21 de ago de 2016

Os Jogos

Na capa de uma revista “New Yorker” recente aparecem quatro atletas numa pista de corridas, correndo. A referência clara é à Olimpíada, uma simpática homenagem da revista, pensa você, aos Jogos no Rio. Mas um exame mais demorado da capa revela que os quatro atletas não estão competindo numa prova, estão fugindo, em pânico, de uma nuvem de mosquitos, supostamente portadores do vírus da zika. Entre todas as previsões dos riscos de realizar a primeira Olimpíada num país da América do Sul, e logo um país em crise, a mais catastrófica — mais do que assalto ou desorganização — era a do contágio por picada de mosquito. Houve assaltos e alguma desorganização, mas os mosquitos não atacaram, e a Olimpíada chega ao fim como um sucesso inegável. Eta Rio.

A cobertura dos Jogos feita pela nossa mídia — descontados alguns excessos de entusiasmo não justificados pela atuação dos nossos atletas, que, mesmo assim, não deram vexame — foi ótima. O difícil era decidir o que ver. Entre o pingue-pongue e o hipismo, a escolha era grande. Alguns esportes aos quais nunca se tinha prestado muita atenção por aqui foram revelações. Exemplo: o handebol, uma mistura de basquete, futebol e judô. E acho que o badminton (tênis com peteca), a esgrima e o hóquei sobre grama poderiam fazer uma Olimpíada à parte, só dos chatos. No caso do polo aquático, outro que pode competir na Olimpíada dos Chatos, o que impressiona é a vitalidade dos jogadores, obrigados a se manter à tona, controlando a bola e ao mesmo tempo tentando se proteger da marcação do adversário, o que, presumivelmente, inclui pontapés, puxões no calção e outros acontecimentos abaixo da linha da água que o juiz não pode ver.

Mas eu fico falando mal de esportes que não me interessam sem medir as consequências dos meus preconceitos. Se eu aparecer um dia com uma peteca na boca, marcas de golpes com um taco de hóquei sobre a grama por todo o corpo, trespassado por um sabre e todo molhado, saberão por quê.

Luís Fernando Veríssimo

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