9 de ago de 2016

‘Quem está pagando a conta das Olimpíadas é o corpo preto’, dizem ativistas em encontro com a ONU

ONU Mulheres encontrou na semana passada com ativistas feministas e negras que compartilharam relatos marcados pela violência. Mães que tiveram seus filhos mortos por forças policiais estiveram entre as participantes do encontro.

Manifestaçã contra violência do Estado que vitima jovens negros.
Foto: Agência Brasil / Tomaz Silva
Vidas marcadas pela violência racial e de gênero. Dores. Relatos fortes de mulheres sobreviventes que buscam direitos, justiça e reparações. Em reunião com negras e ativistas feministas, a subsecretária-geral das Nações Unidas e diretora-executiva da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka, recebeu um novo panorama sobre o impacto da violência na vida das mulheres brasileiras.

O encontro aconteceu na última quinta-feira (4), no Rio de Janeiro, e contou com a participação de cerca de 20 ativistas da sociedade civil e da representante da ONU Mulheres no Brasil, Nadine Gasman.

Um dos depoimentos apresentados foi o de Gláucia Santos, cujo filho foi assassinado aos 17 anos, com um tiro de fuzil, no Réveillon de 2015.”Hoje, eu não posso ter luto, porque tenho de ir à luta. Para sair as Olimpíadas, eu tive de perder. É com muita dor que eu falo essas palavras”, afirmou.

Esse Estado que está aí
mata os nossos meninos negros
todos os dias, de ponta a ponta do Brasil.

Ana Gomes, ativista, professora e uma das líderes do Fórum de Mulheres Negras Cristãs, também fez um apelo à agência das Nações Unidas. “Não aguentamos mais morrer. Nosso corpo está morrendo de sucessivas dores.”

Bia Onça, uma das articuladoras da Marcha das Mulheres Negras, perguntou a Phumzile: “Como a ONU Mulheres pode contribuir para essa fala coletiva das mulheres negras? Construímos esse país e não temos direito a ele. Nossos direitos não acontecem de forma alguma”.

Quem está pagando a conta das
Olimpíadas é o corpo preto.
Não tem bala perdida.
O tiro e a bala estão direcionados.

A idealizadora do movimento afirmou ainda que o “Estado que está aí mata os nossos meninos negros todos os dias, de ponta a ponta do Brasil”. “Quando se mata um filho, mata uma mãe.”

A ativista cultural e integrante da Associação de Mulheres Negras Aqualtune, Dayse Moura, afirmou que “nós estamos por nossa própria conta. Quem está pagando a conta das Olimpíadas é o corpo preto. Não tem bala perdida. O tiro e a bala estão direcionados. Que se faça coro ao nosso lamento.”

Marcele Esteves, ativista do movimento LGBT e de mulheres negras e uma das líderes do Grupo Arco-Íris de Cidadania, chamou atenção ainda para o temor da violência que “joga travestis e trans para dentro dos guetos e das valas de morte”. “Lésbicas sofrem estupros coletivos e o Estado não dá condições para que as mulheres tenham como se recuperar”, criticou.

Jurema Werneck, da organização não governamental Criola e participante do Grupo Assessor da Sociedade Civil da ONU Mulheres Brasil, ressaltou que “toda a ação para as mulheres nas Américas têm que enfrentar o racismo com coragem”. “Vamos seguir em luta. E temos certeza de que a ONU Mulheres marcha com a gente”, concluiu.

Em resposta aos relatos, a chefe da ONU Mulheres reiterou o apoio da organização às mulheres brasileiras e assumiu o compromisso de “encontrar formas para atender as demandas das mulheres negras, indígenas e LGBT”.  “Estamos com vocês e estamos aqui para ficar”.

Segundo Phumzile,  “a luta racial permanece incompleta, e o impacto do racismo permanece, muitas vezes, invisibilizado”. A dirigente enfatizou que as desigualdades de gênero e a discriminação são problemas globais, afetando mulheres negras na África do Sul e nos Estados Unidos, bem como impondo formas de violência sexista a afegãs, iraquianas e atletas.

No ONUBR

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