13 de ago de 2016

O preço daquilo que é de graça


Com certa frequência, tem sido observada a retirada de conteúdo e usuários das redes sociais (Facebook e Twitter, em particular). Em princípio, o material removido infringiria as regras de conduta estipuladas pelas empresas. Como empresas particulares, qualquer rede social pode estipular suas regras. O que tem sido notado, no entanto, são critérios pouco claros daquilo que pode ou não ser postado na rede social e, aparentemente, denúncias em massa são suficientes para remover um conteúdo ou derrubar uma página ou usuário.

Fiquemos com o exemplo do Facebook. A rede possui mais de um bilhão de usuários. Façamos uma estimativa conservadora: se 0,001% dos usuários decidirem fazer uma denúncia, serão 1 milhão de ocorrências que o Facebook deverá analisar. Segundo o Facebook, são aproximadamente 15.000 funcionários na empresa. Imagino que somente pequena parte desses funcionários trabalhe na análise de denúncias, o que se mostra evidentemente insuficiente para dar vazão à demanda de análises. Podemos imaginar que empresas terceirizadas são contratadas para fazer esse trabalho. Ainda assim, seriam necessárias milhares de pessoas contratadas dessa forma para analisar todas as denúncias, nos diversos idiomas presentes na rede social. Do ponto de vista de negócio, parece-me improvável que Mark invista tanto assim em mão de obra, já que ele é uma pessoa cujo objetivo é criar tecnologia e nesse caso, ele investirá em engenheiros e profissionais que trabalhem para a empresa inovar constantemente. Analisar denúncias não é algo que pode reverter em valor, em principio. Como resolver essa questão?

Enquanto profissional da computação, eu  sugeriria um critério de automatização para as denúncias. O mais simples, seria definir um número limite de denúncias: chegou à determinado número, o conteúdo é removido. Algo mais elaborado pode ser implementado, utilizando Inteligência Artificial para identificar padrões de denúncias que resultaram em remoção de conteúdo. Após analisar dezenas de milhares de casos que de fato foram removidos após análise, o algoritmo poderia identificar uma regra e aplicar a remoção nas denúncias que seguirem esse padrão. Essa regra poderia levar em conta análise de variáveis como frequência de denúncias, origem das denúncias, histórico de denúncias dos responsável, etc. Esta é uma explicação bem superficial de como poderia ser feito, mas dada a tecnologia disponível no Facebook, algo nesse sentido certamente já deve ter sido implementado.

Não é difícil imaginar que o processo de fato para a remoção de conteúdo do Facebook é automatizado e, na maior parte dos casos, não envolve decisão humana direta.

E por que o Facebook removeria conteúdo considerado “inadequado”?  Porque, além de ser uma rede social, ele é uma ferramenta de marketing. Talvez a maior ferramenta de marketing já criada. Através das informações que disponibilizamos de boa vontade ao Facebook, ele propicia a oportunidade para criação de campanhas publicitárias diretamente ao público definido: localização, idade, gênero, religião, posição política, nível de escolaridade, todos esses elementos podem ser usados para direcionar os anúncios. Se houver conteúdo que incomode ou desestimule a presença do usuário na rede social, isso potencialmente afeta o alcance das campanhas e pode afastar anunciantes. Como resolver? Removendo tudo aquilo que incomoda os usuários, para que seja criado um “espaço seguro”.

Nesse cenário, podemos concluir que o Facebook não é uma ferramenta adequada para debate político, por exemplo, dado que a opinião contrária sempre é “ofensiva” e está sujeita à denúncia. E, sabendo que o método de remoção dos conteúdos é automático, basta uma mobilização daqueles que não concordam com o conteúdo para que seja removido da rede. Isso aconteceu recentemente tanto com páginas “de direita” e “de esquerda”, além de páginas “de centro”, que criticavam ambos os extremos. Os chamados “Padrões de Comunidades” são tão vagos que qualquer conteúdo pode ser considerado como violação dos padrões.

O que nos leva a refletir: as redes sociais talvez não sejam espaços para discussão de fato em alto nível. Elas são, primariamente, fonte de entretenimento, “espaços seguros” nos quais é possível ficar horas e horas sem se sentir ofendido e que querem reter sua “audiência” para que haja mais público alcançado pelas campanhas publicitárias. O compromisso com a liberdade de ideias parece ser uma retórica vazia, apenas para atrair seus usuários.

O slogan “É gratuito. Sempre será.” não é exatamente verdade. Ou sua liberdade de expressar ideias não tem valor?

José Paulo R. de Lima, Paulista de Jundiaí, é empresário da área de TI e professor de colégio técnico da área de informática. Possui graduação em sistemas de informação (EACH-USP) e mestrado em ciências pelo PPgSI (EACH-USP).
Fã de ficção científica, espera que a humanidade alcance os parâmetros sociais apresentados em Star Trek.
Também coleciona quadrinhos e adora viajar com sua esposa.
No Bule Voador

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