17 de ago de 2016

O Uruguai não está à venda: Serra precisa ser demitido antes que provoque um incidente diplomático insolúvel

FHC e Serra cercam o presidente do Uruguai Tabaré Vásquez
De todas as barbeiragens que o interino cometeu na montagem de sua equipe, a nomeação de José Serra deve lhe provocar as maiores urticárias.

Serra é uma bomba relógio de proporções continentais. A chamada liabilty.

Dias depois de ser citado na delação da Odebrecht, acusado de receber 23 milhões de reais em caixa 2, o chanceler se meteu — ou nos meteu — num incidente diplomático vergonhoso.

Seu homólogo uruguaio, Rodolfo Novoa, conta que ele tentou “comprar o voto” do Uruguai para impedir que a Venezuela assumisse a presidência pro tempore do Mercosul.

Serra, segundo ele, se ofereceu para levá-lo a negociações comerciais com países da África subsaariana e o Irã. Irrecusável.

A história foi publicada no jornal El Pais, que teve acesso ao conteúdo de uma reunião de Novoa com deputados. Novoa ainda reafirmou a posição de seu governo, de que a Venezuela ocupa legitimamente a presidência do Mercosul, e acusou Brasil e Paraguai de fazer “bullying” com aquele país.

O suborno teria sido proposto numa visita de Serra e Fernando Henrique Cardoso a Montevidéu no dia 5 de julho, quando a dupla foi se encontrar com o presidente Tabaré Vásquez.

Apanhado em flagrante, acusado por um colega que, provavelmente, considerava mais um mané, Serra reagiu atacando: convocou o embaixador uruguaio, Carlos Daniel Amorín-Tenconi, a dar explicações.

Mas ele também terá que se explicar. Na Câmara, o líder do PT, Afonso Florence, protocolou um requerimento para que JS fale “pessoalmente”, no plenário, sobre o imbroglio.

Serra é um elemento desagradável e desagregador que sobrevive apenas graças a uma blindagem calamitosa da mídia e do Judiciário.

O absurdo do posto que ele ocupa pode ser resumido da seguinte maneira: como é que um sujeito que não tem amigos e não conhece seus vizinhos ocupa um cargo na diplomacia dessa magnitude?

Serra dividiu o PSDB com sua estratégia do tudo ou nada. Preparou dossiês, por exemplo, contra seu arqui inimigo Aécio Neves. É o mentor de um artigo clássico contra Aécio publicado no Estadão, chamado “Pó Pará, Governador”.

Um ex-assessor dele conta que, em campanha, Serra se recusava a pagar uma pizza para os motoristas que aguardavam os figurões nos comitês.

Montado na ilegitimidade do golpe e de quem o financia, Serra procura mostrar serviço cantando de galo com os “bolivarianos”. Enquanto late com eles, com a desculpa de realinhamento geopolítico ou uma idiotice do gênero, distribui passaportes diplomáticos para pastores evangélicos.

É inacreditável e, ao mesmo tempo, sintomático que esse bando desmoralizado internacionalmente ache que pode dar uma de gigante imperialista.

Serra e FHC quiseram usar o método que consagraram: a compra de votos. O Uruguai, infelizmente para eles, não está à venda.

Requião resumiu bem a palhaçada em discurso no Senado. “Quero pedir desculpas ao Uruguai pelo comportamento absolutamente indevido do chanceler e da chancelaria brasileira. Está transformando a política externa do Brasil em chacota com uma intervenção absolutamente sem sentido”, disse.

“É uma proeza. José Serra é um gênio: conseguiu brigar com o Uruguai. O Brasil não merece o que estamos vendo hoje na nossa política externa”.

Kiko Nogueira
No DCM

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