23 de ago de 2016

O homem por trás dos ataques virtuais ao ministro Barroso

Responsável pelo site "Vetorm.com", que denunciou offshore da esposa do ministro do STF, é ligado ao PSDB do Paraná. Ari Cristiano Nogueira já foi condenado por usar ONG para atacar adversários políticos. Publicações contra Barroso revelam a intenção de vê-lo fora da Lava Jato


Desde o final de 2015, quando encabeçou uma discussão no Supremo Tribunal Federal que fez a maioria da Corte invalidar a comissão especial do impeachment da Câmara contra Dilma Rousseff, o ministro Luis Roberto Barroso virou alvo preferencial de uma série de textos publicados no site Vetorm.com.

O sítio já abordou a existência de uma offshore nos Estados Unidos em nome da esposa de Barroso, a renovação de um contrato entre a Eletronorte e o escritório de advocacia do pai do ministro, a relação de pessoas de sua família com empresas investigadas pela Operação Lava Jato, entre outros temas que, em tese, denotam falta de “ética e imparcialidade” por parte do magistrado.

Nas últimas semanas, contando com o apoio dos blogueiros de Veja, o portal praticamente passou a fazer campanha para que Barroso seja expulso do STF por ter “favorecido” Dilma ou, no mínimo, impedido de tomar qualquer decisão no âmbito da Operação Lava Jato. Em alguns textos, há pedidos diretos para que ele se declare “suspeito”. Todas as publicações são feitas sem a assinatura de um responsável pelas informações.

Com ajuda de um especialista em web, o GGN descobriu que o Vetorm.com — ou Vetor Mil Documento e Informação — está hospedado na cidade de Davis, na Califórnia (EUA). O registro foi feito em setembro de 2012, com apoio do servidor de DNS da Oi Soluções Empresas, em nome de Ari Cristiano Nogueira. 


LIGAÇÕES COM PSDB

Ari Cristiano Nogueira é ex-assessor parlamentar do deputado federal licenciado Valdir Luiz Rossoni (PSDB), atual secretário-chefe da Casa Civil do governo do Paraná. Segundo os dados levantados pela reportagem, Ari mora em Curitiba, capital federal da Lava Jato.

Ari virou destaque na Gazeta do Povo e outros jornais quando foi denunciado por procuradores estaduais por integrar uma lista de funcionários fantasmas que Rossoni cultivava na Assembleia Legislativa do Paraná desde a década de 1990. O prejuízo aos cofres públicos passou da casa dos R$ 700 mil. Em maio passado, o tucano teve R$ 2,3 milhões em bens bloqueados em função do processo.

Em agosto de 2013, ano das manifestações contra o reajuste das tarifas de transporte público coletivo, André Barrocal, repórter da CartaCapital, revelou que Ari Cristiano Nogueira usava o codinome Ary Kara para convocar grupos de direita para atos que ficaram conhecidos como “Operação Sete de Setembro”.

“Até junho de 2012, [Ari] era assessor do presidente do partido no Paraná [Rossoni], como contratado na Assembleia. Deixou o gabinete para trabalhar na campanha à reeleição do então prefeito de Curitiba, Luciano Ducci, que concluía o mandato herdado em 2010 do atual governador do Paraná, o tucano Beto Richa (PSDB).”

Contra Ari consta na Procuradoria Regional Eleitoral do Rio de Janeiro uma condenação por usar a ONG Brazil No Corrupt – Mãos Limpas, da qual é proprietário, para fazer propaganda irregular e atacar adversários dos deputados Jair Bolsonaro e Flávio Bolsonaro. Em 2011, essa mesma ONG foi usada para criar nas redes sociais uma campanha contra o PT no julgamento do mensalão. Um dos atuais alvos do site é o deputado federal Wadih Damous (PT), defendor de Dilma no impeachment junto a OEA (Organização dos Estados Americanos).

Em meados de 2016, Nogueira foi convocado para assumir o cargo de assistente administrativo da Junta Comercial do Paraná.

