7 de ago de 2016

Novos musicais

Já fizeram musicais sobre a Evita Perón, Os Miseráveis, de Victor Hugo, os poemas de T.S. Eliot sobre gatos e o naufrágio do Titanic, e uma ópera sobre o encontro do Richard Nixon com o Mao Tsé-tung. Não demora e aparecerá em alguma marquise Das Kapital – O Musical. Por que não? Na verdade, não há nada — salvo, talvez, O Livro dos Mortos — que não possa ser musicado, coreografado e posto num palco.

Já posso imaginar até a abertura de Das Kapital, com o coro cantando “Cogito, ergo — som!”, e entra a orquestra. Uma canção que a namorada abandonada do Ser canta para seu retrato: “O ser em si, o ser para si — e você” O plangente Fenomologia Blues, cantado pelo Ser, quando tudo parece perdido e o Nada vencerá. Interlúdios cômicos, como três sapateadores cantando Husserl, Hegel e Heidegger:

“Somos Husserl, Hegel e Heidegger

Rapazes que ruminam a razão.

Como róbi refletimos

E raramente rimos

Ajuda se você for alemão”.

Alguns musicais dariam mais trabalho. O Novo Dicionário da Língua Portuguesa teria um título pronto: Aurelião!, e algumas frases para a publicidade do espetáculo: “Ação, beleza, conflitos... e xifódimo e zurzidela também. Tudo está em Aurelião! Da Bíblia, já usaram a vida de Cristo para um bom musical, por que não fazer algo com a história de Noé e sua arca? Noé recebendo os pares de bichos no topo da rampa e orientando sua distribuição dentro da arca, cantando uma adaptação de São dois pra lá, dois pra cá, de João Bosco e Aldir Blanc. Haveria um fantástico número de dança com toda a companhia no convés com o efeito devastador da valsa dos elefantes.

Uma ópera-rock sobre Adão e Eva. Adão para Eva, num momento de irritação:

“Me chateias

Me agrides

Me enches

Me esgoelas...

Cuidado, mulher,

Eu tenho outras costelas”.

Jane para Tarzan, num musical sobre a dupla:

“Fico louca com seus músculos

Sobre cada tendão escreveria

opúsculos

Sua cabeleira revolta

E sua tanga semissolta

E esse seu jeito, Tarzan,

De virar a cabeça e dizer ‘Ahn?’.

Acima de tudo amo seu grito

Esse selvagem bramido

Mas por favor – não no

meu ouvido”.

Luís Fernando Veríssimo

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