquelas tantas frases espalhadas pela internet eram de fato dele.”

Veríssimo até se acostumou com a enxurrada de material que circula na rede internacional com a sua assinatura. Sempre que pode, nega a autoria, mas, às vezes, cria uma resistência. É o caso de um texto intitulado Quase. “É bem escrito e tem um tom de autoajuda. Logo, descobri que foi uma garota quem escreveu. O fato é que o texto correu o mundo e, certa vez, quando eu estava no Salão do Livro em Paris, uma senhora disse que tinha traduzido vários autores brasileiros como Clarice, Drummond e, no meu caso, o Quase, que virou Presque”, conta o autor.

“Fico sem graça de dizer que não é meu. Em outra oportunidade, uma senhora veio me dizer que não gostava tanto dos meus textos, exceto do Quase, que era maravilhoso. O que posso dizer? Melhor não decepcionar. E, quando vou a escolas, onde os alunos encenam um texto que, na verdade, não é meu?”, continua.

Uma das explicações para justificar tamanha reverência é o fato de Veríssimo conseguir ser, em seus textos, popular e não popularesco. Qual a receita? “Não tenho”, jura. “Acredito que, antes de mais nada, é ter clareza na escrita. E, como a crônica normalmente não é um texto grande, torna-se acessível a qualquer público.” Veríssimo não aceita ser chamado de humorista. “O tipo de graça faço é para provocar um sorriso, não uma gargalhada. Não tenho essa pretensão.”

Cronista, cartunista, ficcionista, saxofonista, gourmet e torcedor fanático do Internacional, Luis Fernando Veríssimo é autor de quase 60 livros que já venderam cinco milhões de exemplares (entre eles, os best sellers O Analista de Bagé e A Comédia da Vida Privada) e de personagens emblemáticos (a Velhinha de Taubaté, que criticava a ditadura, o detetive Ed Mort, as Cobras).

Filho do também autor Erico Veríssimo, ele só começou a escrever aos 32 anos, depois de ter passado por várias escolas de arte e desenho, inacabadas; de ter tentado o comércio “só para reforçar o mau jeito da família”; e de ter passado por uma rápida carreira jornalística, de revisor e colunista de jazz a cronista principal do jornal gaúcho Zero Hora.

Apesar de consagrado, Verísimo ainda não se considera capaz de escrever uma “literatura com L”, como costuma dizer. “Esse tipo de literatura depende de uma ambição, de uma necessidade de escrever, e isso eu nunca tive. Quando comecei, tinha apenas a necessidade de ter uma carreira”, conta ele, que concorda plenamente com o velho amigo Zuenir Ventura, para quem, melhor que escrever, é ter escrito. “Quando produzimos um texto, estamos envolvidos com a técnica, o que impossibilita saborear essa escrita. O prazer parece que vem depois, especialmente quando agrada a outras pessoas. Gosto de ler coisas que escrevi há anos e ainda acho bem boladas. Por outro lado, eu me afasto das bobagens.”

Veríssimo também evita a leitura dos comentários ferinos que seus textos, especialmente os políticos, recebem. “Nunca escondi minha simpatia pela esquerda e pelo PT original. Mas, hoje, mesmo criticando a forma como o PT se afastou da esquerda, sou atacado, mas não sei de que forma, pois, quando percebo se tratar de uma lista de ofensas, nem termino de ler.”

O escritor gaúcho faz observações também sobre a forma de falar do presidente Michel Temer. “O português é uma língua danada. Falar corretamente é algo tão raro que chama atenção, como no caso do Temer. Colocar o pronome no lugar certo é elitismo.”

Trama sobre gêmeas é a primeira obra infantil

Desde o nascimento da primeira neta, Lucinda, há alguns anos, Luis Fernando Veríssimo passou a dedicar mais espaço para retratar o mundo infantil. O maravilhamento logo o convenceu a estrear na literatura para jovens com As Gêmeas de Moscou, que a Companhia das Letrinhas lança em outubro, próximo do dia 12.

Com ilustrações de Rogério Coelho, a obra acompanha Olga e Tatiana, irmãs gêmeas e bailarinas. Mesmo parecidas, as duas se diferenciam pelos atos – Olga se destacava mais que Tatiana no balé, mas era arrogante e tratava mal a irmã, que, mesmo assim, com seu jeito doce, sempre a apoiava. Certa noite, porém, quando a meia-calça de Olga cai durante uma apresentação, ela acaba recebendo uma valiosa lição.

Na conversa, Veríssimo falou sobre o prazer de ser bem recebido pelo público infantojuvenil. “Encontro muitos adolescentes que dizem ter se iniciado na leitura com livros meus”, comentou. “Isso é gratificante. De alguma forma, eu me sinto participante dessa luta, desse bom combate que é tentar criar um público leitor.”

Veríssimo gostou particularmente de saber que o organizador dos verbetes de Verissima, o jornalista e publicitário Marcelo Dunlop, aproximou-se de suas crônicas justamente sobre uma que tratava da morte. “Isso é raro, pois, normalmente jovens buscam ler sobre seus heróis ou outros assuntos mais próximos.”
Leia Mais ►

Vício

Ninguém desconfiou que os 10% por mês sobre o capital aplicado oferecido pelo megavigarista americano Bernard Madoff era bom demais para ser verdade. Grandes aplicadores, que você imaginaria escolados em vigarices, perderam milhões, quando a tramoia foi revelada. O próprio Madoff, ao ser preso, se declarou surpreso com o sucesso do seu esquema. Como ele funcionara durante tanto tempo?

Paul Krugman escreveu, na época, que não havia muita diferença entre o esquema de Madoff e o que em essência acontecia, às claras, em todo o setor. Madoff se autodenunciou e foi preso, mas a prática de premiar o capital especulativo até a beira da falcatrua continua, só com retorno menos espetacular do que o que Madoff prometia.

O capital se protege de várias maneiras e uma delas é a de atuar dentro de limites que chamam de éticos, mas que são práticos, valendo-se de uma certa elasticidade moral. Grandes bancos não podem fechar, mesmo que atuem na zona crepuscular entre o permitido e o criminoso. E a leniência se estende a outras formas de autopreservação da espécie. Quando executivos das três maiores montadoras de carro dos Estados Unidos chegaram a Washington para pedir dinheiro ao governo, cada um veio no seu jato particular. A desculpa era que teriam ido de carro se seus carros fossem de confiança. Pelo menos as montadoras gastaram bem o presente que ganharam e hoje estão em boa situação. Muitos dos bancos subsidiados para não falirem na mesma época usaram parte da ajuda para dar as regalias e os milionários abonos de sempre aos seus executivos.

