10 de ago de 2016

Manual Prático do Filósofo Amador #3


Buda e Rolling Stones  —  A arte de ter satisfação

Dediquei duas semanas da minha vida a um curso no Coursera com o mestre budista e neurocientista Robert Wright, que numa de suas aulas disse não conhecer melhor metáfora para nossa situação no mundo do que a música Satisfaction, dos Rolling Stones. Não conseguir satisfação não nos impede de tentar e tentar e tentar. A palavra “sofri­men­to”, centro do contexto budista, é tradução do sânscri­to dukkha, cujo significado aproximado seria o de “insatisfação”. Buda e Rolling Stones, quem diria, têm muito em comum.

Vou abrir um parênteses para aqueles que não estão familiarizados com a ideia do budismo. Embora seguido por milhões de fiéis, o budismo cruza a linha da religião e entra no campo da filosofia por se ater em questões que vão além da fé. Na verdade pensamos no budismo como uma coisa única, assim como o cristianismo, que mesmo com suas variáveis segue mais ou menos o mesmo caminho, mas o budismo é absolutamente plural. Varia de acordo com a tradição, desdobrando-se em diversas vias divididas em dois caminhos principais: o budismo Theravada (ou budismo do sul, mais aberto aos leigos e mais próximo da visão ocidental) e o budismo Mahayana (de influência chinesa, mais mitológico e místico). É uma simplificação, a doutrina budista é, em sua totalidade, algo muito complexo e cheio de nuances e influências. Vou me ater apenas a ideia central, os caminhos ou escolas ficarão para depois.

Você pode seguir o budismo, mas só se quiser. O budismo não foi feito para ser seguido. O budismo, segundo o próprio Buda, é um barco utilizado para cruzar um rio turbulento, depois que você chegar até a outra margem pode abandonar o barco ou passá-lo a outra pessoa. O budismo é um veículo, não um objetivo. Há budistas que buscam a iluminação completa, mas você pode usar o budismo para o alívio imediato. Você nem precisa acreditar em Deus para ser budista. Na verdade nem em Buda você precisa acreditar. O que você precisa é desejar não sofrer e se esforçar para isso. Para citar mais uma vez uma parábola budista, podemos ver nossa existência como um homem ferido por uma flecha. O budismo não se preocupa em saber quem disparou a flecha, se Deus, Alá, o Diabo ou o vazio existencial — o que importa é curar o doente logo. Essa visão aproxima o budismo da filosofia como arte da busca por uma vida menos medíocre.

No centro da visão budista existem quatro verdades fundamentais:

1  —  A vida é repleta de sofrimento. Não importa o que façamos, todos sofremos em maior ou menor grau.

2  —  Os sofrimentos são causados pelo apego. Quanto mais nos apegamos, mais sofremos.

3  —  O sofrimento pode ser vencido. Há uma vontade universal que une todos os seres humanos: a busca pelo fim do sofrimento e essa pergunta pode ser respondida com as ferramentas certas.

4  —  A maneira para acabar com o sofrimento é o caminho do meio. E por caminho do meio entenda a vida sem extremos, nem desapegada a ponto de causar misérias, nem grudada na existência a ponto de pensarmos que somos donos de alguma coisa, quando na verdade não possuímos de fato nada. Viver em harmonia consigo e com os outros também ajuda bastante e é parte dessa busca pelo meio das coisas.

Buda via a existência como uma avalanche de pedras e a presença humana como a tentativa desesperada de reter essas pedras. Apegar-se a bens materiais ou a conceitos considerados inabaláveis são formas de sofrimento, pois a vida é transformação. Coisas, pessoas, conceitos, tudo isso muda, morre ou apodrece. Saber que não há nada no mundo que seja fixo é uma forma de compreender a existência. As pedras rolantes ditas por Buda são muito mais velhas que os Stones.

Heidegger te julgando com olhar matador cheio de fenomenologia e vazio.

Você, na verdade, não existe

Um outro conceito interessante é a meditação budista e sua abordagem do Eu.

Meditar, ao contrário do que muita gente pensa, não é apenas uma forma de busca por bem-estar, é um exercício de presença e observação. A ansiedade e a depressão podem ser vistas como parte de um pêndulo que nos empurra para o futuro (ansiedade) e para o passado (depressão). Claro, há muita coisa em jogo, podemos nos sentir deprimidos em relação a uma expectativa futura ou ansiosos por um problema passado. Onde quero chegar é que a vida moderna, especialmente na era da informação em que vivemos, nos estimula em movimentos binários de um lado ou outro, passado e futuro, ansiedade e recolhimento, expansão e contração, o que fomos e o que queremos ser, o que tivemos e o que queremos ter; nos mantendo num fluxo constante de falta de tempo, urgência e tensão, quando na verdade a mente existe apenas no agora. Meditar é uma forma de estar no agora. Nem depois, nem antes, no agora.

