27 de ago de 2016

Quando o jornalismo vai à guerra

Um homem acusado do pior dos crimes — um suposto genocídio de repercussão global — foi julgado inocente, mas o fato não virou manchete. Nem a BBC, nem a CNN cobriram. The Guardian permitiu um breve comentário. O fato foi enterrado ou suprimido, compreensivelmente. Ele deixaria muito claro como os senhores do mundo governam.

O Tribunal Criminal Internacional para a Ex-Iugoslávia (ICTY, na sigla em inglês) absolveu o falecido presidente sérvio, Slobodan Milosevic, dos crimes de guerra cometidos durante a guerra com a Bósnia (1992-95), incluindo o massacre de Srebrenica.

Longe de conspirar com o condenado líder sérvio-bósnio Radovan Karadzic, Milosevic na verdade “condenou a limpeza étnica”, opôs-se a Karadzic e tentou deter a guerra que desmembrou a Iugoslávia. Escondida perto do final de um julgamento de 2.590 páginas sobre Karadzic, em fevereiro passado, esta verdade além disso demole a propaganda que justificou o ataque ilegal da OTAN à Sérvia, em 1999.

Miloservic morreu de ataque cardíaco em 2006, só em sua cela em Haia, durante o foi um falso julgamento por um “Tribunal Internacional” inventado pelos norte-americanos. A cirurgia que poderia ter salvo sua vida foi negada; sua saúde piorou e foi monitorada — mas mantida em segredo — por funcionários dos EUA, conforme revelou o WikiLeaks.

Milosevic foi vítima de uma propaganda de guerra que hoje corre solta por nossas telas e jornais e acena com grande perigo para todos. Ele foi o protótipo do demônio, vilipendiado pela mídia ocidental como como o “açougueiro dos Balcãs”, suposto responsável por um “genocídio”, especialmente na província iugoslava separatista de Kosovo. O primeiro ministro britânico Tony Blair disse isso, invocou o Holocausto e demandou ação contra “esse novo Hitler”.

David Scheffer, o embaixador itinerante dos EUA para crimes de guerra [sic] declarou que um número tão vasto quanto “225.000 homens da etnia albanesa, entre 14 e 59 anos” poderiam ter sido assassinados pelas forças de Milocevic.

Essa foi a justificativa para o bombardeio da OTAN, encabeçado por Bill Clinton e Blair, que matou centenas de civis em hospitais, escolas, igrejas, parques e estúdios de televisão e destruiu a infraestrutura econômica da Sérvia. Ele foi descaradamente ideológico; em uma notória “conferência de paz” em Rambouillet, na França, Milosevic foi confrontado por Madeleine Albright, a secretária de Estado norte-americana que alcançaria a infâmia com seu comentário de que a morte de meio milhão de crianças iraquianas “valeu a pena”.

Albright fez a Milosevi uma “oferta” que nenhum líder nacional poderia aceitar. A menos que ele concordasse com a ocupação militar estrangeira de seu país, com as forças de ocupação “excluídas do processo legal”, e com a imposição de um “livre mercado” neoliberal, a Sérvia seria bombardeada. Isso estava escrito em um “Apêndice B”, que a mídia não leu ou suprimiu. O objetivo era esmagar o último Estado “socialista” independente.

Assim que a OTAN começou o bombardeio, teve início uma debandada de refugiados de Kosovo “fugindo de um holocausto”. Quando ele terminou, equipes policiais internacionais baixaram em Kosovo para exumar as vítimas. O FBI não conseguiu encontrar uma única vala comum e voltou pra casa. A equipe forense espanhola fez o mesmo, seu líder com raiva denunciando “uma pirueta semântica pelas máquinas de propaganda de guerra”. A contagem final dos mortos em Kosovo foi de 2.788. Isso inclui combatentes dos dois lados e sérvios e ciganos assassinados pela Frente de Liberação de Kosovo, pró-OTAN. Não houve genocídio. O ataque da OTAN foi uma fraude e um crime de guerra.

Apenas uma fração dos norte-americanos soube de que os mísseis “precisamente guiados” não atingiram alvos militares, mas civis, inclusive os estúdios jornalísticos da Rádio e Televisão Sérvia, em Belgrado. Dezesseis pessoas foram mortas, incluindo operadores de câmera, produtores e um maquiador. Blair descreveu os mortos, profanamente, como parte do “comando e controle” da Sérvia.