O socorro que o capital dá a si mesmo lembra aqueles programas adotados em países que, em vez de combaterem o comércio de drogas, dão dinheiro para o usuário manter seu vício sem precisar recorrer ao crime. As instituições financeiras responsáveis pela crise atual estão sendo pagas com dinheiro público para manter seus maus hábitos. Os grandes aplicadores que confiaram em Madoff não foram imprudentes, apenas sucumbiram ao sonho de todo rentista, o sonho do lucro fantástico. Confiaram que Papai Noel existia.

Luís Fernando Veríssimo
Leia Mais ►

Moraes mostra que governo tenta influenciar Lava Jato

Nem a "investigação" do ministro da Justiça se justifica, antes devendo-se um agradecimento a esse precário Alexandre de Moraes; nem é verdadeiro que desembargadores paulistas tenham apenas anulado os cinco julgamentos e condenações precedentes dos 74 PMs do massacre de 111 presos no Carandiru.

A tal investigação, por Moraes ter informado jornalistas de nova operação da Lava Jato nesta semana (a prisão de Antonio Palocci), está a cargo da Comissão de Ética da Presidência. A Comissão, porém, não tem condições de investigar a ética de alguém, se não olha à sua volta e toma as providências consequentes.

Está na sua vizinhança, com banca de ministro na Presidência, um "anão do orçamento", integrante do grupo de deputados que fraudava o Orçamento nacional em proveito próprio. Também com banca na Presidência, também o recordista de fraudes em concorrências, mancomunado com as grandes empreiteiras quando governador do Estado do Rio. E, para não perder mais tempo, um presidente homenageado por delações na Lava Jato e pendurado em processos na Justiça Eleitoral. Nenhum deles notado pela Comissão de Ética.

Acima de tudo, Alexandre de Moraes fez uma delação verdadeira. Quando delações de óbvia falsidade são feitas para receber prêmios, e aceitas como válidas, a delação que se comprovou, já de um dia para o outro, não deveria passar pela inversão ética de ser ela a perseguida.

Se esses argumentos forem insuficientes, ainda há o serviço prestado ao país por Alexandre de Moraes, como convém a um ministro da Justiça. No governo Dilma, os aécios não se cansaram de propalar que o governo interferia na Lava Jato, prejudicava-a, queria controlá-la. Até que o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, em nome da Lava Jato, disse que o governo jamais fez, ou tentou, qualquer interferência na operação.

Moraes e sua delação aos repórteres revelaram mudança essencial. Mostrar-se informado de próximas ações da Lava Jato significa que o governo atual extinguiu a distância que o separaria das operações, como se deu com a liberdade plena entregue, por Dilma e José Eduardo Cardozo, à ação da Polícia Federal.

Conhecimento das ações da Lava Jato, sendo a PF subordinada ao ministro, só tem sentido se for para praticar o poder hierárquico de influência. Para quem se lembra do que disseram Romero Jucá e outros, sobre a necessidade e modo de "parar essa sangria" feita pela operação, Moraes deu sinal de grande utilidade. Por mim, muito obrigado.

O sexto julgamento do Carandiru, por sua vez, ocorre quase um quarto século depois do massacre. Os desembargadores Ivan Sartori, relator, Camilo Léllis e Edison Brandão determinam que o processo volte ao começo. Por sorte, não pensaram em começá-lo um pouco mais atrás, pelo morticínio de 111 presos.

Cinco conjuntos de condenação anulados em sequência, um quarto de século de liberdade e impunidade dos acusados — o que é isso, se não for uma forma de absolvição? Os 74 PMs estão absolvidos de fato, em demonstração irrefutável do massacre que o sistema de Justiça — não os juízes como indivíduos, o sistema que os engolfa — aplica na ideia de Justiça.

Memória

Shimon Peres era o último estadista vivo. Com a grandeza que tinha, sua simples existência era suficiente para impedir a natureza dos netanyahus de levá-los até onde desejariam.

Mistério

Pesquisas Datafolha: entre a de 21 e a de 26 de setembro, o líder Marcelo Crivella cai de 31% para 29%. Pesquisas Ibope, fechadas em 13 e 25 de setembro: o líder Marcelo Crivella sobe de 31% para 35%. Apenas 24 horas entre os fechamentos e, no entanto, tendências opostas com seis pontos de diferença (ou cerca de 20%).

Nos demais candidatos, curiosamente, os resultados das duas pesquisas foram iguais ou vizinhos.

Mais problemas, daqui a pouco.

Janio de Freitas
No fAlha
Leia Mais ►

26 de set de 2016

Filhote

No seu discurso de encerramento da Conferência Monetária e Financeira das Nações Unidas — realizada em Bretton Woods em julho de 1944 para combinar como seriam as relações comerciais depois da Segunda Guerra Mundial que chegava ao fim —, lorde John Maynard Keynes, um dos inspiradores e o principal participante do time inglês no encontro, disse que se a cooperação que as nações tinham demonstrado durante a conferência continuasse, “o pesadelo em que a maioria de nós passou tempo demais das suas vidas terá acabado”, e “a irmandade dos homens terá se transformado em mais do que apenas uma frase.” A competição monetária e os conflitos e barreiras que tinham levado a duas guerras mundiais deixariam de existir.

O otimismo declarado por lorde Keynes só se explica pelo seu cavalheirismo ou gosto pela retórica. Ele tinha sido derrotado na reunião que se encerrava. Em Bretton Woods, as boas intenções esconderam a questão real do encontro: a que Roosevelt já tinha proposto a Churchill quando condicionou a entrada dos Estados Unidos na guerra ao fim dos mercados cativos coloniais e do império econômico britânico, e a necessidade de garantir mercados livres para a produção americana que se multiplicaria com a mobilização para a guerra. Enquanto Keynes acreditava que o Banco Mundial — insistência sua — realmente favoreceria a irmandade entre os homens, o secretário do Tesouro americano, Henry Morgenthau, mais interessado no Fundo Monetário Internacional, empenhava-se na mudança do centro financeiro do mundo de Londres para Washington e Wall Street. O que venceu em Bretton Woods não foi o espírito público de Keynes, mas o espírito prático dos americanos. Morgenthau estava lá para sacramentar a transferência do poder econômico da Inglaterra para os Estados Unidos, a única nação que sairia da guerra em condições de impor sua vontade. E impôs. O discurso de Keynes prevendo que a cooperação entre as nações traria uma era de inédita prosperidade universal foi muito aplaudido, mas o resultado prático de Bretton Woods foi que os americanos ganharam acesso aos mercados antes dominados pelo desdentado império britânico, e a prosperidade universal que veio se concentrou principalmente nos Estados Unidos.

