14 de ago de 2016

Na ponta da língua

Muitos mitos da seleção brasileira de 70 não resistiram ao tempo. Ou foram desmentidos ou foram convenientemente esquecidos. João Saldanha disse ou não disse que cortaria o Pelé da lista porque o Pelé era míope? Largou a seleção porque os militares no poder, a começar pelo presidente Médici, estavam se intrometendo demais no seu trabalho, ou não foi bem assim? Não importa. O que deixou mais saudades — porque nunca tinha acontecido antes e nunca mais se repetiu — foi a simples anunciação pelo Saldanha, como primeiro ato da sua regência, do time que ele tinha na cabeça, do goleiro ao ponta-esquerda. O time que acabou ganhando no México não foi o do Saldanha, foi o do Zagallo, mas isso também não interessa. O fato é que, entre o time da ponta da língua do Saldanha e o que jogou no México, entraram as circunstâncias, essas serpentinas em que a gente vive se enredando.

Hoje, não existe mais a escalação espontânea como a do Saldanha. O futebol mudou no campo (nem ponta-esquerda existe mais) e fora dele. Ninguém consegue acompanhar o que os jogadores brasileiros fazem no exterior para merecer a seleção. Em alguns casos, são jogadores que saíram daqui desconhecidos e só se destacaram lá fora, ou só são conhecidos por quem acompanha, por exemplo, o futebol turco ou árabe. Não são mais da nossa vizinhança. O Brasil de 70, com Médici e tudo, era um pouco mais íntimo. E na falta do time mais ou menos óbvio, na falta do time da ponta da língua, o que se vê é isso: uma seleção em constante experimentação. Como essa da Olimpíada, formada por jogadores que aqui mal se conhece.

O bom mesmo

Faz parte do folclore do futebol brasileiro, e da conversa de boteco, a figura do “Bom mesmo”, como na frase “Vocês ficam aí falando no Pelé, mas bom mesmo era...”. E vem o nome de algum contemporâneo do Pelé, que só não teve a mesma fama por uma dessas injustiças da vida. Geralmente, quem invoca o Bom Mesmo quer mostrar que tem uma percepção mais rarefeita do futebol do que os outros, ou apenas melhor memória. Velhos torcedores do Vasco da Gama garantem que o maior craque que já passou pelo time foi um chamado Ipojucan, que não teve o reconhecimento e a posteridade que merecia. E há quem insista que o grande jogador brasileiro da época em que o mais festejado era o Pelé, o Bom Mesmo, era o mineiro Dirceu Lopes — que seria outro injustiçado pelo tempo. Já que nenhum julgamento definitivo é possível e nenhum palpite sobre quem era e quem não era o Bom Mesmo pode ser provado, esta é uma conversa sem fim. Como todas as boas conversas de boteco.

Seleção X seleção

Outra especulação inútil, mas irresistível, é: qual seria o resultado do encontro entre seleções brasileiras de diferentes épocas? Muita gente opina que os dois melhores times do Brasil de todos os tempos foram justamente os das nossas duas derrotas mais inesquecíveis, a seleção de 50 e a de 82 – esquecendo-se, por misericórdia, os 7 a 1 de 2014. Um jogo da seleção de 58 com a seleção de 70 seria um encontro de Pelés, o Pelé com 17 anos e o Pelé com quase 30. Um Pelé começando e um Pelé experiente. Time por time, sei não. Uma comparação jogador a jogador não seria fácil, fora obviedades como o Nilton Santos comparado com o Everaldo. Já a superioridade do Garrincha sobre o Jairzinho, levando-se em conta o que o Jairzinho jogou no México, não seria tão grande assim, mesmo o Garrincha sendo incomparável. Em outros casos, nem caberia comparação. Vavá e Tostão? Tostão, claro. Rivellino também era um falso ponteiro, como o Zagallo, mas tinha os recursos do drible curto e do chute forte que Zagallo não tinha. Enfim, quem ganharia? Acho que o jogo seria decidido por um dos dois Pelés. Eu apostaria no Pelé maduro.

Luís Fernando Veríssimo

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