2 de ago de 2016

Qual a prioridade? O banqueiro bilionário ou a criança faminta?

Por que existem alguns poucos bilionários no Brasil enquanto muitas outras pessoas passam fome?

Esses bilionários trabalham mais que os demais? Ou são mais inteligentes? Eles merecem suas fortunas? É uma questão de sorte?

Por que existem pessoas que trabalham muito durante toda a sua vida, vários são até considerados bem inteligentes, e mesmo assim não chegam nem perto de se tornarem milionários?

Por que algumas dessas pessoas, mesmo trabalhando muito e sendo capacitadas, vivem em condições precárias de vida?

Por que mendigos morrem de frio em frente a prédios com dezenas de apartamentos desocupados?

Essas perguntas, a princípio, possuem respostas bastante complexas, certo?

Pois é, mas há alguns dias eu estava folheando a revista do CREA/RS, edição de maio/junho de 2016, e me deparei com o seguinte gráfico representativo dos gastos do orçamento público brasileiro:



Só olhando para ele salta aos olhos a maior parte de todas as respostas para as perguntas que fiz acima. É tão flagrante que chega a ser constrangedor.

Suponha que você fosse eleito para administrar o orçamento público e recebesse a informação que estava faltando dinheiro para os serviços básicos. Suponha ainda que você não tenha nenhuma noção de administração e finanças, e te mostrassem esse gráfico acima. Por onde devemos começar a mexer para ajustar o orçamento? Qual item é o mais crítico?

Uma criança seria capaz de responder facilmente a pergunta, é tão lógico que chega a ser infantil. Mas então por que só ouvimos os nossos governantes e nossos jornais citarem o “rombo” da previdência, o gasto com saúde, educação, programas sociais e quase nunca ouvimos falar em auditoria e renegociação da dívida pública?

Em resumo, praticamente metade de todo o nosso orçamento está indo para as mãos de banqueiros e especuladores financeiros, limpo, “legalmente”, enquanto crianças não têm acesso à educação básica e enquanto cidadãos que trabalharam a vida inteira estão morrendo nas filas de hospitais públicos sem atendimento. Esse tipo de gráfico explica em grande parte porque 0,9% dos brasileiros detêm 60% da riqueza do país. Veja bem: 46% para a tal dívida, enquanto a menos de 4% vai para a saúde e educação e pouco mais de 20% vai para custear a tão “badalada” Previdência Social.

Embora houve várias políticas inclusivas nos últimos anos e houve uma ascensão na renda das classes mais baixas da pirâmide social, nem o Presidente FHC, nem o Presidente Lula e nem a Presidenta Dilma tomaram qualquer atitude ou protagonizaram qualquer política para mexer nos privilégios dos poucos e riquíssimos brasileiros que se beneficiam da dívida pública para enriquecer sem produzir um único pirulito sequer. Nenhum deles jamais pensou em auditar essa grotesca e injusta dívida ou em taxar grandes fortunas. O fato de todos eles terem tido suas campanhas financiadas por grandes bancos e agentes financeiros deve ser pura coincidência.

Com o Sr. Michel Temer e sua “ponte para o futuro” obviamente não preciso nem dizer que não há possibilidade nenhuma de avanço nesse sentido. Os primeiros discursos de seus ministros apontam como ações para resolver o problema do orçamento público a Reforma da Previdência (fazendo novamente o trabalhador assalariado pagar a conta, se possível trabalhando e “contribuindo” até o dia de sua morte) ou então a genial “desvinculação de gastos públicos”, que retira a obrigatoriedade de reservar uma parte do orçamento para um determinado fim, como saúde e educação. Na prática, acabará diminuindo ainda mais os recursos para essas áreas, sucateando ainda mais a saúde e educação públicas, como ilustra bem a reportagem da BBC no link a seguir: http://www.bbc.com/portuguese/brasil/2016/05/160517_desvinculacao_saude_ab.

O fato das grandes empresas de planos de saúde serem também grandes financiadores de campanhas, inclusive os maiores financiadores das últimas campanhas do novo Ministro da Saúde Ricardo Barros, também deve ser pura coincidência.

Mas e nossa imprensa, por que continuam dizendo que a Previdência Social é o grande vilão do orçamento? (Veja você mesmo como o site da Rede Globo trata a questão do que chamam de “rombo” da Previdência: http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/05/sem-mudar-fator-previdenciario-deficit-do-inss-ja-iria-r-7-tri-em-2060.html.

Por que as poucas família que controlam toda a nossa mídia (jornais, TVs, rádios e revistas) querem que os assalariados trabalhem até a morte e não discutem com clareza assuntos importantes como auditoria ou renegociação da dívida, ou ainda taxação de grandes fortunas? Por que os especuladores financeiros e donos de bancos continuam comprando seus helicópteros, lanchas e carros de luxo às custas do sangue da grande maioria da população e não há um Globo Repórter especial para denunciar esse escândalo?

Não vou responder a pergunta. Vou apenas citar alguns fatos abaixo e deixar que cada um chegue às próprias conclusões:

— Segundo a Revista Forbes, conforme publicação de 2014, a família Marinho, dona da Rede Globo, é a família mais rica do Brasil, com uma fortuna estimada em quase 30 bilhões de dólares: http://www.valor.com.br/empresas/3547766/familia-marinho-e-mais-rica-do-brasil-diz-forbes.

— Segundo reportagem da Revista Carta Capital, em 2015, mesmo com a crise financeira, o Grupo Globo aumentou seu lucro líquido, saltando para mais de 3 bilhões de reais, e grande parte desse lucro foi conseguido com o “mercado financeiro”, especialmente com a vulnerabilidade do câmbio e com a subida da taxa básica de juros. A reportagem é excelente e recomendo que tirem um tempo para leitura: http://www.cartacapital.com.br/blogs/intervozes/em-meio-a-crise-economica-globo-tem-lucro-liquido-superior-a-r-3-bi.

— A TV Globo vendeu mais de 3 bilhões de reis em cotas comerciais para 2006. Entre os seus principais parceiros estão os Bancos Itaú, Santander e Bradesco: http://propmark.com.br/midia/globo-vende-mais-de-r-3-bilhoes-de-cotas-comerciais-para-2016.

Enfim, como disse antes, são só fatos. Cada um pode ligá-los como achar mais adequado.

Mas vou terminar o texto exatamente como comecei, com algumas perguntas para reflexão:

Será que a regulação da mídia e o controle de propriedade dos meios de comunicação, evitando o monopólio e a acumulação de meios por uma mesma família, como existe em quase todos os países desenvolvidos do mundo, pode ser considerado censura ou ataque à liberdade de imprensa?

Será que uma mídia mais diversificada e plural, com espaços para organizações públicas e não governamentais, não seria muito bom para o desenvolvimento da nossa sociedade e para uma participação mais ampla da mesma em temas polêmicos e importantes?

Será que são os políticos os únicos culpados pela pobreza, miséria, fome e violência existentes na sociedade brasileira?

Até onde pode chegar a ganância e o egoísmo em um ser humano?

“Quanto vale a vida”?

Até quando usarão a tal “meritocracia” para explicar o inexplicável e para justificar injustiças flagrantes?

A quem interessa que sejamos tão divididos?

Daniel Rech
No Francamente

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