Keynes morreu pouco depois de Bretton Woods. A derrota da sua visão do que poderia ter sido, pela imposição americana, tem uma ponta de ingratidão: afinal, foi ele o teórico do dirigismo econômico de Roosevelt que salvou o capitalismo americano de si mesmo na crise dos anos 30. Filhotes do keynesianismo, como no Brasil do PT, tiveram a mesma sorte das boas intenções do lorde. O discurso foi bonito, mas ganhou o outro lado. E o pesadelo continua.

Luís Fernando Veríssimo
Leia Mais ►

25 de set de 2016

Vi

Não posso me queixar. Em 80 anos de vida, vi...

– um homem pisar na Lua pela primeira vez...

– um presidente brasileiro se matar, um ser deposto e dois serem empessegados...

– um presidente dos Estados Unidos ser abatido a tiros...

– um negro ser eleito presidente dos Estados Unidos e não ser abatido a tiros...

– a morte do telefone de discar e do disco de vinil, que ressuscitou...

– o aparecimento da caneta esferográfica...

– uma guerra mundial, que terminou com o lançamento de duas bombas atômicas e a morte de 200 mil civis...

– mulheres sendo presas na praia por vestirem muito pouco e mulheres sendo presas por se taparem demais...

– a ascensão e a queda do monoquíni...

– a ascensão e a queda do twist, do hully-gully e do chá-chá-chá...

– a queda de Benito Mussolini e Adolf Hitler...

– a queda do Muro de Berlim...

– a queda dos meus cabelos...

– Nelson Mandela e o fim do apartheid...

– Muhammad Ali...

– o Pelé jogar...

– as derrotas da seleção por 2 a 1 em 1950 e por 7 a 1 em 2014, e os anos gloriosos entre uma e outra...

– os Beatles...

– o 11 de Setembro de 2001...

– as sondas espaciais que mandam fotos de planetas distantes, como papparazzi siderais...

– o Fellini filmando...

– o Charlie Parker tocando...

– o aparecimento do computador...

– o aparecimento da internet...

– o aparecimento do celular...

– a Patrícia Pillar...

– a primeira aparição da Ingrid Bergman em Por Quem os Sinos Dobram e a da Rita Hayworth em Gilda...

– o Internacional ser campeão brasileiro em 75, 76 e 79 (invicto) e campeão do mundo em 2006 com um gol do Gabiru (Gabigol!)...

– o implante de cabelo (funcionou com o Renan Calheiros, ué)...

Luís Fernando Veríssimo
Leia Mais ►

'Soluções inéditas' da Lava Jato têm um nome: Tribunal de Exceção

A realidade não precisa de batismo nem definição, mas ambos tornam mais difundidas a sua percepção e compreensão. Esse é o auxílio que o país recebe de um tribunal do Sul, quando os fatos fora do comum se multiplicam e parecem não ter fim: a cada dia, o seu espetáculo de transgressão.

Foi mesmo um ato tido como transgressor que levou o tribunal, ao julgá-lo, a retirar a parede enganadora que separava a realidade de certos fatos e, de outra parte, a sua conceituação clareadora. Isso se deu porque o Tribunal Regional Federal da 4a Região (Sul) precisou decidir se aceitava o pedido, feito por 19 advogados, de "processo administrativo disciplinar" contra o juiz Sergio Moro. O pedido invocou "ilegalidades [de Moro] ao deixar de preservar o sigilo das gravações e divulgar comunicações telefônicas de autoridades com privilégio de foro [Dilma]". Parte das gravações, insistiu o pedido, foram interceptações "sem autorização judicial".

Se, entre os 19, alguém teve esperança de êxito, ainda que incompleto, não notara que recursos contra Moro e a Lava Jato naquele tribunal têm todos destino idêntico. Mas os 19 merecem o crédito de haver criado as condições em que o Judiciário reconheceu uma situação nova nas suas características, tanto formais como doutrinárias. Nada se modifica na prática, no colar de espetáculos diários. O que se ganha é clareza sobre o que se passa a pretexto da causa nobre de combate à corrupção negocial e política.

De início era apenas um desembargador, Rômulo Pizzolatti, como relator dos requerimentos. Palavras suas, entre aquelas com que apoiou a recusa do juiz-corregedor à pretensão dos advogados: a ação do que se chama Lava Jato "constitui um caso inédito no direito brasileiro, com situações que escapam ao regramento genérico destinado aos casos comuns". E o complemento coerente: a Lava Jato "traz problemas inéditos e exige soluções inéditas".

O "regramento genérico" é o que está nas leis e nos códigos, debatidos e fixados pelo Congresso, e nos regimentos e na jurisprudência criados pelos tribunais. O que "escapa ao regramento" e, em seu lugar, aplica "soluções inéditas" e apenas suas, tem nome no direito e na história: Tribunal de Exceção.

A tese do relator Rômulo Pizzolatti impôs-se por 13 votos contra um único desembargador. Não poderia ser tida como uma concepção individual do relator. Foi a caracterização — correta, justa, embora mínima — que um Tribunal Federal fez do que são a 13a vara federal de Curitiba, do juiz Sergio Moro, e "a força-tarefa" da Procuradoria da República no sistema judicial brasileiro, com o assentimento do Conselho Nacional de Justiça, do Supremo Tribunal Federal, do Superior Tribunal de Justiça, do Conselho Nacional do Ministério Público e dos mal denominados meios de comunicação.

Fazem-se entendidos os abusos de poder, a arrogância, os desmandos, o desprezo por provas, o uso acusatório de depoentes acanalhados, a mão única das prisões, acusações e processos: Tribunal de Exceção.

Tapeação

A "reforma do ensino" lançada por Michel Temer é só um engodo para haver algo que pareça atividade no governo imóvel.

"Reforma do ensino" por medida provisória é restringir o tema à discussão, se houver, no Congresso — o ambiente onde proliferam analfabetos funcionais.

Reforma do ensino não é assunto de parlamentares, tem que ser discutida e decidida por professores.

Janio de Freitas
No fAlha
Leia Mais ►

22 de set de 2016

A passagem

Li que o programa de interiorização de médicos, inclusive médicos de outros países — a maioria de Cuba — tem sido um sucesso, depois de veementemente combatido na sua implantação. Um dos resultados dessa e de outras iniciativas na mesma área é que diminuiu o índice de mortalidade infantil no País, talvez o principal parâmetro para se julgar um governo. O programa da casa própria não alcançou todas as suas metas, mas alcançou o bastante para dar moradia decente a milhares de famílias. O acesso à educação superior democratizou-se como nunca antes. A Bolsa Família tirou muita gente da miséria.

