7 de ago de 2016

Caso Feliciano: B.O. mostra bancada evangélica tentando calar vítima de estupro

A jornalista Patrícia Léllis menciona “coação” e “ameaça de morte” feita por políticos ligados ao Partido Social Cristao (PSC). O B.O. cita a participação do pastor Everaldo, líder do PSC, o deputado Gilberto Nascimento (que concorreu à vaga de Cunha), o chefe de gabinete do deputado Marco Feliciano e outros dois parlamentares

Patrícia denuncia Talma Bauer por ameaça de morte (centro) e Feliciano por estupro
O boletim de ocorrência registrado pela jornalista de 22 anos ­— que acusa o deputado federal Marco Feliciano de estupro — também cita sequestro, cárcere privado além de coação no curso do processo.

Membros do Partido Social Cristão (PSC) são citados em vários trechos do documento. Além de parlamentar, Feliciano é presidente da Igreja Assembleia de Deus Catedral do Avivamento, Conferencista Internacional, escritor e cantor.

De acordo com o boletim, no dia seguinte à violência no apartamento do deputado Marcos Feliciano, o pastor Everaldo, presidente do PSC, procurou a estudante e ofereceu a ela “uma quantia em dinheiro que estava no interior de uma sacola dizendo que a vítima poderia apropriar daquela quantia”.

O chefe de gabinete do Pastor Marco Feliciano, Talma Bauer, também é citado no B.O. Segundo a vitima, ele indagou “quanto ela queria ganhar para esquecer todo o ocorrido, asseverando ainda que, caso ainda não quedasse silente, poderia ‘sair perdendo’”. Ou seja, era melhor que ela ficasse bem quietinha.

Uma mulher, citada no B.O. como “Denise do PSC”, foi procurada em duas ocasiões pela vítima. Logo depois da violência no apartamento de Marcos Feliciano e dias depois das conversas com Bauer.  A presidente nacional do PSC Mulher chama-se — por coincidência — Denise Assumpção. Segundo o B.O., foi Denise quem agendou uma reunião com a garota e a cúpula do partido.

Nesse encontro, diz o documento, estavam presentes Denise, o Pastor Everaldo e outros três parlamentares. Um deles era o deputado federal Gilberto Nascimento, ex-delegado da polícia civil, indiciado pela PF no escândalo das sanguessugas, esquema de corrupção que desviava recursos federais para a compra de ambulâncias superfaturadas. Gilberto ganhou recente notoriedade por ter se candidatado à presidência da Câmara dos Deputados no lugar de Eduardo Cunha. É figura proeminente no partido. A vitima diz n’ao se lembrar dos nomes de outros dois parlamentares do partido.

Ao final desta reunião, a vítima conta que o Pastor Everaldo a segurou pelo braço e disse em seu ouvido que achava melhor que ela ficasse quieta”. A garota foi desligada do partido logo em seguida.

Coação

No final de julho, quando a história já tinha vazado no facebook, a garota foi para São Paulo. Sabendo disso, Bauer, o chefe de gabinete de Feliciano, ameaçou matar a família da vítima, caso não informasse seu paradeiro exato. Ela contou que estava no Hotel San Raphael.

Foi a filha de Bauer, de acordo com o B.O., quem foi até o local obrigar a garota a gravar um vídeo dizendo que o post da página do Facebook e outras notícias que envolvessem Marcos Feliciano eram mentirosas. O vídeo foi feito no celular de Cíntia. Também teria sido exigência de Bauer o fornecimento das senhas de Instagram e Facebook e a postagem de uma foto da garota com seu namorado no Face, dizendo que estava tudo bem. Internautas não se convenceram.

Bauer, então, foi pessoalmente ao hotel. Estava armado. Exigiu gravação de novo vídeo e obrigou a garota a entrar em seu carro. Rodou pela cidade e parou numa praça para a vítima gravar um vídeo como selfie de seu próprio telefone. Ela tinha de dizer que tudo o que estava sendo veiculado sobre seu nome e de Feliciano era mentira e aquilo se tratava de uma ação da ala esquerda da política para prejudicar o deputado federal. Também era preciso enaltecer o parlamentar.

O homem de confiança de Feliciano, ainda com as senhas da garota, a impediu de ir embora, postou o vídeo no Facebook. “No hotel, manteve a vítima ao seu lado mediante grave ameaça” e respondia aos comentários de internautas dizendo que estava tudo bem. Só de noite ele deixou a garota subir para o quarto. Mas, nesse mesmo dia, na hora do jantar, Bauer a procurou novamente e a obrigou a usar o WhatsApp para dizer a amigos que estava tudo bem.

No dia seguinte, de novo, Bauer estava lá. Perguntou se a menina não tinha contado nada para ninguém, elogiou o comportamento dela e disse que assim estaria garantindo a segurança de sua família. Ele ainda almoçou com a garota e, antes de ir embora, a mandou ficar em silencio e postar fotos no Instagram e Facebook para dizer que estava tudo bem.

O B.O. deixa claro: “A vítima informa que durante todo o tempo, Bauer a ameaçava de morte e ainda dizia que a vítima deveria colocar seu preço para esquecer todo o ocorrido.”

O outro lado

O ainda deputado Marcos Feliciano publicou em suas redes sociais um vídeo em que se diz inocente das acusações da jornalista Patrícia Léllis. Ele pede a confiança de todos os fiéis da sua igreja. No vídeo, ele apareceu ao lado de sua mulher, Edileusa.

#RepresentaSatanás

#FelicianoNaCadeia


Núcleo de reportagem investigativa dos Jornalistas Livres

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