2 de ago de 2016

Manual Prático do Filósofo Amador #2


Séries de TV e Filósofos Pop: A prática do conforto em ver e ouvir o que queremos

Hoje todo mundo está falando de Stranger Things, ontem todo mundo estava falando de Game of Thrones, Breaking Bad, Narcos. Hoje todo mundo está falando de Leandro Karnal. Ontem todo mundo estava falado de Mario Sergio Cortella, Clóvis de Barros Filho, Bauman, Slavoj Žižek. Duas coisas diferentes, seriados de tv e filósofos e intelectuais, que se unem por dois fios mágicos: o modismo e o tempo.

Séries de TV e filósofos pop ão duas febres era da informação. Nos anos 80 / 90 quando você assitia a Super Vicky, Alfie, o ETeimoso ou Twin Peaks, podia comentar apenas com seus vizinhos e amigos. O SBT foi para nós o que o Netflix é hoje, exibindo em versões dubladas DKS a fina nata das produções americanas (Super Vicky hoje seria politicamente incorreta por apologia do trabalho infantil, mas isso é outro assunto). Do mesmo modo os gurus do pensamento moderno manifestavam-se ou em programas de televisão (o Roda Vida já existia naquela época) ou quando um livro “viralizava” e todo mundo comprava ou tirava xerox (lembro do boom de A Erva do Diabo, de Carlos Castaneda e de As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano). As modas eram orgânicas, a informação corria lenta, as coisas demoravam a grudar na nossa cabeça e as as fitas VHS embolavam.

Você não deve conhecer essa imagem, ela vem dos primórdios do universo das séries.
Sem nenhum saudosismo, o que acontece hoje é muito mais interessante. A troca alucinante de conceitos só atordoa quem já é atordoado por natureza. Para quem sabe selecionar o que quer a era da informação é uma dádiva e por magia nenhuma eu sinto vontade de voltar a reviver aqueles cortes de cabelo horrorosos nem ter que baixar música num pen drive de 500 e poucos megabites.

Mas isso tem um preço. O tempo. Não temos mais tempo de ler Kant, nem de sapear pela TV ou perambular pelas videolocadoras (fui dono de uma, sei bem com era). Precisamos do alívio imediato contra a falta de tempo, seja do tempo intelectual ou do tempo de entretenimento.

Tempo e episódios do Netflix — você realmente quer assistir a mais um capítulo?

Quando digo que não temos tempo, não é metáfora. Não temos. Nossa sociedade atual foi privada, em nome da produtividade, do tempo contemplativo (o ócio criativo de Domenico De Masi). Acabou o estudar pra se formar, acabou o bater papo na porta da rua, acabou o “depois eu faço”, acabou. Diploma não salva ninguém, perder tempo se tornou sinônimo de atraso, cultura não é mais um bem absoluto. Precisamos saber mais e desconsideramos a equação que nasce tatuada em nossa nuca:

A quantidade de conhecimento do mundo será sempre maior que o nosso tempo de vida no mundo.

Somos um exercício completo e sublime de frustração. Se você possui uma biblioteca, não vai viver para ler todos os livros dela. Não vai viver para ouvir todas as discografias, nem provar de todas as receitas, amar todas as pessoas legais de serem amadas nem irá conhecer todos os lugares do mundo. É um pensamento cristalino sobre o qual despejamos o entulho cinzento da ilusão de conexão. E quando recebemos na cara o tapa do tempo corremos atrás de atalhos.

Byung-Chul Han (guarde o nome desse cara, ele será em breve o que Bauman é hoje) filósofo sul-coreano de formação alemã, descreveu com precisão e comedimento a nossa paranoia de falta de tempo no pequeno grande livro A Sociedade do Cansaço. Corremos demais, trabalhamos demais, giramos demais a roda do capitalismo pobre e da democracia desgastada em nome da modernidade, do comprometimento com a produção. Precisamos de ideias fáceis de digerir, modelos binários de sim ou não, esquerda ou direita, ocidental ou oriental, fácil ou difícil; caso contrário perdemos as estribeiras e contemplamos a coisa mais horrenda que a nossa sociedade pode conceber, o tempo livre sem pertubações.