O que estas e outras medidas de inclusão social têm em comum é que representam o que os neoliberais mais odeiam, que é a intervenção de um estado centralizador no que, segundo eles, deveria ser tarefa do mercado. O Temer já disse que não vai mexer em nenhum dos programas sociais deixados pelo PT, mas cedo ou tarde, mesmo contra a sua vontade, a lógica de uma opção pela austeridade e pelo estado mínimo o levará a trair sua vontade, se é que ela existe mesmo. Você não vai para a cama com a Fiesp esperando manter sua virtude.

Se o que o PT deixou na sua longa passagem pelo governo foi fruto de contabilidade criativa, corrupção e tudo mais que lhe atribuem, às vezes com gráficos e “power point”, também foram fruto de uma clara priorização de carências sociais inédita na nossa história. Isso não é uma defesa do rouba, mas faz, é uma lembrança que a passagem do PT não deixou só lixo, deixou pelo menos uma tentativa de diminuir a desigualdade e a injustiça social que nos assolam.

É difícil encontrar entre os analistas econômicos do País um defensor do Estado keynesiano. Para ter algum tipo de respaldo na crítica ao nosso conservadorismo reacionário deve-se recorrer a estrangeiros, gente como o Paul Krugman, o Joseph Stiglitz e agora o Thomas Piketty, que chama a austeridade pregada pelo capital financeiro pelo seu nome verdadeiro, um ardil para o status continuar quo, num mundo dominado pelo neoliberalismo.

Luís Fernando Veríssimo
Leia Mais ►

Deputados poderiam ter se valido da Lava Jato para anistiar caixa dois

A emenda que anistiaria a prática do caixa dois, o dinheiro "por fora" nas campanhas eleitorais, só falhou porque seus patronos do PSDB, PMDB, PT e DEM cometeram dois erros de falsa malandragem: um, por não perceberem que evidenciar o efeito anistiante da emenda era desnecessário e inconveniente, quando a Lava Jato e o juiz Sergio Moro propalam denúncias e condenações pelo que consideram "crime de caixa dois". O outro no sigilo da articulação para contrabandear a emenda até sua votação na Câmara.

As lideranças daqueles partidos poderiam valer-se da melhor cobertura possível, na atualidade, para a decisão de tornar crime o caixa dois: é o que desejam os procuradores da Lava Jato e Moro. A Câmara agindo contra muitos políticos e promovendo a moralização da política, o novo Brasil do golpe, perdão, do impeachment que não foi golpe.

Pois bastaria uma emenda na medida. A silenciada anistia viria de graça. Como consequência: só passa a ser crime o que antes não era. Logo, as já existentes condenações de uns por "crime de caixa dois" e, para outros, o risco de condenação estariam invalidados. Por efeito de uma legislação desejada pela Lava Jato, onde ninguém se deu conta do que, na verdade, propunha.

Venha ou não nova lei, as condenações de caixa dois como crime de corrupção têm destino problemático. Se a prática for crime, não se aplicará a condenações já feitas, pois a lei não retroage. Caso não seja adotada a nova conceituação, as condenações ficam sujeitas a cair nos julgamentos de recursos, porque o caixa dois não está tipificado como crime de corrupção. De problemas assim, confrontando decisões e legislação, estará sobrecarregada a revisão de medidas e sentenças da Lava Jato.

Já a confrontação, não menos importante, de práticas e ética, ou moralidade, parece ser menos prestigiada, oprimida pelo desejo de condenação. É o caso da fé pública conferida pelo juiz Moro, por exemplo, ao ex-deputado Pedro Corrêa, o preso que ontem foi da cadeia paranaense para a internação hospitalar. Condenado a 20 anos em regime fechado, sob acusação de receber mais de R$ 350 milhões para o PP (dos quais embolsou mais de R$ 40 milhões), em subornos armados por Paulo Roberto Costa na Petrobras, Pedro Corrêa integrava o mais baixo nível de conceito moral na Câmara. Era talvez o mais duradouro em tal condição, vindo da Arena ditatorial desde 1978.

Como indicação especial de caráter, Corrêa levou a filha a seguir-lhe os passos como deputada que motivou um escândalo de desvio de verbas da Câmara. Ao filho, deu outra direção: a do dinheiro repassado pelo doleiro Alberto Yousseff.

Essa ficha já seria suficiente para negar confiabilidade a qualquer palavra de Pedro Corrêa. Mas Sergio Moro dispunha de mais informações: como assistente no processo do mensalão, participou da condenação do então deputado à cadeia, também por crime financeiro. Apesar disso, a palavra de Pedro Corrêa é um dos esteios utilizados por Moro, como tem sido pelos procuradores da Lava Jato, para incriminações.

É justo que Pedro Corrêa tenha esperança de ser um dos premiados. Injusto é que o Ministério Público e o Judiciário sejam expostos a uma associação desmoralizante.

Janio de Freitas
No fAlha
Leia Mais ►

21 de set de 2016

Dr Moro prova crimes de Lula!

Homens de bem conseguem pegar o Lula e o levam até a República de Curitiba.

Leia Mais ►

Nós, o Lula


“Lula, prepare-se que eles vão querer te processar, cassar ou prender. Se não conseguirem, vão tentar te matar.”- Felipe Gonzáles- ex-presidente da Espanha

Também podem nos chamar de Dilma. Homens e mulheres, somos todos mais de 50 milhões de Lula, mais de 50 milhões de Dilma.

Mais de 50 milhões e a mesma cara. Sem “mimimi” porque nós, o Lula, não temos duas caras. Uma só cara para mais de 50 milhões.

Mais de 50 milhões diretos e efetivos.
Não somos decorativos. Decorativo é quem tem vocação pra pinguim de geladeira de castelo de filme “B” de terror.

Mais de 50 milhões de Lula, mais de 50 milhões de Dilma diretos e efetivos e não a cara do óbvio que ulula como lobão sarnento, como lobisomem sangrento.

Nós, a Dilma, temos a voz clara da dignidade. E nós, o Lula, temos a voz rouca da vida de fato vivida.

E que nos cante Chico Buarque e todos os nossos poetas de verdade!

Que nos encantem os tantos nós de nós mesmos que a tudo desatamos. Todas vossas dívidas e todas vossas incompetências. Sem passar a vergonha de levar pito de Clinton algum em reunião internacional.

Não passamos chapéu na mão nem tiramos sapato.

Respeitamos os pequenos e pelos grandes somos respeitados.

Nós, o Lula, não precisamos tomar vergonha na cara. Nós somos o Cara!

