2 de ago de 2016

Manual Prático do Filósofo Amador #1


Como se tornar um filósofo sem ser chato

Vamos direto ao assunto: filosofia assusta.

Somos educados para não nos vangloriarmos de nossas capacidades intelectuais e a respeitar os que são potencialmente mais inteligentes que nós. Ninguém questiona um professor, padre ou outro detentor de conhecimento especial sem enfrentar alguns problemas morais. Temos uma tendência natural a achar que não vale a pena questionar certos conceitos pois não temos qualidades para tal. Acreditamos assim que a filosofia sirva somente para os que participam dela, intelectuais e pensadores, doutores e pós-graduados. Separamos a vida entre os que estão dentro dela e os que analisam a vida do alto do poder conferido pela sabedoria.

Eis a questão: ninguém analisa a vida de fora pra dentro. Estamos todos na mesma roda, no mesmo meio, padecendo dos mesmos males. Estamos todos em busca das mesmas respostas, portanto, todos temos a mesma chance de erro e acerto.

Claro, há pessoas que dedicam uma vida ao estudo da filosofia, gente que coleciona diplomas, teses e cachimbos. Deixando de lado a face acadêmica da filosofia, o que a vida moderna nos tem mostrado é que; ou buscamos respostas originais para os problemas fundamentais ou ficaremos na eterna dependência do pensamento e da opinião alheia. Nietzsche, Sartre e Sócrates tiveram os mesmos problemas que eu e você, problemas maiores talvez. Nietzsche teve Lou Salomé, Sartre estrabismo e Sócrates teve que beber veneno. O que Nietzsche, Sarte e Sócrates têm em comum? Todos estão mortos, nós estamos vivos. Ponto pra nós. Bate aqui!


Estar vivo representa lidar com problemas. Nadamos nos fluidos corporais até o encontro de um espermatozoide com um óvulo, sobrevivemos aos anos oitenta (se você como eu tem 30 ou mais anos), não engasgamos com a famosa bala Soft sem furo no meio, fumamos, bebemos, atravessamos a rua sem olhar pros lados, pagamos as contas, trabalhamos. A mais simples existência representa a superação de diversas barreiras. Por enquanto estamos vivos, o que deixamos para trás e o que temos pela frente representa o que somos no mundo. Isso é filosofia.

As contas do mês e o vazio existencial são parte da mesma problemática. Achamos sempre que os nossos problemas são comuns demais, simples demais, mas todos os problemas cotidianos são questões filosóficas buscando respostas. Filosofar é encontrar razão onde não há razão, seja nos problemas do trabalho ou no sentido da vida. Filosofar é mover a vida até seus limites.

Voltaire, o mais debochado dos filósofos, considerava qualquer um disposto a argumentar sobre a vida um filósofo em potencial. Podemos seguir esta ou aquela linha de pensamento, admirar este ou aquele filósofo ou pensador, mas o que diferencia uma pessoa qualquer de um filósofo é a constante busca por originalidade, uma sede por perguntas, muito mais do que por respostas. Um filósofo não é feito de conhecimento puro e sólido, mas sim de movimentação constante, inquietação e inconformismo. É preciso não estar de acordo com tudo, é preciso não compreender tudo, é preciso estar em constante observação e questionamento, é preciso querer mais.

Para ser um filósofo você precisará de:

Alguns livros  —  Vale aqui qualquer livro que lhe desperte essa chama interior. Pode ser Platão ou Augusto Cury, não importa. Cada um recebe o chamado através de um tipo de leitura. Não interessa onde você começa, mas onde você quer chegar.

Solidão  —  Você precisa se acostumar com a ideia de que nem todo mundo ao seu redor está disposto a discutir fenomenologia ao meio dia. Estar sozinho não significa ser sozinho, mas reserva-se tempo para pensar sobre coisas complexas. Um filósofo não tem medo de caraminholas, não acha que perde tempo andando a esmo ou passando horas escrevendo pensamentos esparsos. Filosofar é um momento de reflexão de você com você mesmo. É preciso estar sozinho e seguro com seus pensamentos, apreciar o silêncio sem notificações das redes sociais ou sem a necessidade de provar para os outros o que você (acha que) sabe. Um filósofo encontra-se primeiro consigo mesmo, depois com os outros.

Capacidade de ação  —  Encontrar pensamentos novos sobre coisas antigas rende bons livros, mas não serve de nada se você não os colocar em prática. É interessante se ver como uma folha em branco onde será posto em prática conceitos que podem assustar outras pessoas desavisadas. Agir de acordo com o que se acredita pode não ser sempre vantajoso, mas gera uma sensação de acordo pleno consigo mesmo.

Capacidade de confrontação  —  É preciso ter desprendimento para colocar a sua convicção à prova com outras convicções. Não é simples, nem fácil, mas rende boas reflexões. Um filósofo deve ser capaz de destruir seu castelo de areia, reconstruir conceitos próprios, voltar atrás e dizer que estava errado. Não é um jogo de ser melhor que os outros, mas em estar de acordo com aquilo que se considera verdadeiro. A verdade muda de faces e é preciso estar aberto a mudanças.

Capacidade de ouvir  —  Compreender a visão do outro sobre a vida, mesmo que essa visão não seja ideal para mim, é parte de um processo de filosofia plena. Se me fecho dentro do meu dogma e acredito somente no que meu coração manda, haverá grande chance de eu me tornar apenas uma reprodução de dogmas e não uma pessoa livre-pensante. Livre pensar é livre ouvir e não se constrói uma base sólida de pensamento sem considerar o que o outro tem a dizer.

Não há nada de novo ou extraordinário em ser um filósofo. A filosofia não é algo mais importante do que comer e dormir. Ela é parte essencial de nossa natureza, estranho é quem não filosofa sobre a vida, estranho é viver sem questionar nada ao redor. Não devemos ter vergonha de conhecer, questionar ou recusar o que o mundo nos oferece. Você pode ser niilista, positivista, existencialista, racional ou emocional. O que interessa é a busca, a constante busca, o não conformismo, o não acumular certezas.

Em tempos de tantas incertezas tendemos a acreditar em qualquer falácia, em qualquer guru, em qualquer regra fácil de felicidade. Filosofar pode ser um caminho seguro e original para encontrar algum tipo de paz e alento, sem depender de atalhos, triando um caminho próprio e imperfeito repleto de descobertas e significados. Aprender a combinar grandiosidade e humildade em doses iguais, compreensão e ignorância na mesma medida. Não há ideia tão grande que não possa ser vivida de modo simples e não há simplicidade tão pequena que não possa ser vista como um passo de gigante.

Há um êxtase na vida e os filósofos vivem para colhê-lo. Wittgenstein, Hegel e Platão só fazem sentido se você os consumir, os devorar, fazer deles parte da sua luta constante por reconhecimento e autonomia. Filosofia é isso, libertar-se de algumas amarras, trocando-as por outras algumas vezes maiores, porém mais justas. É uma ferramenta, uma chave de fenda para girar parafusos, uns grandes e duros como a questão da morte, outros menores e frouxos como a ética e a moral.

Num mundo onde todo mundo pensa igual pode ser muito prazeroso pensar diferente. Se todos sofremos e morremos nessa peça cheia de som e fúria, que ao menos tenhamos o direito de morrer mais ruidosamente e furiosamente que os outros. Filosofar é isso. O resto é filosofia barata.

Link útil: A Universidade de Oxford oferece um curso gratuito (em inglês) sobre como pensar como um filósofo:


Valter Nascimento

Acompanhe também:

Manual Prático do Filósofo Amador #2

Manual Prático do Filósofo Amador #3

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