21 de ago de 2016

E/I

– Iminência...

– Você quer dizer “eminência”.

– O quê?

– Você disse “iminência”. O certo é “eminência”.

– Perdão, senhor. Sou um servo, um réptil asqueroso, um nada. Uma sujeira no seu sapato de cetim. Mas sei o que digo. E eu quis dizer “iminência”.

– Mas está errado! Nossa vontade não altera a correção gramatical. O tratamento certo de um rei é “eminência”.

– Não duvido da sua eminência, senhor, mas o senhor também é iminente. Uma iminência eminente. Ou uma eminência iminente.

– Em que sentido?

– No sentido filosófico.

– Você tem dois minutos para se explicar, antes que eu o mande para o calabouço, onde vão os bobos insolentes.

– Somos todos iminentes, senhor. Vivemos num eterno devir, sempre às vésperas de alguma coisa, nem que seja só o próximo segundo. Na iminência do que virá: o almoço ou a morte. À beira do nosso futuro como de um precipício, no qual despencaremos ou alçaremos voo. A iminência é o nosso estado natural. Pois o que somos nós, todos nós, se não expectativas?

– Você, então, se acha igual a mim?

– Nesse sentido, sim. Somos coiminentes.

– Com uma diferença. Eu estou na iminência de mandar açoitá-lo por insolência, e você está na iminência de apanhar.

– O senhor tem esse direito hierárquico. Faz parte da sua eminência.

– Admita que você queria dizer “eminência” e disse “iminência”. E recorreu à filosofia para esconder o erro.

– Só a iminência do açoite me leva a admitir que errei. Se bem que...

– Se bem quê?

– Perdão. Sou um verme, uma meleca, menos que nada. Um cisco no seu santo olho, senhor. Mas é tão pequena a diferença entre um “e” e um “i” que o protesto de vossa eminência soa como prepotência, o que não fica bem num rei. Eminência, iminência, que diferença faz uma letra?

– Ah, é? Ah, é? Uma letra pode mudar tudo. Um emigrante não é um imigrante.

– É um emigrante quando sai de um país e um imigrante quando chega a outro, mas é a mesma pessoa.

– Pois então? Muitas vezes, a distância entre um “e” e um “i” pode ser um oceano. E garanto que você terá muitos problemas na vida se não souber diferenciar ônus de ânus.

– Isso são conjunturas.

– Você quer dizer “conjeturas”

– Não, conjunturas.

– Não é “conjeturas” no sentido de especulações, suposições, hipóteses?

– Não. “Conjunturas” no sentido de situações, momentos históricos.

– Você queria dizer “conjeturas” mas se enganou. Admita.

– Eu disse exatamente o que queria dizer, senhor.

– Você errou!

– Não errei, iminência.

– Eminência! Eminência!

– Está bem, o senhor ganhou..., majestade.

Luís Fernando Veríssimo

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