E não precisamos abanar o rabo como sabujo amestrado.

A nós, a Dilma, ninguém esconde da foto. Nós, o Lula, somos o centro da foto.

Nosso nome não se tira da lista. Não somos apenas qualquer um de algum lugar. Somos o Brasil e em toda parte nosso nome se alardeia e anuncia.

Nós, o Lula, somos mais de 50 milhões de Brasil. Nós, a Dilma, somos mais de 50 milhões no Brasil.

Não na Suíça.

Nós, a Dilma, encaramos os que escondem a cara. Nós, o Lula, respondemos na cara de cada covardia.

Temos a mesma cara hoje que tivemos ontem e a teremos sempre porque não nunca fomos Demóstenes Torres. Não somos a inveja para que depois não se Veja sermos Carlinhos Cachoeira.

Não somos Aécio de nariz rebaixado como helicóptero carregado de meia tonelada. 

Não temos porque fingir que combatemos a corrupção aplaudindo Eduardo Cunha, para depois fazer de conta que Temer não é Cunha.

Não temos porque esconder o que somos e somos 50 milhões efetivos e diretos. Não apenas os ecos de algum William ou qualquer outro de outro canal de desvios de impostos e Banestado, de privatarias e tantas patifarias. Canais do esgoto da impunidade do H, S, B ou C.

Não somos os zelotes da omissão da sujeira pra debaixo do tapete.

Não enfurnamos a verdade. Somos as portas e as janelas da transparência e somos a investigação.

Não fomos nós que votamos em Caçador de Marajás porque Roberto Marinho mandou nem fomos nós que pintamos a cara contra o Caçador de Marajás porque Roberto Marinho mandou.

Não somos o otário da piada da grande imprensa brasileira como diz o jornalista estadunidense. Nem os gangsteres governantes como diz a revista alemã. Não somos golpe nem farsa, como diz o jornal da França.

Somos mais de 50 milhões de votos diretos e não apenas 6 dezenas de indiretos. Não somos uma nem duas, somos 4 eleições e 80% de aprovação.

Nós, o Lula, não envergonhamos o país.

Nós, a Dilma, somos aqueles que levaram ao estudo os que nunca tiveram acesso às escolas. Oferecemos salários e tiramos das esmolas. Levamos luz onde havia apagão. Vida na água para o sertão e não o volume morto da sujeira da imprevisão, na improvisação da inconsequência e irresponsabilidade.

Não somos a incapacidade. Somos universidade e 400 escolas técnicas. Somos a ciência e para nós não se fecham fronteiras. Somos mais médicos e mais remédios. O rio, a lagoa e a ponte.

Não somos o abandono, a ausência de infraestrutura. Somos a estrutura.

A distância e a estrada, a recuperação da navegação, da rodovia, e a instalação da ferrovia. O vento e a energia, a mata e a torre de transmissão.  

Somos uma nação e não a dívida. Não somos a indignação e o descalabro. Somos o mundo e não os maiores abismos do mundo.

Somos a solução efetiva e direta e não a invenção infecta de legislação que se revoga dois dias depois de consumado o golpe da corrupção. O estancar da sangria dos donos da corrupção.

Somos a investigação dos que sangram a nação.

Nós, o Lula, somos 40 milhões libertos dos grilões da miséria.

Nós, a Dilma, não somos o Fora Temer. Somos a casa da vida fora da favela, somos o fora à fome. O Brasil fora do Mapa Mundial da Fome.

Não somos a ALCA “al carajo!” Somos o BRICS. Somos o Pan-americano, a Copa e a Olimpíada.

Somos a ascensão da 14ª para a 6ª economia.

Somos o credor, não o devedor. Somos a potência e não a subserviência.

Que nos processem. Que nos cassem. Que nos prendam. E se não conseguirem, que se tente nos matar.

Mas não matem apenas um!

Matem todos os mais de 50 milhões de Dilmas. Todos os mais de 50 milhões de Lulas!

Não processem, não cassem, não prendam nem matem apenas um.

Vossas convicções não passam de obsessões e vossos reles minutos de glória escorrerão pelo furo do urinol da própria história.

Portanto, matem todos e não deixem sobrar nenhum. Nem um!

Porque se sobrar um dos mais de 50 milhões de Lula, não adianta adjetivar. Terá de se provar, sem ridícula ficção de literaturas inverídicas, uma prova que seja.

Uma prova que seja das tantas mentiras contra nós, o Lula.

Raul Longo
Leia Mais ►

20 de set de 2016

Entrevista coletiva Lula defesa NY


Leia Mais ►

Chico City, powerpoint, palavras cabais, procuradores, Lula, e delação premiada


Leia Mais ►

O grito

Era a primeira vez que iam a um cinema juntos, ele e a namorada (Renata? Roberta?). Um filme de terror. “A mão assassina”, “A mão do morto”, qualquer coisa assim. Ainda nos trailers, João Carlos passou o braço pelo encosto da poltrona da namorada. Com 15 minutos de filme, sua mão já estava no ombro da namorada. Na tela, a moça começou a descer a escada que dava para o porão da casa assombrada. A mão de João Carlos desceu pelo braço da namorada. A moça descia a escada lentamente, degrau a degrau. A mão de João Carlos descia lentamente pelo braço da namorada. A moça do filme deixou cair sua lanterna. João Carlos mudou de posição para aumentar o alcance da sua mão. A moça chegou no chão do porão e começou a tatear na escuridão. A mão de João Carlos avançou mais um pouquinho, em direção ao seio da namorada (Carlinda? Clotilde?). A mão de João Carlos chegou ao seio da namorada no exato momento em que, na tela, uma mão decepada agarrava o tornozelo da moça. E a namorada deu um grito.

Não foi um grito comum, apenas um grito de susto. Foi um grito de pavor, mais alto do que o grito da moça no filme. Um grito primevo, um ganido animal, terrível, assustador. Nas fileiras da frente do casal, todos se viraram para trás para ver de onde saía aquele som sobre-humano. João Carlos largara o seio da namorada rapidamente, ele também espantado pelo grito. Alguém das fileiras da frente perguntou o que tinha havido e João Carlos improvisou:

– Acho que ela viu um rato...

Nas fileiras de trás não tinham identificado a origem do som. Surgiram teses. Alguém estava passando mal. Só podia. Deveriam interromper a sessão. Era óbvio que quem gritava daquele jeito precisava de atendimento médico. Ou então o que causara o grito fora...

– Fogo!

