4 de ago de 2016

Idiotas

“Idiota” já foi um elogio. No seu sentido original grego significava uma pessoa privada (não, não uma pessoa vaso sanitário, você sabe o que eu quero dizer). Alguém que tinha seus próprios valores e seus próprios caprichos (daí “idiossincrasia”) independentemente dos valores públicos e das convenções sociais. Com o tempo, passou-se a enfatizar o contraste entre o privado, o fechado em si, e o público, e “idiota” passou a ser o que não participava da vida comunitária, por alguma deficiência ou por escolha. Como não participava da vida comunitária, era ignorante. Vem daí o sentido de infenso à política e o sentido moderno de simples, burro ou desligado. Mas, durante muito tempo, na Grécia antiga, “idiota” era o que, não se interessando por política, desdenhava da política. O oposto de cidadão. A primeira vez que se xingou alguém de “idiota” foi para criticar sua omissão, pois, para os gregos, era na participação política que o homem exercia sua cidadania, assumia sua liberdade e se distinguia dos servos e dos bichos – e das mulheres, diga-se de passagem.

Corta para o Brasil de hoje — ou, pensando bem, para qualquer país do mundo atual. Idiota, lhe dirá qualquer eleitor desencantado, é quem se deixa levar pela política e pelos políticos. Houve um momento, na história recente da humanidade, em que “idiota” perdeu seu sentido de infenso à política e ganhou seu significado moderno de ludibriado pela política. Não dá para precisar quando isso aconteceu, no Brasil. O desencanto com políticos talvez tenha começado, ou pelo menos se agravado, com a renúncia de Jânio Quadros. As frustrações de hoje são apenas as mais recentes de uma sucessão de blefes que foram liquidando com nossas forças cívicas. Assim como a falta de calorias vai nos imbecilizando, a privação política vai nos idiotizando. Muita gente gostaria de resgatar o significado original da palavra para poder dizer que é idiota no bom sentido, no sentido de quem só se interessa pela administração do próprio umbigo.

“Blefe”, eis outra palavra de múltiplos sentidos. No pôquer, blefar significa dar a entender que se tem cartas na mão que realmente não se tem. Fora do pôquer, o blefe perde a sua, digamos assim, respeitabilidade. Geralmente é aplicado a pessoas que não são o que pareciam ser. A história política do Brasil tem sido a de um blefe depois de outro.

Luís Fernando Veríssimo

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