ANONIMATO

Em janeiro, quando publicou que a esposa do ministro Barroso é suposta dona de uma offshore nos Estados Unidos, o Vetorm.com foi enquadrado pelo jornalista Carlos Newton, do Tribuna da Internet, que criticou a falta de transparência. Newton vinha acompanhando e endossando as denúncias contra Barroso desde a decisão do STF que "beneficiou" Dilma no impeachment, mas achou muito baixo um ataque sem que a fonte de informação tivesse dono.

Em resposta, o Vetorm.com sustentou que não usa "anonimato" para atacar Barroso, “tanto que é uma empresa constituída no Brasil em parceria com outro ex-jornalista do UOL, Globo e Gazeta do Povo da empresa Politika.” Dados do site apontam que esse jornalista seria Marcus V. R. Gomes, que também vive em Curitiba.

O site ainda se orgulha de, em meados de 2011, ter compartilhado "o inquérito da Monte Carlo na íntegra, porém por meio de um blog (vetormil.blogspot.com).”

“(...) Sobre o caso Barroso, não finalizamos a série de reportagens, não fizemos juízo da legalidade ou ilegalidade dos atos do ministro do STF. Nossa opinião não foi colocada”, sustentou o portal, em absoluta contrariedade com o que se lê nas postagens que citam o ministro do Supremo [veja levantamento abaixo]."

Ao final da nota, o Vetorm.com ainda apontou que estuda encaminhar “ao Ministério Publico, CNJ [Conselho Nacional de Justiça] ou a quem interessar” a documentação que tem juntado contra Barroso, “para que se investigue se existem ilegalidades nos atos do ministro.”

A ESCALADA CONTRA BARROSO

O GGN levantou as principais investidas contra Barroso desde dezembro de 2015, quando o STF decidiu, a partir do julgamento da ADPF 378, que a comissão especial do impeachment eleita sob voto secreto, em sessão liderada por Eduardo Cunha (PMDB), era inválida, entre outros pontos. Foi um verdadeiro massacre:

22/12/2015 – Augusto Nunes, na Veja, chama Barroso de “vigarista”. Cita matéria do Portal Vox e um vídeo da sessão do STF sobre o rito do impeachment, afirmando que o ministro escondeu deliberadamente um trecho do regimento interno da Câmara que permite o voto secreto em eleições internas. Resultado da discussão no Supremo fez a Câmara criar uma nova comissão especial do impeachment. Juristas criticaram Barroso por intervir nas competências do Legislativo e levar os demais ministros a erro.

Na mesma semana, outro colaborador de Veja disse que tinha "nojo" de Barroso em programa de rádio, e perguntou ao ministro se ele "está pensando que o País é o seu grupinho em Ipanema, Copacabana ou Leblon". O mesmo defendeu o impeachment de Barroso no Senado. "Supremo não existe para fazer julgamento de mérito das coisas. Vai catar coquinho!", disparou.


31/12/2015“Esposa de ministro do STF Luis Roberto Barroso abre Offshore com nome de solteira”. Primeira matéria do Vetorm.com, sem assinatura, contra Barroso, noticiando que Tereza Cristina Van Brussel Barroso abriu, em junho de 2014, a offshore Telube Florida, LCC, registrada nos Estados Unidos. O texto sugere que no endereço da offshore, numa “ilha paradisíaca”, existe um imóvel supostamente de Barroso e sua esposa que merece investigação. “Acreditamos que a esposa de Barroso declarou ao Banco Central a Offshore e os recursos recebidos em 2014 e 2015, caso contrário o ministro está muito encrencado." 