Houve uma debandada para as saídas. Não demorou muito e aparecerem os bombeiros e a polícia. Fogo, onde? A namorada não sabia explicar o que causara seu grito. Fora a cena do filme, certo, a mão decepada pegando o calcanhar da moça, mas fora mais alguma coisa. O quê? Na falta de uma resposta, foram todos para a delegacia.

No caminho, João Carlos pediu:

– Não fala do seio.

– Tá – disse a namorada (Angela? Anita?).

Combinaram ir ao cinema juntos de novo, desta vez um musical. Mas nunca mais se viram. 

Luís Fernando Veríssimo
Leia Mais ►

19 de set de 2016

Convicção sem prova vem de Harvard

E mesmo assim Moro condenará rápido e sumariamente


O Conversa Afiada republica do Nassif excelente texto de Gilberto Miranda Junior:

O argumento ontológico abdutivo de Dallagnol

O termo “ontológico” atribuído ao argumento sobre a existência de Deus foi cunhado por Kant, que entendia ontologia como uma filosofia transcendental à priori, ou seja, aquela que dispensa a experiência sensível ou empírica para definir o próprio saber. Anselmo de Canterbury (santo católico que viveu entre 1033 a 1109) possui o argumento ontológico mais famoso, estudado e comentado ao longo dos tempos. Anselmo parte da premissa (mesmo que não fique tão evidente em seu texto original apresentado nos capítulos II e III de seu “Proslogium”, escrito em 1078) de que a existência é superior a inexistência. Desse ponto, segundo sua definição de Deus (como o SER mais perfeito e superior do universo), conclui que Ele tem, necessariamente (uma necessidade lógica), de existir. Uma lógica impecável, obviamente: se seres existentes são superiores a seres inexistentes, e se Deus é o ser superior a todos, logo ele necessariamente tem de existir. Não aceitar essa conclusão é incorrer em contradição.

Todo o problema desse tipo de argumento centra-se no fato de se usar aquilo que se quer concluir como premissa. Para que Deus seja visto como superior a todos os seres, é preciso já admitir sua existência, para depois afirma-la como conclusão. Esse tipo de argumento funciona como um jogo de cartas marcadas, onde se manipula com uma marca a carta que precisa ser encontrada no final para se ganhar o jogo. No limite, é um raciocínio capcioso, uma empulhação, uma desonestidade intelectual. Isso não significa que Deus não exista. Significa apenas que as razões dadas para sua existência, nesse caso, não são suficientes.

Nota-se que em geral, todo raciocínio de cunho religioso carrega essa distinção argumentativa. Primeiro dispensa-se a necessidade de qualquer demonstração empírica do que se quer demonstrar. Em seguida, munidos de uma premissa que já pressupõe a conclusão a que se quer chegar, declara-se a conclusão como se o fato dela não ter sido diretamente mencionada nas premissas, fosse algo novo e necessariamente lógico. Podemos, ao ouvir, ficar com uma sensação incômoda de que fomos enganados, mas se caso a conclusão for ao encontro do que já cremos, essa sensação é logo abafada e passamos a reproduzir a forma de pensar sem maiores problemas.

Pensadores como Descartes, Spinoza e Leibniz fizeram variações do argumento ontológico, porém a estrutura do raciocínio sempre foi a mesma. Descartes em suas Meditações Metafísicas dedicou-se a esse tema e tentou provar a necessidade da existência de Deus para que faça sentido a própria existência do mundo externo ao nosso pensamento. Em resumo: se é possível imaginar um ser perfeito em todos os sentidos e que, na perfeição, a existência é um atributo lógico, então Deus, que é perfeito em todos os sentidos, necessariamente, existe.

Talvez não pelo fato de ser membro da Igreja Batista (embora esse fato possa ter influenciado), o promotor Deltan Dallagnol usa do mesmo tipo de raciocínio para desenvolver a acusação contra Lula. No entanto, olhando seu Currículo Lattes, constatamos que o mesmo se especializou na Harvard Law School em um curso chamado “The Best Explanation of Circumstantial Evidence”. Ou seja, sua especialidade parece ser a de determinar a melhor explicação possível para evidências circunstanciais. Ao lermos a peça acusatória fica claro que, se usada sua expertise acadêmica naquilo que apresentou na denúncia, podemos concluir que, para o promotor, a melhor explicação para um conjunto de evidências circunstanciais será amealhar aquelas que possam confirmar uma crença anterior na culpa de alguém. Isso é problemático demais e equivale a usar um argumento ontológico para a existência da culpa.

No ano em que cursou Harvard, Dallagnol apresentou um projeto de pesquisa sobre “Melhor explicação da prova indiciária”, com ênfase em provas indiretas e diretas através das “lógicas que guiam o raciocínio probatório”. No curso que fez e no projeto de pesquisa que apresentou há estudos sobre dedução, indução, analogia e inferência para a melhor explicação (chamada IME, mas conhecida também por abdução). No projeto ele conclui que “a prova, inclusive a circunstancial, é melhor compreendida a partir de óculos abdutivos, isto é, via argumentos guiados pela inferência para a melhor explicação”. Mas a questão que se abre é até que ponto a compreensão de uma prova circunstancial lhe daria materialidade para uma condenação?

O pensamento abdutivo que foi clarificado por Charles Peirce se constitui a essência de seu pragmatismo. Hoje, compõe um dos três tipos de raciocínio lógico para o estabelecimento de hipóteses científicas junto com o raciocínio dedutivo e o indutivo. No entanto seu uso tem elementos característicos. Enquanto o pensamento dedutivo infere casos particulares a partir de um todo conhecido e o pensamento indutivo infere um todo a partir da generalização de casos particulares conhecidos, Peirce considera a abdução como um juízo intuitivo que serve como primeiro estágio de toda investigação científica. Ou seja, a abdução vai reunir elementos novos que podem, hipoteticamente, ser a explicação para um fenômeno, de forma que essa ligação possa ser submetida à indução ou dedução como forma de especificação causal do fenômeno. Cientificamente, no entanto, todo esse aparato racional só será validado a partir da corroboração empírica das hipóteses. O circunstancial deixa margem para dúvidas e, no caso de dúvidas, a vantagem sempre é do réu, conforme reza os princípios do direito.

Ao se dispensar a necessidade de corroboração material ou empírica e transformar a hipótese abdutiva como a essência do fenômeno, Dallagnol propõe que aceitemos algo como um argumento ontológico abdutivo, por mais que isso encerre uma clara contradição entre termos. Ele quer nos fazer crer que todo o esquema de corrupção na Petrobrás, necessariamente, precisaria ter um chefe maior, e se Lula era o presidente à época e pode ser visto como um elemento comum entre os envolvidos com o esquema (por favor, esqueça aquele Power Point), logo Lula, necessariamente, é o chefe maior do Petrolão.

