7 de ago de 2016

As peripécias de um ministro interino e a falta de debate sobre drogas


Nunca dantes na história deste país um ministro da Justiça foi tão longe. Alexandre Moraes, ministro interino da Justiça, foi, com seu facão, colocar abaixo os pés de maconha no vizinho Paraguai. Foi um ato de coragem. E se colocassem fogo nos pés de maconha? Mas o tema não é este, apesar do nonsense da cena. O sério é que a palhaçada irritou os especialistas em política de drogas no Brasil. Este tipo de circo só colabora com o debate truncado que temos tido no país. No mais, o que falta é seriedade para enfrentar o problema das drogas e das políticas que só servem ao tráfico. Leia o texto e veja os vídeos do site Justificando.


Ministro da justiça cortando pés de maconha no Paraguai será a coisa mais ridícula que você verá hoje

A página Quebrando o Tabu publicou hoje (3) um vídeo que mostra o Ministro da Justiça interino, Alexandre de Moraes, munido de um facão, de forma desajeitada, cortando pés de maconha em solos paraguaios. A cena é tão non sense que vale a pena o registro:



A cena, contudo, irritou estudiosos especialistas em políticas de drogas. Para Gabriel Santos Elias, Coordenador de Relações Institucionais da Plataforma Brasileira de Política de Drogas, Alexandre de Moraes foi para o Paraguai "enxugar gelo".

Elias explica que há métodos mais eficientes, econômicos e sérios de lidar com o problema ao invés de mandar o Ministro para o Paraguai cortar pés de maconha com um facão. Um desses métodos é uma política de educação honesta sobre as drogas - não apenas falar "Drogas, nem morto", mas alertar sobre os reais problemas das drogas. Sem exagerar para aterrorizar, como temos feito. As pessoas não são idiotas e percebem quando estamos mentindo. Quando os primeiros amigos começam a usar drogas e não morrem, percebemos que tem alguma coisa errada na informação que o governo passa.

Outro ponto é a política de redução de danos e tratamento de usuários tem gente que usa drogas e não é viciada. Tem gente que é viciada e não tem grandes problemas com o vício. Tem gente que tem vício e tem problemas e quer parar. Tem gente que usa drogas, tem problemas, e não quer parar. Temos que ter o tratamento adequado para as várias situações, respeitando a autonomia das pessoas e cuidando do fundamental: sua saúde e bem estar.

Além disso, Elias ressalta a importância da legalização da maconha, acompanhada de impostos sobre sua comercialização e controle da produção, a fim de que a arrecadação seja revertida para consumo e tratamento de usuários com problemas decorrentes do consumo.

Para entender melhor a política de drogas brasileira, assista ao Coisas que Você Precisa Saber, que contou com a colaboração do pesquisador.



Alexandre de Moraes ressuscita “Romeu Suma”

Isso mesmo: “Romeu Suma”. O leitor não leu errado. Antes de se tornar senador por uma sopa de letras desqualificada qualquer, o senhor Romeu Tuma, ainda sob proteção da ditadura, foi exilado na Polícia Federal de São Paulo. Juntou toda a tralha que tinha da Secretaria de Segurança Pública do Estado e levou para a sede da PF, na Rua Antônio de Godoy (centro de São Paulo). Lá, isolou alguns andares, onde guardou os arquivos criminosos da ditadura. Por coincidência, todo final de tarde das sextas-feiras, os funcionários sentiam um cheirinho de queimado...

Pois bem. Romeu Tuma chegou à PF para quebrar resistências, pois estava assumindo o posto de Superintendente Regional da PF no estado de São Paulo. Um posto sonho de consumo ou de poder de muitos antigões que lá estavam, que quando muito tornavam-se “maçanetas” dos militares, que até então ocupavam todos os postos-chaves da Polícia Federal.

Como dito, quebrar resistências. Tuma providenciou o perdão de muitos que internamente estavam sendo investigados. Fez uma administração leve, “portas abertas”, linha bonachão e ganhou a simpatia dos muitos barnabés. Generoso, tolerante, simpático com a imprensa até hoje corrupta, fez um gênero oh, oh, oh!!. Nos postos chaves, colocou “muito homem bom”, até no aeroporto de Guarulhos, onde mais tarde desconfiou-se que funcionários saiam do plantão pra comprar armas em Miami (USA). Segundo a lenda, até televisão gigante entrava...

Como tudo passa, logo apareceram “os probleminhas”, as relações foram se desgastando. Rolou aquela história de uma polícia dentro da outra, de investigador da Polícia Civil mandando mais que delegado federal, sem contar que um dos maiores “homens bons” acabou aparecendo como torturador, enfrentou boatos de que teria sido coordenador da sangrenta Operação Bandeirantes, coisa e tal. O serviço médico da PF abrigou até um legista que assinava laudos frios de vítimas da ditadura, entre eles o do jornalista assassinado Vladimir Herzog.

Relações desgastadas, com o advento do sindicalismo, houve um plebiscito para saber se os servidores aceitavam Romeu Tuma ou não. A resposta acachapante foi o “não” e a partir daí, o bonachão chefe da PF passou a ser tratado como “Romeu Suma”. As atas sindicais, em original, cópia ou digitalizadas, jornais velhos e suas charges que o digam.

Querendo ou não, o tal Romeu ganhou projeção, usou bem o cargo para ganhar visibilidade e um dos seus atos preferidos foi mesmo deixar seu gabinete em Brasília e entrar no meio do mato para cortar e queimar pés de maconha, muito bem acompanhado da sempre serviçal TV Globo, que, quando não é copiada, é imitada ou discutida pelas demais emissoras pertencentes à tradicional família de Tubiacanga, hoje à frente do golpe de estado e incensando o impostor Michel Temer.

E não é que “Romeu Suma” fez escola? Quando um tal de Alexandre Moraes, que segundo a lenda advogou para o Primeiro Comando da Capital, entrou no meio do mato para arrancar pés de maconha... Segunda-feira, neste portal, foi publicada uma citação de Karl Marx falando da repetição de farsas e tragédias. E não é que o bom velhinho, que não deixou herdeiros, no dizer do escritor Mia Couto, está coberto de razão? Pois é. Lá estava o Alexandre Frota, digo, Morais, arrancando pé da “erva maldita”, protagonizando um ato que não dá pra dizer se é farsa ou tragédia.

Senhores capitães do mato da PF, aprenderam agora o que é realmente uso político da instituição e “estado aparelhado”? Entenderam agora o que significa aprofundar a questão política nacional, sem ódios, preconceitos, partidarismo, sem idiotice de bolivarianismo e outras baboseiras, tão repetidas nos grupos de delegados federais? Entenderam que refletir sobre isso não é defender a corrupção?

Pois bem. Depois de tentar marketing político com o arriscado tema terrorismo, expondo o Brasil ao ridículo internacionalmente, a “Pasta da Justiça” do governo golpista envereda agora por mais um nebuloso terreno — tráfico. Cada capitão do mato tem o chefe que merece e no caso da PF, o chefão do chefão, literalmente, entrou no meio do mato... Perdão, leitores. Essa não deu pra esperar pela segunda-feira, não...

Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista e advogado, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo

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