2/1/2016 “Esposa do ministro Barroso compartilha vídeo para sociedade se mobilizar pelo impeachment de Dilma”. No texto, Vetorm.com diz que "chamou a atenção que o mesmo vídeo fala sobre chantagens e ameaças entre os poderes. Qual seria o motivo para a esposa do Ministro abrir uma Offshore e adquirir um imóvel na ilha de Key Biscayne ( Miami ) nos Estados Unidos? Temos muitas perguntas para poucas repostas…”

3/1/2016“Governo Dilma renovou dia 29/12 contrato com empresa do pai de Barroso 12 dias após decisão sobre impeachment.” Texto mostra página do Diário Oficial da União, do dia 29 de dezembro de 2015, registrando um aditivo contratual entre a Barroso Fontelles, Barcellos, Mendonça & Associados e a Eletronorte. O Vetorm.com insinua que Barroso segue fazendo parte do quadro societário da empresa de seu pai e, portanto, é beneficiado pelo contrato com a estatal. Caso foi abordado pelo GGN.

6/1/2016 – Portal “Tribuna da Internet” acusa Vetorm.com de atuar no anonimato para atacar Barroso, condição que faz o ministro uma “vítima”. "O site Vetor.com está vivendo seus quinze minutos de fama, ao expor o ministro Barroso e sua família", escreveu o jornalista Carlos Newton Leitão de Azevedo, que também usou a Tribuna para denunciar Barroso e Ricardo Lewandowski em relação ao impeachment.

No mesmo texto, Newton elogia jornalistas como Felipe Moura e Augusto Nunes por serem os únicos da grande mídia que estão “mantendo fogo sobre Barroso”. 

12/1/2016“Construtora da sogra de Barroso nas obras da Odebrecht e Braskem, alvos da Lava Jato”. Diz o texto: “A família do Ministro do STF volta ao centro das nossas atenções devido as relações comerciais com alguns réus da Lava Jato. A grande imprensa montou uma blindagem a essas relações que nos causou estranheza, pois acreditamos que não existe ilegalidade se o ministro não atuar no caso conhecido também como Petrolão/ Eletrolão”, em clara demonstração de que as investidas têm o objetivo de tirar Barroso da Lava Jato.

21/2/2016 – Mesa do Senado recebe pedido de impeachment de Barroso por erro no julgamento da ADPF 378. Autor é leitor assíduo do portal Tribuna da Internet.

21/2/2016 “Patrícia Barroso no Arraial da Borghi Lowe e o Ministro Novato do STF – Lava Jato”. Matéria insinua que a delação da Borghi Lowe na Lava Jato não vazou porque a executiva de Contas de Publicidade da empresa era Patricia Barroso, prima do ministro. “Patricia é filha de Jorge Barroso, o saudoso Jorginho da UNB, que é irmão do pai do ministro que assumiu os contratos com o governo Dilma após Barroso ser nomeado ao STF, que já foi polêmico e no mínimo suspeito.”


"O irmão da esposa do ministro Barroso, João Miguel Van Brussel Telles (...) é gerente da Ecovix – Engevix Construções Oceânicas desde 2011. Antes disso, era chefão no EAS-Estaleiro Atlântico Sul da Queiroz Galvão e Camargo Corrêa. (...) Com as ligações do ministro Barroso com alvos da Lava Jato e seus familiares envolvidos com investigados e condenados, começo a me perguntar se ele não deveria renunciar ao cargo de ministro."

30/3/2016 Vetorm.com republica O Antagonista, denunciando que um dos defensores de Dilma no processo do impeachment é o advogado Ricardo Ribeiro Lodi. “Lodi foi apresentado aos deputados como ‘professor da Uerj’, mas ele é também sócio do escritório de advocacia Barroso Fontelles, Barcellos, Mendonça e Associados. Antes, o escritório se chamava Luís Roberto Barroso e Associados – Escritório de Advocacia. Ao assumir a cadeira no Supremo, o ministro Luís Barroso mudou o nome da banca e a entregou ao sobrinho Rafael.”

Os ataques obedeceram ao velho estratagema de levantar ilações sobre qualquer fato, que em princípio não teriam qualquer relevância, visando criar um clima de suspeição contra as vítimas.

Cíntia Alves
No GGN

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