Curiosamente, porém, Lula não é acusado por esse suposto crime, embora tenha sido demonstrado por argumento ontológico que o crime não existiria sem Lula. Porém, com base nele, o nosso ilustre promotor chega à conclusão que o tríplex no Guarujá, sendo da OAS e despertando em 2014 o interesse de compra de Lula, então se trata de um bem doado ilicitamente fruto da corrupção. Não importa que não haja prova material dessa afirmação. Importa é que ela é logicamente necessária para se confirmar a metafísica que dá condições para que a realidade atenda os desejos do procurador. O fato de não haver como provar a propriedade do bem atribuída ao acusado, para o promotor, se constitui em prova de que houve a intenção de escondê-la. Carl Sagan estaria se revirando ao túmulo por ver deturpada sua famosa frase: “ausência de evidências não significa evidência da ausência”.

Se o envolvimento de Lula no Petrolão só é atribuível a partir de um argumento ontológico que insere a conclusão nas premissas, e se a ligação de Lula com o tríplex, a partir desse argumento base, é fruto de um raciocínio abdutivo, ainda estamos diante de uma hipótese a ser corroborada materialmente. Jamais seria considerado fato em qualquer pesquisa científica ou pensamento epistemológico, mas no direito brasileiro é. Nossa análise, obviamente, centra-se na argumentação do promotor e não na pertinência jurídica da peça.

O grande problema de tudo o que foi apresentado é que no âmbito jurídico é o Juiz quem decidirá qual tipo de instrumento probatório é mais conveniente para ele, de acordo com suas convicções. Não há, na Lei brasileira, hierarquia de provas. Distinto do direito em outros países, a materialidade da prova não é, necessariamente, superior a uma abdução, pois é o juiz quem decide que prova acatar. Mesmo com a obrigatoriedade de justificar sua escolha, a ausência de provas materiais sobre um fato não tira a capacidade probatória de uma abdução, mesmo que ela seja baseada em um argumento ontológico, como nesse caso.

Embora os promotores não tenham dito na mesma sentença a frase que tem sido fruto de diversos memes na internet (“Não tenho provas, mas tenho convicção”), ela reflete mesmo o que está em jogo. A confissão de ausência de prova cabal e a convicção inabalável na versão construída dos fatos foram ditas ao longo do discurso da promotoria. A questão a ser respondida é se essa convicção foi construída a partir do raciocínio abdutivo (inferência da melhor explicação — IME) ou se o raciocínio abdutivo foi construído a partir de uma convicção já existente. A resposta está no flagrante uso da falácia embutida no argumento ontológico, onde, necessariamente, a conclusão faz parte das premissas, gerando uma tautologia disfarçada.

Essa brecha para meras convicções em nossas Leis nos deixa à mercê de elementos ideológicos e políticos nos julgamentos, ou seja, à mercê da subjetividade de alguém cujas motivações estão ocultas, embora no caso de Sérgio Moro, estejam mais do que reveladas. A crescente politização do pensamento religioso não está apenas em projetos como o Escola Sem Partido, mas está presente maciçamente no Congresso e em nosso Judiciário. Laico, nosso estado apenas é no papel. O próprio sistema que molda e sequestra nossas instituições a seu favor tem como elemento substancial a ética protestante, como nos denunciou Max Weber já há mais de 150 anos.

Portanto, podem esperar, apesar do Power Point tosco e da mera convicção dos procuradores, que não só a acusação contra Lula seja aceita, como sua condenação após rápido julgamento. As cartas estão marcadas desde há muito, independente de sua culpa, o que jamais deixará de ser uma possibilidade concreta.

Em tempo: Harvard é onde também o Juiz Moro bebeu saber - PHA
Leia Mais ►

O imperador do Brasil

Na famosa história do Kafka, um dia Gregor Samsa acorda de um sono inquietante e se vê transformado num monstruoso... o que, exatamente?

Convencionou-se que o desafortunado Gregor acordou transformado numa barata. Vladimir Nabokov concluiu que o inseto era um grande besouro, e estranhou que Kafka ignorasse que os besouros têm asas. Se o inseto do Kafka pudesse sair voando, a história teria outro sentido. Ou mais um sentido, além de todas as outras interpretações dadas à obscura alegoria.

Nabokov dedica sua conjetura sobre as asas (está na coleção de palestras sobre literatura que fez antes de ficar famoso com a publicação de “Lolita”) a todas as pessoas que têm asas mas não sabem. Entre as muitas interpretações de “A metamorfose” que Nabokov rejeita com mais desdém é a freudiana, segundo a qual a origem da história é a relação difícil do Kafka com seu pai, e seu sentimento de culpa. Freud era uma das principais antipatias de Nabokov. E elas não eram poucas.

Nabokov não propõe nenhuma interpretação, pelo menos nenhuma com uma inegável marca pessoal. Nota certas reincidências no texto — como o número três (as três portas do quarto de Gregor, os três membros da família mais três empregados, os três hospedes com três barbas) —, mas recomenda que não se dê muita importância à coincidência, que é mais técnica do que simbólica.

A fantasia de Kafka tinha sua lógica, e o que pode ser mais lógico do que o velho trio, tese, antítese e síntese? Acima de tudo, se deveria evitar qualquer mito proposto por seguidores do “feiticeiro de Viena”, que era como ele chamava Freud.

Para Nabokov, interpretações além da realidade do texto eram desnecessárias. Afinal, nós todos já tivemos a sensação de acordar estranhamente, como Gregor Samsa. “Acordar como um inseto não é muito diferente do que acordar como Napoleão ou George Washington”, diz Nabokov. E conta: “Conheci um homem que acordou como o imperador do Brasil”.

Especulação fascinante: e se Nabokov tivesse aproveitado a história do homem que acordou como imperador do Brasil e seguisse seus passos depois da metamorfose? Pode-se imaginar ele chegando aqui para reclamar o trono, num país decididamente kafkiano.


Da série “Só no Brasil”. O Japonês da Federal, também conhecido como o Japonês Bonzinho, está desempenhando normalmente suas funções, inclusive a escolta de presos na Lava-Jato, com uma tornozeleira. Ele também está indiciado, e em prisão domiciliar, de onde só sai para prender os outros. Kafkiano, decididamente kafkiano.

Luís Fernando Veríssimo
Leia Mais ►

Procuradores da Lava Jato querem igualar provas a convicção e ilação

A exposição acusatória feita por procuradores da Lava Jato contra Lula foi um passo importante, como indicador do sentido que determinados objetivos e condutas estão injetando no regime de Constituição democrática.