Em 2008, a procuradora do Tribunal Criminal Internacional para a Ex-Iugoslávia, Carla Del Ponte, revelou que foi pressionada para não investigar os crimes da OTAN.

Esse foi o modelo para as invasões subsequentes de Washington no Afeganistão, Iraque, Líbia e, dissimuladamente, na Síria. Todas podem ser classificadas como “crimes supremos” segundo os padrões do Julgamento de Nuremberg; tudo depende da propaganda na mídia. Enquanto o jornalismo tabloide desempenhava seu papel tradicional, foi o jornalismo supostamente sério, com credibilidade, frequentemente liberal, o mais efetivo. Vale lembrar a promoção evangélica, pelo The Guardian, de Blair e suas guerras; as mentiras incessantes sobre as armas de destruição em massa não-existentes de Saddam Hussein no Observer e o New York Times e o toque de clarim certeiro da propaganda governamental pela BBC, no silêncio de suas omissões.

Na época do bombardeio, Kirsty Wark, da BBC, entrevistou o general Wesley Clark, comandante da OTAN. A cidade sérvia de Nis acaba de ser pulverizada com uma penca de bombas norte-americanas, matando mulheres, velhos e crianças num mercado ao ar livre e num hospital. Wark não fez uma única pergunta sobre isso, ou sobre qualquer outra morte de civis.

Outros foram ainda mais cínicos. Em fevereiro de 2003, dia seguinte àquele em que Blair e Bush tocaram fogo no Iraque, o editor de política da BBC, Andrew Marr, ficou foi Downing Street, a sede do governo britânico, e fez o que equivalia a um discurso de vitória. Excitado, contou a seus telespectadores que Blair havia “dito que eles seriam capazes de tomar Bagdá sem um banho de sangue, e que no final os iraquianos iriam celebrar. E em ambos os pontos, provou estar definitivamente correto.” Hoje, com um milhão de mortos e uma sociedade em ruínas, as entrevistas de Marr na BBC são recomendadas pela embaixada dos EUA em Londres.

Os colegas de Marr alinharam-se para declarar que Blair estava “vingado”. O correspondente da BBC em Washington, Matt Frei, disse: “Não há dúvida de que o desejo de fazer o bem, levar os valores da América para o resto do mundo, e especialmente ao Oriente Médio … está agora cada vez mais ligado com o poder militar.”

A reverência aos Estados Unidos e seus colaboradores como uma força benigna que “faz o bem” corre solta no jornalismo do establishmentocidental. Ele assegura que a atual catástrofe na Síria é culpa exclusiva de Bashar al-Assad, que o Ocidente e Israel há muito conspiram para derrubar, não por qualquer preocupação humanitária, mas para consolidar o poder agressivo de Israel na região. As forças jihadistas articuladas e armadas pelos EUA, Grã Bretanha, França, Turquia e seus procuradores da “coligação” servem a esse fim. São eles que administram a propaganda e vídeos que se transformam em notícias nos EUA e na Europa, e providenciam acesso a jornalistas e garantem a “cobertura” totalmente parcial da guerra civil da Síria.

Agora, Aleppo está no noticiário. A maioria dos leitores e telespectadores não saberão que a maior parte da população da cidade vive na parte ocidental, controlada pelo governo. Que eles sofrem bombardeio diário de artilharia da Al-Qaeda, patrocinada pelo ocidente – isso não é notícia. No dia 21 de julho, bombas francesas e norte-americana atacaram um vilarejo pró-governo na província de Alepo, matando mais de 125 civis. O fato foi noticiado na página 22 do Guardian; não havia fotos.

Tendo criado e subvencionado o jihadismo no Afeganistão nos anos 1980, na Operação Ciclone — uma arma para destruir a União Soviética — os EUA estão envolvidos em algo semelhante na Síria. Como os Mujahideen afegãos, os “rebeldes” são os soldados dos Estados Unidos e da Grã Bretanha. Muitos lutam pela Al-Qaeda e suas variantes; alguns, como o Fronte Nusra, renomearam-se para adequar-se à sensibilidade norte-americana relacionada ao 11 de Setembro. A CIA os opera, com dificuldade, assim como opera jihadistas em todo o mundo.