Leandro Karnal, o cara do momento (espere até aparecer outro)
Assisti noutro dia uma entrevista do Leandro Karnal onde ele dizia que muita gente o importunava por não estar fazendo nada, somente lendo. Ora, mas para ele, intelectual com todas as letras, ler é parte do da profissão. Parar para refletir é a enxada do filósofo / pensador / intelectual. Foi “fazendo nada” que Newton teve seu insight sobre a gravidade. Foi “fazendo nada” que Kant escreveu Os Devaneios do Caminhante Solitário. Foi “fazendo nada” que Pablo Picasso pintou Guernica, que Santo Agostinho escreveu Confissões e que muitos outros encontraram a grandeza do pensamento e da arte. Somos acostumados pela lógica do animal laborans (analisado com perfeição por Hannah Arendt) a pensar que fazer nada é perder tempo. A febre dos novos filósofos é uma alegoria da nossa falta de tempo para pensar na vida, precisamos que alguém pense nela por nós. Vivemos como o Coiote do desenho animado do Papa-Léguas, que corre atrás de um objetivo tão certo que não percebe o abismo debaixo dos pés. Quando vemos alguém se pronunciar com calma e certeza sobre assuntos dos quais não temos tempo para analisar, não importa se essa opinião é verdadeira ou falsa: aplaudimos. Aplaudimos os intelectuais que podem fazer o que não podemos, contemplar o tempo, assistir a vida de modo crítico, refletir sobre coisas que deveríamos refletir, mas que deixamos de lado em nome da comodidade.


O Netflix é um outro exemplo da nossa pouca intimidade com o tempo. Basta um aparelho próprio, conexão com internet estável, um sofá e um dia cansativo para seguirmos a série que desejamos seguir. Sempre buscamos preencher o tempo com ficção, seja um filme, um romance ou um desenho na parede da caverna. O Netflix é o Decamerão da nossa época.

O segredo do Netflix não é apenas pelo catálogo de produções (a empresa cria conteúdo de qualidade, mas no que se refere a um catálogo de filmes ela é bem pobre, pelo menos por enquanto), mas a relação de conteúdo x tempo. É o entretenimento disponível para o tempo que eu tenho disponível. Se quero ver o novo filme iraniano do momento terei que arranjar tempo para ir a um cinema cult ou festival. Sem ter esse tempo disponível posso me contentar com a nova comédia de Adam Sandler (é uma generalização, eu sei). Posso aprender sobre política brasileira com algumas horas diárias de leituras ou repetir o que o Olavo de Carvalho diz (é horrível, eu sei). Atalhos algumas vezes nos jogam no buraco.


Intelectuais pop, gurus do mundo hightech e mestres de auto-ajuda são como um Netflix de conceitos disponíveis para consumação imediata. Até o Medium pode ser visto como um Netflix do “Como eu fiz tal coisa e me tornei tal coisa”. A filosofia compartilhada nas redes sociais nos poupa o tempo de abrir A Crítica da Razão Pura e meditar contemplativamente num bosque ou numa biblioteca. Isso é um problema? Não. Usando nosso tempo livre para ver mais um episódio da série do momento ou para compartilhar um vídeo de um pensador da moda, estamos replicando padrões de comportamento que nos darão segurança. O que é definitivamente perturbador é que não possamos usar o tempo livre para nada. Pensar sem a pressa de mais um episódio ou sem o aval de um intelectual da moda abre espaços para a repetição de coisas as quais não sabemos ao certo se são verdadeiras ou não. Atalhos funcionam quando conhecemos o caminho, de outra maneira são apenas trilhas e trilhas nem sempre vão dar onde queremos chegar.

Precisamos de pausas, vazias, puras, incertas, sem compartilhamentos, episódios ou sentido claro. Uma pausa consciente que não seja o sono (nossa pausa biológica e que ainda assim não é uma pausa no sentido completo do termo).

Ninguém senta-se no sofá e olha para a parede e pensa no vazio existencial, mas deveria. Tudo começa com o vazio. Tempo para pensar em nada, parar pelo prazer de parar, sem omitir uma opinião sobre isso, esperar o fluxo da vida lhe trazer coisas sublimes, ou terríveis. Não deveríamos temer o vazio do tempo, mas amá-lo como gênesis de tudo o que há de belo no mundo. Nossa preocupação em saber, conhecer e assistir mais e mais conteúdos consome a mais elementar característica de um ser humano pleno: a reflexão. Reproduzimos muito, refletimos pouco e reprodução sem reflexão é apenas eco de uma voz que não é nossa reverberando pela caixa oca de nossas cabeças.

Link:

O Continental Philosophy reúne num único site os melhores vídeos de filósofos agrupados por temas: http://continentalphilosophytube.com/

O Manual Prático do Filósofo Amador sai toda terça-feira com um combo de texto + um link sobre a aventura de pensar. Compartilhe, comente, faça parte do debate.

Valter Nascimento

Acompanhe também:

Manual Prático do Filósofo Amador #1

Manual Prático do Filósofo Amador #3

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