O propósito da exposição foi convencer da igualdade de ilação, convicção e prova, para servir à denúncia judicial e à condenação pretendidas sem, no entanto, ter os necessários elementos comprobatórios.

Orientador do grupo de procuradores, Deltan Dallagnol expôs o argumento básico da imaginada igualdade: "Provas são pedaços da realidade que geram convicção sobre um quadro".

O raciocínio falseia. Provas dispensam a convicção, a ela sobrepondo-se. Daí que o direito criminal atribua à prova o valor decisivo. A convicção é pessoal e subjetiva. A prova é objetiva. A convicção deixou no próprio Supremo Tribunal Federal uma evidência da sua natureza frágil e da relação precária que tem com a Justiça.

Recém-chegado ao Supremo, Luís Roberto Barroso encontrou ainda o julgamento do mensalão. Em uma de suas primeiras intervenções, acompanhou uma decisão já definida mas, disse, não se sentia à vontade para dar seu voto à outra: proposta pelo relator Joaquim Barbosa e já aprovada, era a condenação dos réus petistas e vários outros, além do mais, também por formação de quadrilha. Causou espanto. Dois ou três ministros teriam apoiado a condenação por impulso ideológico ou político. Os demais, considerado o seu hábito, votaram por convicção.

Barroso foi breve e simples na recusa de fundamento à condenação. O espanto passou a insegurança. Mas foi só alguém rever o voto que dias antes dera à condenação, logo seguiram-se os capazes de retirar da sentença final a formação de quadrilha. Da qual não havia prova e tinham sobrado convicções.

Em artigo na Folha (sexta, 16), Oscar Vilhena Vieira notou a perplexidade decorrente de que as "grandes adjetivações" aplicadas a Lula pelos procurados, "como 'comandante máximo' [da 'organização criminosa'], não encontrem respaldo nas acusações formais presentes na denúncia". O mesmo se pode dizer de afirmações como esta, de Dallagnol, de que Lula "nomeou diretores PARA que arrecadassem propina" [maiúsculas minhas]. E muitas outras do mesmo gênero.

De todas os integrantes da Lava podem ter convicção: é assunto de cada um. Mas que de nenhuma apresentem prova, por limitada que seja, e ainda assim busquem apoio emocional para sua "denúncia" vazia, fica claro que trilham caminho à margem da Constituição. E não estão sozinhos, como demonstra a tolerância conivente com sua escalada de abusos de poder, sobre fundo político.

O século passado viu muitas vezes a que levam essas investidas. Não poucos países viveram situações que ainda os levam à pergunta angustiante: "como foi possível?". Aqui mesmo temos essa experiência: como foi possível ao Brasil passar 21 anos sob ditadura militar? Em nenhum desses países houve causa única. Mas em todos uma das causas foi a mesma: os que deviam e podiam falar, enquanto era tempo, calaram-se por covardia ou conveniência, quando não aderiram à barbárie pelos dois motivos.

É de um ministro do próprio Supremo, Dias Toffoli, que vem rara advertência para "o risco de que o Judiciário cometa o erro dos militares em 64", se "criminalizar a política e exagerar no ativismo judicial".

Janio de Freitas
No fAlha
Leia Mais ►

17 de set de 2016

Powerpoint: a mídia que nos emburrece

Você prova qualquer coisa... e com convicção!


Este é o título do livro de Franck Frommer publicado na França em 2010. (A tradução é aproximativa e o original é: La pensée PowerPoint: enquête sur ce logiciel qui rend stupide) - http://www.editionsladecouverte.fr/catalogue/index-La_pensee_PowerPoint-9782707159533.html

Entre outras pérolas, ele cita um artigo de pesquisadores americanos chamado “Powerpoint demonstrations: digital technologies of persuasion”.

Eles analisaram o discurso-espetáculo feito com Powerpoint por Colin Powell nas Nações Unidas, em 2003, para convencer o público da existência de armas de destruição em massa no Iraque.

Ou seja, o PowerPoint é a tecnologia ideal para os discursos que não têm consistência. Ele permite provar o que você quiser, tudo “com convicção”!

Não é à toa que em powerpoint a palavra-chave é poder.

Marilia Amorim, navegante afiada

No CAf

Powell exerce o power
Powell exerce o power



A inspiração de Dallagnol para seu power point velhaco

O procurador Deltan Dallagnol não é apenas espalhafatoso, exibicionista e, convenhamos, tolo.

É um também um plagiador. Um imitador. E o que é pior: um copiador de coisas ruins.

Veja a imagem abaixo.

image

É parte de um power point apresentado, algum tempo atrás, por um procurador americano para condenar um acusado. Reparou na semelhança?

A sentença foi anulada exatamente por causa daquele slide. Foi considerado uma peça destinada a “manipular os jurados”.

O uso de power points nas acusações tem sido crescente criticado nos meios jurídicos americanos. Num artigo, essa estratégia foi classificada, no título, como a “maneira mais vil para os procuradores conseguirem um veredito de culpa”. Você pode ver o texto aqui.

Pelo menos dez sentenças foram anuladas, nos últimos anos, porque os tribunais americanos consideraram que as regras do julgamento justo foram violadas pelo emprego de power points “altamente inflamáveis”.

O expediente já está sendo chamado de “advocacia visual” pelos acadêmicos americanos da área de direito.

Um advogado definiu assim os power points. “Todos nós sabemos o que os comerciais publicitários podem persuadir as pessoas num nível subconsciente. Mas não me parece que a justiça criminal tenha interesse em ingressar nessa esfera.”

E é dentro desse quadro que Dallagnol e companheiros trazem para o Brasil uma prática que nos Estados Unidos é cada vez mais questionada.

Dallagnol achava que estava sendo “moderno”. Não. Estava sendo inepto. Estava chegando com atraso a um expediente que onde surgiu, os Estados Unidos, já resulta em anulações de sentença e é objeto de estudos críticos dos estudiosos do Direito.

Por tudo isso, mereceu todo o esculacho que recebeu, expresso nos memes que inundaram as redes sociais.

Paulo Nogueira
No DCM
Leia Mais ►

A delação de Cerveró na ação contra Lula













Leia Mais ►

A delação de Delcídio na ação contra Lula











Leia Mais ►

Delação de Pedro Correa na ação contra Lula






Leia Mais ►

O depoimento de Léo Pinheiro à Lava Jato






Leia Mais ►

O depoimento de Delúbio Soares à Lava Jato




Leia Mais ►

A delação de Baiano na ação contra Lula






Leia Mais ►

O depoimento de Breno Altman à Lava Jato


Leia Mais ►