O objetivo imediato é destruir o governo em Damasco, o qual, segundo as pesquisas mais confiáveis (YouGov Siraj), a maioria dos sírios apoiam, ou ao menos busca nele proteção, a despeito da barbárie em suas sombras. O objetivo de longo prazo é negar à Rússia um aliado chave no Oriente Médio, como parte de uma guerra de atrito da OTAN contra a Federação Russa, para ao final tentar destruí-la.

O risco nuclear é óbvio, embora suprimido pela mídia no “mundo livre”. Os que escrevem os editoriais do Washington Post, tendo promovido a ficção das armas de destruição em massa (WMD, na sigla em inglês) no Iraque, demandam que Obama ataque a Síria. Hillary Clinton, que regojizou-se publicamente por seu papel de carrasco durante a destruição da Líbia, tem indicado repetidamente que, como presidente, ela “irá além” de Obama.

Gareth Porter, um jornalista baseado em Washington, revelou recentemente os nomes daqueles que provavelmente ocuparão o gabinete de Hillary, que planeja um ataque à Síria. Todos têm histórias beligerantes na Guerra Fria. O ex-diretor da CIA, Leon Panetta, diz que “o próximo presidente terá de considerar o aumento de forças especiais em terra”.

O que é mais notável sobre a propaganda de guerra, agora em maré cheia, é seu absurdo e familiaridade patentes. Estive revendo os filmes de arquivo de Washington nos anos 1950, quando diplomatas, servidores civis e jornalistas sofriam caça às bruxas e foram arruinados pelo senador Joe McCarthy por desafiar as mentirar e paranoia sobre a União Soviética e a China. Como um tumor que ressurge, o culto anti-Rússia retornou.

Na Grã Bretanha, Luke Harding, do Guardian, lidera os odiadores da Rússia de seu jornal, numa corrente de pseudo-jornalismo que atribui a Vladimir Putin toda iniquidade da Terra. Quando o vazamento dos Panama Papers foi publicado, a primeira página falava de Putin e havia uma foto do Putin. Não importa que Putin não fosse mencionado em lugar nenhum nos vazamentos.

Como Milosevic, Putin é o Demônio Número Um. Foi Putin que derrubou um avião da Malásia sobre a Ucrânia. Manchete: “No que me diz respeito, Putin matou meu filho”. Nenhuma evidência foi exigida. Putin foi culpado pelanderrubada, em 2014, do governo eleito em Kiev, executada, segundo está documentado, por Washington. A campanha de terror subsequente, feita pelas milícias fascistas contra a população de língua russa da Ucrânia, foi o resultado da “agressão” de Putin.

Impedir que a Crimeia se tornasse uma base de mísseis da OTAN e proteger a maioria da população russa, que votou num referendo pela reunificação com a Rússia — da qual a Crimeia havia sido separada — foram outros exemplos da “agressão” de Putin. Difamação pela mídia torna-se inevitavelmente guerra pela mídia. Se eclodir uma guerra contra a Rússia, planejada ou por acidente, os jornalistas terão grande parte da responsabilidade.

Nos EUA, a campanha anti-Rússia foi elevada a realidade virtual. Paul Krugman, colunista do New York Times e um economista que recebeu um Prêmio Nobel, chamou Donald Trump de “Candidato siberiano” — porque Trump é um homem de Putin, dizem. Trump ousou sugerir, num raro momento de lucidez, que a guerra com a Rússia pode ser uma má ideia. De fato, ele foi além e tirou o envio de armas norte-americanas à Ucrânia da plataforma do Partido Republicano. “Não seria ótimo se nos déssemos bem com a Rússia”?, perguntou ele.

Essa é a razão por que o establishment liberal belicista o odeia. Seu racismo e arenga demagoga não têm nada a ver com isso. Os registros de racismo e extremismo de Bill e Hillary Clinton podem superar o de Trump qualquer dia. (Nesta semana acontece o 20º aniversário da “reforma” do sistema de bem-estar social de Clinton, que desencadeou uma guerra contra os afro-americanos.) Quanto a Obama: enquanto a polícia norte-americana mata seus companheiros afro-americanos, a grande esperança na Casa Branca nada vez para protegê-los, nada para aliviar seu empobrecimento, enquanto mantém quatro guerras vorazes e uma campanha de assassinatos sem precedentes.

