6 de ago de 2016

Carta à vítima de Feliciano

A dupla em dias mais felizes
Cara Patrícia,

Escrevo com certa intimidade, embora não a tenhamos, porque a sororidade, a essa altura, me permite.

Assisti ao vídeo que você gravou em defesa de seu algoz — não sabemos em quais circunstâncias — em que você dizia, entre outras coisas, que a “mídia esquerdinha” queria derrubar a direita às vésperas das eleições.

Eu, que orgulhosamente faço parte desta “mídia esquerdinha” (e sim, nós queremos derrubar a direita, mas não com mentiras), poderia ter perdido a vontade que tenho — agora mesmo, inclusive — de te abraçar forte e te dizer que tudo isso passará e você sairá vitoriosa, mas o que nos une, felizmente, é mais forte: somos mulheres.

E, para além disso, eu ouso compreender a confusão que te aflige agora.

Você disse que ainda não levou o caso à polícia porque é cristã e ama a sua igreja.

Eu também fui cristã — há muito tempo, é verdade, mas ainda me lembro bem — e também amei a minha igreja, seja lá o que isso tenha significado.

Me afastei quando o pastor, um homem de meia idade, calvo, simpático, casado e defensor da família, foi descoberto na cama com uma mulher vinte anos mais jovem (uma quase adolescente, pelo que me lembro).

Depois foi a vez de o diácono — é assim que eles chamam os sacerdotes neopentecostais, não é mesmo? — acima de qualquer suspeita, abandonar a amada esposa na rua da amargura — levando todo o dinheiro e deixando o pequeno negócio da família à deriva – para viver com uma mulher mais jovem do que a mais jovem de suas três filhas.

Não digo nada disso para tentar te afastar de sua fé, de jeito nenhum. Respeito você e tudo o que há em você. Digo apenas para que talvez fique claro que poucos homens — senão nenhum — estão aptos a verdadeiramente pregarem e viverem a palavra cristã, esta que você tanto reverencia, e com todo o direito.

O Cristo a quem você serve creio eu, pregava o amor e andava com os excluídos — os “esquerdinhas” daquela época, acho — defendia valores que nenhum dos homens do PSC — aos quais você procurou quando precisava de apoio — parece cultuar.

Que valores cristãos são estes que permitem que esse homem de Deus te machuque, te ameace, te violente, te pressione, te aterrorize? Que valores cristãos permitem a crueldade, o prazer em violentar outra pessoa? Que valores cristãos são estes, cultuados não por um, mas por todos os homens cristãos a quem você procurou, que fazem com que eles te digam para sumir quando você só precisa de um pouco de segurança?

O perdão, minha cara, é de fato uma grande virtude — e não apenas para o cristianismo — mas, corrija-me se eu estiver errada: acobertar crimes e proteger criminosos não é um dos desígnios do Deus a quem você serve, como tentaram te convencer esses homens terríveis que dizem falar em nome d’Ele.

Você é, desde já, uma vitoriosa por ter feito cair a máscara de um homem que faz atrocidades em nome de Deus, e é preciso prosseguir. Se lhe peço que não recue, é também por mim e por todas as mulheres — que são violentadas todos os dias pela presença de Feliciano na Câmara dos Deputados — mas, antes de qualquer coisa, é por você, que tem o direito de ver a justiça sendo feita sem sentir-se culpada por isso.

A vítima nunca é culpada.

Não devo te dizer o que fazer, mas posso aconselhar: não tenha medo do que lhe parece certo. Está nas suas mãos desmascarar um falso cristão diante da igreja que você tanto ama e, sobretudo, livrar milhares de mulheres do julgo terrível de um crápula como Marco Feliciano na Câmara dos Deputados — o lugar dele, e isto você sabe melhor do que eu, é na cadeia.

Nós contamos com você.

Cordialmente,

Nathalí

Nathalí Macedo
No DCM

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