Uma das coisas mais interessantes que já ouvi sobre vícios é que viciados adquirem tais hábitos pela urgência de agora. Seja qual for o vício, desde drogas até o vício em internet, no momento em que sentimos o prazer do estímulo estamos, derradeiramente, no agora. Não há repuxos em nenhuma das direções do pêndulo passado — futuro. Meditar é um exercício de realidade. Medito uma vez por semana, mas tento (na medida do possível) fazer pequenos exercícios de “presença” ao longo do dia. Faço isso quando me vejo diante de um problema aparentemente insolúvel ou quando me perco diante de expectativas ou frustrações sem limite. Paro e penso que não há nada de fato além do Agora. É um hábito difícil de ser criado, mas que rende soluções poderosas. Porém meditar tem seu preço, implica em olhar para dentro de si mesmo e quando fazemos isso de modo sério e determinado, sem julgamentos, sem preconceitos, sem pressa, percebemos atônitos que não existe Eu nenhum. Penso, logo existo, foi o que disse Descartes, mas há controvérsias.

É uma coisa desconsertante pensar que nossa consciência seja basicamente um vazio. Mais uma vez citando Robert Wright, diversas correntes da neurociência e da psicologia moderna afirmam com fervor que o Eu é uma ilusão. A mente é composta de módulos, o pensamento e a sensação de existência são parte de uma combinação de conexões que giram em torno do vazio. Não há uma parte alguma do cérebro que represente o Eu, nem podemos dizer com certeza que tal pensamento seja o que somos. Somos uma combinações de estímulos, o que vemos do mundo e o que projetamos deles dentro de nós, um movimento que cria uma “sensação” de existência. Sentimos que existimos, mas não podemos compreender isso. Quando olhamos nossa existência mental o que encontramos? Sensações, que podem ser influenciadas por diversos fatores químicos e biológicos  —  quantas vezes nos sentimos tristes por causa de um dia nublado? ou quantas vezes nos sentimos eufóricos por coisas banais?  —  memórias, que podem ser falsas ou reagrupadas para nos gerar conforto ou incômodo, pré-julgamentos que não correspondem a realidade. De fato existimos, olhamos para o nosso corpo, tocamos o mundo ao redor, mas a “Existência” só se manifesta quando observamos as coisas e as coisas mudam. O Eu é assim um exercício de referência  —  temos um ponto de partida, mas se não houvesse outros pontos de comparação o Eu não existiria. Isso é briga de cachorro grande, que entra no campo da ontologia e da fenomenologia. Hegel e Heidegger precisariam ser invocados e nós não temos esse tempo. Fique com essa: de maneira prática nossa consciência é um erro. Tudo ao nosso redor, dos animais até as montanhas, das estrelas até o cosmo, nada possui a famosa consciência e razão e até o dia em que encontrarmos vida inteligente fora da Terra teremos que lidar com o fato de que a existência é uma coisa apavorante.

Mesmo o nosso corpo, quando visto de maneira objetiva, não passa de um arranjo químico e biológico que troca de casca a todo momento. A universidade de Stanford possui um estudo muito curioso que viralizou na internet dizendo que, a cada sete anos, todos os átomos do nosso corpo se renovam. Ou seja, você não é o mesmo de sete anos atrás. Tudo o que há de físico em você mudou, foi trocado, refeito, reconstruído. Há um novo você a cada ciclo. Você (Eu), a unidade perfeita de comparação com o mundo, não é uma coisa fixa, sagrada, imutável.

You can’t always get what you want
But if you try sometimes, yeah
You just might find you get what you need!
 —  Os Stones estavam certos desde o início.

Dê o play nos Stones e chore sua existência mutável e cruel.
Mas não é preciso pesquisar muito para descobrir isso. Você não é o mesmo que começou a ler esse texto. Não é o mesmo que era na infância, ou quando desfilava com mullets e walkmans ouvindo fitas K7 (se você tem 30 ou mais sabe do que estou falando). Mesmo mudando a cada momento, sentimos que somos “nossos”, mas essa ideia, dentro do budismo e de diversas correntes fenomenológicas, são falsas. Existir é apenas uma pegadinha do seu cérebro.

E se não somos os mesmos que aqueles do passado, e se o futuro não existe de fato, sobra o agora. Todo o nosso apego ao que somos e ao que temos mostra-se de fato um esforço tolo que gera apenas a famosa insatisfação. Nosso deslocamento com a vida, nossa incompreensão com os outros, nossas brigas, dores, todo o debatimento da vida perde sentido quando abraçamos o agora. Não podemos prever o futuro, não podemos mudar o passado, o agora é a nossa morada.

O budismo não aponta soluções fáceis, mas é um caminho muito interessante quando pensamos na vida e suas questões. Quando Mick Jagger grita:

I can’t get no satisfaction
I can’t get no girl reaction
’Cause I try and I try and I try and I try
I can’t get no, I can’t get no

é parte da filosofia moderna, de Hegel e Kant, de Buda e Cristo, Maomé e Zaratustra, repetindo o que todos os homens e mulheres da Terra já perceberam: Existir é foda.


Link maneiro e existencialista:

O Robert Wright é o cara quando o assunto é filosofia + psicologia + budismo. O curso dele no Coursera tem legendas em inglês, então faça o favor de colocar esse CCAA pra trabalhar em nome da sua ontologia!


O Manual Prático do Filósofo Amador sai toda terça-feira, 9 da manhã, com um combo de texto + um link sobre a aventura de pensar. Compartilhe, comente, não me deixe sozinho no vazio existencial.

Valter Nascimento Livreiro, escritor, estudante de Relações Internacionais, enófilo. Mais em: https://valternascimento.com.br e http://www.b9.com.br/author/vnascimento/

Acompanhe também:

Manual Prático do Filósofo Amador #1

Manual Prático do Filósofo Amador #2

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