A CIA exigiu que Trump não seja eleito. Os generais do Pentágono exigiram que ele não seja eleito. O pró-guerra New York Times — tomando um fôlego de sua implacável difamação de Putin — exige que ele não seja eleito. Algo acontece. Essas tribunas da “guerra perpétua” estão apavoradas com o fato de que o multibilionário negócio da guerra, pelo qual os Estados Unidos mantêm seu domínio, será abalado se Trump fizer um acordo com Putin, depois com Xi Jinping da China. Seu pânico com a possibilidade do maior poder do mundo falar sobre paz — ainda que improvável — seria a maior das comédias, não fossem as questões tão terríveis.

“Trump adoraria Stalin!”, vociferou o vice-presidente Joe Biden num comício para Hillary Clinton. Com a concordância de Hillary, ele gritou: “Nunca nos dobramos. Nunca nos curvamos. Nunca nos ajoelhamos. Nunca cedemos. É nossa a última palavra. Isso é quem somos. Somos a América”.

Na Grã Bretanha, Jeremy Corbyn também provocou histeria nos guerreadores do Partido Trabalhista e numa mídia empenhada em destruí-lo. Lord West, um ex-almirante e ministro trabalhista, disse bem. Corbyn estava assumindo uma “ultrajante” posição antiguerra “porque leva as massas irracionais a votar com ele”.

Num debate com Owen Smith, que desafia sua liderança no Partido Trabalhista, Corbyn foi questionado pelo moderador: “Como você agiria num caso de violação, por Vladimir Putin, de um estado-membro da OTAN?”

Corbyn respondeu: “Para começar, seria preciso tentar evitar que isso acontecesse. Construiria um bom diálogo com a Rússia… Tentaríamos introduzir uma desmilitarização das fronteiras entre a Rússia, a Ucrânia e os outros países entre a Rússia e a Europa Oriental. O que não podemos permitir é uma catastrófica série de aumentos das tropas em ambos os lados, que só podem nos levar a um grande perigo.”

Pressionado a dizer se ele autorizaria uma guerra contra a Rússia “se você tivesse que”, Corbyn respondeu: “Não pretendo ir à guerra — o que desejo é chegar a um mundo em que não precisemos fazer guerra”.

A linha das perguntas deve muito à ascensão dos guerreadores liberais na Grã Bretanha. O Partido Trabalhista e a mídia ofereceram a eles muitas oportunidades de carreira. Por algum tempo, o tsunami moral do grande crime do Iraque deixou-os se debatendo. Suas inverdades foram um constrangimento temporário. A despeito do Relatório Chilcot e a montanha de fatos comprometedores, o ex-ministro Tony Blair continua a ser sua inspiração, porque ele teria sido um “vencedor”.

O jornalismo e os acadêmicos dissidentes têm sido, desde então, banidos; e as ideias democráticas, esvaziadas e preenchidas com “políticas identitárias”, que confundem gênero com feminismo e angústia pública com liberação, enquanto ignoram intencionalmente a violência de Estado e os lucrativos armamentos que destroem incontáveis vidas em lugares distantes, como o Iêmen e a Síria — e acenam para uma guerra nuclear na Europa e através do mundo.

O mobilização comovente de pessoas de todas as idades em torno da espetacular ascensão de Jeremy Corbyn antecipa isso, até certo ponto. Sua vida foi dedicada a iluminar o horror da guerra. O problema para Corbyn e seus apoiadores é o Partido Trabalhista. Nos EUA, o problema dos milhares de seguidores de Bernie Sanders era o Partido Democrata, para não falar da sua traição final por sua grande esperança branca.

Nos Estados Unidos, morada dos grandes movimentos de direitos civis e antiguerra, são o Black Lives Matter e as mulheres pela paz do Codepink que estabelecem as bases para uma versão moderna destas lutas.

Pois somente um movimento que ocupe cada rua e atravesse fronteiras e não desista pode deter os belicistas. No ano que vem, completará um século desde que Wilfred Owen escreveu algo que todo jornalista deveria ler e lembrar.

Se você pudesse ouvir, a cada sobressalto, o sangue
Vir borbulhando dos pulmões de espuma corrompida
Obsceno como câncer, amargo como o que se regurgita
De chagas vis, incuráveis em línguas inocentes,
Meu amigo, você não iria contar com tanto entusiasmo
Às crianças ardentes por alguma glória desesperada,
A velha mentira: Dulce et decorum est
Pro patria mori.

 Tradução de Inês Castilho.
John Pilger, do site Outras Palavras
No Blog do Miro

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